As Obras da Carne e o Fruto do Espírito – Luciano de Paula Lourenço

As Obras da Carne e o Fruto do Espírito – Luciano de Paula Lourenço

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Texto Base: Gálatas 5:16-26

“Digo, porém: Andai em Espírito e não cumpríreis a concupiscência da carne” (G1.5:16).

INTRODUÇÃO

Pela misericórdia de Deus, iniciamos mais um ano letivo. No primeiro trimestre, que se inicia, o currículo da CPAD estudará sobre o Tema: “AS OBRAS DA CARNE E O FRUTO DO ESPÍRITO – Como o crente pode vencer a verdadeira batalha espiritual travada”. Este é um dos temas mais importantes para o cristão, até porque vivemos tempos em que as pessoas estão muito preocupadas com prosperidade, milagres, etc. Ao longo do trimestre será destacado o embate espiritual que se dá na vida do cristão – no sentido de manifestar as virtudes do Espírito (Fruto do Espirito) – contra a insistência da velha natureza humana em “não morrer”. Qual o crente que não luta diariamente contra a velha natureza? Quem não passa por tentações e provações de ordem estritamente pessoal? Certamente, todo crente enfrenta uma luta interna e espiritual quanto à formação e ao desenvolvimento do caráter cristão. Conquanto perceba que foi plenamente regenerado e salvo pela graça de Deus, o crente em Cristo enfrenta muitas lutas de ordem interior (psicológicas e espirituais). Quando uma pessoa aceita a Cristo como Senhor e Salvador, em seu interior, se inicia um embate entre a carne – a velha natureza – e o Espirito. Como vencer essa luta? Somente com a ajuda do Espirito Santo. Ele em nós nos leva a termos uma vida frutífera para a glória de Deus.

Nesta Aula, daremos um enfoque panorâmico sobre “As Obras da Carne e o Fruto do Espírito”. Nenhum trecho da Bíblia apresenta um mais nítido contraste entre o modo de vida do crente cheio do Espírito e aquele controlado pela natureza humana pecaminosa do que Gálatas 5:16-26. Paulo não somente examina a diferença geral do modo de vida desses dois tipos de crentes, ao enfatizar que o Espírito e a carne estão em conflito entre si, mas também inclui uma lista específica tanto das obras da carne, como do fruto do Espírito. Como poderemos vencer esse embate entre a carne e o Espírito? Primeiramente, deixar-nos dominar pelo Espírito Santo de Deus. É preciso ser cheio do Espírito Santo diariamente (Ef.5:18). Se o crente tiver uma vida controlada pelo Consolador, terá plena condição de resistir à sua natureza pecaminosa.

É notória a pouca ênfase que a maioria dos cristãos dá à transformação do homem interior em virtude da salvação na pessoa de Jesus Cristo e à consequente mudança de atitudes por parte daquele que aceita Cristo. Infelizmente, temos percebidos que, nos últimos dias, este tem sido um aspecto negligenciado no ensino da Palavra de Deus em nossas igrejas locais. Portanto, é bastante oportuno o estudo a respeito do tema em epígrafe a fim de que os cristãos venham a dar o devido valor à transformação que deve ocorrer na vida de cada um que aceita Cristo como seu Senhor e Salvador e, deste modo, procure melhorar os seus caminhos diante de Deus e dos homens.

  1. ANDAR NA CARNE X ANDAR NO ESPÍRITO

Em nossa jornada espiritual, há um tremendo conflito entre a carne (velha natureza) e a nossa nova natureza. Foi o que o apóstolo Paulo disse aos Gálatas: “Porque a carne cobiça contra o Espírito, e o Espírito, contra a carne; e estes opõem-se um ao outro; para que não façais o que quereis” (Gl.5:17). Na verdade, existem duas forças antagônicas que nos arrastam para direções opostas. Na justificação fomos libertados da culpa do pecado, na santificação estamos sendo libertados do poder do pecado, mas só na glorificação seremos salvos da presença do pecado. Ainda lidamos contra o pecado que tenazmente nos assedia.

