Isaque, o Sorriso de Uma Promessa – Luciano de Paula Lourenço

Isaque, o Sorriso de Uma Promessa – Luciano de Paula Lourenço

Texto Base: Gênesis 21:1-8

“E disse Sara: Deus me tem feito riso; e todo aquele que o ouvir se rirá comigo” (Gn 21:6).

INTRODUÇÃO

Ao ouvir a promessa de que Sara daria à luz um filho, Abraão riu-se; e o riso de Abraão seria secundado pelo riso de Sara (Gn 18:12). O riso de Abraão pôs em dúvida a capacidade geradora de si mesmo e de sua esposa.

Então, caiu Abraão sobre o seu rosto, e riu-se, e disse no seu coração: A um homem de cem anos há de nascer um filho? E conceberá Sara na idade de noventa anos? E disse Abraão a Deus: Tomara que viva Ismael diante de teu rosto! E disse Deus: Na verdade, Sara, tua mulher, te dará um filho, e chamarás o seu nome Isaque...” (Gn 17:17-19).

Parecia inacreditável que Abraão e Sara, em idade avançada (99 e 89 anos, respectivamente – Gn 17:1) – ainda mais: Sara era estéril (Gn 11:30) -, pudessem ter um filho. Mas, Deus disse a Abraão: “Haveria coisa alguma difícil ao Senhor?” (Gn 18:14). Deus queria que eles soubessem que o cumprimento da promessa não seria o resultado de esforços humanos, mas da pura graça, um milagre.

I. ISAQUE, O SORRISO TÃO ESPERADO

  1. O nascimento do “riso” (Gn 21:3,6). Quando finalmente nasceu o filho prometido, após os vinte e cinco anos de sua peregrinação em Canaã, Abraão e Sara lhe deram o nome de Isaque (“riso”), conforme ordenou o Senhor (Gn 17:19,21). Esse nome expressava o contentamento do casal idoso e de todos aqueles que ouviriam essa notícia. O nome Isaque, dado ao recém-nascido, que parecia uma censura ao riso incrédulo do velho casal, agora tem novo significado: era o riso de alegria por ter um filho. Quando Isaque nasceu, o riso incrédulo de Sara converteu-se em riso de gozo: “Deus me tem feito riso” (Gn 21:6). “Disse mais: Quem diria a Abraão que Sara daria de mamar a filhos, porque lhe dei um filho na sua velhice?” (Gn 21:7). O Senhor teve muita paciência com o velho casal, pois eles lutavam contra fortes dúvidas pela longa demora do advento do filho. Ao passar dez anos em Canaã sem ter filhos, Sara procurou ajudar a Deus a fim de que se cumprisse a promessa. Segundo a lei mesopotâmica daquela época, uma esposa estéril podia dar a seu marido uma serva como mulher e reconhecer como seus os filhos nascidos dessa união. Abraão, em um momento de incredulida­de, cedeu ao plano de Sara, porém as consequências foram tristes, dentre elas, conflitos no lar. Como Abraão e Sara se parecem com muitos crentes que desejam substituir o plano de Deus por seus planos e pelas obras da carne!
  1. Isaque e Ismael (Gn 21:9-21). Isaque provavelmente tinha entre dois e cinco anos de idade quando foi desmamado. A essa altura, Ismael tinha entre treze e dezesseis anos de idade. Durante o jantar em comemoração ao fato de Isaque ter sido desmamado, Sara viu que Ismael caçoava de Isaque e, por causa disso, ordenou a Abraão que expulsasse Agar e seu filho. Sara percebeu que a natureza do rapaz não concordava com o espírito de fé prevalecente na família. As duas linhagens tinham de estar marcadamente separadas. Era penoso para Abraão expulsar Ismael, mas Deus o consolava dizendo-lhe que por meio de Isaque viria sua descendência. Além do mais, por amor a Abraão Deus cuidaria do jovem Ismael e sua descendência formaria uma grande nação.

Hagar e Ismael aprenderam que embora expulsos das tendas e sem a proteção de Abraão, não estavam alijados da solicitude de Deus. Ele estava com Ismael e cuidou dele em sua juventude, possibilitando assim o cumprimento da promessa que ele mesmo fizera de que por meio de Ismael faria uma grande nação. Não obstante, ao casar-se com uma egípcia e habitar em Parã (Gn 21:21), Ismael afastou-se da família de Abraão.

