Perseverança e Fé em Tempo de Apostasia – IEADPE

Perseverança e Fé em Tempo de Apostasia – IEADPE

Igreja Evangélica Assembleia de Deus em Pernambuco

Superintendência das Escolas Bíblicas Dominicais

Pastor Presidente: Aílton José Alves

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LIÇÃO 06 – PERSEVERANÇA E FÉ EM TEMPOS DE APOSTASIA

1º TRIMESTRE DE 2018 (Hb 6.1-15)

INTRODUÇÃO

Nesta lição, veremos uma definição de apostasia; pontuaremos a diferença entre apostatar e desviar; e por fim, faremos uma análise exegética de maneira minuciosa de hebreus 6.4-8 analisando versículo por versículo.

I – DEFINIÇÃO DA PALAVRA APOSTASIA

1.1 Apostasia. O termo apostasia é descrito comumente pelo termo hebraico “meshuvah” e do grego “apóstasis” que significa: “o abandono premeditado e consciente da fé cristã”. Já o verbo “aphistemi”, de onde se originou “apostasia”, é traduzido como: “renegar, apartar, decair, desertar, retirar, deixar, rebelar, abandonar, afastar-se daquilo que antes se estava ligado” (STAMPS, 1995, p. 1903). O termo aparece no NT com o sentido de “declínio religioso em relação a Deus, cortar o relacionamento salvífico com Cristo, ou apartar-se da união vital com Ele” (At 21.21; 2Ts 2.3; 1Tm 4.1; Hb 3.12; 2Tm 4.3). Nossa Declaração de fé (2017, p. 114) nos diz: “Mediante o mau uso do livre arbítrio, o crente pode apostatar da fé, perdendo, então a sua salvação”. Sendo assim, a apostasia só é possível para quem já experimentou a salvação (Lc 8.13; Hb 6.4,5) (ANDRADE, 2006 p. 56).

II – DIFERENÇA ENTRE APOSTASIA E DESVIO

De início, é bom lembrar que a apostasia não é um pecado qualquer, nem tampouco um tropeço que o cristão teve na sua caminhada, não é um mero desvio moral ou um acidente espiritual. Apostasia é: “uma ruptura completa da vida com Jesus, é o abandono da verdade divina experimentada. É a negação da fé por aqueles que antes a sustentavam”. O teólogo Merril define a apostasia como: “um ato de um cristão, que, consciente e deliberadamente, rejeita a verdade revelada da divindade de Cristo e a redenção mediante seu sacrifício expiatório” (GONÇALVES, 2018, p. 134).

2.1 A apostasia. A palavra “impossível” do grego “adynatos” usada em Hebreus 6.4 como referência à impossibilidade de o apóstata arrepender-se novamente, ocorre dez vezes no NT. O autor de Hebreus usa esse termo outras três vezes em sua carta (Hb 6.18; 10.4; 11.6), em todos esses textos, essa impossibilidade aparece de forma absoluta, como algo real, e não como uma mera hipótese. O apóstata é alguém que rejeita completamente e irreversivelmente a Jesus, seu sacrifício e a toda verdade bíblica. O único caso sem esperança é o do apóstata que rejeita o evangelho depois de haver sido salvo pela graça ou convencido da verdade do evangelho (Hb 3.12; 6.4-6). Para o tal, já não resta mais sacrifício pelo pecado (1Jo 5.16). A Bíblia está repleta de exemplos de pessoas que caíram e permaneceram prostradas, recusando se arrependerem conscientemente, voluntariamente, intencionalmente e deliberadamente (Hb 10.26-31). O apóstolo Paulo diz: “Mas o Espírito expressamente diz que, nos últimos tempos, apostatarão alguns da fé, dando ouvidos a espíritos enganadores e a doutrinas de demônios” (1Tm 4.1). Fica claro que a apostasia é algo que acontece dentro do contexto da igreja (GONÇALVES, 2018, p. 137).

2.2 O desvio. A palavra “desvio” vem das expressões gregas “parabaino; astocheo, ektrepo, apoplanao” (At 1.25; 1Tm 1.6; 19; 5.15; 6.10; Hb 2.1; 12.25) que significa: “negligenciar, violar, transgredir, desviar”. O homem não deve, mas, pode cair repentinamente em uma falta ou ainda andar em pecado e, no entanto, não rejeitar o evangelho nem negar ao Senhor que lhe comprou (Lc 15.11-24). Sua situação é temerária e perigosa, mas não sem esperança como o apóstata (Hb 6.4). Embora entendamos que cair numa fragilidade seguida de contrição e arrependimento sincero não implica na apostasia como observemos o caso de Davi e Pedro (2Sm 11.4; 12.13; Sl 51.1-19; Mc 14.66-72). Estes e outros casos mostram que é possível o crente “perder” a salvação que lhe foi concedida se este através do desvio der as costas ao Senhor que os resgatou (Êx 32.31-33; Jo 15.2; Rm 11.22,23; 1Co 15.2; Hb 3.6,7,15; Ap 3.5) (WILEY, 2013, pp. 288,289)

