A Bondade que confere Vida – Luciano de Paula Lourenço

A Bondade que confere Vida – Luciano de Paula Lourenço

Texto Base: Mateus 5:20-26

“Qualquer que aborrece a seu irmão é homicida. E vós sabeis que nenhum homicida tem permanente nele a vida eterna”(1João 3:15).

INTRODUÇÃO

Nesta Aula trataremos de mais uma virtude do Fruto do Espírito: a Bondade, que nada mais é que a prática do bem em favor de outrem. Vivemos em uma sociedade onde as pessoas acreditam, erroneamente, que ser bom é ser fraco; mas, tal virtude revela um caráter maduro e forte, leal a Deus e ao próximo. Jesus foi o maior exemplo de Bondade, e como discípulos Seus precisamos evidenciar nossa amabilidade por intermédio de ações e palavras. Não basta apenas dizer que somos bondosos, as pessoas precisam ver esse aspecto do Fruto do Espírito em nossas palavras e ações, no nosso dia a dia. É somente através de ações concretas que a Bondade torna-se evidente na vida do crente. Como ramos da videira verdadeira(João 15:1,4), inevitavelmente, temos de proceder como Cristo, que andou, neste mundo, fazendo o bem (At.10:38).

I. BONDADE: O FIRME COMPROMISSO PARA O BENEFÍCIO DOS OUTROS

  1. A Bondade como Fruto do Espírito. Como uma das virtudes do Fruto do Espírito, podemos dizer que a bondade é uma qualidade gerada por Deus, nos corações daqueles que experimentaram o novo nascimento (João 3:3). Quem já experimentou a regeneração, em Jesus Cristo, é nova criatura e naturalmente inclinado a fazer o bem.

Na aula anterior estudamos sobre a Benignidade. É muito difícil diferenciar esta virtude da Bondade, por isso muitos estudiosos as consideram como frutos gêmeos. Certamente que, do ponto de vista espiritual, e bíblico, Benignidade e Bondade não são a mesma coisa; caso fosse, Paulo não teria colocado as duas expressões em Gálatas 5:22. Ele destacou como sendo duas virtudes distintas do “Fruto do Espírito”. São, no entanto, dois frutos gêmeos, e nós diríamos que são gêmeos univitelinos. Biologicamente, temos dois tipos de gêmeos: bivitelinos e univitelinos.

– Os gêmeos são bivitelinos quando, numa relação sexual, são fecundadas duas células femininas, ou dois óvulos, dando origem a dois zigotos distintos. Estes se desenvolverão de acordo com as fases normais da gestação, porém, cada um recebendo seu equipamento genético próprio. Nascerão duas crianças, mas poderão ser bastantes diferentes uma da outra, tal como aconteceu com Esaú e Jacó. Embora gêmeos, eram tão diferentes que até mesmo um cego poderia distingui-los. Para enganar Isaque, que já não enxergava mais, Rebeca teve que realizar uma “maquiagem” especial em Jacó (cf. Gênesis 27).

– Os gêmeos são univitelinos quando, numa relação sexual uma única célula feminina, ou óvulo, é fecundada e depois se divide em duas células. Estas vão se desenvolver de acordo com as fases normais da gestação, porém, mantendo-se iguais equipamentos genéticos, de tal forma que os gêmeos serão tão idênticos, sendo, às vezes, muito difícil a identificação de cada um; todavia, cada um terá sua personalidade própria, pois, de acordo com o que escreveu Jó, Deus pôs um sinal na mão de cada homem, não havendo qualquer possibilidade da existência de duas pessoas exatamente iguais. Coube à ciência provar, ou atestar esta verdade bíblica. Cientificamente não há qualquer possibilidade de se encontrar duas pessoas com as mesmas impressões digitais. Elas são diferentes mesmo sendo gêmeos univitelinos. Assim, mesmo os gêmeos univitelinos, embora, aparentemente iguais, são, contudo, diferentes nas suas impressões digitais.

