Mansidão: Torna o Crente Apto para Evitar Pelejas – Luciano de Paula Lourenço

Mansidão: Torna o Crente Apto para Evitar Pelejas – Luciano de Paula Lourenço

Texto Base: Efésios 4:1-7

“[…] que andeis como é digno da vocação com que fostes chamados, com toda a humildade e mansidão, com longanimidade suportando-vos uns aos outros em amor” (Ef.4:1,2).

INTRODUÇÃO

Nesta Aula trataremos a respeito de mais uma virtude do Fruto do Espírito – a Mansidão, considerada por nós como uma das virtudes que está vinculada ao relacionamento com o nosso próprio eu, com aquilo que somos em nosso interior, pois isso representa o resultado da submissão do homem com Deus – e as Pelejas, obra da carne, que se opõe à brandura. A arrogância, assim como as pelejas, são obras da carne e quem as pratica não pode agradar a Deus, pois Ele abomina o altivo de coração (Pv.16:5). Na Palavra de Deus, os crentes são comparados a ovelhas, porque elas são animais dóceis, mansos e submissos ao pastor (João 10:14,15). Se você é ovelha de Jesus, então aprenda a ser manso e humilde. Ouça a voz do Bom Pastor.

I. MANSIDÃO, O OPOSTO DA ARROGÂNCIA

Mansidão, mais que tudo, é uma das qualidades do Espírito Santo – “Mas o fruto do Espírito é: […[ mansidão […]” (Gl.5:22). O crente que é vestido do fruto de Mansidão é gentil no trato para com o próximo. Moisés revelava este traço de caráter em notável medida; e Jesus é o nosso paradigma superlativo; esta virtude foi uma das bases para Ele convidar homens e mulheres cansados e oprimidos e achar alívio e descanso nEle (Mt.11:28,29). Os mansos se humilham diante de Deus por reconhecerem sua total dependência dEle. Quando Deus tiver destruído todos os que em sua arrogância resistem à sua vontade, os mansos serão os únicos a herdar a Terra – “Mas os mansos herdarão a terra, e se deleitarão na abundância de paz” (Sl.37:11)

  1. Mansidão não é covardia. A Mansidão caracteriza-se por uma atitude de brandura, de suavidade no que precisa ser feito, mas, de modo algum, significa o recuo, o medo que impede a tomada de atitudes. O crente deve ser alguém firme e pronto a testemunhar, com palavras e obras, a fé que tem em Cristo Jesus, sem que para isto precise ser ríspido, duro ou que venha maltratar o próximo. Enquanto é dito que os mansos herdarão a terra (Mt.5:5), também as Escrituras mostram que os tímidos, os covardes ficarão de fora da Nova Jerusalém (Ap.21:8). Ser manso não é ser covarde nem tímido. Muitos podem pensar que Paulo era um tanto rígido com os irmãos, mas ele era muito equilibrado. Quando era preciso usava de firmeza para com aqueles que, não querendo andar na verdade, desafiavam sua autoridade apostólica (1Co.4:21), mas, no trato com os crentes, era como uma paciente e amorosa ama (1Ts.2:7).
  1. Ser manso é ser corajoso. Mansidão não é fraqueza, mas poder sob controle. Uma pessoa que não tem controle pessoal ou domínio próprio não é sábia. Mansidão é o uso correto do poder, assim como sabedoria é o uso correto do conhecimento. Ter um coração corajoso não significa que devemos ser duros e rudes. É possível ser delicado e forte ao mesmo tempo, e a chave é saber quando ser manso e quando ser forte. Precisamos ser mansos e dóceis para com as pessoas, mas corajosos, fortes e decididos com o diabo, porque é assim que ele é conosco. Moisés era manso, mas, ao mesmo tempo, demonstrou força e coragem (Nm.11:15; 12:3). Moisés, por quarenta anos liderou o povo através do deserto, com mãos firmes e fortes. Sem perder sua mansidão, fez uso, sempre que foi necessário, de sua autoridade e do poder que o Senhor Deus lhe outorgara. No entanto, dele está escrito: “E era o varão Moisés mui manso, mais do que todos os homens que havia sobre a terra” (Nm.12:3).

Não poderíamos nos esquecer de José, que ocupando o segundo maior lugar, em poder, naquela época, teve em suas mãos aqueles que um dia o venderam como escravo. A vingança estava ao seu dispor. Poderia punir, com a morte, àqueles que lhe haviam feito grande mal. Porém, José, como homem de Deus, mostrou toda grandeza de sua mansidão, perdoando.