III – A REALIDADE DA APOSTASIA EM HEBREUS 6.4-8

As evidências demonstram inquestionavelmente que o texto de Hebreus descreve uma situação de afastamento, de abandono e queda da fé. Esta passagem está relacionada a continuação da que se encontra em Hebreus 5.11-14. Notemos:

3.1 “Porque é impossível que os que já uma vez foram iluminados […]” (Hb 6.4a). Os não-salvos, diz a Bíblia, estão em trevas (1Jo 2.11; Ef 5.11; Lc 11.35), e não “iluminados” (Jo 16.8), pois, o não-regenerado não está “de pé”, ele está caído (Ef 2.1). Os não-salvos também não possuem dons espirituais, que são dados pelo Espírito Santo aos que creem (1Co.12:4-31). Os não-salvos também não são participantes do Espírito Santo, pois Ele só habita naqueles que foram uma vez regenerados (Ef. 4.30). Essas pessoas haviam testemunhado o fato de que a salvação era a realidade inquestionável em suas vidas. A palavra “impossível” do grego “adynatos”, dá a ideia de algo irreversível. Dentro desse contexto, o termo é usado em relação àqueles que caíram e não mais podem ser restaurados ao arrependimento. O termo grego “photisthentas” “iluminado” é usado tanto no contexto do NT como aqui em Hebreus como se referindo a pessoas salvas (2Co 4.6; Hb 10.32; Jo 8.12; 2Pe 1.19), essa iluminação é uma referência à conversão. De fato, o autor novamente usa esse mesmo termo em Hebreus 10.32 para referir-se à experiência da conversão: “Lembrai-vos, porém, dos dias anteriores, em que, depois de iluminados, sustentastes grande luta e sofrimentos”. Primeiramente, o escritor aos Hebreus mostra que o apóstata é alguém que anteriormente foi iluminado, mas renegou a sua nova vida em Cristo. Aqui, o iluminado era alguém que se convertera e que, portanto, fazia parte da igreja (GONÇALVES, 2018, pp. 64,139).

3.2 “[…] e provaram o dom celestial […]” (Hb 6.4b). A palavra “geusamenous”, traduzida como provaram, significa: “provar no sentido de sentir, ter a experiência de, experimentar algo tendo participado pessoal e conscientemente”. Alguns expositores, na tentativa de negar a possibilidade do fracasso na fé mostrada nesse texto, procuram fazer uma diferença entre “provar” e “experimentar”. Alguns argumentam que a palavra “geusamenous” (provar) é usada em Mateus 27.34 para mostrar que Jesus “provou” o vinagre, mas não o “bebeu”. Todavia, essa exegese não fica de pé diante de Hebreus 2.9, onde esse mesmo termo grego revela que “provar e experimentar” são usados de forma intercambiável de acordo com a conveniência do contexto. Seria um contrassenso dizer que Jesus “provou”, mas não “experimentou” a morte. A interpretação que tenta transformar “os que provaram o dom celestial” em descrentes ou crentes, porém não regenerados, não se sustenta por razões contextuais, gramaticais e léxicas (GONÇALVES, 2018, pp. 64,140). Por conseguinte, a afirmativa “dom” vem da expressão grega “dorea” que aplica-se apenas aos salvos (At 2.38; 8.20; 10.45; Ef 4.7) (WILEY, 2013, p. 290).

3.3“[…] e se fizeram participantes do Espírito Santo […]” (Hb 6.4c). Os que podem cair da graça são aqueles que renunciaram a esse dom. É evidente que essa advertência só tem validade para os crentes regenerados, visto que ninguém pode tomar-se participante do Espírito Santo sem que antes nasça de novo (Jo 14.17; At 2.38; 5.32; Rm 8.9; Tt 3.5-7; Hb 3.1, 14). Essa terminologia “participantes” faz com que seja impossível que o autor esteja falando de pseudocrentes (falsos crentes), porque apenas os verdadeiros se tomam participantes do “Ruach HaKodesh” (Espírito Santo) (GONÇALVES, 2018, pp. 64,140). O termo grego “metochos” significa: “compartilhando, participando, parceiro, companheiro”, e está corretamente traduzida como participantes porque existe uma comunhão entre Cristo e os crentes verdadeiros. Assim, a expressão “participantes do Espírito Santo” só tem sentido em relação a crentes (WILEY, 2013, pp. 290,291). Os que caíram foram, de uma vez por todas, feitos participantes “metochous genethentas” do Espírito Santo (Hb 6.4). Esse texto mostra que Deus fez com que eles participassem do Espírito Santo de maneira pessoal e íntima, mas depois voluntariamente caíram (GONÇALVES, 2018, p. 64).

