Israel no Plano da Redenção – EBD Comentada

Israel no Plano da Redenção – EBD Comentada

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Israel no Plano da Redenção

Lições Bíblicas CPAD – 2º Trim. 2016
Comentário sobre a lição 08 – 22/04/16

Ponto Central: Deus tem um plano especial para com Israel
Leitura Bíblica: Rm 9.1–5; 10.1–8; 11.1–5

Introdução

No último trimestre aprendemos muita coisa sobre o futuro de Israel; duas lições trataram do assunto: “A Vinda de Jesus em Glória” e “As Bodas do Cordeiro”. Na presente lição voltamos a nos debruçar sobre o assunto, desta feita, abordando a doutrina da Eleição, doutrina que não foi comentada de maneira direta por Elinaldo Renovato em sua lição de cunho escatológico.

Sabemos que Israel será salvo, mas que Israel é esse? Quando afirmamos que Deus salvará Israel, não queremos dizer que todos os Judeus serão salvos, mas somente os verdadeiros israelitas do passado (antes de Cristo), os judeus que creram em Cristo quando Ele veio ao mundo, os que crêem n’Ele hoje (judeus nascidos de novo), e o remanescente futuro que aceitará Jesus como Salvador. A verdade prática da lição resume a eleição da graça da seguinte forma:

A eleição da graça é formada no presente por gentios e judeus nascidos de novo, bem como, no futuro, pela conversão da nação de Israel.

Em se tratando de Israel, podemos dizer que o termo ‘eleito’ se aplica:

1) A Toda a nação no passado – Não se trata de eleição para a salvação, necessariamente. Deus escolheu Israel para, através deles, se revelar ao mundo; aqueles que não eram verdadeiros israelitas, que não tiveram fé genuína (a exemplo de Abraão), não entraram para o grupo dos eleitos.

2) Os judeus crentes do passado e do presente – São os verdadeiros israelitas, que demonstraram ter “a fé de Abraão” no passado (circuncisos de coração) e os judeus que crêem em Cristo hoje, conhecidos como “Judeus Messiânicos”.

3) Ao remanescente fiel – São os israelitas que se manterão fiéis a Deus. Na batalha do Armagedon, o Senhor lutará em defesa deles e os salvará do maligno, eles então reconhecerão Cristo como o Messias prometido.

I – A eleição de Israel dentro do plano da redenção (Rm 9.1–29)

1. O anseio de Paulo e a incredulidade de Israel

No início do capítulo 9, Paulo fala de sua estima e grande apreço pelo povo judeu, a quem ele chama de “meus irmãos, que são meus parentes segundo a carne”. Paulo deseja a salvação de Israel. Seu amor por eles é tão grande, que o apóstolo sugere perder sua própria salvação em favor deles. Encontramos aí um paralelo com o que Moisés disse em Ex 32.32.

Tenho grande tristeza e contínua dor no meu coração. Porque eu mesmo poderia desejar ser separado de Cristo, por amor de meus irmãos, que são meus parentes segundo a carne. (Rm 9.2,3 ARC)

Ao longo dos capítulos 9, 10 e 11 Paulo tece explicações sobre a incredulidade de Israel e a adoção dos gentios, que alcançaram justiça pela fé. Assim como os gentios, os judeus também precisavam ser justificados pela fé, e não pelas obras, mas faltava entendimento da parte deles, assim como faltava em Paulo antes de ter um encontro com Cristo. Paulo repete o desejo de seu coração no início do capítulo 10, a saber, a salvação de Israel.

Irmãos, o bom desejo do meu coração e a oração a Deus por Israel é para sua salvação. Porque lhes dou testemunho de que têm zelo de Deus, mas não com entendimento. (Rm 10.1,2)

Nos próximos tópicos entenderemos o porque desta incredulidade de Israel. Apesar da incredulidade e falta de entendimento, as promessas em relação à eles não poderiam falhar, pois Deus não mente (Nm 23.19). As passagens abaixo nos mostram a importância de Israel conforme Romanos 9.4:

Eles são israelitas, e deles são a adoção, a glória, as alianças, a promulgação da lei, o culto e as promessas;
– Rm 9.4 AS21