Benignidade e Bondade, espiritualmente falando, são frutos gêmeos, porém, são gêmeos univitelinos, porque embora tenhamos que admitir que são dois, a identificação, na prática, de cada um é bastante difícil. Talvez, de imediato, não percebamos a diferença, mas não se deve preocupar, porque é semelhante a uma mãe, que no início da convivência entre os gêmeos só ela, com seu instinto materno, é capaz de perceber, de pronto, quem é quem entre os dois. Com o passar do tempo as pessoas que convivem com os gêmeos univitelinos Benignidade e Bondade vão se descobrindo as possíveis diferenças e também serão capazes de identificar cada um. Paulo, de pronto, entendeu as diferenças e relacionou-as como sendo duas virtudes do Fruto do Espírito. Eu e você também vamos entender. Enquanto isso, o importante é que vejam em nossas vidas a manifestação do Fruto do Espírito, seja de Benignidade, seja de Bondade. Elas serão anotadas, corretamente, e se manifestarão no julgamento diante do Tribunal de Cristo (2Co.5:10).

  1. A Bondade de Deus. A Bondade faz parte da natureza de Deus. Ele nada faz com o objetivo de prejudicar o homem. Satanás, ao contrário, possui uma natureza má; ele não pode fazer o bem; tudo que ele faz resulta em maldade para o homem; ele é mau em si mesmo. Assim, sendo Deus bom por natureza, todos os homens são beneficiados pela sua Bondade. É o que afirma a Palavra de Deus: “O Senhor é bom para todos, e as suas misericórdias são sobre todas as suas obras… Abres a mão e satisfazes os desejos de todos os viventes”(Sl.145:9,16).

O Senhor Jesus confirmou o que Davi havia declarado, quando disse que Deus “é benigno até para com os ingratos e maus”(Lc.6:35); “…porque faz que o seu sol se levante sobre maus e bons e a chuva desça sobre justos e injustos”(Mt.5:45). É, pois, por sua Bondade, que Ele dispensa, dia a dia, o seu favor para toda a humanidade (Gn.8:22).

– A misericórdia é um dos aspectos de sua Bondade, por isto o profeta Jeremias diz: “As misericórdias do Senhor são as causas de não sermos consumidos; porque as suas misericórdias não têm fim”(Lm.3:22).

– Paulo fala da bondade de Deus aos crentes de Tessalônica: “Pelo que também rogamos sempre por vós, para que o nosso Deus vos faça dignos da sua vocação e cumpra todo desejo da sua bondade e a obra da fé com poder”(2Tes.1:11).

– Davi falou da bondade de Deus: “Não te lembres dos pecados da minha mocidade nem das minhas transgressões; mas, segundo a tua misericórdia, lembra-te de mim, por tua bondade, Senhor. Bom e reto é o Senhor; pelo que ensinará o caminho aos pecadores”(Sl.25:7,8).

– Os homens são convidados a louvar a Deus, pela sua bondade: “Louvai ao Senhor, porque ele é bom…Louvem ao Senhor pela sua bondade e pelas suas maravilhas para com os filhos dos homens!”(Sl.107:1,8); “Celebrai com júbilo ao Senhor, todos os moradores da terra…Porque o Senhor é bom, e eterna, a sua misericórdia…”(Sl.100:1,5).

MESMO QUANDO DEUS CASTIGA É POR BONDADE.

É certo que as pessoas que não conhecem Deus, que não têm familiaridade com sua Palavra, têm dificuldades para entenderem que Deus é bom, quando ficam sabendo de algumas de suas ações, tal como o Dilúvio e a destruição de Sodoma e Gomorra. A Bíblia nos mostra, muitas vezes, Deus, aparentemente tratando a humanidade no seu todo, e o homem, em particular, com muita dureza. É preciso, no entanto, entender que a Bíblia emprega o vocábulo bom de duas maneiras:

– Primeiro, um feito bom pode designar, em si mesmo um ato reto, honrado, nobre sob o ponto de vista ético e moral.