Jeremias era um forte proclamador das verdades divinas, mas disse que não passava de um manso cordeiro (Jr.11:19).

  1. Mansidão não é acomodação. Os mansos não são passivos; são famintos e sedentos de justiça, e alimentam-se da indignação contra o mal. Por isso superam, resistem e vencem o mal (Rm.12:9-21); conseguem confrontar sem medo seus inimigos, mas podem também orar por eles. A ação dos mansos não depende da maneira como os outros agem. Para eles, preservar a integridade e a dignidade significa conservar seu próprio modo de agir, sem se deixar manipular pelo poder do mal.
  1. A mansidão, fruto do Espírito. “Mas o fruto do Espírito é: …mansidão…”. Assim, se “…o fruto do Espírito é…mansidão…”, segue-se ser ela parte integrante da natureza de Deus. Davi reconheceu esta verdade quando declarou: “Também me deste o escudo da tua salvação; a tua mão direita me susteve, e a tua mansidão me engrandeceu” (Salmo 18:35). Por isto, o Senhor Jesus podia dizer: “…aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração…” (Mt.11:29). Era um prazer enorme estar ao lado de Jesus. Estar ao lado de pessoas audazes, altivas, é muito difícil. Em geral, os altivos gostam de pelejas, pois acreditam que estão sempre com a razão e que são os donos da verdade.

Esta virtude do Fruto do Espírito ocorre no momento do Novo Nascimento, ou Regeneração; no momento do Novo Nascimento surge um novo homem, ou na expressão usada por Paulo, uma “nova criatura” (2Co.5:17). Esta “nova criatura” é feita em santidade, tornando-se a “morada” de Deus, na Pessoa do Espírito Santo – “Não sabeis vós que sois o templo de Deus e que o Espírito de Deus habita em vós?…porque o templo de Deus, que sois vós, é santo” (1Co.3:16,17).

Assim, conforme temos aprendido, o Espírito Santo passa, não apenas a habitar, como também a trabalhar na vida do “novo homem”, formando nele o Seu Fruto. Na medida em que damos lugar ao Espírito Santo em nossa vida, Ele, através da formação do Seu Fruto, vai nos transmitindo as virtudes existentes em Deus, pois, que Ele é Deus. Desta forma o “novo homem” vai se tornando, mais e mais, parecido com Deus, visto que a Sua Imagem, apagada, ou desfigurada pela ação do pecado, vai, agora, sendo reconstruída, conforme a do original que foi criado à imagem e conforme a semelhança de Deus (Gn.1:26,27).

No seu sentido bíblico, mansidão é firmeza e retidão de caráter; é ter consciência de sua força, ou autoridade, permanecendo imperturbável quando se faz necessário fazer uso dela; é a capacidade de exigir o que é reto, o que é justo; é a coragem de fazer cumprir a força do direito, mesmo que seja necessário usar o direito da força.

Portanto, aqueles que conhecem Deus e Sua Palavra, sabem que não pode existir qualquer semelhança entre Mansidão e fraqueza, timidez, medo, subserviência, passividade, negligência, e outros sentimentos correlatos.

II. EVITANDO AS PELEJAS E CONTENDAS

“Porque as obras da carne são manifestas, as quais são: […] pelejas, dissensões […]” (Gl.5:20).

Todos são irmãos e, portanto, devem amar-se uns aos outros, não devem promover contendas, lutas e pelejas entre si, porque produzem o fruto do Espírito e não as obras da carne. A bênção do Senhor depende da existência de um ambiente de união entre os irmãos. O salmo 133 mostra com clareza esse fato: “Oh! Quão bom e quão suave é que os irmãos vivam em união!  É como o óleo precioso sobre a cabeça, que desce sobre a barba, a barba de Arão, e que desce à orla das suas vestes. Como o orvalho do Hermom, que desce sobre os montes de Sião; porque ali o SENHOR ordena a bênção e a vida para sempre”(Sl.133).