Eles foram adotados

Pois tu és um povo consagrado a Yahweh, teu Deus; foi a ti que o SENHOR, teu Deus, escolheu dentre todos os povos sobre a face da terra para seres seu povo querido, seu tesouro pessoal. (Dt 7.6 KJA)

O SENHOR é a sua glória

Não terás mais a necessidade do sol para fornecer a luz do dia; nem precisarás do brilho do luar, porquanto Yahweh será a tua luz para sempre, e o teu Deus será a tua glória e teu esplendor eternamente. (Is 60.19 KJA)

Deus fez aliança com eles

Disse mais o Senhor a Moisés: Escreve estas palavras; porque conforme ao teor destas palavras tenho feito aliança contigo e com Israel. (Ex 34.27)

A eles foram dados a Lei, o culto e as promessas

Ele revela a sua palavra a Jacó, os seus decretos e ordenanças a Israel.
(Sl 147.19)

Ora, estando estas coisas assim preparadas, a todo o tempo entravam os sacerdotes no primeiro tabernáculo, cumprindo os serviços; (Hb 9.6)

Nós vos anunciamos as Boas Novas da promessa confiada a nossos antepassados.(At 13.32 KJA)

2. Os eleitos e as promessas de Deus

É crucial mantermos em mente que o cerne do discurso de Paulo é a eleição de Israel, bem como a rejeição destes à graça de Deus. Paulo não fala de uma eleição individual, mas de uma eleição corporativa (grupo, povo ou nação).

No afã de defender o determinismo em relação à eleição de pessoas, muitos se utilizam da ilustração de Esaú e Jacó. Dizem esses teólogos, com base neste versículo, que Deus simplesmente ama uns e odeia outros, arbitrariamente.

Como está escrito: Amei a Jacó, e odiei a Esaú. (Rm 9.13)

O verso acima parece defender o determinismo fatalista, mas uma análise cuidadosa do contexto nos revela que tal ensinamento está muito longe do que realmente ensina a teologia paulina. O escritor John F. Parkinson alerta:

De fato, visto que muitos consideram o capítulo como o bastião inexpugnável da eleição e reprovação pessoais desde a eternidade, será apropriado examinar com alguma demora o conteúdo e fluxo do argumento de Paulo.

Do capítulo 1 ao 8, Paulo vinha tratando da Justificação pela fé, principal doutrina de toda a espístola. Por causa da eleição nacional de Israel – nação escolhida por Deus para, através dela se revelar ao mundo – os judeus passaram a crer, equivocadamente, que já eram justificados por Deus “automaticamente”, mas a verdade é que “nem todos os que são de Israel são Israelitas” (Rm 9.6-b). O texto fala por si só:

Nem por serem descendência de Abraão são todos filhos; mas: Em Isaque será chamada a tua descendência. (Rm 9.7)

Primeiro Paulo nos remete a Ismael e Isaque para nos ensinar que só os que nascem da promessa (do Espírito) são considerados Filhos de Deus, e não os que nascem da carne. Ismael nasceu da carne e Isaque nasceu da promessa. Paulo faz uso do mesmo exemplo no capítulo 4 da carta aos Gálatas:

Porque está escrito que Abraão teve dois filhos, um da escrava, e outro da livre. Todavia, o que era da escrava nasceu segundo a carne, mas, o que era da livre, por promessa. (Gálatas 4.22,23)

O Senhor prometeu a Abraão que o mesmo seria pai de muitas nações e que sua descendência seria numerosíssima (Gn 15.5), mas a mulher de abraão não podia gerar filhos. O trecho abaixo narra como se deu a concepção de Ismael, símbolo do homem natural, que nasce segundo a carne:

2 E disse Sarai a Abrão: Eis que o Senhor me tem impedido de dar à luz; toma, pois, a minha serva; porventura terei filhos dela. E ouviu Abrão a voz de Sarai.
3 Assim tomou Sarai, mulher de Abrão, a Agar egípcia, sua serva, e deu-a por mulher a Abrão seu marido, ao fim de dez anos que Abrão habitara na terra de Canaã. 4 E ele possuiu a Agar, e ela concebeu; e vendo ela que concebera, foi sua senhora desprezada aos seus olhos. 16 E era Abrão da idade de oitenta e seis anos, quando Agar deu à luz Ismael. (Gn 16.2-4,16)

Notamos que Ismael nasceu da busca de Sara (ainda chamada de ‘Sarai’) por um meio (“segundo a carne”) para suscitar descendência a Abraão. Sarai era estéril, então buscou uma solução em Agar. Entender isso é primordial para a compreensão do que Paulo queria dizer. Paulo fez uso de uma ferramenta chamada “alegoria”. Ele o fez quando citou Ismael e Isaque e também quando citou Esaú e Jacó. Quando falou aos Gálatas sobre o mesmo assunto, Paulo fez o mesmo; ele mesmo disse: “o que se entende por alegoria…” (Gl 4.24-a).