– Segundo, um feito bom pode ser representado por uma ação que, em si mesma, não é boa, mas que tem como objetivo beneficiar alguém, ou a própria pessoa. Suponha que eu veja uma pessoa distraída e que vai ser atropelada; instintivamente eu empurro, com violência, essa pessoa e ela é arremessada a alguns metros, cai e se machuca. Esta ação, em si mesma, não foi boa, pois, a pessoa se feriu um pouco na queda. Porém, eu salvei a sua vida, livrando-a de ser atropelada e morta por aquele caminhão. Aquela ação que, em si mesma, não era boa, tinha um objetivo bom, nobre; eu não agi com maldade. Assim aconteceu, e continua acontecendo com Deus em relação à humanidade e ao homem. A Palavra de Deus diz: “Filho meu, não desprezes a correção do Senhor e não desmaies quando, por ele, fores repreendido; porque o Senhor corrige o que ama e açoita a qualquer que recebe por filho” (Hb.12:5,6).

Uma criança, que está ou acaba de sofrer um processo corretivo, ouvir o pai lhe dizer que a ama, ela pode, no momento, duvidar dessa declaração de amor, porém, mais tarde poderá compreender que aquela correção foi um ato de amor e de bondade – “E, na verdade, toda correção, ao presente, não parece ser de gozo, senão de tristeza, mas, depois produz um fruto pacífico de justiça nos exercitados por ela” (Hb.12:11).

Deus é bom, por natureza; Ele não pode praticar uma ação que tenha por objetivo único prejudicar alguém.

Assim…

Quando Deus expulsou Adão do Paraíso e tomou providencias para que ele não comesse da “árvore da vida” (Gn.3:23,24), foi um ato de Sua Bondade. Se Adão, depois que pecou, comesse do fruto da “árvore da vida” não poderia morrer. Imagine uma pessoa com mais de cem anos, doente, sem poder morrer! Chega um momento em que a morte, se não for um alivio para a própria pessoa, será para seus familiares, ou para quem dela estiver cuidando. Portanto, não permitir que o homem, num corpo de pecado, se tornasse imortal, foi um ato de misericórdia exercido pela bondade de Deus.

Quando Deus mandou o Dilúvio e destruiu toda a humanidade, poupando apenas Noé e sua família (cf. Gênesis cap. 6 e 7), foi um ato de Sua Bondade. Deus havia prometido que, da semente da mulher, nasceria o Redentor (Gn.3:15). Todavia, naquele momento da história, a Bíblia diz que “viu Deus a terra, e eis que estava corrompida; porque toda carne havia corrompido o seu caminho sobre a terra” (Gn.6:12). Contudo, ainda existia no meio da terra corrompida um homem justo, seu nome era Noé – “Noé era varão justo e reto em suas gerações. Noé andava com Deus” (Gn.6:9). Noé, porém, era um ser humano, vulnerável; tinha, como todos os outros, o livre arbítrio, ou o direito de fazer suas escolhas; ele podia, também, se corromper, pois Deus não pode impedir que o homem peque. Noé era livre, e podia pecar, prejudicando o Plano de Deus de prover na Pessoa de Seu Filho, nascendo como semente da mulher, aquele que seria o nosso Redentor. Então, por um ato de Bondade para comigo, para com você e para com toda a humanidade, Deus tinha que agir rápido, e agiu. Ao destruir toda humanidade, preservando um homem justo, Noé, e com sua descendência recomeçando a povoar a Terra, Deus deu uma prova de seu amor, de sua benignidade, de sua bondade.

É claro que nós conhecemos muitos e muitos outros exemplos em que, no agir de Deus, parece não haver bondade. Porém, um ato de bondade pode não parecer bom, em si mesmo, mas, seu objetivo será bom quando realizado para beneficiar alguém, ou a própria pessoa.

Lembre-se, Deus é bom por natureza. Ele não pode realizar uma ação que tenha por objetivo, apenas, causar prejuízo a alguém. Portanto, procure entender, primeiro, o trabalhar de Deus, antes de fazer mau juízo dele. Pense nisto!

Indubitavelmente, a maior prova da bondade de Deus está no fato de Ele ter enviado seu Filho Unigênito para morrer por nós, homens pecadores e maus por natureza (João 3:16; Rm.5:8).

