Paz de Deus: Antídoto contra as Inimizades – Luciano de Paula Lourenço

Texto Base: Efésios 2:11-17

 “Deixo-vos a paz, a minha paz vos dou; não vo-la dou como o mundo a dá. Não se turbe o vosso coração, nem se atemorize” (João 14:27).

INTRODUÇÃO

Dando continuidade ao estudo do trimestre trataremos nesta Aula da Paz como Fruto do Espírito e a Inimizade como fruto da carne. Em Ezequiel 7:25,26 está escrito: “Vem a destruição; e eles buscarão a paz, mas não há nenhuma. Miséria sobre miséria virá, e se levantará rumor sobre rumor…”. Vivemos hoje, um tempo muito parecido com este descrito pelo profeta Ezequiel. A Terra não tem paz! Em todas as camadas das sociedades em todas as nações há uma demonstração de falta de paz: há conflitos entre nações, conflitos no seio das famílias, conflitos dentro do próprio homem, conflitos entre denominações religiosas e entre “evangélicos”. Todavia, conforme veremos nesta Aula, há uma Paz real, verdadeira e possível de ser alcançada pelo homem, é a Paz de Deus. Esta Paz começa a ser gerada dentro do homem, pelo Espírito Santo, logo após a conversão, ou logo após o homem aceitar o Senhor Jesus como seu único e suficiente Senhor e Salvador. Assim sendo, a Paz que trataremos aqui não é um estado de ausência de conflitos, mas o resultado da restauração da comunhão entre Deus e o homem por intermédio de Cristo Jesus. Ela independe de situações e circunstâncias.

I. A PAZ QUE EXCEDE TODO ENTENDIMENTO

“E a paz de Deus, que excede todo o entendimento, guardará os vossos corações e os vossos sentimentos em Cristo Jesus” (Fp.4:7).

A Paz que excede todo entendimento é a Paz de Deus. Em Jesus, temos esta Paz. Não é a Paz que o mundo oferece, é a Paz que, mesmo em um mundo cheio de guerras e conflitos, podemos afirmar que vivemos em Paz. Só as pessoas eminentemente espirituais, ou seja, aquelas que nasceram de novo, compreendem e vivenciam isso.

  1. Paz. A Paz é o desejo mais profundo do ser humano. Não por acaso ela é uma promessa de Deus aos seus filhos. Desde muito cedo os homens de bem se cumprimentava assim: “Paz seja convosco” (Gn.43:23). Os anjos de Deus se apresentavam do mesmo modo: “Paz seja contigo!“ (Jz.6:23). O Antigo Testamento ensina-nos a abençoar assim: “O Senhor sobre ti levante o rosto e te dê a paz” (Nm.6:26). Jesus saudava seus discípulos e amigos com a expressão: “A paz seja com vocês!”(Lc.24:36). Ele recomendou expressamente aos seus discípulos, quando entrassem na residência de alguém, que dissessem: “Paz seja nesta casa!” (Lc.10:5). Os apóstolos pediam que o Deus da Paz estivesse com todos – “E o Deus de paz seja com todos vós. Amém”(Rm.15:33). Mas a saudação que ficou favorita na igreja do Novo Testamento era: “Graça e paz, da parte de Deus, nosso Pai, e do Senhor Jesus Cristo” (1Co.1:3).

Nas suas últimas instruções aos discípulos Jesus afirmou que lhes deixava a sua Paz, que não era a paz do mundo (João 14:27). A paz do mundo é uma paz precária, insegura e sujeita a temores constantes, porque é apenas a ausência de conflitos, uma ausência que não é garantida por coisa alguma. Era a situação vivida pelos contemporâneos de Cristo, que viviam a chamada “pax romana” (isto é, a paz romana), que era o período de ausência de guerras e de conflitos nas regiões que estavam sob o domínio romano, nos governos dos imperadores César Augusto e Tibério, que logo passaria, pois se tratava de apenas uma acomodação política instável e que dependia, fundamentalmente, da eficiência dos exércitos e dos órgãos de controle do poder romano. A Paz de Cristo é diferente, é um estado de quietude interior, embora as circunstâncias externas demonstrem a existência de conflitos sociais, econômicos, religiosos, etc.