Segundo Parkinson, o conceito de alegoria pode ser:

(…) uma história na qual o significado aparente dos personagens e eventos é usado para simbolizar um significado moral ou espiritual.

Parkinson também nos ajuda oferecendo comentários esclarecedores para as duas alegorias de Paulo, a de Ismael e Isaque:

A lição espiritual agora sendo ensinada é que os filhos das promessas é que são os filhos de Deus, e não os filhos da carne. Ismael era um filho segundo a carne (Gn 16.2–4), e dessa forma se assemelha aos homens em sua condição natural. Isaque era um filho segundo a promessa (Gn 18.10–11), e assim se assemelha àqueles que têm um nascimento espiritual.

E a de Esaú e Jacó:

Deus rejeitou e inverteu a ordem natural para que pudesse abençoar em seus próprios termos. Esaú, sendo o filho mais velho, deveria ter as bênçãos por direito. É como o judeu hipócrita, ou qualquer um que se esforça por sua salvação e sente que deve recebê-la por direito. Por outro lado, Jacó era o filho mais jovem e não tinha direito natural à bênção. Se tivesse de receber a bênção, teria de ser pela graça e não por direito. Isso ilustra a base da salvação de qualquer um. Ele deve ser salvo pela graça e não por direito. Portanto, o ‘mais velho servindo ao mais moço’ é uma ilustração da lei sendo colocada de lado em favor da graça. Quando Deus fala de amar Jacó e odiar Esaú, não é sua atitude diante dos dois indivíduos históricos, mas sua atitude diante de dois tipos diferentes de pessoas, tipificadas nestes irmãos gêmeos, conforme predito antes que eles tivessem nascido ou feito bem ou mal. Jacó simboliza a posteridade crente de Abraão, enquanto Esaú simboliza a posteridade incrédula de Abraão.

Diante do exposto, fica claro que Paulo cita os personagens acima como símbolos de dois tipos de pessoas: os filhos da carne e os filhos da promessa.
É interessante notar que, até agora, não há nenhuma menção à eleição e/ou reprovação de pessoas isoladas. Tal interpretação não resiste ao escrutínio bíblico. O que fica patente é a eleição e reprovação de um grupo de pessoas, o que chamamos de ‘Eleição Corporativa’. Vale lembrar que a citação de Paulo tem como pano de fundo o texto de Malaquias 1.2–4.

O pastor e teólogo Thiago Titillo (2015 p. 53) assinala:

Deus escolheu desde a eternidade um povo para si, embora não tenha escolhido pessoalmente quem faria parte desse povo. O apóstolo diz: “Bendito o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que nos tem abençoado com toda sorte de bênção espiritual nas regiões celestiais em Cristo, assim como nos escolheu n’Ele, antes da fundação do mundo (Ef 1.4). Estar “em Cristo” apresenta-se como a condição para fazer parte do povo eleito.

Podemos resumir nosso ensino da seguinte forma:

Em primeiro lugar a eleição é condicional – isso quer dizer que há uma condição para ser considerado eleito: verdadeira fé em Deus, segundo o exemplo de Abraão (especificamente em Cristo, no caso da Igreja).
Em decorrência dessa fé, a eleição se torna também corporativa, ou seja, todo aquele que tem fé verdadeira, passa a fazer parte de um grupo de pessoas, um corpo de crentes chamado de “eleitos”.

Concluímos que, no AT, a eleição ocorre “em Abraão” – isto é, fé no Deus vivo segundo o exemplo de Abraão – já no NT, a eleição se dá “em Cristo” – ou seja, pela fé verdadeira e permanente no Filho de Deus.

