Escatologia, o Estudo das Últimas Coisas – Daniel Conegero

Escatologia, o Estudo das Últimas Coisas, é o tema da lição 1 das Lições Bíblicas do 1º trimestre de 2016 para a Escola Bíblica Dominical. Esta lição servirá de introdução ao assunto que será estudado ao longo do trimestre, onde os pontos da escatologia bíblica serão abordados.

Lição 1: Escatologia, o Estudo das Últimas Coisas

Texto Áureo:

Sabe, porém, isto: que nos últimos dias sobrevirão tempos trabalhosos.
(2 Timóteo 3:1)

Verdade Prática:

O estudo da Escatologia bíblica traz ao coração dos salvos a esperança de um dia estarem para sempre com o Senhor Jesus Cristo.

Leitura Bíblica em Classe:

E Jesus, respondendo, disse-lhes: Acautelai-vos, que ninguém vos engane;
Porque muitos virão em meu nome, dizendo: Eu sou o Cristo; e enganarão a muitos.
(Mateus 24:4,5)

E surgirão muitos falsos profetas, e enganarão a muitos.
E, por se multiplicar a iniqüidade, o amor de muitos esfriará.
Mas aquele que perseverar até ao fim, esse será salvo.
(Mateus 24:11-13)

E esperar dos céus o seu Filho, a quem ressuscitou dentre os mortos, a saber, Jesus, que nos livra da ira futura.
(1 Tessalonicenses 1:10)

Introdução – Lição 1: Escatologia, o Estudo das Últimas Coisas

Escatologia bíblica é um tema de muita importância para os cristãos, mas também é a área da teologia sistemática com mais variações de interpretações. Provavelmente é na escatologia onde os cristãos mais se dividem, e muitos acabam considerando o assunto extremamente confuso e abrem mão de seu estudo. É raro ultimamente encontrar pessoas dentro das igrejas que realmente dominam o assunto, e quando digo “dominam” me refiro às pessoas que conhecem todas as diferentes correntes interpretativas e não apenas uma única visão que lhes foi ensinada. Nessa área existem teólogos de peso que discordam entre si e antes de apontarmos quem tem razão ou não, precisamos estudar profundamente o assunto.

O Dispensacionalismo Clássico (posição escatológica oficial das Assembleias de Deus e de 80% dos evangélicos no mundo) é a visão utilizada pela revista trimestral, porém nosso objetivo aqui será expor as principais (e diferentes) escolas escatológicas, ou seja, não ficaremos restritos a apenas uma linha de interpretação.

I- O Estudo da Escatologia – Lição 1: Escatologia, o Estudo das Últimas Coisas

  1. Definição de Escatologia: o termo “escatologia” significa “estudo ou doutrina das últimas coisas” e começou a ser utilizado no século 19, vindo do grego “escathos” (último), e “logos” (raciocínio, estudo). Algumas pessoas acreditam que a escatologia se refere apenas aos acontecimentos futuros, porém a escatologia é a divisão da Teologia Sistemática que estuda desde as profecias que já se cumpriram até as que ainda se cumprirão, ou seja, podemos dizer que a escatologia engloba tudo o que era futuro na época em que foi profetizado. Para saber mais sobre isso leia nosso estudo “O que é Escatologia?”.
  2. A volta de Jesus: todo conteúdo classificado como “escatológico” é muito importante, porém com certeza o assunto principal da escatologia é a volta de Cristo. É esse evento que faz com que tudo tenha sentido. Sem a volta de Jesus não é apenas a escatologia que perde o sentido, mas o próprio cristianismo.

Para saber mais sobre Escatologia leia nosso texto “O Que é Escatologia?“.