  1. O que é a carne? “Carne” (gr. sarx) é a natureza pecaminosa com seus desejos corruptos, a qual continua no cristão após a sua conversão, sendo seu inimigo mortal (Rm.8:6-8,13; Gl.5:17,21). Ela representa o que somos por nascimento natural. Ela é a sede dos apetites carnais (Mt.26:41). Ela é tremendamente maligna. O apostolo Paulo, escrevendo à Igreja em Roma, assim se expressa afirmando a malignidade da carne: “Porque eu sei que em mim, isto é, na minha carne, não habita bem nenhum, pois o querer o bem está em mim; não, porém, o efetuá-lo. Porque não faço o bem que quero, mas o mal que não quero, esse faço” (Rm.7:18,19). Aqui, “carne”, obviamente, não significa “corpo”; “carne” descreve nossa situação antes de sermos salvos, refere-se a nossa velha natureza. A verdade é que a velha natureza não é aniquilada na conversão. Ela ainda habita em nós.

Embora a “carne” não tenha poder legal de nos dominar, muitas vezes ela revela quão fracos somos. Ela tem desejos ardentes que nos arrastam para longe de Deus, pois os impulsos da carne são inimizade contra Deus. Os desejos da carne levam à morte. A única maneira de se triunfar sobre os apetites da carne é andar no Espirito. Se alimentarmos a “carne”, fazendo provisão para ela, fracassaremos irremediavelmente. Porém, se andarmos no Espirito, jamais satisfaremos os apetites desenfreado da carne.

  1. O que é o Espirito? A palavra espírito no grego é pneuma. Este termo significa sopro, vento, respiração e principio da vida. Esse vocábulo também descreve o espírito que habita no homem o qual foi soprado por Deus (Gn.2:7). Também, o “Espírito” representa o que nos tornamos pelo novo nascimento, o nascimento do Espírito. Logo, percebemos que esta palavra tem diferentes significados.

Em Gálatas 5:16, “Espírito” refere-se à Terceira Pessoa da Trindade. Ele está em constante conflito com a carne, e isto continuará até o dia em que Deus nos levará para si. O que o crente deve fazer é deixar ser guiado pelo Espírito. Nenhum cristão autêntico está dependente dos próprios esforços. É o Espirito, e não ele, que resiste às moções do mal que está dentro dele. Ser guiado pelo Espirito também significa ser elevado acima da carne e ser preenchido pelo Senhor. Quando alguém é preenchido dessa maneira, já não pensa na carne.

  1. Andar na carne x andar no Espírito. Aos irmãos da Galácia, escreveu Paulo: “Digo, porém: Andai em Espírito e não cumprireis a concupiscência da carne” (Gl.5:16). O crente deve andar no Espírito, e não na carne. Andar no Espírito é deixar que Ele assuma o controle. É ter comunhão com o Espirito. É tomar decisões à luz da sua santidade. É estar ocupado com Cristo, pois o ministério do Espírito é ocupar o crente com o Senhor Jesus. Quando andamos no Espírito, a carne, ou a vida do meu eu, é considerada morta. Não podemos nos ocupar com Cristo e o pecado ao mesmo tempo. Socfield esclarece:

“O problema da vida cristã se baseia no fato de que, enquanto o cristão vive neste mundo, ele é, por assim dizer, duas árvores: a velha árvore da carne e a nova da natureza divina implantada pelo novo nascimento; e o problema é este: como conseguir manter a velha árvore infrutífera e ao mesmo tempo fazer que a nova produza fruto. O impasse é resolvido quando andamos no Espírito”.

Gálatas 5:16 e os demais versículos deste capítulo mostram que a “carne” está sempre presente com o cristão; o que refuta a ideia de que a natureza pecaminosa pode ser extirpada. Longe de estar morta, no sentido de inerte, nossa natureza caída está tão viva e ativa que somos seriamente exortados a não obedecer aos seus desejos, e o Espírito Santo nos é concedido para que possamos subjugá-los e controlá-los. A natureza adâmica não é extirpada na conversão, mas recebemos poder para subjugá-la e dominá-la.