Qualquer que nega o Filho, também não tem o Pai; mas aquele que confessa o Filho, tem também o Pai.
– 1 João 2.23

Discorrendo sobre como se dá a eleição quando se trata da Igreja, o escritor Steve Sewell comenta:

Deus escolheu salvar a humanidade da penalidade dos seus pecados. Ele escolheu um plano para salvá-los, que é através da fé em seu filho. Aqueles que vêm até Ele via Seu Filho, Ele escolhe salvar. No momento da conversão eles entram na Eleição de Cristo. Em outras palavras, nossa eleição é n’Ele. Não estamos entre o povo de Deus porque nós somos “os eleitos”, mas nos tornamos parte dos eleitos quando colocamos nossa fé em Jesus Cristo. É um grupo de pessoas que Deus chamou para fora deste mundo para Sua Glória. Juntos nós somos “os eleitos”.

Estar “no corpo” não é garantia de eleição. Como notamos em Rm 9.6,7, é possível que alguém esteja no corpo apenas aparentemente, mas não verdadeiramente. Outras porções da Palavra transmitem a mesma ideia:

Ao ver Natanael se aproximando, disse Jesus: “Aí está um verdadeiro israelita, em quem não há falsidade”. (Jo 1.47 NVI)

E maravilhou-se Jesus, ouvindo isto, e disse aos que o seguiam: Em verdade vos digo que nem mesmo em Israel encontrei tanta fé. (Mt 8.10)

Responderam, e disseram-lhe: Nosso pai é Abraão. Jesus disse-lhes: Se fôsseis filhos de Abraão, faríeis as obras de Abraão. (João 8.39)

Porque judeu não é quem o é exteriormente, nem é circunciso quem o é apenas no exterior, na carne. Mas judeu é quem o é no interior, e circuncisão é a do coração, realizada pelo Espírito, não pela letra, cujo louvor não provém dos homens, mas de Deus. (Rm 2.28,29 AS21)

Saíram de nós, mas não eram de nós; porque, se fossem de nós, ficariam conosco; mas isto é para que se manifestasse que não são todos de nós. (1 João 2.19)

Bem-aventurado o homem a quem o Senhor não imputa maldade, e em cujo espírito não há engano. (Salmos 32.2)

Sobre isso o pastor Ciro Zibrodi assinala:

O que a Palavra de Deus ensina em Romanos (toda a epístola) é o que se vê em toda a Bíblia. Deus elegeu um povo como nação sacerdotal, Israel (Êx 19.5, 6), mas cada indivíduo tem de aceitar a graça de Deus pela fé, a fim de que seja salvo (Rm 11.20). E isso também se aplica à Igreja (1Pe 2.9, 10 / Jo 8.24).

O saudoso professor e teólogo I. Howard Marshall, homem que deixou um magnificente legado em suas obras, também comentou algo nesse sentido:

(…) notamos, primeiro, que embora Deus escolheu Israel como Seu povo, isto não significa que a nação como um todo aceitou Sua graça.[*] Muitos falharam em atingir a salvação. Em segundo lugar, a razão por que Israel falhou em obter a salvação não foi que Deus a rejeitou. É verdade que Ele trouxe um espírito de dureza sobre o povo, mas isto aconteceu porque eles próprios tinham rejeitado a salvação ao buscá-la da forma errada.

[*nota de Marshall*] – Em Rm 11.1-a, Paulo levanta a questão se Deus tem rejeitado o povo que Ele conheceu (proginosko). Sua resposta é ‘Não.’ Israel como um todo foi rejeitado, mas isto não significa que cada israelita tenha sido rejeitado. proginosko é aqui usado a respeito de um povo ao invés de indivíduos.

Nas Escrituras vemos pessoas que não possuíam qualquer privilégio que seja, mas faziam parte de um povo ‘estranho’ e mesmo assim alcançaram justiça pela fé; são os casos de Rute, a moabita; de Raabe, que passou a fazer parte da genealogia de Cristo; e do centurião romano, que deu testemunho de ser uma pessoa de fé (Mt 8.8-10; 27.54). Isso prova que Jesus morreu por todos, não só pelos eleitos nos moldes da teologia calvinista, e confirma as palavras que Jesus proferiu logo após ter falado da fé do centurião (Mt 8.11,12):