O apóstolo Paulo interpreta esse acontecimento como uma evidência da inimizade entre o que correspon­de ao esforço e ao que vem da graça ou da promessa. Hagar representa o sistema pelo qual os homens procuram salvar-se, pelas obras da lei, e Sara representa a graça de Deus. São incompatíveis entre si. Assim como era necessário que a escrava e seu filho fossem expulsos para dar lugar ao filho da mulher livre, é necessário abandonar o sistema das obras para herdar a graça (Gl 4:21-31).

II. ISAQUE, O BEM MAIS PRECIOSO DE ABRAÃO

A prova que Abraão passou, quando Deus pede a ele o seu único filho em sacrifício, é uma demonstração convincente de amor por Deus. Este episódio retrata uma das experiências mais tremendas registradas em Gênesis. Deus provou Abraão não para fazê-lo tropeçar e assistir a sua queda, mas para aprofundar sua capacidade de obedecer a Deus e verdadeiramente desenvolver seu caráter. Assim como o fogo refina o minério para extrair metais preciosos, Deus nos refina através de circunstâncias difíceis.

  1. A provação das provações (Gn 22:1-19). Certa feita, provavelmente à noite, o Senhor ordenou a Abraão: “Toma agora o teu filho, o teu único filho, Isaque, a quem amas, e vai-te à terra de Moriá; e oferece-o ali em holocausto sobre uma das montanhas, que eu te direi” (Gn 22:2). “Então, se levantou Abraão pela manhã, de madrugada, e albardou o seu jumento, e tomou consigo dois de seus moços e Isaque, seu filho; e fendeu lenha para o holocausto, e levantou-se, e foi ao lugar que Deus lhe dissera” (Gn 22:3).

O pedido que o Senhor fez a Abraão foi a prova suprema da fé do patriarca. Deus prometera ao patriarca uma descendência incontável por meio de Isaque. A esse ponto, Isaque era muito jovem e ainda não possuía esposa. Ora, como a promessa poderia se cumprir se Abraão o matasse? De acordo com Hebreus 11:19, Abraão acreditava que Deus ressuscitaria Isaque. Isso representa uma notável demonstração de fé, pois até aquele momento não havia nenhum registro de ressurreição na história do mundo.

Observe também a fé de Abraão em Gênesis 22:5: “E disse Abraão a seus moços: Ficai-vos aqui com o jumento, e eu e o moço iremos até ali; e, havendo adorado, voltaremos para junto de vós”. Abraão foi justificado em primeiro lugar pela fé (Gn 15:6) e depois pelas obras (Tg 2:21). A salvação do patriarca ocorreu por meio de sua fé, ao passo que suas obras eram prova da fé que possuía.

Quando Isaque perguntou: “onde está o cordeiro para o holocausto?”, Abraão respondeu: “Deus proverá para si […] o cordeiro”. Essa promessa se cumpriu em definitivo com a vinda do Cordeiro de Deus (João 1:29) e não apenas por meio do carneiro mencionado em Gn 22:13.

O propósito da prova era aumentar a fé que Abraão tinha, dar-lhe a oportunidade de alcançar uma vitória maior e receber uma revelação mais profunda ainda de Deus e de seu plano. Deus prova o homem para dar-lhe a oportunidade de demonstrar sua obediência e crescer espiri­tualmente.

Não estendas a tua mão sobre o moço, porquanto agora sei que temes a Deus, e não me negaste o teu filho, o teu único” (Gn 22:12). Tudo o que Deus queria era a rendição de Abraão, um sacrifício em espírito. Queria que Abraão mostrasse que amava mais a Deus que a seu próprio filho e as promessas feitas. Abraão teve sua fé grandemente recompensada. Recebeu o seu filho simboli­camente dentre os mortos e dali em diante esse filho lhe foi mais precioso que nunca. Da mesma forma, o que entregamos a Deus ele devolve a nós muito mais enriquecido e elevado que antes.