Embora pertençamos a Cristo e tenhamos morrido para o pecado, ainda vivemos em um mundo pecaminoso e temos uma natureza pecaminosa que é completamente corrupta. Desde a queda do ser humano, há uma tensão: tentar fazer o bem e não ser capaz de fazê-lo. Foi o que Paulo disse em Romanos 7:25: “Mas, se eu faço o que não quero, já não sou eu quem o faz, e sim o pecado que habita em mim”. Podemos parafrasear esse versículo da seguinte maneira: “Se eu (a velha natureza) faço o que eu (a nova natureza) não quero, já não sou eu (a pessoa) quem o faz, e, sim, o pecado que habita em mim”. É bom deixar claro que Paulo não está se desculpando nem se esquivando de sua responsabilidade como cristão salvo. Ele está apenas afirmando que a velha natureza ainda continua habitando nele e, ao pecar, não o faz com o desejo do novo homem. Sem a ajuda do Espírito Santo, a pessoa é dominada pelo poder do pecado e continua a fazer o mal, embora realmente deseje fazer o bem.

Conta-se uma história sobre um velho chefe indígena que se converteu a Cristo. Dois de seus irmãos ‘caras pálidas’ foram visitá-lo e um deles perguntou como estava indo sua vida espiritual. O velho chefe respondeu que era como se ele tivesse dois cachorros vivendo dentro dele – um branco e um preto – e eles brigavam constantemente! Após conversarem um pouco, um daqueles homens perguntou: Afinal, quem ganha a luta? A resposta do chefe foi clássica: aquele que eu alimento mais.

Embora seja uma ilustração simples, ela nos dá um quadro vívido da batalha que ocorre todos os dias dentro de nós. Se alimentarmos nossa nova natureza por meio do estudo da Palavra de Deus e da oração, crescemos “na graça e no conhecimento do Senhor”. No entanto, se continuarmos a festejar “com as bolotas que os porcos comem”, não devemos esperar muito progresso na vida espiritual.

Essa é uma luta que todos nós passamos quando aceitamos a Cristo, mas não devemos ficar parado esperando qual das duas naturezas vencerá. Permitir que ações e atitudes pecaminosas e mundanas continuem em nossas vidas, sem serem enfrentadas, é convidar problemas maiores. Não há desculpas.

Deus podia eliminar a velha natureza dos crentes no momento da sua conversão, mas não o faz. Por quê? Porque Ele quer nos obrigar a se lembrar constantemente da nossa fraqueza; quer nos manter sempre em estado de dependência de Cristo, nosso Sacerdote e Advogado, e levar-nos a louvar incessantemente Aquele que nos salvou. Em vez de remover a velha natureza, Deus nos deu seu Espírito para habitar em nós. O Espírito de Deus e nossa carne estão constantemente em conflito, e isso continuará até o dia em que Deus nos levar para Si. O que o crente tem de fazer é ceder ao Espírito Santo. O Espírito Santo nos ajuda a viver em santidade e de maneira que o nome do Senhor seja exaltado.  Sem Ele não poderíamos agradar a Deus. Quando o Espírito Santo tem o controle do nosso espírito, Ele faz com que o nosso homem interior tenha forças e condições para opor-se às obras da carne.

  1. OBRAS DA CARNE, UM CONVITE AO PECADO

Depois de falar do conflito entre a “carne” e o “            Espírito” na vida do crente, o apóstolo Paulo passa a falar sobre as obras da carne na vida daqueles que não herdarão o Reino de Deus. Diz o apóstolo: “Porque as obras da carne são manifestas, as quais são: prostituição, impureza, lascívia, idolatria, feitiçarias, inimizades, porfias, emulações, iras, pelejas, dissensões, heresias, invejas, homicídios, bebedices, glutonarias e coisas semelhantes a estas, acerca das quais vos declaro, como já antes vos disse, que os que cometem tais coisas não herdarão o Reino de Deus” (Gl.5:19-21). Esta lista, embora extensa, não é exaustiva, pois não esgota todas as obras da carne, uma vez que Paulo conclui dizendo: “… e coisas semelhantes a estas” (Gl.5:21).