E digo a vocês que muita gente vai chegar do Leste e do Oeste e se sentar à mesa no Reino do Céu com Abraão, Isaque e Jacó. Mas as pessoas que deviam estar no Reino serão jogadas fora, na escuridão. Ali vão chorar e ranger os dentes de desespero. (Mt 8.11,12 NTLH)

Sobre isso, o pastor Zibordi afirma:

(…) não significa que todos os edomitas estejam, de antemão, condenados em razão de pertecerem à nação de Edom (cf. Am 9.12). A Palavra de Deus afirma que os indivíduos de cada nação podem ser salvos (Ap 7.9). Não era Rute uma moabita, pertencente a um povo rejeitado por Deus?

Ao contrário do que defende o calvinismo, não negamos a responsabilidade humana na salvação, entendemos que o homem participa do processo; essa cooperação humana recebe o nome de sinergismo¹. Em resumo, entendemos que a doutrina da eleição baseia-se na presciência de Deus daqueles que crerão n’Ele, como bem explica o pastor Daniel Nunes:

“– Entendemos ser a eleição um ato baseado na presciência de Deus, pelo qual Ele escolheu em Jesus Cristo para a salvação todos aqueles que de antemão sabia que O aceitariam, isto é, somos eleitos em Cristo, porque decidimos aceitá-lo (Ef 1.4 / 1 Pe 1.1,2 / 2 Tm 1.9). A eleição baseada na presciência divina, sendo consequência de uma fé prevista por Deus (discordamos da eleição incondicional do Calvinismo, onde a fé é fruto e vidência da eleição – os indivíduos são eleitos para crer, e não porque hão de crer). De acordo com o nosso ensino, a eleição incondicional fere o senso de justiça de Deus e a responsabilidade do homem. Como falar em julgamento onde não houve exercício da liberdade? Além do mais vemos na Bíblia que Cristo morreu por todos os Homens, (1 Tm 2.4,6 / Hb 2.9 / 1 Jo 2.2 / 2 Pe 3.9), sendo a vontade divina que todos sejam salvos (Mt 11.28 / Rm 10.13).

A teologia que professamos, chamada de ‘teologia arminiana’ é acusada por muitos de voltar suas atenções para o homem, no entanto, é o calvinismo que parece hastear a bandeira do antropocentrismo, pois volta suas atenções para a pessoa eleita em primeiro lugar, fazendo de Cristo um mero acessório para a consumação de um decreto previamente estabelecido².

O escritor Steve Sewell arremata a questão:

Individualmente, nós somos uma parte desta nação espiritual. Não porque viemos a esse mundo com a palavra “eleito” estampada no peito, mas porque colocamos nossa fé em Cristo. é neste ponto que nós entramos na eleição e nos tornamos parte do corpo eleito de crentes.

E o pastor Daniel Nunes oferece o respaldo bíblico:

“ – Assim sendo, na eleição condicional Deus e o homem cooperam mutuamente no processo de salvação (que o homem é ativo na conversão podemos ver pelas seguintes passagens: Is 55.7 / Jr 18.11 / Ez 18.23–32;33.11 / At 2.38; 3.19; 17.30). As seguintes referências sustentam a nossa posição da eleição condicional: Mt 7.24; 25.34–40 / 1 Sm 2.30 / Jo 3.10 / Mt 10.32; 11.28 / Mc 8.38; 11.3,6 / Lc 9.23 / At 2.21; 10.43; 17.30 / Rm1.16;10.13,14 / 1 Tm 2.3,4 / Ap 3.20; 22.17.

3. Eleição, justiça e soberania de Deus

A partir do verso 14 Paulo começa a explicar que Deus não poderia, jamais, ser acusado de injusto em relação à situação de israel. O questionamento é: “Deus não está sendo injusto por rejeitar Israel e aceitar os gentios?” Outra vez os fatalistas erram ao se valerem de uma alegoria de Paulo com o objetivo de defender o determinismo. Será que o contexto ensina o determinismo? Definitivamente Não. O contexto não nos permite afirmar isso. A essa altura Paulo já começa a discorrer sobre o enxerto gentílico, sobre o qual falaremos com mais detalhes no tópico III. O bispo Ildo Mello comenta:

Paulo usa a figura de faraó para retratar Israel. Assim como faraó, através da dureza de seu coração, serviu como um instrumento para o Êxodo milagroso do povo de Israel, produzindo a glória de Deus por toda a terra, assim também a dureza de coração de Israel propiciou a redenção dos gentios (Rm 11.11).