Este salmo revela que, somente num ambiente de união, o Espírito Santo atua plenamente; somente num ambiente de união, cada membro em particular do corpo de Cristo (figurado por Arão, o escolhido para o sacerdócio) se deixa envolver plenamente pelo Espírito Santo (figurado pelo azeite); somente num ambiente de união, o refrigério do Espírito Santo pode nos consolar e nos permitir, mesmo neste mundo de sequidão e necessidade, termos a paz, a alegria e o amor divinos (figurados pelo orvalho de Hermom); somente num ambiente de união, a Igreja prossegue vitoriosa para se encontrar com o seu Senhor nos ares, cheia de vida espiritual e abençoada nos lugares celestiais em Cristo (João 15:5,6; Ef.1:3), porque é no ambiente de união, e não de pelejas e contendas, que “…o Senhor ordena a vida e a bênção para sempre”.

Infelizmente, a união que deveria ser encontrada na Igreja nem sempre o é. As pessoas discordam e causam divisões, pelejas, por causa de assuntos sem importância. Alguns sentem prazer em causar tensão, depreciando e desacreditando outros. Mas a união é importante porque: (a) faz da igreja um exemplo para o mundo e ajuda a aproximar as pessoas do Senhor; (b) ajuda-nos a cooperar conforme a vontade de Deus, antecipando um pouco do gozo que teremos no Céu.

Viver em união não significa que concordaremos em tudo; haverá muitas opiniões, da mesma maneira que existem muitas notas em um acorde musical. Todavia, devemos concordar em nosso propósito na vida: trabalhar juntos para Deus. A união reflete a nossa concordância de propósitos.

III. BEM-AVENTURADOS OS MANSOS

  1. O Sermão da Montanha. Encontramos nos capítulos 5 a 7 do Evangelho de Mateus os princípios estabelecidos por Jesus para todos os que querem fazer parte do Reino dos Céus. Um dos princípios do Mestre é a Mansidão (Mt.5:5) – “Bem-aventurado os mansos, porque eles herdarão a terra”. Jesus teve a ousadia de proferir esta Bem-Aventurança, numa época, e por que não dizer ainda hoje, em que ser manso era sinônimo de fraqueza, e a fraqueza não era uma virtude, mas, sim, um defeito. Nenhum homem gostaria de declarar ser manso. O mundo, de então, vivia sob a influência da cultura grega e sob o domínio dos romanos. Os gregos não teceram louros à força física, mas, também, não cultuaram a fraqueza. Exaltaram o poder da mente, da sabedoria, do sentido da beleza. Não erigiram nenhum altar à mansidão.

Os Romanos foram cultores do poder físico, da força bruta, do domínio dos fortes sobre os fracos. Formaram o exército mais poderoso do mundo e subjugaram todos os povos da terra. Os gladiadores eram os ídolos de Roma e os conquistadores seus verdadeiros deuses. Certamente que não poderia haver para eles algo mais abjeto do que a mansidão ou fraqueza. Pilatos governava a Judéia com vara de ferro, e, para Roma era um governador ideal.

Os Judeus, um povo rebelde, orgulhoso, não desprezava uma guerra; um povo que não se curvava. No entanto, sem qualquer possibilidade de reação estava subjugado pelo poderoso Império Romano. Os Judeus, contudo, alimentavam uma esperança, uma esperança na promessa bíblica da vinda do Messias. Todavia, a última coisa que eles poderiam desejar seria um Messias manso e exaltando o poder da mansidão. Esperavam, na verdade, um Messias guerreiro, conquistador, que os libertaria do jugo Romano, alguém semelhante ao grande rei Davi, que devolveria a glória à nação de Israel.

Portanto, mansidão era algo que os judeus não gostariam de ouvir; queriam poder tratar Roma e os romanos de acordo com os princípios da lei de Moisés: “olho por olho, dente por dente”. Assim, quando apareceu João Batista, pregando no deserto, um homem com aparência rude, que em nada se parecia com um homem manso, que tinha a coragem de apontar o dedo para o poderoso governador Herodes e denunciar seus erros, certamente que sua pregação avivou os ânimos do povo judeu. Ele anunciava a chegada do Reino predito pelos profetas, a restauração do trono de Davi. As multidões afluíam para ouvir aquele destemido e irreverente profeta, a “Voz do que clama no deserto” – “Então, ia ter com ele Jerusalém, e toda a Judéia, e toda a província adjacente ao Jordão” (Mt.3:5).