  1. Classificação. O Rev. Hernandes Dias Lopes, em seu livro “Gálatas, a Carta da liberdade Cristã”, classifica essas obras da carne em quatro grupos. Vejamos:
  1. a) Os pecados sexuais – “Porque as obras da carne são manifestas, as quais são: prostituição, impureza, lascívia” (Gl.5:19). John Stott diz que a nossa velha natureza é secreta e invisível, mas as suas obras, as palavras e atos pelos quais ela se manifesta são públicos e evidentes. Estes três primeiros pecados são suficientes para mostrar que todas as ofensas sexuais, sejam elas públicas ou particulares, “naturais” ou “anormais”, entre pessoas casadas ou solteiras, devem ser classificadas como obras da carne.

– Prostituição. Trata-se de um termo amplo que descreve toda sorte de relacionamentos sexuais ilícitos e imorais. Indica pecado em área especifica da vida: a área das relações sexuais, seja adultério, formicação, incesto ou homossexualismo.

– Impureza. Indica profanação geral da personalidade, manchando toda esfera da vida. A palavra grega akatharsia, traduzida por “impureza”, é um termo mais geral, o qual, embora às vezes possa denotar impureza ritual, refere-se aqui à impureza moral. Essa impureza inclui a impureza dos atos, palavras, pensamentos e intensões do coração.

– Lascívia. Indica amor ao pecado tão despreocupado e tão audacioso que a pessoa deixa de se preocupar com o que Deus ou os homens pensam de suas ações. A palavra grega aselgeia, traduzida por “lascívia”, significa literalmente a libertinagem de modo geral, mas sem dúvida é usada aqui para a lascívia nas relações sexuais. Aselgeia refere-se à devassidão, um apetite libertino e desavergonhado. Trata-se daqueles atos indecentes que chocam o público. Um homem entregue à lascívia não conhece freio algum, só pensa no seu prazer e já não se importa com o que pensam as pessoas.

  1. b) Os pecados religiosos. “… idolatria, feitiçarias…” (Gl.5:20a). Estes dois pecados falam de ofensa a Deus, pois são uma perversão do culto a Deus.

– Idolatria. A palavra grega “eidolatria”, traduzida por “idolatria”, refere-se à adoração de deuses feitos pela mão do homem. É o pecado no qual as coisas materiais chegam a ocupar o lugar de Deus. Idolatria é colocar qualquer coisa antes de Deus e das pessoas. Devemos adorar a Deus, amar as pessoas e usar as coisas.

– Feitiçarias. A palavra grega “pharmakeia”, traduzida por feitiçarias, significa uso de remédios ou drogas. O termo significa também o uso de drogas com propósitos mágicos. A linha divisória entre a medicina e a magia não era muito nítida naqueles dias, como continua ocorrendo em muitas culturas tribais hoje em dia.

  1. c) Os pecados sociais – “… inimizades, porfias, ciúmes, iras, discórdias, dissensões, facções, invejas…” (Gl.5:20b,21a). Estes oito pecados envolvem transgressões ligadas aos relacionamentos.

Inimizades. Trata-se daquele sentimento hostil nutrido por longo tempo, que se enraíza no coração. A ideia é a de um homem que se caracteriza pela hostilidade para com seu semelhante. É o oposto do amor.

Porfias. Traz a ideia de alguém que luta contra a pessoa com a finalidade de conseguir alguma coisa, como posição, promoção, bens, honra, reconhecimento. É a rivalidade por recompensa.