  1. Um homem bondoso e uma mulher bondosa. O homem se torna filho de Deus no momento em que ocorre o Novo Nascimento, ou Regeneração. A partir desse instante o Espírito Santo passa a habitar no seu “coração” e começa a formação do seu Fruto, através do qual ele vai refazendo a imagem de Deus nesse novo ser humano. Após isto passamos a participar da natureza divina, a ter comunhão com Deus e, por isso, seu caráter nos é transmitido, motivo por que ficamos “cheios de toda a bondade” (Rm.15:14).

Se Deus é bom, seus filhos não podem ser maus. A Bíblia que revela a Bondade de Deus, também revela a Bondade de seus filhos, conforme escreveu Paulo: “Eu próprio, meus irmãos, certo estou, a respeito de vós, que vós mesmos estais cheios de bondade, cheios de todo o conhecimento, podendo admoestar-vos uns aos outros”(Rm.15:14).

O filho de Deus precisa ter o sentimento existente em seu Pai, por isto Paulo ensina: “E não nos cansemos de fazer o bem…enquanto temos tempo, façamos o bem a todos, mas principalmente aos domésticos da fé”(Gl.6:9,10). Paulo acrescentou, ainda, àqueles a quem temos que fazer o bem: “…se o teu inimigo tiver fome, dá-lhe de comer; se tiver sede, dá-lhe de beber…”(Rm.12:20).

O Senhor Jesus também afirmou: “…Amai a vossos inimigos, bendizei os que vos maldizem, fazei bem aos que vos odeiam e orai pelos que vos maltratam e vos perseguem, para que sejais filhos do Pai que está nos céus...”(Mt.5:44,45). Isso é difícil? Para o homem natural é impossível, mas para aquele que tem as virtudes do Fruto do Espírito é possível. Só o homem que nasceu de novo é que pode viver a vida cristã.

Entretanto, nunca podemos nos esquecer de que a Bondade é resultado da ação do Espírito Santo em nossas vidas e que somente pode ser bom quem está ligado na videira verdadeira. Não pode haver evangelho completo se os crentes não fizerem o bem, se não praticarem boas obras, se não forem bons, pois ser bom é fazer o bem. Por isso, se a benignidade está vinculada à “benevolência”, a bondade está relacionada com a “beneficência”, “ato, prática ou virtude de fazer o bem, de beneficiar o próximo; fazer filantropia”.

Entretanto, devemos distinguir entre o homem bom e o homem que beneficia alguém. Nem sempre quem beneficia alguém é um homem bom, mas o homem bom sempre beneficia alguém.

Quem ama ao Senhor ama também o próximo, mas esse amor precisa ser manifesto em ações. Na Bíblia encontramos exemplos de homens e mulheres bondosos:

– No Antigo Testamento: Jó. Este servo de Deus não foi apenas paciente, mas também um exemplo significativo de benignidade e bondade – “Eu era o olho do cego e os pés do coxo; dos necessitados era pai e as causas de que não tinha conhecimento inquiria com diligência; e quebrava os queixais do perverso e dos seus dentes tirava a presa… O estrangeiro não passava a noite na rua; as minhas portas abria ao viandante”(Jó 29:15,17; 31:32).

– No Novo Testamento: Dorcas. Esta bondosa mulher era uma discípula que usava do ofício de costureira para abençoar os pobres (At.9:36,39). O texto bíblico afirma que “ela estava cheia de boas obras e esmolas” (At.9:36). Suas ações em favor dos necessitados demonstravam a sua bondade e o seu amor e devoção a Deus. Por sua bondade, Dorcas foi abençoada por Deus.

– Jesus Cristo. Se bondade pode significar dar, ou fazer alguma coisa em beneficio de alguém, então, dentre tantos, o maior ato de bondade praticado por Jesus foi dar a sua própria vida em beneficio do homem. O amor é uma das expressões da bondade. Foi o Senhor Jesus quem afirmou – “Eu sou o bom Pastor; o bom Pastor dá a sua vida pelas ovelhas… Ninguém ma tira de mim, mas eu de mim mesmo a dou; tenho poder para dar e poder para tornar a tomá-la. Esse mandamento recebi de meu Pai”(João 10:11-18).

Portanto, não basta dizer que amamos, é preciso mostrar esse amor por meio de ações. O que você tem feito para demonstrar a sua bondade ao próximo?