João Batista, contudo, deixava claro que ele não era o Messias – “E pregava, dizendo: após mim vem aquele que é mais forte do que eu, do qual não sou digno de, abaixando-me, desatar a correia das sandálias” (Mc.1:7). O anúncio desse que seria mais forte do que João Batista, acendia em cada coração a esperança de glória e de liberdade. Eles sonhavam com um Messias guerreiro e com um reino político. Assim, quando apareceu Jesus, João o identificou como sendo aquele mais forte do que ele – “João testificou dele e clamou, dizendo: Este era aquele de quem eu dizia: o que vem depois de mim é antes de mim, porque foi primeiro do que eu” (João 1:15). É certo que a mensagem de João se espalhou rapidamente e, de todas as partes crescia o desejo de conhecer Jesus – “E seguia-o uma grande multidão da Galiléia, de Decápolis, de Jerusalém, da Judéia e dalém do Jordão” (Mt.4:25).

Jesus sabia qual era a grande aspiração do povo de Israel. Sabia que falar de mansidão era como jogar um balde de água fria no ânimo e na esperança de cada um. Alguém que desejasse ganhar o coração do povo, alguém que almejasse o poder, alguém que sonhasse com um trono e uma coroa, teria a devida cautela em não pronunciar as palavras manso e mansidão. Jamais os judeus iriam pensar na possibilidade de vencer e expulsar os Romanos usando a mansidão.

Na época, exaltava-se a força, a coragem. Mansidão era coisa dos fracos, era símbolo de fraqueza. Cultuava-se a bravura, enaltecia-se a violência. Falar de mansidão seria falar de brandura, de meiguice, de educação, de diplomacia. Era tudo que o judeu, naqueles dias vivendo sob o domínio Romano, não desejava ouvir.

Um homem de Deus tem que ter a coragem para decidir entre falar o que o povo quer ouvir, ou falar o que Deus quer que o povo ouça; entre defender seus ideais ou interesses imediatos, ou ficar na vocação em que foi chamado; entre assegurar o seu futuro, na terra, ou a sua eternidade, no céu.

Jesus deixou-nos o exemplo. É pena que muitos erram por não conhecerem a Palavra de Deus. É lamentável que outros erram, embora conhecendo, porém, não se dispondo a pagar o preço da obediência.

Jesus estava iniciando Seu Ministério. Certamente que, lá no deserto, Satanás tinha colocado diante dele o caminho plano e florido que leva o homem à glória terrena, e o caminho íngreme e espinhoso da Cruz que leva o homem a fazer a vontade de Deus.

Pela Bíblia sabemos que Jesus não se afastou jamais do cumprimento da missão para a qual ele fora enviado, conforme deixou bem claro em João 6:38: “Porque eu desci do céu não para fazer a minha vontade, mas a vontade daquele que me enviou”. Jesus começara Seu Ministério há tão pouco tempo, e já uma multidão O seguia – “Jesus, vendo a multidão, subiu a um monte, e, assentando-se, aproximaram-se dele os seus discípulos”(Mt.5:1).

Jesus sabia que a grande maioria não estava entendendo nada sobre Seu Reino e que seus pensamentos estavam postos nas coisas materiais e terrenas. Sabia que se falasse aquilo que o povo queria ouvir, o número cresceria cada vez mais, porém, ele estaria se afastando dos propósitos do Pai. Sabia que se falasse do Reino de Deus, do Reino Espiritual, sem promessas terrenas, teria que se contentar com um pequeno número de discípulos a segui-lo; pequeno, porém, consciente e fiel. Isto quer nos parecer que este drama, ou esta difícil escolha tem sido vivida pelas denominações e líderes evangélicos: encher os templos com grandes multidões, mesmo sabendo que estão ali por interesses materiais e terrenos, ou contentar-se com um número muito menor e com um crescimento lento e difícil, porém sabendo que aquelas pessoas estão ali, conscientes e lutando pelas coisas eternas e celestiais; bater muitas palmas e falar o mínimo possível da Palavra de Deus, ou fazer menos festas e pregar, e ensinar mais as doutrinas bíblicas. Entre estas opções, um homem de Deus, não perde tempo para pensar. Ele sabe como Jesus fez e é seu discípulo.

O Senhor Jesus estava determinado a ensinar ao povo as leis de Seu Reino – “E abrindo a boca, os ensinava, dizendo…” (Mt.5:2). Certamente que cada enunciado era como um jato de “água gelada” no ideal político e nos interesses materiais do povo. Ele contrariava tudo o que os romanos criam e usaram para erguer o maior império da época; ele frustrava os ideais de liberdade política de seu povo.