Abraão teve também uma revelação mais ampla de Deus e de seu plano. Chamou àquele lugar de “o Senhor Proverá” (Jeová-Jireh – Gn 22:14). O novo título de Deus chegaria à sua expressão plena quando outro Filho, também prometido, sofreria a morte nas proximi­dades do monte Moriá. Talvez Jesus se referisse a esta revelação ao dizer: “Abraão… exultou por ver o meu dia, e viu-o, e alegrou-se” (João 8:56).

Concordo com George Herbert Livingston ao dizer que Abraão enfrentou a ameaça devastadora da morte e venceu seu poder pela confiança plena na integridade de Deus. Por outro lado, Deus demonstrou claramente que o sacrifício que Ele deseja é inteireza de coração, rendição às suas ordens.

  1. Jesus, o bem mais precioso do Pai. Esse episódio é uma antecipação da expressão mais profunda do amor de Deus por nós: a entrega de seu Filho Unigênito para morrer em nosso lugar. Como nenhum outro episódio, este aponta para o amor do Pai e o sacrifício de Jesus na cruz.

A entrega de Isaque é um farol a apontar o amor eterno e sacrificial do Pai que deu seu Filho para morrer por nós, pecadores. Deus poupou Isaque, mas não poupou seu próprio Filho. A Bíblia diz que Deus não poupou seu próprio Filho, antes o entregou por todos nós (Rm 8:32). Diz ainda que Deus prova seu amor para conosco pelo fato de Cristo ter morrido por nós, sendo nós ainda pecadores (Rm 5:8).

Algumas semelhanças entre esse gesto de Abraão e o amor do Pai podem ser aqui identificadas:

– Em primeiro lugar, assim como Abraão, Deus não poupou seu próprio Filho (Hb 11:17; Rm 8:32). Abraão entregou seu filho a Deus, e Deus entregou seu Filho para morrer pelos pecadores.

– Em segundo lugar, Isaque foi o filho do coração como Jesus foi o Filho amado (Gn 22:2; João 3:16). Assim como Isaque, o filho amado de Abraão, era o filho da promessa, Jesus é o Filho amado, em quem Deus tem todo o prazer.

– Em terceiro lugar, Isaque foi a Moriá sem reclamar; Jesus, como ovelha muda, foi obediente até à morre, e morte de cruz. A atitude de Isaque, caminhando três dias para o monte Moriá, lança luz sobre a atitude de Jesus caminhando para o Calvário, sem abrir a boca e sem lançar maldição sobre seus exatores.

– Em quarto lugar, Isaque foi filho de promessas; Jesus é o Filho de profecias. Isaque foi prometido por Deus, seu nascimento foi profetizado, seu nascimento veio por uma intervenção miraculosa de Deus, no tempo oportuno de Deus. Assim, também, Jesus veio ao mundo para cumprir um propósito do Pai; sua vinda foi prometida, preparada. Ele nasceu para cumprir um plano perfeito do Pai.

– Em quinto lugar, Isaque teve seu sacrifício preparado (Gn 22:2,3); o sacrifício de Jesus foi planejado na eternidade (Ap 13:8). Assim como Deus estabeleceu os detalhes do sacrifício de Isaque, também planejou desde a eternidade a entrega, o sacrifício e a morte vicária de seu Filho na cruz.

– Em sexto lugar, Abraão e Isaque caminham sós para o Moriá. Jesus também bebeu o cálice sozinho, mas conversando com o Pai. Os servos de Abraão ficaram no sopé do monte Moriá. Os homens abandonaram Cristo, inclusive seus discípulos. Jesus, quando suou sangue no Getsêmani, estava só. Ele, só ele e o Pai travaram aquela batalha de sangrento suor. Jesus marchou para a cruz sob as vaias da multidão e tendo como único refúgio a intimidade com o Pai.

– Em sétimo lugar, Isaque carregou a madeira para o sacrifício. Jesus carregou a cruz. Assim como Isaque levou a lenha para o sacrifício no monte Moriá, Cristo carregou a cruz para o Gólgota, onde morreu por nossos pecados.

– Em oitavo lugar, Abraão e Isaque caminham sempre juntos. O Pai e o Filho fizeram na eternidade um pacto de sangue para salvar o homem e andaram sempre juntos. Sempre houve comunhão perfeita entre o Pai e o Filho. Sempre andaram juntos nesse glorioso propósito de remir-nos. Quando caminhamos pela fé, mostramos ao mundo não só nossa fidelidade a Deus, mas revelamos ao mundo o próprio coração de Deus.