II- Preocupação com o Fim dos Tempos – Lição 1: Escatologia, o Estudo das Últimas Coisas

  1. A curiosidade: profecias apocalípticas sempre despertaram a curiosidade das pessoas em todas as épocas. Existem pelo menos 30 “apocalipses judaicos” e outros manuscritos que foram escritos entre meados de 200 a.C. até 300 d.C. Os próprios discípulos de Jesus também tinham curiosidade a respeito das coisas futuras (Mt 24:3).
  2. Falsas previsões: ao longo da história da humanidade não faltou “profecias” sobre o fim do mundo. Dentro do cristianismo as principais profecias furadas estão relacionadas ao dia da volta de Cristo. Muitas pessoas utilizando-se de supostos códigos bíblicos e formulas matemáticas já tentaram descobrir o dia do evento que apenas o Pai conhece (Mt 24:36).
  3. Códigos do Apocalipse: essa “euforia” sobre uma possível codificação presente no livro de Apocalipse ganhou força no final da década de 1990 com a publicação da obraApocalypse Code, de Hal Lindsey. Segundo o autor do livro, Deus o concedeu um “discernimento especial” sobre a interpretação do Apocalipse, proporcionando a ele a oportunidade de fazer o que nunca ninguém havia feito: quebrar o código das profecias de João. O próprio Hal Lindsey anos antes já havia especulado (sem sucesso) o fim do mundo para meados de 1988. Creio que não precisamos nem comentar tamanho absurdo. Posso dizer que as maiores “doutrinas estranhas” que invadiram as igrejas ao longo do tempo, são originadas de situações como essas, onde alguém recebeu uma revelação particular de Deus que nunca ninguém havia recebido antes dos tais receptores. Especificamente dentro do livro de Apocalipse, essas especulações surgem primariamente do método futurista de interpretação. Hoje, talvez o maior expoente e porta voz da visão escatológica de Hal Lindsey seja o Dr. Tim LaHaye, autor da famosa série “Deixados para Trás” (que tem muitas coisas em comum com o livro de Hal LindseyThe Late, Great Planet Earth publicado na década de 70). LaHaye é a principal referência utilizada no decorrer da revista Lições Bíblicas desse trimestre e, particularmente, acredito ser algo lamentável, não pela escolha por LaHaye, mas por centralizar o ensino de alguns milhões de evangélicos em apenas uma única linha de interpretação, e defendê-la como sendo a única verdade possível, desprezando toda tradição histórica cristã em relação ao assunto. Reconheço o esforço do Dr. Tim LaHaye de estar profundamente comprometido com o desejo de interpretar o assunto e defender as verdades bíblicas, porém nem sempre propósitos nobres nos isentam de equívocos, e são inegáveis os erros teológicos presentes nas obras do Dr. Tim LaHaye.

III- Interpretações Escatológicas – Lição 1: Escatologia, o Estudo das Últimas Coisas

Basicamente existem quatro métodos de interpretação do livro de Apocalipse: Futurista, Idealista, Preterista, Historicista. Mesmo dentro de cada método, também existe diferentes opiniões, o que acaba ocasionando subdivisões, como por exemplo, o Preterismo Moderado, que é uma variação do método Preterista.

  1. Interpretação Futurista: quase tudo presente no Apocalipse e em outras passagens escatológicas da Bíblia, se referem ao futuro.
  2. Interpretação Idealista (ou Simbólica): resumidamente, o Idealismo interpreta o Apocalipse de forma simbólica, que reflete a luta entre o bem e o mal ao longo da história. Alguns Idealistas assumem que até mesmo a Segunda Vinda de Cristo é um evento simbólico.
  3. Interpretação Preterista: existe o Preterismo Total (ou Hiperpreterismo) que defende que tudo na escatologia bíblica já ocorreu, principalmente com a destruição de Jerusalém em 70 d.C., e, no final, acaba sendo herético. Há também o Preterismo Moderado que considera o contexto histórico das profecias escatológicas da Bíblia, admite o cumprimento de muitas delas, porém defende que ainda existe uma parte das profecias que se referem a eventos futuros.
  4. Interpretação Historicista: a interpretação histórica crê que a escatologia bíblica foi se cumprindo ao longo da história, e o próprio livro de Apocalipse, sobre tudo, é um livro histórico.

Para saber mais sobre as diferentes interpretações, leia nosso texto “Métodos de Interpretação do Livro de Apocalipse“.