Corajoso, e decididamente não vacilou em declarar: “Bem-aventurados os mansos, porque eles herdarão a terra”. É claro que muita gente se escandalizou com esta afirmação de Jesus. Imaginemos se algum soldado, ou algum oficial do exército romano tenha ouvido isto! Pensariam que Jesus não tinha qualquer noção de guerra e de conquistas. No entanto, o tempo e a história provaram que Jesus estava certo. O grande, poderoso, cruel e imbatível exército romano, estruturado sobre a força do homem, que abominava e desprezava os mansos, considerando-os fracos e indignos de viver, não pode sustentar por muito tempo o colossal império.

No ano 395 d.C., ele se dividiu em dois: em 476 d.C., caiu o Império Romano do Ocidente e em 1453, caiu o do Oriente. Do Império Romano que exaltava a força e o poder, só restaram ruínas. Porém, a Igreja, fundada por Jesus e que declarou “… ser manso e humilde de coração…”, e que no Sermão do Monte afirmou a bem-aventurança dos mansos; a Igreja que, através dos séculos cultivou a virtude da mansidão, esta Igreja viu a queda de todos os grandes e poderosos imperadores, a derrota do exército invencível, o esfacelamento do império. Esta Igreja, dirigida e composta por homens mansos, conquistou a Terra e fincou a bandeira ensanguentada de Cristo em todos os seus quadrantes. Esta Igreja prosseguirá invencível até o Dia do seu arrebatamento. Verdadeiramente são bem-aventurados os mansos.

  1. Os mansos herdarão a Terra. Há uma recompensa para os mansos: “[…] eles herdarão a terra” (Mt.5:5). Jesus nunca pregou o mundo terreno e carnal, apesar dos benefícios adjacentes neste mundo; logo, aqui não poderia ser diferente. A Terra Prometida no Antigo Testamento estava associada à ideia de descanso, e no Novo Testamento a referência a terra diz de coisas melhores: do descanso de Deus e a Nova Jerusalém. O Manso não receberá como herança um hectare de terra, antes será herdeiro de novos céus e nova terra: “Mas nós, segundo a sua promessa, aguardamos novos céus e nova terra, em que habita a justiça” (2Pd.3:13 ); “E, se nós somos filhos, somos logo herdeiros também, herdeiros de Deus e coerdeiros de Cristo”(Rm.8:17).

O Manso viverá eternamente com o Senhor na Nova Jerusalém (Ap.21:1-3), cujo lugar Ele foi preparar para nós (João 14:2,3). Esta Terra passará, mas não as palavras do Senhor (Mt.24:35), de modo que temos de concluir que a promessa dada aos mansos não diz respeito a esta Terra onde habitamos hoje, mas a uma herança eterna, incorruptível. Muitos poderão dizer que a terra prometida aos mansos seria a terra restaurada no reino milenial de Cristo, mas, em primeiro lugar, esta Terra, durante o milênio, não estará destinada à Igreja glorificada. Como se não bastasse, mesmo no milênio, teremos uma guerra, a última guerra de rebelião contra o Senhor, no final do milênio, de modo que também não é este o instante da “abundância de paz”, como afirma o salmista no Salmo 37:11. Portanto, Manso é alguém que procura a paz e faz o bem, e será coerdeiro em Cristo do Reino dos céus.

  1. A Mansidão de Cristo. Jesus foi o exemplo maior de mansidão, dentre todos os homens. Vamos considerar aqui apenas dois dos exemplos deixados por Jesus.

a) O Senhor Jesus demonstrou sua mansidão condenando o uso da força física e das armas materiais. Mansidão e violência são duas coisas antagônicas. Pedro, que naquela última semana vira Jesus, no Templo, usar de toda sua autoridade e impor a ordem na Casa de Deus, pode ter pensado que ele fosse favorável ao uso da violência, ou da força física, contra seus inimigos. Foi assim que, no Jardim do Getsêmani, Pedro esqueceu-se da mansidão e “…estendendo a mão, puxou da espada e, ferindo o servo do sumo sacerdote, cortou-lhe uma orelha” (Mt.26:51). Pedro não havia, ainda, aprendido bem sobre o significado da mansidão. Ele não sabia que a mansidão não impede que um homem de Deus se transforme num gigante espiritual capaz de desprezar a própria vida quando movido pelo zelo de Deus, sentir a necessidade de fazer cumprir o que está escrito na Palavra de Deus. Foi o que aconteceu com Jesus, no Templo.