Deus poupou Abraão e Isaque, mas não poupou seu Filho. Ele não providenciou um cordeiro substituto para Jesus. Ele viu seu clamor e não o amparou. No topo do calvário, há uma bandeira que tremula e proclama: “Deus proverá“. Ele providenciou para nós perdão e salvação. Olhe para o Cordeiro de Deus. Olhe para Jesus, com fé, e seja um filho de Abraão, seja um filho de Deus.

III. O CASAMENTO DE ISAQUE (Gn 24:1-67)

Chegou a hora de Isaque se casar. Segundo os costumes daquele tempo, cabia a Abraão fazer os arranjos para o casamento de seu filho. Como herdeiro da promessa, era muito importante que Isaque se casasse com uma crente, uma mulher que valorizasse o pacto de Deus.

  1. Uma esposa para Isaque (Gn 24:1-9).O SENHOR, Deus dos céus, que me tomou da casa de meu pai e da terra da minha parentela, e que me falou, e que me jurou, dizendo: À tua semente darei esta terra, ele enviará o seu Anjo adiante da tua face, para que tomes mulher de lá para meu filho” (Gn 24:5).

Abraão queria que a futura esposa de Isaque fosse de sua parentela e não uma das cananeias pagãs. Abraão não enviou Isaque à Mesopotâmia provavelmente porque não quis que seu filho fosse tentado a ficar ali e abandonar a terra prometida. Portanto, enviou para lá seu servo mais antigo e fiel, que provavelmente era Eliézer (Gn 15:2). Nas palavras que Abraão diz a seu servo, nota-se a confiança implícita do patriarca em Deus:

Ele enviará o seu anjo adiante da tua face, para que tomes mulher de lá para meu filho” (Gn 24:7).

E disse Abraão ao seu servo, o mais velho da casa, que tinha o governo sobre tudo o que possuía: Põe agora a tua mão debaixo da minha coxa, para que eu te faça jurar pelo SENHOR, Deus dos céus e Deus da terra, que não tomarás para meu filho mulher das filhas dos cananeus, no meio dos quais eu habito, mas que irás à minha terra e à minha parentela e daí tomarás mulher para meu filho Isaque” (Gn 24:2-4).

“Põe agora a tua mão debaixo da minha coxa…”. Esta é uma expressão idiomática peculiar para se referir às crianças como frutos da “coxa” ou “lombo” de seu pai (cf. Gn 46:26, ARC). Segundo estudiosos da Bíblia, colocar a mão por baixo da coxa implicaria que, caso o juramento fosse quebrado, a criança que havia nascido ou viria a nascer daquela “coxa” se encarregaria de vingar a traição cometida. A isto chamavam de “jurar pela posteridade” e tem uma aplicação muito especial aqui, pois a missão do servo é garantir a posteridade de Abraão por meio de Isaque.

  1. O mordomo pede direção a Deus –Ó SENHOR, Deus de meu senhor Abraão, dá-me, hoje, bom encontro e faze beneficência ao meu senhor Abraão! Eis que eu estou em pé junto à fonte de água, e as filhas dos varões desta cidade saem para tirar água; seja, pois, que a donzela a quem eu disser: abaixa agora o teu cântaro para que eu beba; e ela disser: Bebe, e também darei de beber aos teus camelos, esta seja a quem designaste ao teu servo Isaque; e que eu conheça nisso que fizeste beneficência a meu senhor” (Gn 24:12-14).

A oração do mordomo pedindo direção é muito instrutiva. Propôs um sinal que em si mesmo demonstraria que a jovem era uma pessoa digna. Era um sinal calculado para demonstrar o caráter e a disposição de uma mulher digna do filho de seu senhor Abraão. O plano do servo era pedir “um gole” de água para si mesmo. Porém, aquela que o Senhor escolhera para ser mãe de um grande povo e ancestral de Jesus Cristo deveria revelar sua natureza generosa e disposição para servir os outros, oferecendo não apenas “um gole”, mas água em abundância. Além disso, a moça também deveria se oferecer para dar de beber aos animais.