Conta-se que a Prefeitura de uma determinada cidade, patrocinou um concurso de pintura, cujo tema era a Paz. O pintor que melhor retratasse, em seu quadro, o verdadeiro sentido da paz, seria o vencedor do concurso, recebendo um prêmio significativo. Muitos candidatos se inscreveram. Cada um procurou retratar através de sua pintura o que imaginava ser a verdadeira paz. Apareceram quadros com casinhas brancas; lagos azuis, mansos, serenos; alegres e lindo pôr do sol; crianças brincando, etc. Porém, um candidato pintou um quadro, aparentemente dantesco, sem casinha branca, sem pôr do sol; sem crianças e velhos, sem lago azul; ele pintou os efeitos de uma tempestade, com ventos arrancando os telhados, árvores sendo dobradas, céu escuro e assustador; todavia, no galho de uma daquelas árvores, ameaçada de ser arrancada pelo vendaval, ele pintou um pássaro, cantando, indiferente a qualquer ameaça ou perigo. O pássaro, pelo seu instinto natural, sabe que ainda que o galho quebre, ou que a árvore seja arrancada, ele tem asas para voar. Este quadro, por unanimidade dos jurados foi considerado vencedor. Isto nos ensina que a verdadeira Paz se manifesta na hora da tempestade. Talvez por isto o Senhor Jesus tenha dito: “Tenho-vos dito isso, para que em mim tenhais paz; no mundo tereis aflições, mas tende bom ânimo, eu venci o mundo” (João 16:33).

Ter Paz, viver em Paz, quando tudo está bem, pode ser fácil, porém, é na hora da tempestade e do vendaval que o filho de Deus comprova se, de fato, tem a Paz verdadeira, a Paz de Deus, a paz que o Senhor Jesus deixou aos Seus discípulos. Jó tinha esta paz! Daniel tinha esta Paz! Paulo tinha esta Paz, quando estava preso em Roma! Na Igreja, os verdadeiros cristãos têm essa Paz!

A Paz, assim como o Amor, faz parte da própria natureza de Deus. Sendo assim, ela faz parte, também, da natureza de seus filhos – “Pelas quais nos tem dado grandíssimas e preciosas promessas, para que por elas fiqueis participantes da natureza divina…” (2Pd.1:4).

  1. Paz com Deus. Como podemos estar em Paz com Deus? Só existe uma maneira para estarmos em Paz com o nosso Criador: mediante a nossa justificação – “Sendo, pois, justificados pela fé, temos paz com Deus, por nosso Senhor Jesus Cristo” (Rm.5:1). Portanto, a Paz com Deus é a reconciliação entre o homem e Deus, a união de Deus com o homem mediante o perdão dos pecados por intermédio da aceitação de Cristo como único e suficiente Senhor e Salvador.

Uma das nefastas consequências da Queda foi a ausência da Paz entre Deus e o homem. Adão fugiu e se escondeu de Deus – “… e escondeu-se Adão e sua mulher da presença do Senhor Deus, entre as árvores do jardim” (Gn.3:8). Nós não fugimos e nos escondemos de alguém com quem temos Paz. Adão havia perdido a Paz com Deus, por isso fugiu. Esta Paz, quebrada lá no Paraíso, por causa do pecado, só se tornaria possível através da morte expiatória de Jesus, na Cruz do Calvário, pela qual alcançamos a nossa Redenção – “Em quem temos a redenção pelo seu sangue, a saber, a remissão dos pecados… Porque foi do agrado do Pai que toda a plenitude nele habitasse e que, havendo por ele feito a paz pelo sangue da sua cruz, por meio dele reconciliasse consigo mesmo todas as coisas, tanto as que estão na terra como as que estão nos céus”(Cl.1:14,19,20).

Portanto, o restabelecimento da Paz entre o homem e o seu Criador foi uma obra de Deus. Ele quis que a Paz fosse restabelecida. Para nós custou tão pouco, mas para Ele teve um preço muito elevado, o sacrifício de nosso Senhor Jesus Cristo. Adão, antes de pecar, tinha Paz com Deus; nós, depois da remissão, ou perdão de nossos pecados, temos Paz com Deus.

  1. Paz de Jesus Cristo. Em João 14:25-31, Jesus promete, aos seus discípulos, uma Paz que o mundo não conhece. Diz assim o Senhor no versículo 27: “Deixo-vos a paz, a minha paz vos dou; não vo-la dou como o mundo a dá. Não se turbe o vosso coração, nem se atemorize“. Estas palavras de Jesus são um tom de despedida. Seus seguidores sabiam que aqueles seriam seus últimos momentos entre eles na terra. O Mestre percebe o sentimento de insegurança e desolação na face daqueles com quem andou nos últimos anos. Em resposta ao temor da solidão, o Senhor promete não os deixar sozinhos, antes enviar um Consolador para que estejam sempre com eles. A Paz de Jesus, nesse sentido, é a própria presença do Seu Espírito em nós.