II. SER BONDOSO É CUMPRIR O SEXTO MANDAMENTO: NÃO MATARÁS

  1. Não matarás. Em Êxodo 20:13, temos uma ordem de Deus em favor da preservação da vida; é o Sexto Mandamento do Decálogo. Este Mandamento é imperativo: “Não matarás” (Êx.20:13; Dt.5:17). A ordenança divina é bem clara, de forma que até uma criança pode compreender. O homicídio doloso, pérfido, insulta a Deus, o doador da vida. A existência do ser humano é a Sua mais importante possessão. Por isso, o Senhor expressa Seu desejo de que ela seja honrada, respeitada e preservada. O povo da Nova Aliança, que faz a Igreja do Senhor Jesus, que vive em um contexto completamente diferente daquele vivido pelos fiéis da Antiga Aliança, deve lutar pela defesa da vida.

Na Nova Aliança o Sexto Mandamento inclui “pensamentos e palavras, ira e insultos”. Segundo o Rev. John Stott, “os escribas e fariseus estavam evidentemente procurando restringir a aplicação do Sexto Mandamento apenas ao ato do homicídio, isto é, ao derramamento de sangue humano, mas Jesus discordou deles. A verdadeira aplicação da proibição era muito mais ampla: incluía pensamentos e palavras, além de atos; cólera e insultos, além do homicídio”. Foi o que Jesus disse em Mateus 5:21,22 – “Ouvistes que foi dito aos antigos: Não matarás; mas qualquer que matar será réu de juízo. Eu, porém, vos digo que qualquer que, sem motivo, se encolerizar contra seu irmão será réu de juízo, e qualquer que chamar a seu irmão de raca será réu do Sinédrio; e qualquer que lhe chamar de louco será réu do fogo do inferno”.

Percebe-se que Jesus condena o ódio vingativo, que deseja, de modo injusto, a morte doutra pessoa. “Raca” é um termo de desprezo que provavelmente significa “tolo”, “estúpido”. Chamar alguém de “louco”, com ira e desprezo, pode indicar um tipo de atitude de coração, conducente ao perigo do “fogo do inferno”.

Há, então, um aspecto existencial, isto é, relacionado com o mundo interior da pessoa. Mata-se alguém não só literalmente, mas também no coração. O apóstolo João diz que é homicida quem odeia a seu irmão (1João 3:15). O ódio é a evidência da perdição. O ódio é o campo onde brota a semente do assassinato. Quem odeia seu irmão é um assassino em potencial. O assassinato tem sua origem no ódio. Se alguém tem ódio de uma pessoa é como se a tivesse assassinado em seu coração. Jesus ensina que para Deus isto é tão errado e condenável como um assassinato.

Se a marca do salvo é o amor, o ódio que leva à morte não pode ser o seu distintivo. Uma pessoa salva busca a edificação do irmão e não sua morte. Logo, o assassino não tem vida eterna permanente em si. Isso não significa que o apóstolo esteja negando a possibilidade de arrependimento e perdão para um homicida nem esteja dizendo que um assassino não possa ser salvo; ele poderá ser salvo, desde que se arrependa de seus pecados, mude sua conduta e coloque sua confiança em Cristo.

É possível que haja crentes que frequentam regularmente a igreja e participam de suas atividades, mas tenham ódio de outras pessoas, quem sabe até mesmo dentro da própria igreja. Crentes que se reúnem em torno da mesa do Senhor, participam da Santa Ceia, mas com o coração carregado de ódio. Estas atitudes devem ser abandonadas pelos que pretendem ser fiéis a Jesus. Jesus exorta: “Portanto, se trouxeres a tua oferta ao altar e aí te lembrares de que teu irmão tem alguma coisa contra ti, deixa ali diante do altar a tua oferta, e vai reconciliar-te primeiro com teu irmão, e depois vem, e apresenta a tua oferta” (Mt.5:23,24).

Que venhamos a amar o próximo, cuidar dele e preservar a sua vida, pois esta é a vontade de Deus para nós.