Foi a adorável Rebeca quem satisfez as condições da oração e, consequentemente, quem recebeu os presentes do servo Eliézer (cf. Gn 24:15-52). Enquanto Rebeca o levava para a casa de seu pai, o servo de Abraão soube que sua procura havia terminado. Depois que a moça explicou a situação para seu irmão Labão, este o recebeu de bom grado e ouviu a solicitação do servo para que Rebeca fosse oferecida como esposa de Isaque. A convergência espantosa de acontecimentos em resposta à oração do servo convenceu Labão e Betuel (pai de Rebeca) de que o Senhor planejara toda aquela situação. A oração deve ocupar um lugar importante ao combinar um matrimônio.

Rebeca era, em realidade, melhor do que o servo havia pedido. Não era somente hospitaleira e bondosa, mas extraordinariamente bela e pura. Além disso, era uma mulher de caráter, que não vacilou quanto a fazer a vontade de Deus (Gn 24:58). Creu e de boa vontade se ofereceu a ir para um país distante a fim de casar-se com um homem ao qual nunca tinha visto.

  1. O casamento de Isaque (Gn 24:62-67). Quando Rebeca avistou o que seria seu futuro lar, Isaque encontrava-se no campo meditando (talvez orando para que Deus desse êxito a seu servo na missão encomendada). Ela aproximou-se de Isaque com humildade e respeito (Gn 24:65). Isaque recebeu-a com igual cortesia e respeito dando-lhe o lugar de honra na tenda de sua mãe. Casaram-se e Isaque amou-a no instante em que a viu e, ao contrário de outros patriarcas, nunca teve outras esposas. Foi um casamento planejado no Céu.

O texto sagrado não mencionava Isaque desde o episódio no monte Moriá. Agora ele reaparece saindo ao encontro de Rebeca. De modo semelhante, veremos pela primeira vez nosso Salvador quando Cristo retornar para buscar sua noiva (1Ts 4:13-18).

Isaque se casou com Rebeca quando tinha quarenta anos (Gn 25:20), e foi pai aos sessenta anos (Gn 25:26). Rebeca era estéril. Isaque orou por vinte anos, até a sua oração ser respondida. Deus lhe deu dois filhos: Esaú e Jacó.

  1. Paralelo entre a missão do servo de conseguir esposa para Isaque e a obra do Espírito em preparar uma noiva para Jesus Cristo. O servo Eliézer é um representante (símbolo) do Espírito Santo enviado pelo Pai a fim de conquistar uma esposa para o “Isaque celestial”, isto é o Senhor Jesus Cristo. À semelhança do servo que não falou por si mesmo, o Espírito não fala por sua própria conta, mas fala acerca do Filho da promessa (João 16:13-15); da mesma forma que o servo presenteou a Rebeca com coisas preciosas como uma antecipação das riquezas de Isaque, o Espírito concede dons e penhor do Espírito à Igreja (2Co 1:22); como Rebeca creu em Isaque e o amou sem havê-lo visto, o crente crê em Cristo sem vê-lo, ama-o e se alegra com alegria inefável e gloriosa (1Pedro 1:8). Finalmente, vê-se na longa viagem que Rebeca tinha de fazer, a imagem da jornada do cristão para seu lar celestial.

IV. ISAQUE, O BENDITO DO SENHOR (Gn 26:1-29)

“Que nos não faças mal, como nós te não temos tocado, e como te fizemos somente bem, e te deixamos ir em paz. Agora, tu és o bendito do SENHOR” (Gn 26:29).

O capítulo 26 de Gênesis registra três provações que Isaque teve de enfrentar: abandonar a terra prometida em um período de fome, simular que Rebeca não era sua esposa em um momento de perigo, e reagir violentamente à provoca­ção dos filisteus. Falhou em uma das provas (a segunda), porém saiu vitorioso nas outras duas. Por que Deus permitiu que ele fosse provado da mesma maneira em que o fora Abraão? Quis dar-lhe a oportunidade de demonstrar se dependia da fé que seu pai possuía ou estava disposto a confiar ele mesmo, implicitamente, em Deus. Tinha de aprender as lições de fé e consagração. Cada nova geração tem de aprender por experiência própria o que Deus pode fazer por ela.

  1. Confiando em Deus em tempo de crise (Gn 26:1).E havia fome na terra, além da primeira fome, que foi nos dias de Abraão; por isso, foi-se Isaque a Abimeleque, rei dos filisteus, em Gerar”.