O mundo não conhece essa Paz, por isso, aqueles que seguem seus princípios, fiam sua fé no dinheiro, na autoconfiança e/ou no poder. A paz do mundo é efêmera e fraca; ela dura enquanto durar o efeito das drogas; ela dura enquanto se goza de uma perfeita saúde; ela dura enquanto dura um bom relacionamento amoroso; ela pode durar enquanto dura a glória do poder; ela pode durar enquanto dura o sucesso de uma carreira; ela pode durar enquanto uma crise financeira não bater à porta. A paz do mundo, ou a paz que o mundo dá, não resiste às adversidades. Porém, o Senhor Jesus disse: “Deixo-vos a paz a minha paz vos dou…”.

A Paz de Cristo excede todo o nosso entendimento, ou seja, não é resultado de um controle sobre a nossa mente, não é fruto de “exercícios espirituais”, de “meditação” ou “técnicas de relaxamento”, mas é obra do Espírito Santo na vida do crente. A Bíblia diz que a finalidade da Paz é guardar os nossos sentimentos e os nossos corações em Cristo Jesus. Foi por isso que Jesus, ao se apresentar aos discípulos na tarde do dia da sua ressurreição, logo os saudou com a Paz: “Paz seja convosco”. Naquele momento o que os discípulos mais precisavam era da Paz de Cristo, que dá alento ao crente e que o permite conservar-se santo e irrepreensível aguardando o Senhor. Na Bíblia está registrada a expressão “não temais” 365 vezes, uma para cada dia do ano, precisamente para que os salvos não tenham medo, não se deixem abalar, mas desfrutem da Paz de Deus.

A Paz de Cristo não é alcançada pelo simples fato de alguém pedir. Ela não precisa ser pedida, ela já foi dada. O Profeta Miquéias, falando de Jesus, havia dito: “E este será a nossa paz…” (Mq.5:5). Sendo Ele o “Príncipe da Paz” (Is.9:6), vindo à terra, ele trouxe a Paz. Ao retornar para o Céu, não a levou de volta, mas disse: “Deixo-vos a paz…”. Todavia, ninguém terá a Paz de Deus, se o Espírito Santo não puder habitar em seu “coração”, ou em sua vida. Assim, para ter a Paz de Cristo não basta ser somente “evangélico”, é preciso ser o templo, a morada do Espírito, e isto requer que o homem seja santo – “… porque o templo de Deus, que sois vós, é santo” (1Co.3:17). A falta de Santidade é a causa da existência de muitos crentes “evangélicos”, sem Paz. Ser santo é uma exigência de Deus – “mas, como é santo aquele que vos chamou, sede vós também santos em toda a vossa maneira de viver, porquanto escrito está: Sede santos, porque eu sou santo”(1Pd.1:15,16).

Portanto, para poder gozar a Paz de Cristo, não basta ser um crente evangélico, é necessário ser um evangélico santo. Na medida em que o mundo avança em direção à Igreja, a Paz de Cristo vai se tornando cada vez mais distante. É tempo de refletir sobre a verdadeira vida cristã!

  1. Paz Interior. Muito se tem falado, ultimamente, sobre a “Paz Interior”, chegando, mesmo, a defenderem uma “cura interior”, um processo de superação de traumas e de feridas existentes no homem interior, na alma, que prejudicariam nossa saúde espiritual. No entanto, se bem avaliarmos o que nos ensina a Palavra de Deus, a Paz com Deus promove a “harmonia”, o “equilíbrio”, pois o homem volta a ter comunhão com o Senhor e, portanto, o Espírito Santo produz a Paz como o rio, ou seja, sara as feridas existentes, sem que seja necessário qualquer outro “processo” ou qualquer “procedimento” a não ser a própria salvação.

A Paz, diz-nos a Bíblia, é de Deus, de Deus nosso Pai e do Senhor Jesus Cristo (Rm.1:7), de tal maneira que não tem fundamento qualquer “experiência mística” que pretenda conceder “cura interior”, “paz interior” a quem já é salvo. O Espírito Santo promove esta Paz no instante da salvação. Portanto, a Paz é da parte de Deus, nosso Pai e do Senhor Jesus Cristo (1Co.1:3).