Os deterministas defendem que Deus pode endurecer o coração de qualquer pessoa arbitrariamente, mas Deus só endureceu o coração de Faraó após este ter endurecido o próprio coração.

Ildo Mello dá continuidade a seu comentário:

Paulo sabe que os judeus aceitam com facilidade o fato do endurecimento do coração de faraó, mas que não reconhecem que a mesma incredulidade que levou a rejeição de faraó também está levando a rejeição dos judeus como povo de Deus. O povo uma vez favorecido e liberto das garras de faraó, deixa de ser favorecido quando se desvia da fé de Abraão e segue o erro, a obstinação e a incredulidade de faraó. Deus endurece a quem quer. E Ele quer endurecer aqueles que endurecem a si mesmos.

Titillo (2015 pp. 77, 78) nos lembra que Deus já sabia da dureza de Faraó, o que prova que não há espaço para determinismo:

(…) o texto bíblico atribui o endurecimento (ou expressões semelhantes) do coração de Faraó, algumas vezes a Deus (Ex 4.21; 7.3; 9.12; 10.1; 11.10; 14.17), e outras vezes ao próprio governante egípcio ( Ex 7.13–14, 22; 8.15, 19, 32; 9.7,34–35). Antes, porém, Deus já pré-conhecia sua dureza (Ex 3.19).

Alguém pode contra-argumentar:

– O texto é claro! Deus endurece o coração de quem Ele quiser e ninguém tem o direito de questionar.

É verdade, porém, como complemento a essa afirmação ofereço o comentário da Bíblia de Estudo Plenitude sobre Rm 9.20,21:

Questionar a moralidade das ações de Deus é inadequado. As criaturas não têm o direito de objetar ao que seu Criador faz. Entretanto, tal ensinamento jamais deveria nos levar a pensar que os pecadores não poderiam crer se o quisessem, pois as Escrituras não ensinam isso. Elas afirmam repetidamente que “todo aquele que invocar o nome do Senhor será salvo” (10.13). Esse apelo das Escrituras aos descrentes é coerente em todo o AT e NT (ver Ez 33.11; Jo 6.37).

Mais um trecho merece nossa análise; falo da metáfora dos vasos registrada em Rm 9.19–24. Em sua obra de apoio à lição, o pastor José Gonçalves cita um grupo estadunidense do passado chamado Batistas Predestinarianos das Duas Sementes, que dizia que Deus havia feito um grupo para a salvação e outro para a condenação. José Gonçalves nos oferece três refutações para essa interpretação; por serem longas, citarei apenas uma delas:

No texto de 2 Tm 2.20,21, Paulo usa uma analogia semelhante quando se refere a alguns tipos de vasos. Ele até usa as mesmas palavras gregas de Rm 9.21–23, traduzidas como ‘honroso’ e ‘desonroso’. Na passagem de 2 Tm 2.20,21, fica claro que esses vasos, que representam pessoas, podem se consagrar ao verdadeiro culto a Deus. A metáfora, portanto, não exclui a livre-escolha.

II – O tropeço de Israel dentro do plano da redenção (Rm 9.30 -10.21)

1. Tropeçaram em Cristo

32 Por quê? Porque não foi pela fé, mas como que pelas obras da lei. Tropeçaram na pedra de tropeço, 33 como está escrito: Eis que eu ponho em Sião uma pedra de tropeço e uma rocha de escândalo; e todo aquele que crer nela não será confundido. (Rm 9.32,33 ARC)

Cristo acaba se tornando um obstáculo para os judeus devido à sua falta de entendimento. Não haveria tropeço na caminhada caso comprendessem a justificação pela fé. Como não entenderam, “tropeçaram”. A caminhada foi interrompida. Além de terem tropeçado, também se escandalizaram – por causa do rígido apego à lei, a salvação pela graça lhes pareceu loucura.

O substantivo escândalo pode ser definido como:

– Estado de perplexa indignação suscitado por palavra ou ato reprovável.
Procedimento violento que causa vexame ou constrangimento.