3.4 “E provaram a boa Palavra de Deus[…]” (Hb 6.5a). O autor da Epístola volta a usar a palavra provaram. Seu propósito é salientar a experiência de provar e desfrutar da plenitude da vida nova e abundante. O vocábulo “hrema” é, às vezes, usado para denotar toda a Palavra de Deus, mas, aqui, significa mais especialmente as promessas, que, para os que as abraçam, tornam-se a fonte de ininterrupta vida e poder. O uso da palavra “kalon”, que é a palavra “boa”, parece favorecer esta interpretação. Quando a Palavra de Deus é expressa pelo termo “logos” diz respeito mais particularmente à mensagem ou ao conteúdo da Palavra. Mas, quando expressa por “hrema”, refere-se principalmente à palavra expressa ou falada (WILEY, 2013, pp. 291,292).

3.5 “[…] e os poderes do mundo vindouro” (Hb 6.5b). Esse versículo também só tem sentido quando visto em referência a crentes. Eles já haviam sido “iluminados, provado do dom celestial e participado do Espírito Santo”. Agora, é mostrado que eles também provaram da palavra de Deus e conheceram as virtudes do século vindouro, eram, portanto, crentes de verdade (WILEY, 2013, p. 292). O apóstata é alguém que não apenas provou do dom celestial (Hb 6.4), mas também “provou da Palavra de Deus e das virtudes do século vindouro”. O mesmo termo grego usado no versículo 4 para “provar, experimentar”, também é usado aqui no versículo 5 “geusamenos”. Eles não apenas “experimentaram”, mas também “descobriram a verdade da palavra de Deus quanto o antegozo do que era viver na eternidade”. Essa queda não foi algo superficial, mas tão profundo ao ponto de que elas “crucificaram o Filho de Deus”.

3.6 “E depois recaíram, sejam outra vez renovados para o arrependimento […]” (Hb 6.6a). O texto fala que depois que caíram, não poderiam mais ser reconduzidas ao arrependimento. Se elas não podem ser reconduzidas ao arrependimento, é porque já se arrependeram uma vez. O texto também diz que eles recaíram, e, se eles recaíram, é porque estavam de pé antes. O autor alerta que a queda na fé é uma possibilidade real e que, nesse aspecto, a apostasia é um caminho sem volta. A “recaída” fala de alguém que estava se recuperando de uma doença, mas que negligenciou sua total recuperação. Pedro advertiu sobre isso dizendo: “Porquanto se, depois de terem escapado das corrupções do mundo, pelo conhecimento do Senhor e Salvador Jesus Cristo, forem outra vez envolvidos nelas e vencidos, torna-se-lhes o último estado pior do que o primeiro” (2Pe 2.20-22). O termo “anastaurountas” indica a impossibilidade do apóstata arrepender-se e recomeçar de novo. O que o autor da Epístola disse, portanto, é que é impossível renovar outra vez para arrependimento os que recaíram, visto que, de novo, estão “crucificando para si mesmos o Filho de Deus e expondo-o à ignomínia” (WILEY, 2013, p. 294).

3.7 “Porque a terra que embebe a chuva que muitas vezes cai sobre ela e produz erva proveitosa para aqueles por quem é lavrada recebe a bênção de Deus” (Hb 6.7). A apostasia leva a pessoa a retroceder na vida espiritual e impossibilita o sentimento de arrependimento. O versículo 7 ilustra a vida frutífera do cristão que cresce diariamente na graça e no conhecimento do Senhor. Entretanto, por outro lado, o versículo 8 representa a vida do apóstata que produz mau fruto. “Mas a que produz espinhos e abrolhos é reprovada e perto está da maldição; o seu fim é ser queimada” (Hb 6.8). Um coração incrédulo e endurecido pelo pecado foi a causa que impediu os crentes do antigo concerto de entrar no descanso provido por Deus: “E vemos que não puderam entrar por causa da sua incredulidade” (Hb 3.19). (GONÇALVES, 2018, p. 131).

CONCLUSÃO

Longe de querer provocar insegurança nos seus leitores, o autor de Hebreus tenciona conduzi-los à maturidade cristã. O seu desejo é produzir ânimo, esperança e fé em tempos de apostasia: “Desejamos, porém, continue cada um de vós mostrando, até ao fim, a mesma diligência para a plena certeza da esperança” (Hb 6.11). Todavia, sem ignorar os perigos da caminhada, ele faz severas advertências. Os perigos existem: “Tende cuidado, irmãos, jamais aconteça haver em qualquer de vós perverso coração de incredulidade que vos afaste do Deus vivo” (Hb 3.12).

REFERÊNCIAS

STAMPS, Donald C. Bíblia de Estudo Pentecostal. CPAD.

VINE, W.E, et al. Dicionário Vine. CPAD.

WILEY, Orton. A excelência da nova aliança em Cristo. Central Gospel.

GONÇALVES, José. A supremacia de Cristo Fé, esperança e ânimo na carta aos Hebreus. CPAD.

Publicado no site da Rede Brasil de Comunicação

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