O Real Significado da Adoração e do Louvor – César Lopes

O Real Significado da Adoração e do Louvor – César Lopes

O real significado da adoração e do louvor
Lições Bíblicas CPAD Jovens – 4º Trim. 2016
Comentário sobre a lição 01 – 02/10/16

TEXTO DO DIA:
Ó, vinde, adoremos e prostremo-nos! Ajoelhemos diante do SENHOR que nos criou. (Sl 95.6)

SÍNTESE:
O louvor e a adoração são os atributos que o verdadeiro cristão consagra a Deus.

Introdução

Embora já tenha ensinado na classe dos jovens, esta é a primeira vez que comento uma lição dessa turma. Além de envolvente, o assunto é muito importante; faz parte do âmago da vida cristã. Penso que “adoração e louvor” são conceitos que parecem já estar bem claros e definidos na mente de muita gente – só parecem – é bem verdade que (ainda) não estão. Todavia, devemos ultrapassar a mera definição de conceitos. A teoria precisa virar prática, e isso deve começar no secreto de nossos lares. Se conseguirmos isso, certamente nossa experiência de adoração será mais prazerosa e significativa, tanto no âmbito individual como no coletivo. Como bem disse o comentarista Thiago Brazil: “não há pressa” – temos muitos domingos pela frente. Avante!

I. A sincera dúvida de um escriba

1. A relação de Jesus com os líderes religiosos de sua época

A convicência não era nada fácil. Os líderes religiosos – especialmente os Fariseus – foram os que mais criticaram Jesus. Como se não bastasse o complexo conjunto de preceitos do sistema religioso judaico, os fariseus ainda acrescentaram uma série de detalhes que deveriam ser observados. Eram tão zelosos quanto à observância desses preceitos, que acabavam negligenciando preceitos mais importantes. O problema não era a observância de preceitos contidos na religião judaica, mas a estrita observância dos mesmos em detrimento de outros, considerados mais importantes pelo próprio Jesus:

Ai de vós, doutores da Lei e fariseus, hipócritas! Porque dais o dízimo da hortelã, do endro e do cominho, mas tendes descuidado dos preceitos mais importantes da Lei: a justiça, a misericórdia e a fé. Deveis, sim, praticar estes preceitos, sem omitir aqueles! Líderes insensíveis! Pois coais o pequeno mosquito, mas engolis um camelo! (Mateus 23.23,24 KJA)

2. A dúvida do escriba

Em meio a tantos mandamentos, surge uma dúvida na mente de um escriba (Mc 12.28): “Qual é o primeiro de todos os mandamentos?” O escriba queria saber qual dos mandamentos era o mais importante – uma dúvida sincera e legítima. Sabemos que Jesus sintetizou os mandamentos em dois: devemos amar a Deus e amar o próximo. Chamo a atenção para os versos 30 e 31 do texto bíblico da nossa lição:

Amarás, pois, ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todo o teu entendimento, e de todas as tuas forças; este é o primeiro mandamento. E o segundo, semelhante a este*, é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Não há outro mandamento maior do que estes*.
(Mc 12.30,31 *grifo nosso)

A ênfase acrescentada nos mostra que os mandamentos citados por Jesus são indissociáveis. Uma coisa está intrinsecamente ligada a outra. Amar a Deus implica, inevitavelmente, em amar o próximo, portanto, qualquer relação de adoração para com Deus se torna impossível se o elemento do amor ao próximo não estiver presente. Veja o que diz 1 Jo 3.10,11:

Desta forma sabemos quem são os filhos de Deus e quem são os filhos do diabo: quem não pratica a justiça não procede de Deus; e também quem não ama seu irmão. Esta é a mensagem que vocês ouviram desde o princípio: que nos amemos uns aos outros. (1 Jo 3.10,11 NVI)

Quando João nos diz que esta mensagem foi ouvida “desde o princípio”, nos lembramos que o mandamento de amar o próximo está contido na lei judaica (Lv 19.18); esse fato nos mostra que a adoração dos fariseus estava, portanto, comprometida, pois eles se preocupavam com detalhes da Lei mas não davam a menor atenção ao próximo.