Podemos fazer uma releitura desta última definição, substituindo o vocábulo “violento” por “impactante”. Como a origem da palavra sugere, “impacto”tem a ver com “surpresa”, “choque”, o que não deixa de ser algo, em certo sentido, “violento”. Temos agora um vislumbre de como muitos judeus se sentiram diante da pregação do Evangelho.

Em seu comentário bíblico, F. B. Meyer diz:

Jesus é uma pedra de tropeço para os cegos espirituais, mas todos que nele confiam e nele descansam não serão envergonhados.

2. Tropeçaram na Lei

Mas Israel, que buscava a lei da justiça, não chegou à lei da justiça. Por quê? Porque não foi pela fé, mas como que pelas obras da lei. ( Rm 9.31.32-a)

Infelizmente os judeus não compreenderam que Cristo veio completar a Lei. Está escrito que Cristo é o fim da Lei (Rm 10.4). Eles tinham o testemunho de Paulo diante de seus olhos mas preferiam não abrir a mente nem o coração; preferiam se apegar à Lei a fim de alcançar justiça por seus esforços. Não é a toa que o orgulho é considerado um dos piores, senão o pior pecado que um ser humano pode cometer, pois nos impede de enxergar a bondade e o amor de Deus, que pode salvar qualquer pessoa. O que podemos falar de Raabe, de Zaqueu, do ladrão que estava ao lado de Jesus na cruz, e de tantos outros que não mereciam (na verdade, ninguém merece) o perdão?

O que podemos dizer é que eles tiveram fé, por isso alcançaram justiça da parte de Deus. Em contraste, todos os nossos atos de justiça própria são considerados trapos de imundícia para Deus (Is 64.6).

3. Tropeçaram na Palavra

Errais, não conhecendo as escristuras nem o poder de Deus. (Mt 22.29).

Certamente não foi por falta de exposição da Palavra que os judeus não creram. São muitas as menções ao Antigo Testamento ao longo dos capítulos que estamos estudando. Eram verdades que deviam despertar, no mínimo, a curiosidade dos receptores, como aconteceu com Nicodemos (Jo 3.1–21). Movido por um desejo sincero de entender o que Jesus ensinava, Nicodemos saiu no meio da noite e foi se encontrar com o Mestre a fim de tirar suas dúvidas. Muitos crentes deixam de ser abençoados por não compreenderem uma série de verdades contidas na Palavras de Deus. Eles não entendem nem procuram entender, então permanecem no erro.

III – A restauração de israel dentro do plano da redenção (Rm 11.1–32)

1. Israel e o remanescente

Ao longo da história do povo de Deus, notamos que os que lograram êxito fazem parte de um número bastante reduzido, ou seja, são ‘remanescentes’. Temos o exemplo Josué e Calebe (1 Co 10.1–8,12 cf. Nm 32.11–13), Elias e os sete mil (1 Rs 19.18) e o exemplo do próprio Paulo, que se considerava um remanescente. Paulo está dizendo que, para ser um eleito, era preciso aceitar a Palavra de Deus e o Filho de Deus. O professor Ben Witherington comenta algo a esse respeito:

Eleição e Salvação Dr. Ben Witherington – Tradução: Pr. Wellington Mariano

2. Israel e o enxerto gentílico / 3. Israel e a restauraçãofutura (11.25–32)

Mas digo: Porventura Israel não o soube? Primeiramente diz Moisés: Eu vos porei em ciúmes com aqueles que não são povo, Com gente insensata vos provocarei à ira. (Rm 10.19 cf. Dt 32.21)

Por causa de seu orgulho e apego à sua posição, Israel não entendia, e por isso não aceitava a inclusão dos gentios no plano de Deus. A incredulidade dos judeus possibilitou a entrada dos gentios na eleição da graça (Rm 11.15-a). Eles (os judeus) se sentiram enciumados; este ciúme era parte do plano de Deus para efetivar seu maravilhoso plano. Paulo antecipa a inclusão dos gentios ainda no início da carta:

Porque não me envergonho do evangelho de Cristo, pois é o poder de Deus para salvação de todo aquele que crê; primeiro do judeu, e também do grego.
(Rm 1:16)