Há também diferentes visões quanto à cronologia dos eventos escatológicos da Bíblia. As principais são: Pré-Milenismo Histórico, Dispensacionalismo, Amilenismo e Pós-Milenismo. Antes de vermos um resumo de cada uma dessas visões, precisamos considerar as diferenças em relação ao momento do Arrebatamento. Diferente do que foi colocado na revista, essas opiniões não estão apenas dentro do método Futurista, até porque o Futurismo, e também os outros métodos, são estilos hermenêuticos de leitura das profecias escatológicas. Vejamos resumidamente cada dessas opiniões:

  1. Pré-Tribulacionista: divide a volta de Cristo em duas fases, sendo uma secreta para arrebatar a Igreja antes da Grande Tribulação, e outra visível a todos para instituir o reino milenar de Cristo na terra. Essa posição nunca foi ensinada antes do século 19. Esse pensamento existe apenas dentro da visão Dispensacionalista onde existe completa distinção entre a Igreja e Israel e, portanto, a Grande Tribulação é um processo para Israel e não para a Igreja, por isso o Arrebatamento precisa ocorrer antes dela.
  2. Mesotribulacionista: muito parecido com o Pré-Tribulacionismo, porém defende que o Arrebatamento da Igreja ocorrerá no meio da Grande Tribulação.
  3. Pós-Tribulacionista: essa opinião sempre foi defendida na história da Igreja, e era a posição predominante entre os cristãos sobre o arrebatamento até o século 19. O Pós-Tribulacionismo defende que a volta de Cristo ocorrerá após a Grande Tribulação, em um evento visível a todos. Embora o comentarista da revista pense o contrário, com toda certeza essa posição é a mais coerente com o ensino Bíblico. É lamentável se referir a uma posição tão importante dentro do cristianismo histórico apenas como “esse ensino não tem base sólida na Palavra de Deus”.

Na revista também é feita uma comparação entre o Pré-Milenismo e as opiniões acima, porém, isso é um erro, pois são coisas completamente diferentes. Por exemplo: o Pré-Milenismo citado pelo comentarista como a posição dominante entre os cristãos no princípio da Igreja, defende a opinião Pós-Tribulacionista do Arrebatamento da Igreja. Como também podemos dizer que os Dispensacionalistas são Pré-Milenistas, porém defendem a opinião Pré-Tribulacionista. O termo “Pré-Milenista” trata da relação entre o Arrebatamento e o Milênio e não a ordem do Arrebatamento em relação a Grande Tribulação. Para saber mais leia nosso texto “Pré-Tribulacionismo, Pós-Tribulacionismo e Meso-Tribulacionismo“.

Entendido isso, agora poderemos citar novamente as quatro principais correntes escatológicas:

  1. Pré-Milenismo Histórico: visão muito comum na história da Igreja, defende a volta de Cristo como um evento único após a Grande Tribulação para instituir o reino milenar e literal de Cristo na terra.
  2. Pré-Milenismo Dispensacionalista: divide a volta de Cristo em duas fases, sendo uma secreta para a Igreja e outra visível a todos após um período de sete anos de Grande Tribulação para estabelecer o reino milenar e literal de Cristo na terra. Existe também o Dispensacionalismo Progressivo, que semelhante ao Pré-Milenismo Histórico, defende a volta de Cristo em um único evento e a após a Grande Tribulação. Essa posição está ganhando força nos últimos anos, principalmente entre as denominações que adotam o Dispensacionalismo Clássico, mas que começam a perceber algumas incoerências teológicas nesse sistema, e acabam “migrando” para o Dispensacionalismo Progressivo.
  3. Pós-Milenismo: defende que a volta de Cristo ocorrerá após o Milênio, e que esse Milênio será instituído com uma evangelização global, onde a maioria das pessoas do mundo serão cristãs.
  4. Amilenismo: defende que a volta de Cristo será após a Grande Tribulação em um evento único e visível a todos, para estabelecer o estado eterno, ou seja, não haverá um período futuro de mil anos literal do reino de Cristo na terra. Embora a expressão “Amilenismo” significa “sem milênio”, essa definição não condiz com o que essa visão escatológica defende. O Amilenismo crê em um Milênio, porém acredita que esse Milênio não se trata de um período literal de mil anos, mas de um período que se iniciou com a Primeira Vinda de Cristo na terra, ou seja, o Milênio é um reino espiritual que acontece com a Igreja na terra e os salvos que já morreram no céu. Na revista foi afirmado que o Amilenismo se encaixa exclusivamente dentro da interpretação Idealista (ou Simbolista) do Apocalipse, porém isso não é verdade. O Amilenismo defende a interpretação simbólica do Milênio e de outras passagens que claramente se tratam de simbologia no livro de Apocalipse, porém também defende a historicidade de vários eventos, principalmente no contexto histórico em que o livro foi escrito, e as profecias que ainda irão se cumprir, como um período de Grande Tribulação, o surgimento de um Anticristo escatológico e, o mais importante, a Segunda Vinda de Cristo. Em nenhuma hipótese o Amilenismo considera a volta de Cristo e o Arrebatamento da Igreja como algo simbólico e não literal.