  1. Ser bondoso é não matar o inocente indefeso. O valor da vida não depende dos anos acumulados, nem da capacidade física ou intelectual da pessoa. Antes, a vida é um bem pessoal intransferível e incalculável. Por isso, nenhum indivíduo, nenhuma organização ou sociedade, nenhum grupo de médicos e nem o próprio Estado secular podem arrogar a si o direito de legalizar a matança de seres indefesos ou classificar as pessoas, separando as que devem morrer das que podem viver. A vida pertence a Deus. Está escrito: “Do Senhor é a terra e a sua plenitude; o mundo e aqueles que nele habitam” (Sl.24:1); “…pois ele mesmo é quem dá a todos a vida, e a respiração, e todas as coisas” (Atos 17:25). Desta feita, ninguém pode dizer que a “vida é minha, eu faço dela o que quero”.

O infanticídio é uma violação do Sexto Mandamento. Quando falamos contra o infanticídio, estamos também nos referindo ao aborto. Este ato perverso está inserido no Sexto Mandamento, pois é um atentado contra a vida de um indefeso, além de ser um ato contra Deus, que é o doador da vida (Is.45:12; Mt.10:28).

Nos Estados Unidos, o infanticídio é praticado principalmente com crianças que sobrevivem ao aborto. Aliás, o aborto é apenas a ponta de um “iceberg”, cuja profundidade ninguém pode prever. Já se tornou evidente na história humana recente que assassinato de bebês antes de seu nascimento leva ao assassinato de criancinhas depois de nascidas. Infelizmente, isto é uma realidade em nossos dias. Um dos métodos aprovados de aborto é a histerectomia, em que o embrião é abortado com vida e morto depois de nascido por afogamento, fome ou corte do fluxo de oxigênio. Isso é uma clara transgressão do Sexto Mandamento. Certamente, aqueles que praticam tão brutal assassinato não ficarão impunes; pagarão aqui na Terra ou no Inferno, num sofrimento eterno (Ap.21:8).

  1. O primeiro homicídio. Logo no primeiro livro da Bíblia, Gênesis, encontramos o triste relato do primeiro homicídio depois da Queda (Gn.4:8-11). Caim matou seu irmão porque deixou seu coração ser dominado pela inveja e o ciúme. O apóstolo João diz: “Porque esta é a mensagem que ouvistes desde o princípio: que nos amemos uns aos outros. Não como Caim, que era do maligno e matou a seu irmão. E por que causa o matou? Porque as suas obras eram más, e as de seu irmão, justas” (1João 3:11,12).

– As obras de Caim eram más, porque seu coração era mau. Ele era do Maligno. Ele não conhecia a Deus nem cultuava a Deus, cultuava a si mesmo. Ele afrontava a Deus oferecendo uma oferta errada, da forma errada, com a motivação errada. Ele queria enganar a Deus e ganhar o status de adorador quando não passava de filho do maligno.

– A raiz do problema de Caim era a inveja. Ele se desgostou ao ver que Deus havia aceitado seu irmão e sua oferta, ao passo que ele mesmo e sua oferta foram rejeitados. Caim preferiu eliminar seu irmão a imitá-lo. A inveja de Caim o levou a tapar os olhos e os ouvidos para o aprendizado. Ele se endureceu no caminho da rebeldia. Não apenas sentiu inveja, mas consumou o seu pecado, levando o próprio irmão à morte. Ele não apenas odiou a seu irmão, mas o fez da forma mais sórdida. Odiou-o não pelo mal que Abel praticara, mas pelo bem; não pelos erros, mas pelas virtudes. O culto de Caim, longe de aproximá-lo de Deus, afastou-o ainda mais; o seu culto não passava de um arremedo, de uma máscara grotesca para esconder o coração invejoso e cheio de ódio.

– Deus deu a Caim a oportunidade para mudar de vida (Gn.4:7). Caim, porém, preferiu o caminho da rebeldia ao caminho da obediência. Longe de se arrepender, de tomar novo rumo, Caim deu mais um passo na direção do pecado. Não virou as costas para o pecado, virou as costas para Deus. A exortação de Deus produziu nele endurecimento, e não quebrantamento. Caim, em vez de cair em si e arrepender-se, irou-se sobremaneira; em vez de voltar-se para Deus, fugiu de Deus; em vez de imitar o exemplo de Abel, resolveu assassiná-lo.