Emulações. A palavra grega “zelos”, traduzida por emulações, significa querer e desejar possuir aquilo que o outro tem. Podem ser tanto coisas materiais quando reconhecimento, honra ou posição social. Implica entristecer-se não apenas porque não se tem algo, mas porque outra pessoa o tem.

Iras. Trata-se de um temperamento violento e explosivo, presente em pessoas que estouram por qualquer motivo e manifestam destempero emocional.

Discórdias ou pelejas. A palavra grega “eritheiai”, traduzida por “discórdias”, significa conflitos, lutas, contendas. Trata-se de um espirito partidário e tendencioso. Descreve a pessoa que busca um cargo ou posição não para servir ao próximo, mas para auferir proveito próprio.

Dissensões. A palavra grega “dichostasiai”, traduzida por “dissensões”, significa sedição, rebelião, e também posicionar-se uns contra os outros. Trata-se daquele sentimento que só pensa no que é seu, e não também no que é dos outros.

Facções. A palavra grega “aireseis”, traduzida por facções, significa heresias, a rejeição das crenças fundamentais em Deus, Cristo, as Escrituras e a Igreja. É muito provável que Paulo tenha usado o termo com referência aos elementos divisores na Igreja que desembocaram em grupos ou seitas. Tais grupos exclusivos (ou panelinhas) fragmentaram a igreja. É mais que natural que esses grupos se considerassem certos e todos os outros errados. Paulo condenou semelhante sectarismo, tachando-o de “obras da carne”.

Invejas. A palavra grega “fthonoi”, traduzida por invejas, vai além dos ciúmes. É o espírito que deseja não somente as coisas que pertencem aos outros, mas se entristece pelo fato de outras pessoas possuírem essas coisas. Os invejosos não apenas desejam o que pertence aos outros, mas anseiam que os outros sofram por perder essas coisas. Trata-se das pessoas que se alegram com a tristeza dos outros. Não é tanto o desejo de ter as coisas, mas o desejo de que os outros as percam. É entristecer-se por algum bem alheio. A inveja é a maior enfermidade entre os homens.

  1. d) Os pecados pessoais“… bebedices, glutonarias e coisas semelhantes a estas…” (Gl.5:21b). Estes dois últimos pecados têm a ver com a intemperança ou o abuso e a falta de domínio próprio na área de comida e bebida.

Bebedices. A palavra grega “methai”, traduzida por bebedices, refere-se à pessoa que se embriaga na busca de sensualidade ou prazer. No mundo antigo tratava-se de um vício comum. Os gregos bebiam mais vinho do que leite. Até as crianças bebiam vinho. A embriaguez, contudo, transforma homens em feras.

Glutonarias. A palavra grega “komoi”, traduzida por glutonarias, refere-se a uma busca desenfreada pelo prazer, seja em relação à comida ou a qualquer prazer. A palavra pode ser traduzida também por “orgias”. Segundo Hernandes Dias Lopes, Komos era um grupo de amigos que acompanhavam o vencedor nos jogos depois de sua vitória. Dançavam, riam e cantavam suas canções. Também descreve os grupos de devotos de Baco, o deus do vinho. O termo significa rebeldia não refreada e desgovernada. É diversão que se degenera em licenciosidade.

  1. Consequências do servir à Carne. Aqueles que praticam as obras da carne não poderão herdar o reino de Deus. Paulo não deixa dúvida em seu comentário final sobre as obras da carne (Gl.5:21) – “…a respeito das quais eu vos declaro, como já, outrora, vos preveni, que não herdarão o reino de Deus os que tais cousas praticam“. Por isso, essa natureza carnal pecaminosa precisa ser resistida e mortificada numa guerra espiritual contínua, que o crente trava através do poder do Espírito Santo. Há uma ligação inegável entre nossa conduta e nossa salvação eterna. A pessoa que não permite ao Espírito mudar totalmente sua vida e remover tal carnalidade não receberá o prêmio de um lar eterno com Deus. Devemos ser transformados de dentro para fora (cf. Rm.12:1-2).

