A Organização de uma Igreja Local – Dr. Adaylton Almeida

Prof.  Pr. Adaylton de Almeida Conceição

INTRODUÇÃO

Essa é uma das cartas pastorais escritas pelo apóstolo Paulo. É a mais breve delas. As cartas pastorais são orientações práticas do veterano apóstolo aos seus filhos na fé, Timóteo e Tito, ensinando-lhes a maneira certa de agirem à frente da igreja de Deus, como representantes do apóstolo e pastores do rebanho.

O remetente da carta.

É consenso universal que o autor dessa carta a Tito é o apóstolo Paulo. As evidências são tanto internas quanto externas. Os pais da igreja, como Clemente de Roma, Inácio de Antioquia e Policarpo, os reformadores e todos os fiéis expositores da Palavra deram apoio unânime à autoria paulina. O Cânon muratório, que lista os livros do Novo Testamento, atribui os três livros (I, II Timóteo e Tito) a Paulo.

 

CARACTERÍSTICAS

Como as outras Epístolas pastorais, esta carta também é de natureza pessoal. Ela não foi dirigida a alguma igreja individual ou a um grupo de igrejas, mas a uma única pessoa, um dos filhos espirituais de Paulo e colaboradores na obra do Senhor. Ao mesmo tempo, ela não é tão pessoal quanto 2 Timóteo, mas tem um caráter distintamente semi-privado. É perfeitamente evidente a partir da própria Epístola (cf. 2:15) que seu ensino foi também tencionado para a igreja em Creta, a qual Tito estava ministrando.

Nesta carta Paulo afirma mais uma vez a divindade de Cristo, usando livremente o título de “Salvador” nos mesmos contextos tanto para Deus (1.3; 2.10; 3.4) quanto para Cristo (1.4; 2.13; 3.6). Em 2.13 ele enfatiza “Nosso grande Deus e Salvador, Cristo Jesus”.

 

A pessoa a quem a Epístola foi escrita.

Paulo dirigiu a carta a “Tito, meu verdadeiro filho, segundo a fé comum”, 1:4. Seu nome significa “louvável”.  Não encontramos Tito em Atos dos Apóstolos, que é muito notável, visto que ele foi um dos companheiros mais fiéis de Paulo. Por essa razão, alguns imaginam que ele deve ser identificado com algum dos outros colaboradores de Paulo, como Timóteo, Silas ou Justo, Atos 18:7.

 

Ele é primeiramente mencionado em Gl. 2:1, 3, onde aprendemos que ele era grego, mas não foi compelido a se submeter à circuncisão, para que Paulo não desse aos seus inimigos um argumento contra ele mesmo. De Tito 1:4 inferimos que ele era um dos convertidos do apóstolo, e Gal. 2:3 nos informa que ele acompanhou Paulo no concílio de Jerusalém. Ele provavelmente levou 1 Coríntios ao seu destino, 2Co. 2:13, e após seu retorno a Paulo, foi enviado a Corinto de novo para completar a coleta para os santos na Judéia, 2Co. 8:16ss. Muito provavelmente ele também foi o portador de 2 Coríntios. Quando ouvimos novamente sobre ele, está na ilha de Creta, responsável pela (s) igreja (s) que tinha (m) sido fundada (s) ali, Tito 1:4-5, e é solicitado a se unir a Paulo em Nicópolis, 3:12.

 

A EPÍSTOLA ENVIADA A TITO

 

O vazio produzido pela partida de um líder forte pode arruinar um movimento, organização ou instituição. Tendo sido dependentes da habilidade, estilo, e personalidade desse líder, associados e subordinados passam a se debater ou competir pelo controle. Logo a eficiência e a vitalidade são perdidas, e o declínio e o desaparecimento surgem no horizonte. Este padrão se repete frequentemente nas igrejas. Grandes oradores e ensinadores reúnem discípulos, e logo floresce uma igreja viva, vigorosa e efetiva. Mas quando este líder parte ou morre, leva consigo o vigor e o ânimo da organização. Mas Paulo sabia que a igreja deveria ser edificada em Cristo, não em qualquer outra pessoa. O apóstolo sabia que no final não estaria presente para edificar, encorajar, disciplinar e ensinar. Então treinou jovens pregadores para que assumissem a liderança nas igrejas após sua partida. Paulo os exortou a centrarem suas vidas e sua pregação na Palavra de Deus (2 Tm 3.16,17), e a treinarem outros para que o ministério tivesse continuidade (2 Tm 2.2).