– Caim não levou a sério a Palavra de Deus nem o juízo de Deus. Caim pensou que seus atos estivessem fora do alcance de Deus. Caim acabou colhendo o que plantou. Ele preferiu fugir de Deus a obedecê-lo, e foi sentenciado a ser um fugitivo e errante pela terra (Gn.4:12). O texto bíblico diz que o próprio Deus amaldiçoou Caim numa forma de punição pelo seu ato (Gn.4:15). Homem algum pode zombar de Deus, porque todo o pecado tem a sua recompensa (Gl.6:7).

III. SEJAMOS BONDOSOS E MISERICORDIOSOS

  1. O conceito bíblico de misericórdia. Misericórdia é lançar o coração na miséria do outro e estar pronto em qualquer tempo para aliviar a sua dor. Misericórdia é ver uma pessoa sem alimento e lhe dar comida, é ver uma pessoa solitária e lhe fazer companhia; é atender às necessidades e não apenas senti-las; é mais do que sentir piedade por alguém. A palavra hebraica para misericórdia é “chesed”, que é a capacidade de entrar em outra pessoa até que praticamente podemos ver com os seus olhos, pensar com sua mente e sentir com o seu coração.
  1. Servindo ao outro com amor. O maior exemplo de amor e misericórdia foi demonstrado por Jesus. Ele declarou que veio ao mundo não para ser servido, mas para servir e dar a sua vida por nós (Mt.20:28). Ele curou os doentes, alimentou os famintos, abraçou as crianças, foi amigo dos pecadores, tocou os leprosos; Ele fez com que os solitários se sentissem amados; Ele consolou os aflitos, perdoou os que haviam caído em opróbrio.

O apóstolo Paulo disse que exercer misericórdia com os necessitados é uma graça que Deus nos dá em vez de um favor que fazemos às pessoas. Veja o testemunho que ele dá dos crentes da Macedônia com relação a este aspecto (2Co.8:1-5):

  1. Também, irmãos, vos fazemos conhecer a graça de Deus dada às igrejas da Macedônia;
  1. como, em muita prova de tribulação, houve abundância do seu gozo, e como a sua profunda pobreza superabundou em riquezas da sua generosidade.
  1. Porque, segundo o seu poder (o que eu mesmo testifico) e ainda acima do seu poder, deram voluntariamente,
  1. pedindo-nos com muitos rogos a graça e a comunicação deste serviço, que se fazia para com os santos.
  1. E não somente fizeram como nós esperávamos, mas também a si mesmos se deram primeiramente ao Senhor e depois a nós, pela vontade de Deus.

Este ato misericordioso dos irmãos da Macedônia é uma demonstração tangível daquilo que Paulo exortou em Gálatas 6:2 – “Levai as cargas uns dos outros e assim cumprireis a lei de Cristo”.

A misericórdia não é uma virtude natural. Para realizamos tal ato precisamos amar com amor divino. Por natureza o homem é mau, cruel, insensível, egoísta, incapaz de exercer a misericórdia. Precisamos nascer de novo antes de sermos misericordiosos. Precisamos de um novo coração, antes de termos um coração misericordioso. Você tem ajudado seus irmãos a carregarem suas cargas ou você tem ainda acrescentado mais peso a elas?