III. FRUTO DO ESPÍRITO, UM CHAMADO PARA SANTIDADE

 

  1. O que é o Fruto do Espírito? Segundo o Dicionário Bíblico Wycliffe, “o Fruto do Espírito são os hábitos e princípios misericordiosos que o Espírito Santo produz em cada cristão”. Esses hábitos e princípios são o resultado de uma vida de comunhão com Deus. De acordo com Romanos 6:22, depois de liberto do pecado, o crente precisa desenvolver o Fruto do Espírito. O ensino de Jesus a respeito da videira verdadeira mostra que não pode haver um indivíduo que seja salvo e não produza o fruto do Espírito Santo.

É muito significativo que o apóstolo Paulo diferencie obras da carne e Fruto do Espírito. Obras são realizadas pela força humana. Fruto é produzido quando o ramo permanece na vide (cf. João 15:5). A diferença é a mesma que existe entre uma fábrica e um jardim. Observe que a palavra Fruto, em Gálatas 5:22, está no singular, e não no plural. O Espírito Santo produz uma só qualidade de fruto, quer dizer, semelhança com Cristo. As virtudes alistadas em Gálatas 5:22 descrevem a vida do Filho de Deus.

– Amor é o que Deus é e o que devemos ser. É descrito de maneira maravilhosa em 1Corintios 13 e demonstrado na sua plenitude na cruz do Calvário.

– Alegria no Senhor é contentamento e satisfação com Deus e com sua maneira de lidar com o homem. Cristo a manifestou em João 4:34 – “Jesus disse-lhes: A minha comida é fazer a vontade daquele que me enviou e realizar a sua obra”.

– Paz pode incluir a Paz de Deus, assim como as relações harmônicas entre cristãos. Para ver a Paz na vida do Redentor, deve-se olhar para Lucas 8:22-25 (Jesus apazigua uma tempestade).

– Longanimidade é a paciência diante das aflições, irritações e perseguições. O exemplo supremo disso se encontra em Lucas 23:34 – “E dizia Jesus: Pai, perdoa-lhes, porque não sabem o que fazem. E, repartindo as suas vestes, lançaram sortes”.

– Benignidade é carinho, talvez melhor ilustrado na atitude do Senhor para com as criancinhas – “Jesus, porém, vendo isso, indignou-se e disse-lhes: Deixai vir os pequeninos a mim e não os impeçais, porque dos tais é o Reino de Deus” (Mc.10:14).

– Bondade é doçura mostrada aos outros. Para ver bondade em ação, basta ler Lucas 10:30-35 (A parábola do Bom Samaritano).

– Fidelidade pode significar confiança em Deus e nos amigos; lealdade é ser digno de confiança.

– Mansidão é tomar um lugar humilde, como Jesus fez quando lavou os pês dos discípulos (João 13:1-17).

– Domínio próprio significa literalmente controlar a si mesmo, especialmente com respeito a sexo e dinheiro. Nossa vida deve ser disciplinada. Luxúria, paixões, apetites e o mau gênio devem ser governados. Devemos praticar moderação.

William Macdonald, resumidamente, citando um jornal inglês, define Fruto do Espírito da seguinte forma: “O Fruto do Espírito é uma disposição afetuosa e amorosa; um espírito radiante e um gênio alegre; uma mente tranquila e um comportamento calmo; uma paciência que persevera sob circunstâncias provocantes e com pessoas que irritam; é ter compreensão compassiva; é ser um ajudador com tato; é ter juízo generoso e amor de largo coração, ser fiel e digno de confiança sob todas as circunstâncias; é humildade que faz alguém se esquecer de si mesmo na alegria dos outros; é ser mestre de si mesmo e ter autodomínio em todas as coisas, é o que representa a marca final de perfeição”.