 

Tito era um crente grego. Ensinado e discipulado por Paulo, permaneceu diante dos líderes da Igreja em Jerusalém como um exemplo vivo do que Cristo estava fazendo entre os gentios (Gl 2.1-3). Como Timóteo, foi um dos confiáveis companheiros de viagem de Paulo e um de seus amigos mais íntimos. Mais tarde tornou-se um embaixador especial de Paulo (2 Cr 7.5-16) e no final, o lider das Igrejas em Creta (1.5). Lenta e cuidadosamente, Paulo transformou Tito em um cristão maduro e um líder responsável. A carta a Tito foi um passo neste processo de discipulado. Do mesmo modo que fez com Timóteo, Paulo instruiu Tito sobre como organizar e liderar as igrejas.

 

Propósitos da Epístola.

Destacamos três propósitos do apóstolo Paulo ao escrever essa carta:

Em primeiro lugar, encaminhar Zenas e Apolo (3.13). Essa carta de Paulo a Tito serviu como mensagem de recomendação para Zenas, o intérprete da lei, e Apolo, o eloquente evangelista, que foram também os portadores da missiva.

 

Em segundo lugar, pedir para Tito encontrar-se com Paulo em Nicópolis (3.12). Assim que Tito tivesse concluído seu trabalho, deveria deixar Creta para encontrar-se com Paulo em Nicópolis, antes da chegada do inverno. É muito provável que eles tenham se encontrado nessa cidade, uma vez que quando Paulo escreveu sua última carta a Timóteo, da prisão romana, disse que Tito tinha ido à Dalmácia (2Tm 4.10).

 

Em terceiro lugar, dar instruções pastorais acerca do que à igreja deveria fazer. Tito deveria dar instruções à igreja para a promoção do espírito de santificação nas relações  eclesiásticas, individuais, familiares e sociais. Desses três propósitos enunciados, o último é o que cobre a maior parte da carta.

Paulo começa com uma saudação e uma introdução mais longa do que as habituais, esboçando a progressão da liderança: o ministério de Paulo (1.1-3), as responsabilidades de Tito (1.4,5) e os líderes que Tito designaria e treinaria (1.5). Paulo então lista qualificações pastorais (1.6-9) e contrasta os presbíteros fiéis com os falsos líderes e mestres (1.10-16).

 

Em seguida, Paulo enfatiza a importância das boas obras na vida do cristão, dizendo a Tito como se relacionar com pessoas de variadas faixas etárias na igreja (2.2-6). Ele exorta Tito a ser um bom exemplo de um crente maduro (2.7,8) e a ensinar com coragem e convicção (2.9-15). Discute então as responsabilidades (3.1-8) e deveria evitar discussões que trouxessem divisão (3.9-11). Paulo conclui com questões relacionadas a itinerários e saudações pessoais (3.12-15).

 

A carta de Paulo a Tito é breve, porém é um vínculo importante no processo de discipulado, ajudando um jovem a tornar-se um líder da igreja. Ao ler esta carta pastoral, você aumentará seu conhecimento em relação à organização e à vida da Igreja Primitiva, e encontrará princípios para estruturar as igrejas contemporâneas. Mas aprenderá também como ser um líder cristão responsável. Leia a carta a Tito e, como Paulo, treine homens e mulheres para liderar e ensinar aos outros.

 

Ocasião e Data.

Embora o Novo Testamento não registre um ministério de Paulo em Creta, passagens como 1.5 indicam claramente que ele e Tito conduziram uma missão lá. Essa campanha provavelmente tenha acontecido em alguns momentos durante 63-64 d.C, após a libertação de Paulo de sua primeira prisão em Roma. Como tinha pouco tempo, Paulo deixou Tito em Creta para cuidar de novas igrejas. Então o apóstolo partiu para outras áreas de trabalho. Em algum momento a caminho de Nicópolis, na Grécia (3.12), ele escreveu para Tito; provavelmente foi escrita na Macedônia. A carta dá indicações de ter sido escrita durante o outono, provavelmente por volta de 64 dC (3.12).

 

Os cretenses não tinham uma reputação muito boa, 1:12, e alguns não criam no caráter reputado deles, mesmo após se voltarem para Cristo. Aparentemente, os erros que tinham se

infiltrado na(s) igreja(s) eram muito similares àqueles com os quais Timóteo teve que combater em Éfeso, embora provavelmente o elemento judaizante era ainda mais proeminente, 1:10, 11, 14; 3:9.