Quem está em Cristo tem Paz, logo não precisamos correr atrás de experiências mágicas ou de procedimentos de “gurus” ou “entendidos”, ainda que eles se travistam de servos de Deus. Paulo afirma que é a Paz de Deus, que excede o nosso entendimento, que guardará os nossos sentimentos e os nossos corações. Busquemos a Deus e não corramos atrás de “mágicas”, de “encontros de cura interior” ou coisas similares, pois nada disso tem fundamentação bíblica.

  1. Paz com o Próximo. Quem tem Paz com Deus, transmite aos outros homens e a si mesmo a Paz de Deus, ou seja, um sentimento de tranquilidade e confiança que é gerado em nós pelo Espírito Santo, mediante o qual, mesmo nas maiores aflições e dificuldades, não somos abalados, não perdemos a nossa confiança em Deus, nem muito menos a direção que devemos seguir.

Um dos principais trabalhos do adversário é, precisamente, tirar a Paz da Igreja (Rm.16:17; 1Co.11:18). Entretanto, devemos ter discernimento espiritual e, sabendo que a origem da dissensão nunca é divina, mas carnal e diabólica (1Co.3:3; Gl.5:20; Tg.3:14-16; Jd.19), devemos sempre nos desviar de todo e qualquer movimento contrário à paz na igreja local.

O salvo deve procurar a Paz, persegui-la sempre. É dever do servo de Deus buscar a Paz, evitar conflitos e quaisquer contendas com quer que seja. Entretanto, o salvo nunca terá Paz com todos os homens, pois não há comunhão entre a luz e as trevas e, assim sendo, sempre haverá aqueles que o perseguirão, os agentes do nosso adversário, Satanás, cujo nome significa “aquele que se opõe”, “inimigo”, mas isto não depende de nós. Assim, no que depender de nós, devemos sempre buscar a paz e a conciliação, mesmo que isto represente uma momentânea e aparente desvantagem em nossas vidas. Exorta o apóstolo Paulo: “Se possível, quanto estiver em vós, tende paz com todos os homens” (Rm.12:18).

II. INIMIZADES E CONTENDAS, AUSÊNCIA DE PAZ

Na Epístola aos Gálatas, Paulo apresenta a inimizade, as contendas e as disputas como obras da carne (cf. Gl.5:20) – “Porque as obras da carne são manifestas, as quais são:…inimizades, porfias, emulações…pelejas, dissensões…”.

  1. Inimizade e contenda. A Igreja em Filipos era muito querida pelo apóstolo Paulo. Ela muito contribuiu financeiramente para o seu Ministério. Mas, nem tudo era maravilhoso e perfeito na igreja filipense. Ali estava acontecendo algo que é muito comum nestes últimos dias da Igreja: a contenda, oriunda de problemas de relacionamentos. Evódia e Síntique eram duas irmãs que ocupavam posição de liderança na igreja. Elas haviam se esforçado com Paulo no evangelho, mas agora estavam em discórdia na igreja. Paulo rogou a essas duas servas de Deus que a inimizade entre elas fosse logo debelada – “Rogo a Evódia e rogo a Síntique que sintam o mesmo no Senhor” (Fp.4:2).

Essas irmãs tinham nomes bonitos: Evódia significa “doce fragrância”; Síntique significa “boa sorte”. Mas elas estavam vivendo de maneira repreensível. Muitas pessoas haviam se tornadas crentes através de seus esforços (cf. Fp.4:3), mas a sua briga estava causando uma dissensão na igreja. Não temos detalhes da causa de sua discórdia (talvez seja bom assim!), mas Paulo rogou a elas que resolvessem a situação. O apóstolo emprega a palavra “rogo” duas vezes, para mostrar que essa exortação é dirigida a uma e outra. Paulo as incentiva que “sintam o mesmo no Senhor”. É impossível sermos unidos em todas as coisas da vida diária, mas quanto às coisas “no Senhor” é possível reprimir pequenas diferenças a fim de que o Senhor possa ser magnificado e para que sua obra avance. É válido ressaltar que:

– Na vida cristã não há comunhão vertical sem comunhão horizontal. Não podemos estar unidos a Cristo e desunidos com os irmãos. A lealdade mútua é fruto da lealdade a Cristo. A irmandade humana é impossível sem o senhorio de Cristo. Ninguém pode estar em paz com Deus e em desavença com os seus irmãos. Devemos ser um povo diferente do mundo ímpio, senão, nossa evangelização é inócua.