A expressão “primeiro do judeu, e também do grego” mostra que Paulo queria deixar bem claro, desde o início, que as boas novas da graça estão disponíveis para todos. A ênfase é tanta que a expressão se repete outras vezes na carta.
A NTLH coloca o texto da seguinte forma: “primeiro os judeus e também os não judeus”. Escrevendo aos crentes de Colossos Paulo fala de maneira ainda mais enfática e inspirada:

Onde não há grego, nem judeu, circuncisão, nem incircuncisão, bárbaro, cita, servo ou livre; mas Cristo é tudo, e em todos. (Cl 3.11 cf. Rm 10.12)

Paulo fala de maneira clara como se deu o enxerto gentílico. Lendo suas palavras podemos entender sem grandes dificuldades. Os Judeus falharam em não aceitar a oferta da graça pela fé – a boa notícia de Deus pregada por Cristo e seus seguidores – sendo assim, Deus os rejeitou e expandiu a oferta para os gentios, isto é, todos os não judeus. A Bíblia nos antecipa a rejeição dos judeus e subsequente abertura aos gentios em Jo 1.11 e em Atos 13.46, sem falar da visão de Pedro em Atos 10. Tudo isso nos mostra que sempre foi a vontade de Deus salvar a todos (Mc 16.15,16).

Os cristãos não devem incorrer no mesmo erro dos judeus em achar que sua posição é por demais privilegiada e ignorar ou, de certa forma, rejeitar Israel. As exortações de Rm 11.17–24 são bastante claras. Duas posições extremadas devem ser evitadas: o antissemitismo, que é a ideia de rejeição e até de ódio para com Israel e a adesão à chamada ‘teologia da substituição’ – corrente teológica que defende que a igreja substituiu Israel complemente.

Os judeus messiânicos reconhecem a importância do papel da Igreja, e nos alertam em relação a nossa postura diante de Israel:

Para os judeus, a vida judaica em Yeshua não é apenas um item de refeitório para os crentes da Nova Aliança que pode ser selecionado ou rejeitado.
Nossa vida no sentido de sermos o “remanescente salvo de Israel” é a chave para a salvação de Israel, que deve ser somado ao testemunho daqueles das nações que são chamados a provocar ciúmes em Israel (Romanos 11:5,14). Paulo em Romanos 11 apresenta um testemunho de duas pontas que é para durar até todo o Israel ser salvo.

Os judeus se tornaram inimigos de Deus por causa do Evangelho, mas continuavam sendo amados por causa dos patriarcas. Devemos nutrir este mesmo sentimento de amor por Israel, não nos esquecendo que sua rejeição é temporária – até se completar a plenitude dos gentios. À luz do que está escrito em Rm 11.25, nossa maturidade e nossa ação evangelizadora pelo mundo pode “apressa a vinda do Messias”.

Irmãos, não quero que ignoreis este mistério para que não sejais arrogantes: o endurecimento veio em parte sobre Israel, até que chegue a plenitude dos gentios.(Rm 11.25 AS21)

Fica a seguinte exortação:

Devemos ser gratos a Deus por sermos alvo de um plano maravilhoso, e olhar para Israel como ele deve ser olhado: uma nação que Deus escolheu para que seu amor fosse revelado ao mundo. Antes não éramos um povo, mas Deus nos amou e fez de nós um povo para, assim como fez Israel (nos esforçando para não cometermos os erros por eles cometidos), darmos testemunho do amor de Deus em Cristo para todos os povos.

Vós, que em outro tempo não éreis povo, mas agora sois povo de Deus; que não tínheis alcançado misericórdia, mas agora alcançastes misericórdia.
– 1 Pedro 2.10

Notas

  • As palavras sublinhadas são links.
  • As citações bíblicas foram extraídas da versão Almeida Corrigida Fiel (ACF), salvo quando há indicação específica de outra versão.

[1] Para um bom entendimento dos conceitos ‘sinergismo e monergismo’, sugerimos um texto do pastor Altair Germano publicado em seu blog.

[2] Para mais informações, sugerimos um excerto de autoria do pastor Zwinglio Rodrigues, disponibilizado na fanpage Geração Arminiana.

Siglas

ARC – Almeida Revista e Corrigida
AS21 – Almeida Século 21
KJA – King James Atualizada
NTLH – Nova Tradução na Linguagem de Hoje
NVI – Nova Versão Internacional

Bibliografia Consultada

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