A fome assola a terra onde está Isaque. É tempo de escassez, de desemprego, de contenção drástica de despesas, de recessão; por pouco não afligiu a Isaque e o tentou a seguir o exemplo de seu pai. Isaque quis fugir da crise (Gn 26:1). É uma tendência natural do ser humano no momento de crise. Mas o Senhor apareceu a Isaque e advertiu-o de que não se mudasse para o Egito. As promessas que lhe fez eram, mormente, uma repetição das já feitas a Abraão (26:2-5). Rejeitaria Isaque a perspectiva de beneficiar-se da abundância do Egito para alcançar as bênçãos invisíveis do futuro distante? Estaria disposto a perder as riquezas que seu pai havia acumulado?

Isaque demonstrou que tinha a mesma índole de fé que Abraão, morando como estrangeiro na Terra Prometida (Hb 11:9,10). Sem dúvida alguma, perdeu muitas riquezas, mas Deus empregou estas perdas para ensinar-lhe lições espirituais. Depois da prova, o Senhor o enriqueceu com uma colheita extraordinária e o abençoou (Gn 26:12,13). Como Salomão, Isaque podia dizer: “A bênção do Senhor é que enriquece” (Pv 10:22).

Muitas vezes procuramos socorro no mundo e nas pessoas. Por que isto? Não porque não cremos em Deus, mas porque não o conhecemos. Saber e crer que Deus existe não é vantagem nenhuma, até os demônios creem e tremem: “Tu crês que há um só Deus; fazes bem. Também os demônios o creem, e estremecem” (Tg 2.19).

Não adianta dizermos que confiamos em Deus, se nossas atitudes têm sido de incredulidade. Se verdadeiramente cremos nEle, nossas atitudes vão ser de fé; e entre elas, a confiança em Deus. Do contrário, nossa fé não passa de meras palavras, de uma fé morta. A religião é feita de muita teoria, mas a vida cristã de conhecimento e prática – “Assim também a fé, se não tiver as obras, é morta em si mesma. Mas dirá alguém: Tu tens a fé, e eu tenho as obras; mostra-me a tua fé sem as tuas obras, e eu te mostrarei a minha fé pelas minhas obras” (Tg 2.17-18). O texto sagrado recomenda: “Confia no SENHOR e faze o bem; habitarás na terra e, verdadeiramente, serás alimentado” (Sl 37:3).

  1. Perdendo para ganhar, no Senhor (Gn 26:16-29). Deus manteve sua promessa de abençoar Isaque. Os vizinhos filisteus de Gerar ficaram enciumados porque tudo que Isaque fazia parecia dar certo, e assim tentaram livrar-se dele. A inveja é uma força divisória, potente o suficiente para despedaçar a pessoa a separar-se do que almejava a princípio.

O relato no qual se manifesta a inveja dos filisteus lança luz sobre o caráter de Isaque. Os filisteus consideravam-no um estranho e intruso. Reclamaram para si o território. Entupir os poços era um ato de grande provocação, já que a água era de vital importância por ser elemento escasso naquela parte da Palestina. Isaque poderia ter-se defendido porque era “muito mais poderoso” do que os filisteus (Gn 26:16), mas preferiu ceder a brigar, considerando que mais vale a pazcom os homens e a bênção divina do que a água. Não obstante, chamou aos poços “contenção” e “inimizade” como uma suave repreensão. Por fim os filisteus se cansaram de persegui-lo.

A paciência de Isaque foi grandemente recompensada por Deus. Teve a paz que desejava. Deus apareceu-lhe, confirmando-lhe o pacto. Isaque enriqueceu sua vida espiritual edificando um altar e invocando o nome do Senhor. Seus velhos inimigos procedentes de Gerar viram que o Senhor o estava abençoando. Chegaram procurando fazer aliança com ele e deram um extraordinário testemunho deste pacifica­dor (Gn 26:28). O relato nos mostra, pois, que Deus permite que seus filhos sofram perdas para dar-lhes algo melhor e para que se destaque seu caráter no caráter deles.

  1. Lições práticas que podemos tirar do exemplo de vida de Isaque.

a) Na crise não podemos buscar atalhos sedutores (Gn 26:2) – “Apareceu-lhe o SENHOR e disse: Não desças ao Egito. Fica na terra que eu te disser”.