– A cizânia é contrária à natureza da igreja (Fp.4:3). A igreja deve ser marcada pelo trabalho conjunto, pelo auxílio recíproco e pela esperança futura. Há uma realidade celestial acerca da igreja, a saber, o nome dos crentes está escrito no livro da vida, e lá no céu não há divisão; a igreja na Terra deve ser uma réplica da igreja do Céu. A igreja que seremos deve ensinar a igreja que somos. É contrária à natureza da igreja confessar a unidade no Céu e praticar a desunião na Terra. Todos os crentes, lavados no sangue do Cordeiro, têm seus nomes escritos no livro da vida e serão introduzidos na cidade santa (Lc.10:17-20; Hb.12:22,23; Ap.3:5; 20:11-15). O fato de irmos morar juntos no Céu deveria nos ensinar a viver em harmonia na Terra.

  1. Inimizade e facção. As inimizades, muitas vezes, acabam gerando na igreja as facções e divisões. A Bíblia diz que isto aconteceu na Igreja de Corinto. Embora tenha sido reconhecida por Paulo como uma igreja fervorosa, a ponto de destacar os seus integrantes como “santificados”(1Co.1:2), “alvos da Graça de Deus”, “enriquecidos espiritualmente na Palavra e no conhecimento”(1Co.1:5), “nenhum dom lhes faltava”(1Co.1:7), “esperavam a volta de nosso Senhor Jesus Cristo”(1Co.1:7), mesmo assim existia entre eles facções ou partidos em que cada um afirmava ter um líder distinto. Chamamos isso de partidarismo. Partidarismo é dividir-se por ordem de preferência, opção ideológica, etc. Alguns declaravam sua preferência por Paulo, outros se identificavam com Apolo, outros, ainda, com Cefas, e alguns afirmavam pertencer somente a Cristo, sugerindo, provavelmente, que somente eles pertenciam ao Senhor (1Co.1:12). Mas na Igreja não é assim, pois há um só Espírito, um só Senhor. Quando pensamos que o alvo é um só, não há como andarmos em direções diferentes.

Sabe qual era causa dessas facções na igreja de Corinto? Carnalidade, ou seja, modo de vida de acordo com os desejos descontrolados da natureza pecaminosa (Gl.5:19-23). É o próprio Paulo quem nos revela a causa interna principal para as divisões entre os coríntios: eles ainda eram carnais (1Co.3:1-4). A igreja de Corinto tinha inúmeros dons em operosidade, tinha fama de espiritual, de carismática, mas estes irmãos são identificados por Paulo como crianças espirituais e crentes carnais (crentes sem o controle do Espírito Santo), impossibilitados de alimento sólido (1Co.3:1-3).

Muitas igrejas estão confusas, atualmente, com a pregação de falsos avivamentos e de doutrinas inovadoras dos nossos dias. As divisões presentes nestes movimentos não são expostas como Fruto do Espírito, mas como obra da carne, segundo a Palavra de Deus. Em Atos dos Apóstolos vemos a igreja Cristã iniciante, cheia da presença do Espírito, evidenciando às pessoas o amor de Deus, a comunhão, alegria, a singeleza de coração, mas acima de tudo a unidade de propósito e de serviço (At.2:42-47; 9:31). Quando as divisões impedem a existência desse ambiente, fica evidente a carnalidade da igreja.

Portanto, a inimizade é obra da carne e seu alvo é destruir a unidade na Igreja do Senhor. E se pertencemos a Ele não podemos aceitar as inimizades e as facções.

  1. Inimizade e soberba. O Rev. Hernandes Dias Lopes, em seu livro “Gotas de sabedoria para a alma”, diz que um indivíduo soberbo é aquele que deseja ser mais do que é e ainda se coloca acima dos outros para humilhá-los e envergonhá-los. O soberbo superdimensiona a própria imagem e diminui o valor dos outros. É o narcisista que, ao se olhar no espelho, dá nota máxima e aplaude a si mesmo. A soberba é a sala de espera da desonra. É por isso que o sábio diz que, em vindo a soberba, sobrevém a desonra (Pv.11:2). A soberba é o corredor do vexame, é a porta de entrada da vergonha e da humilhação.