Para saber mais sobre as escolas escatológicas leia nossos textos “As Diferentes Correntes Escatológicas” e “Diferenças entre Amilenismo, Pré-Milenismo, Pós-Milenismo e Dispensacionalismo“.

Conclusão – Lição 1: Escatologia, o Estudo das Últimas Coisas

Reconheço que Escatologia não é um assunto fácil, porém é de suma importância o seu estudo na Igreja de Cristo. Nessa área é necessário, antes de tudo, respeito por quem pensa de forma diferente de nós, e, para quem realmente quer se aprofundar no assunto, o importante é deixar alguns pré-conceitos de lado e entender a fundo cada uma das diferentes visões, pois todas elas possuem entre seus defensores teólogos muito capacitados.

Particularmente, prefiro não adotar exclusivamente um método específico de interpretação do Apocalipse, como o Futurista ou o Preterista por exemplo. Creio que a interpretação mais coerente do Apocalipse é aquela que não desconsidera o contexto histórico do livro, que identifica corretamente o que é simbólico sem tentar “literalizar” tais simbologias, que também reconhece o conteúdo que se refere aos últimos dias presente no livro, e, claro, tudo harmonizando com os outros textos escatológicos presentes na Bíblia (principalmente com o Sermão Escatológico de Jesus) para que não ocorra nenhuma contradição. Resumindo, essa interpretação abrange o passado, presente e o futuro.

Se tentarmos “futurizar” tudo, cometeremos muitos erros e nossa interpretação apocalíptica será quase que uma ficção científica. Muitos cristãos são quase que paranoicos em relação ao Apocalipse, devido a esse tipo de interpretação, onde tudo é visto como um código, deixando de ser a Palavra de Deus e dando ênfase a um tipo de Teoria da Conspiração.

Sobre o Arrebatamento ser Pré-Tribulacional, Mesotribulacional ou Pós-Tribulacional, creio que a visão com maior fundamentação bíblica seja o Pós-Tribulacional (leia mais sobre isso aqui), porém respeito à opinião de quem pensa diferente (como o próprio comentarista da revista), pois acredito que nenhuma das opiniões sejam um tipo de heresia. Para mim, heresia seria uma opinião que negue a volta de Cristo, o Juízo Final, a condenação dos ímpios e o reinado eterno dos justos com Deus. Isso nenhuma das diferentes interpretações acerca do arrebatamento faz.

Também concordo com o comentarista da revista de que isso não deve ser motivo de divisão entre os cristãos, pois maior é a esperança que todos nós compartilhamos: Cristo voltará.

Que possamos dizer: hora vem Senhor Jesus!

Apoio Teológico:

É indispensável a leitura dos seguintes textos para melhor compreensão do assunto desta lição:

Escatologia – Estudo sobre o que é Escatologia

As Diferentes Correntes Escatológicas

Métodos de Interpretação do Livro de Apocalipse

Diferenças entre Amilenismo, Pré-Milenismo, Pós-Milenismo e Dispensacionalismo

Pré-Tribulacionismo, Pós-Tribulacionismo e Meso-Tribulacionismo

A Igreja Passará Pela Grande Tribulação?

 Publicado no blog Estilo Adoração

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