3. A declaração de Jesus

A resposta do escriba agradou a Jesus. Jesus disse que o escriba estava perto do Reino de Deus. Se a resposta do escriba foi idêntica à de Jesus, porque Jesus disse que o escriba estava apenas “perto” do Reino? A Bíblia Lumina traz um comentário do Dr. Constable sobre essa passagem:

Jesus queria dizer que o escriba não estava longe de entrar no Reino de Deus. Sua abertura à revelação bíblica e sua orientação positiva em relação a Jesus, se continuassem, iriam levá-lo à fé em Jesus e, finalmente, à entrada em Seu Reino.

II. A respeito da adoração individual

1. Possíveis definições para louvor e adoração?

Aqui, o comentarista Thiago Brazil fala da efemeridade da condição humana diante da grandiosidade de Deus. Nada melhor do que Salmos 39.5 para nos falar disso:

Eis que fizeste os meus dias como a palmos; o tempo da minha vida é como nada diante de ti; na verdade, todo homem, por mais firme que esteja, é totalmente vaidade. (Sl 39.5)

Por mais que se encontre em sua melhor forma, ainda assim, o homem é totalmente passageiro. Essa afirmação deve nos levar para mais perto de Deus em adoração, reconhecendo-o como o Deus criador. Gosto ainda de outra passagem onde Davi reconhece tanto a efemeridade do homem como sua importãncia diante de Deus, e então o adora:

Que é o homem mortal para que te lembres dele? E o filho do homem, para que o visites? Contudo, pouco menor o fizeste do que os anjos e de glória e de honra o coroaste. (Salmos 8.4,5)

Este breve salmo termina com uma belíssima declaração:

Ó Senhor, Senhor nosso, quão admirável é o teu nome sobre toda a terra! (Sl 8.9)

O comentarista também afirma que existem níveis e intensidades diferentes na adoração. Gostei dessa colocação. Se pensarmos em uma das parábolas de Jesus, a parábolas dos dois devedores (Lucas 7.36–47) chegaremos à mesma conclusão. Dentro dessa linha de raciocínio, o pastor Russel Shedd diz, em uma de suas preleções, que “a verdadeira adoração acontece quando ficamos moídos e quebrantados diante de Jesus pela consciência do nosso pecado”.

Neste subtópico o comentarista nos oferece uma definição para adoração e louvor. Falarei sobre isso no próximo subtópico. A definição é a seguinte:

(…) um estado de consciência onde se reconhece simultaneamente a grandiosidade de Deus e a efemeridade da condição humana.

2. A espontaneidade e simplicidade na adoração

A lição chama nossa atenção para um detalhe importante: os chamados “encontros de adoração”. Será que todo encontro denominado “encontro de adoração” é, de fato, um encontro de adoração? Não. O comentarista acerta quando diz que tais encontros “podem ter um ótimo apelo midiático, mas não possuem garantias espirituais”, isto é, não se pode garantir que um “dia de adoradores” realmente o será pela fato de se denominar assim. Além disso, todo culto que se presta a Deus é um culto de adoração, se não for assim não pode ser chamado de culto.

O Dicionário da Bíblia de Almeida define o termo adoração da seguinte forma:

Culto, honra, reverência e homenagem prestados a seres superiores, sejam seres humanos, anjos ou Deus (Sl 96.9). (…) Da adoração cristã fazem parte pregação (At 20.7), leitura das Escrituras (1 Tm 4.13), oração (1 Tm 2.8), louvor (Ef 5.19), e ofertas (1 Co 16.1,2), além de batismos (At 2.37–41) e da Ceia do Senhor (1 Co 11.23–29).

Seguindo a mesma linha de raciocínio, o saudoso I. Howard Marshall também oferece uma definição para o termo adoração:

O termo ‘adoração’, como geralmente é utilizado em discussões contemporâneas, sejam elas teológicas ou eclesiásticas, pode se referir a qualquer um dos aspectos a seguir: (1) A atitude de pessoas reconhecerem, individualmente, a grandiosidade de Deus como um ser superior por atitudes e ações adequadas; (2) A atividade de um grupo de pessoas fazendo o mesmo; (3) Por extensão, qualquer coisa que seja feita em um encontro de um grupo como esse.