A Bíblia diz que Deus resiste ao soberbo (Tg.4:6), declarando guerra contra ele. “Glória ao homem nas maiores alturas”, esse é o grito de guerra da humanidade orgulhosa e ímpia que continua desafiando Deus e tentando construir o céu na terra (Pv.11:1-9; Ap.18). Deus aborrece “olhos altivos” (Pv.6:16,17) e promete destruir “a casa dos soberbos” (Pv.15:25).  O sábio Salomão alerta: “A soberba precede a ruína, e altivez do espírito precede a queda” (Pv.16:18).

O Rev. Hernandes Dias Lopes diz que a soberba é a porta de entrada do fracasso e a sala de espera da ruína. O orgulho leva a pessoa à destruição, e a vaidade a faz cair na desgraça. Na verdade, o orgulho vem antes da destruição, e o espírito altivo, antes da queda. Nabucodonosor foi retirado do trono e colocado no meio dos animais por causa da sua soberba (cf. Dn.4:30-37). O rei Herodes Antipas I morreu comido de vermes porque ensoberbeceu seu coração em vez de dar glória a Deus (At.12:21-23). O reino de Deus pertence aos humildes de espírito, e não aos orgulhosos de coração.

Esse terrível mal também tem grassado igrejas locais. A Bíblia registra um exemplo: a igreja de Laodicéia. Esta igreja, a começar do seu líder, enchia o peito e dizia para todos, com evidente e louca arrogância: “Rico sou e de nada tenho falta” (Ap.3:17). Ora, é nesta tola manifestação de arrogância que se verifica a fraqueza espiritual. Só temos força espiritual quando reconhecemos a nossa insignificância, a nossa pequenez, o nosso nada diante de Deus. A autoglorificação é desprezível. A igreja de Laodicéia exaltou-se dando nota máxima a si mesma em todas as áreas, mas Cristo a reprovou em todos os itens (Ap.3:17,18)

Deus detesta o louvor próprio. A Bíblia diz: ”Louve-te o estranho, e não a tua boca; o estrangeiro, e não os teus lábios”(Pv.27:2). Jesus explicou essa verdade na parábola do fariseu e do publicano (Lc.10:30-37). Aquele que se exaltou foi humilhado, mas o que se humilhou, desceu para sua casa justificado.

III. VIVAMOS EM PAZ

  1. Vivamos em Paz com Deus. A Paz que Jesus oferece é diferente da paz ilusória que o mundo dá. Quantos acordos fracassaram, quantas relações são desfeitas por estarem baseadas apenas nas boas e frágeis intenções humanas, que não resistem ao primeiro sinal de fraqueza das partes. Em razão disso, precisamos ter sempre o Senhor como o nosso grande parceiro em todas as nossas decisões. Essa Paz é diferente porque cumpre o propósito mais sublime do Senhor para o ser humano: restaura a nossa paz com Deus (Rm.5:1). O nosso relacionamento com Deus, antes rompido pelo pecado, é agora restaurado mediante a justificação por Ele outorgada (Rm.5:1; Fp.3:9; Gl.2:16). Sim, Jesus é a nossa Paz (Ef.2:14-17).
  1. Vivamos em Paz uns com os outros. Quando estamos em Cristo, a Paz com Deus é restaurada, e daí passamos a ter harmonia uns com os outros na dimensão do amor de Deus derramado em nossos corações (Rm.5.5). Assim sendo, somos capazes de empenharmo-nos pela concórdia entre as pessoas. O que fazemos quando há confusão em casa, no colégio, no trabalho ou na igreja? Pomos fogo ou promovemos a união? Se promovemos a união, somos da paz, como Deus, que é apresentado como sendo de paz (1Tes.5:23) e não de confusão (1Co.14:33).

“Davi declarou que a união é agradável e preciosa (Sl.133:1-3). Infelizmente, a união que deveria ser encontrada na Igreja nem sempre o é. As pessoas discordam e causam divisões por causa de assuntos sem importância. Alguns sentem prazer em causar tensão, depreciando e desacreditando os outros. Mas a união é importante porque: faz da igreja um exemplo para o mundo e ajuda a aproximar as pessoas do Senhor; ajuda-nos a cooperar conforme a vontade de Deus, antecipando um pouco do gozo que teremos no céu; renova e revigora o ministério, porque existe menos tensão para extrair a nossa energia. Viver em união não significa que concordaremos com tudo; haverá muitas opiniões, da mesma maneira que existem muitas notas em um acorde musical. Mas devemos concordar em nosso propósito na vida: trabalhar juntos para Deus. A união reflete a nossa concordância de propósitos” (Bíblia de Estudo Aplicação Pessoal. Rio de Janeiro: CPAD, 2003, p.822).