  1. Os frutos provam a nossa verdadeira santidade. A Salvação é a condição primeira para que o Espírito Santo possa habitar no “Coração” do homem. Sendo Deus, Ele é Santo; sendo Santo Ele não pode conviver com o pecado. Resolvido o problema do pecado, através do Novo Nascimento, então o homem se torna Santo, e, por conseguinte, o Espírito Santo pode habitar nele – “Não sabeis vós que sois o templo de Deus e que o Espírito de Deus habita em vós? (1Co.3:16). O Espírito Santo não pode habitar num templo que não tenha sido purificado pelo sangue de Jesus.

A salvação é um processo que traz o homem à comunhão com Deus, pois retira o pecado do homem, que era o que fazia separação entre ele e Deus (Is.59:2). Este processo é uma verdadeira transformação, que muda o homem completamente, atingindo o homem como um todo – corpo, alma e espírito. “Assim que, se alguém está em Cristo, nova criatura é: as coisas velhas já passaram; eis que tudo se fez novo” (2Co.5:17). Assim sendo, a salvação, necessariamente, vem acompanhada de uma mudança de atitudes, de uma mudança de hábitos, de uma mudança de práticas. O homem que alcança a salvação passa a ter um novo conjunto de qualidades, um novo conjunto de atitudes, “não anda mais segundo a carne, mas, segundo o Espírito” (Rm.8:1).

  1. A formação do Fruto do Espírito. A formação do Fruto do Espírito cria as condições para que o homem se torne frutífero. O Fruto do Espírito é formado pelo trabalhar do Espírito Santo na vida do homem. Isto acontece na proporção em que o homem dá lugar ao Espírito Santo em sua vida. Sempre lembrando que esse Fruto só pode ser formado na vida, ou no “coração” do homem salvo, ou nascido de novo.

Na medida em que o Fruto do Espírito vai se formando e se desenvolvendo na vida do homem de Deus, este, movido pelas virtudes de Deus que vão sendo transmitidas e aderidas ao seu Caráter, vai se tornando mais e mais apto a dar frutos, muitos frutos – “Nisto é glorificado meu Pai: que deis muito fruto; e assim sereis meus discípulos”. “Toda árvore que não dá bom fruto corta-se e lança-se no fogo. Portanto, pelos seus frutos os conhecereis”. É, pois, pelo que fazemos, e não pelo que falamos, que nos tornamos discípulos de Jesus.

É válida ressaltar que a formação do Fruto do Espírito não acontece num único ato, mas, é um processo formado por muitos atos – “Até que todos cheguemos… a varão perfeito, à medida da estatura completa de Cristo”(Ef.4:13). É, pois, um longo processo de formação, desenvolvimento e maturação. A formação de qualquer fruto, da semente gerada ao fruto maduro, será sempre um tempo prolongado. Assim, o Fruto do Espírito representa o que o homem é, fala do seu tempo andando com Deus.

CONCLUSÃO

Como vimos, no campo do nosso coração ainda se trava uma guerra sem pausa, o conflito permanente entre a carne e o Espirito (cf.Gl.5:17). Para vencermos este conflito, precisamos tão somente nos encher do Espírito Santo e crucificar a nossa carne com suas paixões e concupiscências (Gl.5.24; Ef.5.18). É bom lembrar que fomos salvos da condenação e do poder do pecado, mas não ainda da presença do pecado.

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Luciano de Paula Lourenço

Disponível no Blog: http://luloure.blogspot.com

Referências Bibliográficas:

Bíblia de Estudo Pentecostal.

Bíblia de estudo – Aplicação Pessoal.

Comentário Bíblico popular (Novo Testamento) – William Macdonald.

Comentário do Novo Testamento – Aplicação Pessoal. CPAD.

Revista Ensinador Cristão – nº 69. CPAD.

Rev. Hernandes Dias Lopes. Gálatas, a carta da liberdade cristã.

Ev. Caramuru Afonso Francisco. O Fruto do Espírito Santo e o caráter cristão. PortalEBD_2005.

Publicado no Blog do Luciano de Paula Lourenço

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