Porém, essa mesma mansidão é a virtude do Fruto do Espírito que faz com que um gigante espiritual se transforme num cordeiro, diante de seus “tosquiadores”. Assim, de acordo com o ensino de Jesus, o homem manso, por submissão completa ao seu Senhor, quando o “tosquiador” lhe tirar a “capa”, deve lhe entregar também a túnica, quando lhe “ferir numa face”, deve oferecer-lhe também a outra e quando o obrigar a “caminhar uma milha”, deve ir com ele duas (Lc.6:29; Mt.5:41).

O homem manso não lança mão de sua própria espada, mas, entrega seu caminho ao Senhor. Pois, como disse Jesus a Pedro: “…Mete no seu lugar a tua espada, porque todos os que lançarem mão da espada à espada morrerão” (Mt.26:52). O homem manso aprende a confiar em Deus, assim, com a mansidão ele conquistará o céu, mas, a terra ele herdará, sem o uso da “espada” – “Bem-aventurado os mansos, porque eles herdarão a terra”(Mt.5:5).

Se a vida cristã é assim, e assim é, então o homem, por si só, não pode viver a vida cristã. Para viver a vida cristã o homem necessita ser revestido de mansidão. Então, baseado em Gálatas 5:22, o homem salvo pode viver a vida cristã, pois “…o fruto do Espírito é: …mansidão…”. A mansidão não é uma virtude gerada pelo homem, mas oriunda do Espírito Santo.

b) O Senhor Jesus comprovou toda sua mansidão ao entregar-se nas mãos dos homens. Jesus era um Mestre que vivia o que ensinava e ensinava o que vivia. Ele ainda tinha uma lição para ministrar aos seus discípulos, sobre a mansidão. Esta seria uma lição prática, duraria cerca de quase vinte horas, do Jardim do Getsêmani até o “está consumado”, na Cruz do Calvário. Ele que, no Templo, foi um gigante, no Getsêmani se transformou num cordeiro que, sem qualquer resistência, entregou-se nas mãos dos que o foram prender. Deixou claro que poderia reagir e não ser preso – “Quando, pois, lhes disse: Sou eu, recuaram e caíram por terra” (João 18:6). Foi dele a iniciativa de, mansamente, estender suas mãos para ser manietado. Durante toda aquela noite, na presença do Sumo Sacerdote, dos anciãos e do Sinédrio, de Herodes e de Pilatos, o Senhor Jesus comprovou ter dito a verdade quando afirmou ser “…manso e humilde de coração…”.

Demonstrou todo o poder da sua mansidão suportando sem qualquer revide e sem nenhum lamento toda dor moral causada pelas calúnias, injúrias e difamações, toda dor física causada pelas agressões sofridas, bem como pelas seis horas em que esteve na Cruz. Durante todo tempo ele teve consciência de que estava sofrendo porque, voluntariamente, havia se entregado nas mãos dos homens para que a Palavra de Deus pudesse ser cumprida. Ela havia dito: “Eu sou o bom Pastor, o bom Pastor dá a sua vida pelas ovelhas…. Ninguém ma tira de mim, mas eu de mim mesmo a dou; tenho poder para a dar e poder para a tornar a tomá-la…” (João 10:11,18).

CONCLUSÃO

Se o Espírito Santo habita em nós, podemos ser mansos, porque “…o fruto do Espírito é:…mansidão…”. A mansidão do crente precisa ser manifesta para com todos, sem qualquer exceção – “E ao servo do Senhor não convém contender, mas, sim, ser manso para com todos, apto para ensinar, sofredor” (2Tm.2:24). Sejamos mansos e humildes de coração, sempre seguindo o exemplo de nosso Salvador. Ele mesmo nos exorta: “[…] prendei de mim, que sou manso e humilde de coração […] (Mt.11:29).

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Luciano de Paula Lourenço

Disponível no Blog: http://luloure.blogspot.com

Referências Bibliográficas:

Bíblia de Estudo Pentecostal.

Bíblia de estudo – Aplicação Pessoal.

Comentário Bíblico popular (Novo Testamento) – William Macdonald.

Comentário do Novo Testamento – Aplicação Pessoal. CPAD.

Revista Ensinador Cristão – nº 69. CPAD.

Rev. Hernandes Dias Lopes. Gálatas, a carta da liberdade cristã.

Antônio Gilberto. O Fruto do Espírito. CPAD.

Ev. Caramuru Afonso Francisco. Mansidão, o fruto da obediência.PortalEBD_2005.

Comentário Bíblico Pentecostal. Novo Testamento. CPAD.

Publicado no Blog do Luciano de Paula Lourenço

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