No que depender de nós, devemos viver em paz com todas as pessoas (Rm.12:18). Nós seremos bem-sucedidos quando Cristo for o nosso árbitro – “Seja a paz de Cristo o árbitro em vosso coração, à qual, também, fostes chamados em um só corpo” (Cl.3:15).

Deixemos que essa Paz flua com mais intensidade em nossos corações, e isso ocorrendo, cuidaremos mais do bem-estar do próximo. Os conflitos externos serão ajustados a uma realidade mais harmoniosa; o ódio não terá espaço em nossas vidas e a nossa boca jamais se abrirá para proferir maledicências, porque Cristo, o Senhor da Paz, habita ricamente em nosso coração.

  1. Vivamos em Paz conosco mesmo. Como tudo o que diz respeito à vida espiritual do salvo, a Paz deve ser constantemente guardada e preservada. A Paz interior é indispensável, pois é pelo seu vínculo que temos guardado a unidade do Espírito – “procurando guardar a unidade do Espírito pelo vínculo da paz” (Ef.4:3).

É bom ressaltar que a Paz pode ser perdida por aqueles que se descuidarem da vida espiritual. Quando há o desvio espiritual, não se perde apenas a salvação, mas a Paz que é um dos efeitos desta salvação. Davi perdeu essa Paz quando pecou contra Deus. Ao lermos o Salmo 51, vemos, nitidamente, como Davi estava perturbado por causa do seu pecado, como havia perdido a paz.

A santificação nada mais é que um processo para nos mantermos em Paz com Deus. Por isso, o apóstolo Paulo diz que quem nos santifica em tudo é o “Deus de paz” (1Ts.5:23), tendo, também, sido recomendado que “vivamos em paz” para que o Deus de amor e de Paz seja conosco (2Co.13:11), pois fomos chamados para a Paz (cf.1Co.7:15).

Salientamos que a Paz não se consegue pelo pedir, ou pela oração. Ela vem como resultado do trabalhar do Espírito Santo na vida do homem, formando o Seu Fruto – “… o fruto do Espírito é:…Paz…”. Assim, se o templo não é santo e se o Espírito não encontra lugar na vida do crente, ocupado que está com as coisas do mundo, então ele não pode desenvolver o Seu Fruto, razão porque existem, hoje, muitos crentes “evangélicos” sem Paz.

CONCLUSÃO

A Paz, assim como o Amor, faz parte da própria natureza de Deus. Sendo assim, ela faz parte, também, da natureza de seus filhos – “Pelas quais nos tem dado grandíssimas e preciosas promessas, para que por elas fiqueis participantes da natureza divina…” (2Pd.1:4). Assim, se alguém diz que é filho de Deus, mas, vive sem paz, em desarmonia com Deus, em conflito consigo mesmo, em guerra, contenda e até inimizade com seu próximo, incluindo aquele chamado de irmão, alguma coisa deve estar errada, e, certamente, não é a Bíblia. Pela Bíblia, o filho de Deus tem que viver em Paz, porque Deus é Paz. Você é filho de Deus?

Ora, o mesmo Senhor da paz vos dê sempre paz de toda maneira. O Senhor seja com todos Vós” (2Tes.3:16).

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Luciano de Paula Lourenço

Disponível no Blog: http://luloure.blogspot.com

Referências Bibliográficas:

Bíblia de Estudo Pentecostal.

Bíblia de estudo – Aplicação Pessoal.

Comentário Bíblico popular (Novo Testamento) – William Macdonald.

Comentário do Novo Testamento – Aplicação Pessoal. CPAD.

Revista Ensinador Cristão – nº 69. CPAD.

Rev. Hernandes Dias Lopes. Gálatas, a carta da liberdade cristã.

Antônio Gilberto. O Fruto do Espírito. CPAD.

Ev. Caramuru Afonso Francisco. Paz: o Fruto da Harmonia.PortalEBD_2005.

Publicado no Blog do Luciano de Paula Lourenço

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