 

Versículo Chave – “Por esta causa te deixei em Creta, para que pusesses em boa ordem as coisas que ainda restam e, de cidade em cidade, estabelecesses presbíteros, como já te mandei [instruí]” (1.5)

 

Conteúdo.

A carta a Tito tem uma afinidade com 1 Timóteo. Ambas as epistolas são endereçadas a jovens homens aos quais tinham sido designados de liderança responsável em suas respectivas igrejas durante a ausência de Paulo. Ambas as epístolas ocupam-se com as qualificações daqueles que devem liderar a ensinar as igrejas. Tito tinha três grandes temas– a organização da igreja, a doutrina correta e a vida santa. Tito tinha de ordenar os presbíteros em cada cidade onde existia o núcleo de uma congregação. Eles deviam ser homens de alto caráter moral, e deveriam ser inflexíveis em questões de princípio, mantendo a verdadeira doutrina apostólica e sendo capazes de reprovar os opositores.

 

O PASTOR E A PROTEÇÃO DO REBANHO

 

As cartas pastorais trazem princípios práticos que orientam a igreja acerca do modo correto de proceder diante dos perigos externos e dos conflitos interiores. Muitas igrejas são assediadas por falsos mestres e assaltadas por falsas doutrinas Outras têm suas energias drenadas em intérminos conflitos internos, que tiram o foco da igreja de sua verdadeira missão, que é adorar a Deus e fazer a sua obra.

 

A igreja evangélica brasileira cresce espantosamente. Porém, a igreja tem extensão, mas não profundidade. Tem número, mas não credibilidade. Tem desempenho, mas não piedade. Cresce vertiginosamente o número de igrejas que abandonaram a sã doutrina e abraçaram o pragmatismo com o propósito de crescer numericamente.

 

Muitas igrejas parecem mais um supermercado que disponibilizam seus produtos ao gosto da freguesia. Pregam o que o povo quer ouvir, e não o que precisa ouvir. Falam para entreter, e não para levar ao arrependimento. Pregam palavras de homens, e não a Palavra de Deus. Tudo isso porque há nas igrejas um descompasso entre teologia e vida. A igreja de Deus precisa ser zelosa da doutrina e também da vida. Paulo escreveu a Timóteo, dizendo: “Tem cuidado de ti mesmo e da doutrina…” (1Tm 4.16). A igreja de Éfeso era zelosa da doutrina e descuidada no amor (Ap 2.2-4). A igreja de Tiatira era zelosa quanto ao amor, mas desatenta quanto à doutrina (Ap 2.18-20).

As duas igrejas foram solenemente exortadas e repreendidas por Cristo. Precisamos subscrever a ortodoxia sem deixar de lado a ortopraxia. Precisamos de teologia boa e de vida

santa.

 

Qualificação dos Pastores/Presbíteros

As qualificações relacionadas (1:6-9) indicam claramente que um presbítero precisa ser homem casado e com filhos cristãos. Precisa ser instruído na palavra de Deus e maduro espiritualmente, tendo aplicado essa instrução em sua própria vida. Precisa ser capaz de usar seu entendimento da palavra de Deus tanto para exortar como para corrigir outros (1:9).

Mestres competentes tais como presbíteros eram necessários para reprovar muitos falsos mestres que, em seu desejo de ganho financeiro, estavam desencaminhando famílias inteiras (1:10-11). Paulo citou um dos escritores cretenses, observando que sua descrição desprimorosa dos cretenses era perfeita (1:12-13)! Paulo mandou que Tito reprovasse rispidamente aqueles cretenses que estavam ensinando fábulas judaicas e mandamentos dos homens (1:13-14). E ainda descreveu esses homens, observando como que eles achavam o mal em tudo porque suas mentes e consciências estavam contaminadas (1:15). Ainda que declarassem estar em comunhão com Deus, eles O negavam pelas suas obras e, como resultado, eram abomináveis, desobedientes e desqualificados para qualquer boa obra (1:16).

 

O cuidado com os falsos mestres e os crentes superficiais

Paulo previne Tito contra os falsos doutores, que utilizam de falsos argumentos para envolver as consciências ainda em formação. “Afirmam conhecer a Deus, mas negam-no com os seus atos, pois são abomináveis, desobedientes e incapazes para qualquer boa obra”.