Diante das afirmações acima, penso que já podemos identificar dois erros crassos que devem ser evitados: o primeiro erro é afirmar que adoração é sinônimo de música, e o segundo, é afirmar que louvor é sinônimo de música.

Podemos fazer uso do conceito utilizado pelo pastor Thiago Brazil para elucidar essa questão: se me encontro em um estado de consciência onde reconheço a grandiosidade de Deus e minha efemeridade, isso pode culminar em uma música; sim, uma música em louvor a Deus. Eu estaria oferecendo um louvor em forma de música, portanto, a música deve ser vista como um elemento da adoração. O ministério Got Questions faz o seguinte comentário:

A música não é a origem da adoração, mas pode ser uma expressão da mesma. Não espere que a música induza a sua adoração; busque nela apenas uma forma de expressar o que se encontra em um coração encantado pelas misericórdias de Deus e obediente aos Seus mandamentos.

O termo “louvor”, por sua vez, também não é sinônimo de música. Tendo em vista que louvor é o ato de elogiar, ou exaltar alguém ou alguma coisa, posso louvar a Deus numa simples conversa com outra pessoa, por exemplo. No exemplo acima, apresentei o que seria um “louvor musical”, no entanto, podemos louvar a Deus de muitas outras formas.

O que tudo isso tem a ver com espontaneidade e simplicidade? Tudo. Uma vez que a adoração cristã é algo que brota do íntimo do ser humano, é impossível pensarmos em uma adoração forçada. A adoração, portanto, não deve ser associada a uma série de protocolos. Na experiência do culto, ninguém é obrigado a dar brados como “Glória a Deus!”, “Aleluia!” ou ainda chorar só porque os demais estão chorando. Isso deve ser espontâneo, deve partir do coração de cada um. Algumas palavras-chave devem ser observadas: pureza,gratidão, quebrantamento e humilhação. O ministério Got Questions nos ajuda novamente com o seguinte comentário:

(…) só podemos adorar em espírito quando temos um coração puro, aberto e arrependido. Quando o coração do rei Davi se encheu de culpa pelo seu pecado com Bate-Seba (2 Samuel 11), ele achou impossível adorar. Ele se sentia como se Deus estivesse longe dele, e “bramiu durante o o dia todo”, sentindo a mão pesada de Deus sobre ele (Salmo 32:3, 4). Entretanto, ao confessar o seu pecado, a comunhão com Deus foi restaurada e adoração e louvor jorraram do seu ser. Ele entendeu que “O sacrifício aceitável a Deus é o espírito quebrantado; ao coração quebrantado e contrito” (Salmo 51:17). Louvor e adoração a Deus não podem vir de corações cheios de pecado ainda não confessados.

Se forjarmos nossa adoração, certamente nos encaixaremos nas duras e sérias palavras de Jesus:

Hipócritas! Bem profetizou Isaías acerca de vocês, dizendo: ‘Este povo me honra com os lábios, mas o seu coração está longe de mim. Em vão me adoram; seus ensinamentos não passam de regras ensinadas por homens’. (Mt 15.7–9 NVI)

Transcrevo aqui, um dos pontos importantes destacados na lição:

Cada pessoa é única e reage de maneira diferente ao sentir a presença de Deus nos momentos de adoração e louvor.

3. A adoração como acesso individual a Deus

Uma das máximas da adoração cristã é que a mesma não se restringe a um tempo ou lugar determinados, mas deve acontecer em espírito, aliás, sempre que tenho a oportunidade, gosto de enfatizar que toda a vida cristã é também chamada de “vida no espírito”. Partindo desse importante princípio, o crente tem liberdade para buscar a Deus todas as vezes que se sentir direcionado para isso, independente da circunstância. Horton (1996 p. 555) faz um comentário nesse sentido:

A adoração não precisa ser limitada somente aos cultos regulares do cronograma da igreja. Na realidade, todos os aspectos de nossa vida cristã devem caracterizar-se pelo desejo de exaltar e glorificar ao Senhor. Parece ser esta a razão de Paulo dizer: “Portanto, quer comais, quer bebais ou façais qualquer outra coisa, fazei tudo para a glória de Deus” (1 Co 10.31).