Isaque foi tentado a descer ao Egito, lugar de fartura e riquezas fáceis. Queremos soluções rápidas, fáceis e sem dor. Mas Deus diz a ele: “Não desças ao Egito”. Cuidado para não transigir com os valores de Deus na hora da crise. Cuidado para não tapar os ouvidos à voz de Deus na hora da crise. Desista das vantagens imediatas por bênçãos mais invisíveis (Gn 26:3) e remotas (Gn 26:4). Desista dos seus planos e siga o projeto de Deus, ainda que isso pareça estranho.

b) Na crise precisamos tirar os olhos das circunstâncias e pô-los nas promessas de Deus (Gn 26:3-5). Deus diz a Isaque: Não fuja, fique! Floresça onde você está plantado. Não corra dos problemas; enfrente-os. Vença-os. Eu tomo conta de sua descendência. Seu futuro está nas minhas mãos, e não será destruído pelo terremoto das circunstâncias. Farei de você e da sua descendência uma bênção para o mundo todo.

Seu futuro está nas mãos de Deus. Não deixe a ansiedade estrangular você: “Onde morar? Onde trabalhar? Onde meus filhos estudarão? Como eu pagarei meu plano de saúde? E se eu ficar doente?”. Saiba que Deus cuida de você. Você vale mais do que as aves do céu e as flores do campo. Certa feita, Jesus exortou os seus discípulos sobre isso (cf. Mt 6:25-34).

A causa de nossa vitória não é ausência de problemas, mas a presença de Deus nos garantindo a vitória. Moisés não se dispôs a atravessar o deserto sem a presença de Deus. Paulo perguntou: “Se Deus é por nós, quem será contra nós?” (Rm 8:31). Você e Deus são maioria absoluta. Com Deus a seu lado, você é mais do que vencedor.

c) Na crise precisamos obedecer sem racionalizações (Gn 26:6) – “Isaque, pois, ficou em Gerar”.

Deus determina duas ordens para Isaque: não desças ao Egito (Gn 26:2) e fica na terra de Gerar (Gn 26:2,6). Isaque não discute, não questiona, não racionaliza, não duvida. Isaque obedece de imediato, pacientemente. Ele aprendeu com seu pai, Abraão. Deus diz a Abraão: “Sai-te da tua terra […] para a terra que eu te mostrarei”, e Abraão saiu. Deus diz a Abraão: “Toma agora teu filho, o teu único filho; vai à terra de Moriá, e oferece-o ali em holocausto”, e Abraão foi e ofereceu seu filho. Deus diz a Abraão: “Não estendas a mão sobre o mancebo”, e ele obedeceu. O caminho da obediência é o caminho da bênção. Na crise, não fuja de Deus; obedeça a Ele!

CONCLUSÃO

“A vida de Isaque inspira-nos a ter uma fé mais ativa nas providências divinas. Quando, pois, formos assaltados por dificuldades e provações, não caiamos no desespero, nem questionemos as intervenções do amoroso Deus. Humildes e humilhados, caiamos aos seus pés, pois ele nos provê o necessário para termos uma vida abundante e bem-aventurada em seus caminhos. Que o Deus de Abraão, de Isaque e de Jacó seja eternamente louvado!” (Claudionor de Andrade).

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Luciano de Paula Lourenço

Disponível no Blog: http://luloure.blogspot.com

Referências Bibliográficas:

Bíblia de Estudo Pentecostal.

Bíblia de estudo – Aplicação Pessoal.

Revista Ensinador Cristão – nº 64. CPAD.

Comentário Bíblico popular (Antigo Testamento) – William Macdonald.

Guia do Leitor da Bíblia – Lawrence O. Richards

Teologia do Antigo Testamento – ROY B. ZUCK.

George Herbert LivingstonComentário Bíblico Beacon. CPAD.

O Pentateuco. Paul Hoff.

Gênesis. Bruce K. Waltke. Editora Cultura Cristã.

Manuel do Pentateuco. Victor P. Hamilton. CPAD.

O Começo de todas as coisas – Estudos sobre o Livro de Gênesis. Claudionor de Andrade. CPAD.

Publicado no Blog do Luciano de Paula Lourenço

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