 

As igrejas em Creta vinham sendo perturbadas por falsos mestres, os quais ministravam por ganância, porque as igrejas primitivas se reuniam em casas de convertidos. Paulo chama esses indivíduos de abomináveis e desobedientes (1.16) e diz que é preciso que esse pessoal tenha a boca fechada. Exige que sejam tratados com severidade.

Paulo afirma que o falso conhecimento de Deus repercute na conduta que é incompatível com a conduta daquele que compreende o Deus cristão. Informa que os falsos mestres são conhecíveis também pela vida pecaminosa que levam. Paulo cita Epimêndes (um professor de religião que viveu em Creta por volta de 500 a.C que já naquele tempo reconhecia o caráter deformado dos cretenses a mentira, glutonaria, preguiça no modo como conduziam suas vidas).

Meyer Pearlman menciona quatro características desses falsos mestres: 1) quanto a seu caráter, eram insubordinados, enganadores e faladores (1.10); 2) quanto às suas motivações, eram gananciosos (1.11,12); 3) quanto ao seu ensino, eram apegados às tradições judias e lendas (1.14), exigindo abstinência de alimentos (1.15); 4) quanto às suas pretensões, professavam ser verdadeiros mestres do evangelho, mas sua vida pecaminosa desmentia a sua profissão.

A igreja não deveria ficar apenas na defensiva, combatendo os falsos mestres, mas deveria, sobretudo engajar-se no ensino da sã doutrina.

 

As recomendações do Apóstolo Paulo a Tito concernente à igreja.

Pede a seu discípulo para ensinar e divulgar com insistência os deveres e obrigações dos cristãos em relação à “sã doutrina”. “Quanto a ti, fala do que pertence a sã doutrina. Que os velhos sejam sóbrios, respeitáveis, sensatos, fortes na fé, na caridade e na perseverança”.

Paulo sugere que busquemos ser puros ao evitarmos as coisas que contaminam nossas mentes e consciências. E, em seguida, Paulo faz uma afirmação que jamais deve ser esquecida: “Eles afirmam que conhecem a Deus, mas por seus atos o negam; são detestáveis, desobedientes e desqualificados para qualquer boa obra” (Tito 1:16). Como cristãos, devemos examinar nossas próprias vidas a fim de garantir que se alinhem com a nossa profissão de fé em Cristo (2 Coríntios 13:5).

Junto com esse aviso, Paulo também nos diz como evitar negar a Deus: “ele nos salvou pelo lavar regenerador e renovador do Espírito Santo, que ele derramou sobre nós generosamente, por meio de Jesus Cristo, nosso Salvador” (Tito 3:5b-6).

 

Paulo exorta também para que os cristãos levem uma vida que agrade a Deus. O modo de ser cristão tem que ser um modo de ser diferente do mundano. Que conduza o pagão a salvação em Cristo, não sendo motivo de escárnio e de contendas. Seu comportamento deve silenciá-los para serem irrepreensíveis, para que fiquem envergonhados em não poderem fazer-lhes mal algum. Que a conduta dos cristãos torne-os atraentes em tudo que é puro e bom, para que se atenham ao que agrada a Deus. Para que através de seus atos não difamem a Deus./////

 

Pr. Dr. Adaylton Conceição de Almeida (Th. B.; Th.M.; Th.D.; D.Hu.)

 

Blog: www.adayltonalm.spaceblog.com.br

Facebook: Adayl Manancial

Email: adayl.alm@hotmail.com

 

NOTA. O Pr. Adaylton de Almeida Conceição é Bacharel, Mestre e Doutor em Teologia, Escritor, Jornalista Profissional, Professor Universitário, Psicanalista e Pós Graduado em Ciências Políticas; Doutor HC em Psicologia e em Humanidade. Diretor da Faculdade Teológica Manancial, e Professor do Seminário Teológico Kerigma.

 

BIBLIOGRAFIA

– Adaylton de Almeida Conceição – Introdução às Epistolas Pastorais

– Bíblia de Estudo Dake

– Frank Thielman – Teologia do Novo Testamento –

– George Ladd – Teologia do Novo Testamento

– J. Dias – Estudo da Carta de Paulo a Tito

– Louis Berkhof – A Epístola a Tito

– Marco Dubeux – Epistola a Tito

Publicado no blog do Prof. Dr. Adaylton Almeida

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