III. Alguns desafios na adoração em comunidade

1. O cerimonialismo legalista contemporâneo

Este tópico é particularmente importante para nós pentecostais. Digo isso porque temos uma característica especial que nos distingue de muitos grupos cristãos: a ênfase que damos ao mover do Espírito Santo. Não podemos, jamais, engessar o culto e sacralizar a liturgia como fazem alguns, antes, devemos dar vazão ao Espírito Santo. Ele deve ter liberdade e nos direcionar concedendo dons ao povo e operando nos corações.

2. A irreverência assumida como elemento litúrgico

Outra dificuldade que enfrentamos em nossos dias é a irreverência. Em nome de uma falsa contextualização tem havido abuso nos ritmos, abuso nas manifestações, abuso nas pregações… Mas a pior irreverência é aquela que se caracteriza por um esfriamento no coração. Sim, muitos já não encaram o culto como algo especial e importante; ao chegarem na congregação não procuram se concentrar ou se entregar àquele momento. São pessoas que, ainda que não demonstrem sua irreverência externamente, estão sendo irreverentes por manterem o pensamento em mil coisas alheias ao culto, ou seja, estão totalmente desinteressadas.

3. O que significa realmente adoração e louvor?

Já oferecemos algumas definições e insights. O aprendizado não pode parar. Devemos continuar pensando nessas coisas e orando no sentido de buscarmos uma compreensão saudável sobre este ssunto tão precioso. Que tal uma boa música para terminar? Lá vai:

Apêndice

Em tempo, duas coisas merecem um esclarecimento de nossa parte: primeiro, devemos entender que não existem “ministérios de louvor” à luz da Bíblia e, mais especificamente, à luz do Novo Testamento. O pastor Walter McAlister nos ajuda nessa questão:

Para um conteúdo mais aprofundado, recomendo o artigo do irmão Gutierres Siqueira: Por que não existe ministério de louvor?

Em segundo lugar, devemos entender que também é errado chamarmos um cantor evangélico ou alguém que canta em nossa congregação de “levita”, pois também não há nenhuma referência nesse sentido no Novo Testamento.
De maneira muito simples e despojada (como lhe é de costume) o pastor Ciro Zibordi esclarece a questão:

Na Bíblia Sagrada, o título “levitas” refere-se exclusivamente aos israelitas da tribo de Levi que trabalharam no Tabernáculo e, posteriormente, no Templo. Como esse título nada tem a ver com a Igreja do Senhor, procura-se quem começou a chamar os músicos cristãos de “levitas”! Com toda a sinceridade, não vejo com bons olhos essa veterotestamentarização, por assim dizer, do culto neotestamentário.

Nota: As citações bíblicas foram extraídas da versão Almeida Corrigida Fiel, exceto quando há indicação específica.

Siglas: KJA – King James Atualizada | NVI – Nova Versão Internacional

Bibliografia

  • CONSTABLE, Thomas L. Thomas Constable’s Notes on the BibleDisponível em: lumina.bible.org. Acesso em: 30 set. 2016.
  • SHEDD, Russel. Adoração. São Paulo, SP: IBNU, 2016. Disponível em:youtube. Acesso em: 30 set. 2016.
  • KASCHEL, Werner; ZIMMER, Rudi. Dicionário da Bíblia de Almeida. 2. ed. Barueri, SP: Sociedade Bíblica do Brasil, 2005.
  • MARSHALL, I. Howard. Worshipping Biblically. Disponível em:biblicalstudies.org.uk. Acesso em: 30 set. 2016.
  • O que é a verdadeira adoração?. Acesso em: 01 out. 2016
  • Qual é o significado do louvor cristão?. Acesso em 01 out. 2016
  • HORTON, Stanley M. (Ed.). Teologia Sistemática: uma perspectiva pentecostal. Rio de Janeiro, RJ: Cpad, 1996.
  • ZIBORDI, Ciro Sanches. Os levitas (levitas?) e a pregação com fundo musical: dois modismos. Rio de Jnaeiro, RJ: CPAD News, 2015. Disponível em: cpadnews.com.br. Acesso em: 01 out. 2016.

Publicado no blog EBD Comentada

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