  1. Devemos ser misericordiosos com aqueles que já estão feridos. Jesus não esmaga a cana quebrada nem apaga a torcida que fumega. É fácil bater em quem já está caído. É fácil pisar naqueles que já estão no chão. Os escribas arrastaram uma mulher e jogaram-na aos pés de Jesus. Eles queriam que ela fosse apedrejada. Mas Jesus em vez de condená-la, perdoou-a e restaurou-a. Na Parábola do Bom Samaritano, o samaritano pegou o judeu caído, ferido, parou, cuidou das suas feridas, colocou-o em sua cavagaldura, tratou dele (Lc.10:25-37); isso é misericórdia. Que não venhamos a agir como o sacerdote e o levita da referida parábola, mas que sejamos como aquele que acolhe e ajuda o ferido.
  1. Devemos ser misericordiosos com aqueles que nos ofendem. Estêvão quando foi apedrejado, orou: “Senhor Jesus, não lhes imputes esse pecado” (At.7:60). A Bíblia diz que devemos abençoar os nossos inimigos e orar por eles. Se o nosso inimigo tiver fome, devemos dar-lhe de comer, se tiver sede, devemos dar-lhe de beber. O misericordioso perdoa as ofensas; ele não registra mágoas; ele não guarda rancor; ele não armazena ira; ele perdoa; ele vence o mal com o bem. Quem não perdoa, não pode ofertar, não pode adorar, não tem paz. Quem não perdoa, adoece, é flagelado e nunca pode receber perdão. “O juízo é sem misericórdia para aquele que não exerce misericórdia” (Tg.2:13).
  1. Devemos ser misericordiosos com os necessitados. Paulo exortou os crentes da Galácia a fazerem o bem a todos, mas principalmente aos domésticos da fé (Gl.6:10). Se você sabe que seu irmão está enfrentando alguma dificuldade e você pode ajudá-lo, ajude-o; não espere receber recompensa, faça por amor e bondade; a recompensa virá do Senhor quando recebermos os nossos galardões (Mt.10:41,42).

– Devemos acudir ao necessitado. No Salmo 41:1-3 Davi diz: “Bem-aventurado o que acode ao necessitado; o Senhor o livra no dia do mal. O Senhor o protege, preserva-lhe a vida e o faz feliz na terra; não o entrega à discrição dos seus inimigos. O Senhor o assiste no leito da enfermidade; na doença, tu lhe afofas a cama”.

– Devemos ter uma terna compaixão pelos necessitados. A Bíblia diz: “se abrires a tua alma ao faminto e fartares a alma aflita, então, a tua luz nascerá nas trevas, e a tua escuridão será como o meio-dia” (Is.58:10).

– Devemos ser liberais na contribuição. Deus diz: ”Quando entre ti houver algum pobre de teus irmãos, em alguma das tuas cidades, na tua terra que o Senhor, teu Deus, te dá, não endurecerás o teu coração, nem fecharás as tuas mãos a teu irmão pobre; antes, lhe abrirás de todo a tua mão e lhe emprestarás o que lhe falta, quanto baste para a sua necessidade” (Dt.15:7-8).

Deus providenciou várias leis para cuidar dos pobres: nas colheitas não se podia apanhar o que caía no chão, era dos pobres. Paulo exorta os ricos: “…pratiquem o bem, sejam ricos de boas obras, generosos em dar e prontos a repartir” (1Tm.6:18).

CONCLUSÃO

Nenhum homem de Deus fará qualquer coisa, de forma consciente, com o objetivo de causar prejuízo a alguém. Somos filhos de Deus, logo devemos agir como ele age. Mesmo quando possa parecer não haver bondade em nossas ações, elas, certamente, estão sendo realizadas com amor e com bondade em relação ao nosso próximo, porque “…o fruto do Espírito é:…bondade…”. Que possamos demonstrar ao mundo e aos nossos irmãos a Bondade de Deus que um dia foi derramada em nossos corações.

———

Luciano de Paula Lourenço

Disponível no Blog: http://luloure.blogspot.com

Referências Bibliográficas:

Bíblia de Estudo Pentecostal.

Bíblia de estudo – Aplicação Pessoal.

Comentário Bíblico popular (Novo Testamento) – William Macdonald.

Comentário do Novo Testamento – Aplicação Pessoal. CPAD.

Revista Ensinador Cristão – nº 69. CPAD.

Rev. Hernandes Dias Lopes. Gálatas, a carta da liberdade cristã.

Antônio Gilberto. O Fruto do Espírito. CPAD.

Ev. Caramuru Afonso Francisco. Benignidade e Bondade, o fruto gêmeo.PortalEBD_2005.

Comentário Bíblico Pentecostal. Novo Testamento. CPAD.

Publicado no Blog do Luciano de Paula Lourenço

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *