A Carta aos Hebreus e a Excelência de Cristo – Pr. Luiz Henrique

A Carta aos Hebreus e a Excelência de Cristo – Pr. Luiz Henrique

Lição 1, A Carta aos Hebreus e a Excelência de CRISTO
1º Trimestre de 2018 – Título: A Supremacia de CRISTO – Fé, Esperança e Ânimo na Carta aos Hebreus
Comentarista: Pr. José Gonçalves, pastor presidente das Assembleias de DEUS em Água Branca, PI.
Complementos, Ilustrações e Vídeos: Pr. Luiz Henrique de Almeida Silva – 99-99152-0454.
Ajuda – http://www.apazdosenhor.org.br/profhenrique/hebreus.htm
SLIDES DA LIÇÃO 1 – https://www.slideshare.net/henriqueebdnatv/lio-1-a-carta-aos-hebreus-e-a-excelncia-de-cristo-5-partes-1tr18-pr-henrique-ebd-na-tv
 
 
TEXTO ÁUREO
“Havendo DEUS, antigamente, falado, muitas vezes e de muitas maneiras, aos pais, pelos profetas, a nós falou-nos, nestes últimos dias, pelo Filho.” (Hb 1.1)
 

VERDADE PRÁTICA
Por meio de CRISTO, DEUS revelou-se de uma forma especial e definitiva ao seu povo.

 
 
LEITURA DIÁRIA
Segunda – 2 Tm 3.16 Hebreus, uma carta inspirada como as demais do Novo Testamento
2 Tm 3:16 Toda a Escritura divinamente inspirada é proveitosa para ensinar, para redarguir, para corrigir, para instruir em justiça;
Toda escritura – Bíblia.
Divinamente . ESPÍRITO SANTO guiando e dando direção ao que foi escrito. A palavra “inspirada” significa “sopro de DEUS — cheia do sopro de DEUS”. O Espí­rito do Senhor capacitou os homens do Senhor a escrever a Palavra dele.
Proveitosa – Perfeita. Útil.
Para ensinar – Guiar, iluminar o caminho, instruir, doutrinar.
Redarguir – verificar a aprovação, repreensão.
Corrigir – aperfeiçoar o caráter, dar rumo certo.
Instruir – educar, treinar a mente para o crescimento.
Justiça – integridade; virtude; pureza de vida; pensamento, sentimento e ação corretos.
3.16 TODA ESCRITURA DIVINAMENTE INSPIRADA. Uma exposição sobre a inspiração e a autoridade das Escrituras

Terça – 1 Tm 3.16 CRISTO, manifestado em carne
Nascido de uma mulher – tinha corpo semelhante a nós homens.
A principal verdade sobre a qual uma igreja deve dar testemunho é a pessoa e obra de JESUS CRISTO (1 Tm 3:16 – é provável que esse versículo seja uma citação de um hino cristão da Igreja primitiva). JESUS CRISTO é DEUS manifestado na carne, não apenas em seu nascimento, mas ao longo de todo seu ministério aqui na Terra (Jo 14:1-9). Apesar de seu próprio povo, como nação, tê-lo rejeitado, JESUS CRISTO foi justificado em espírito (ou “no ESPÍRITO”), pois o ESPÍRITO lhe deu poder para fazer milagres e até ressuscitar dentre os mortos (Rm 1:4). A presença do ESPÍRITO no mundo é, em si mesma, um julgamento do mundo (Jo 16:7-11).
A expressão “contemplado por anjos” sugere que anjos escolhidos foram associados à vida e ao ministério de CRISTO. (O termo angelos, traduzido por “anjos”, também significa “mensageiros” – ver Tg 2:25. Talvez Paulo estivesse se referindo aos mensageiros escolhidos que davam testemunho do CRISTO ressurreto.) CRISTO, porém, não morreu pelos anjos, mas sim pelos pecadores perdidos, de modo que foi pregado entre os gentios. Isso nos traz à memória a comissão que o Senhor deixou para sua Igreja de levar o evangelho até os confins da Terra, onde Crido no mundo. Na ascensão Ele foi recebido na gloria (At 1;2), e um dia voltara a fim de buscar Sua igreja para participar dessa gloria. Que desafio emocionante para a igreja local dar testemunho de JESUS CRISTO aos pecadores perdidos ao seu redor e pelo mundo afora.
 
Sem dúvida, grande é esse mistério da fé: DEUS foi manifestado em carne, foi justificado no ESPÍRITO, contemplado pelos anjos, pregado entre as nações, crido no mundo e recebido acima na glória.
JESUS, DEUS mesmo. Nasceu na terra como homem. EMANUEL.
Tomou sobre Ele nossos pecados.
Maldito de DEUS, oprimido, o castigo de DEUS veio sobre Ele, o juízo de DEUS estava sobre Ele.
Morreu a nossa morte na cruz.
Foi ao inferno em nosso lugar.
Julgado pelo tribunal celestial.
Declarado justo, pois nunca pecou, nunca houve engano em sua boca, tentado em tudo, mas nunca pecou. Declarado santo.
Ressuscitado, recebido no céu como filho de DEUS, assentou-se a direita do Todo Poderoso.
Abram-se portais….
Tú és meu filho, hoje te gerei.
Glória a DEUS!
Ele vive para sempre intercedendo por mim e por você. Aleluia!
 
JESUS ressuscitou e vai subindo ao céu – Salmos 24:7 Levantai, ó portas, as vossas cabeças; levantai-vos, ó entradas eternas, e entrará o Rei da Glória.8 Quem é este Rei da Glória? O Senhor forte e poderoso, o Senhor poderoso na guerra.9 Levantai, ó portas, as vossas cabeças, levantai-vos, ó entradas eternas, e entrará o Rei da Glória. 10 Quem é este Rei da Glória? O Senhor dos Exércitos, ele é o Rei da Glória. (Selá.)
JESUS chegando diante do PAI, no trono: Proclamarei o decreto: o Senhor me disse: Tu és meu Filho, eu hoje te gerei. Salmos 2:7
Como também está escrito no salmo segundo: Meu filho és tu, hoje te gerei. Atos 13:33
Porque, a qual dos anjos disse jamais: Tu és meu Filho, Hoje te gerei? E outra vez: Eu lhe serei por Pai, E ele me será por Filho? Hebreus 1:5

Quarta – Hb 1.1 A revelação profética na Antiga Aliança.
JESUS veio cumprir a lei e os profetas para mostrar sua perfeição em nos substituir na Cruz.
1.1,2 FALOU-NOS… PELO FILHO. Estes dois primeiros versículos estabelecem o tema principal deste livro. No passado, o instrumento principal de DEUS para sua revelação foram os profetas, mas agora Ele tem falado, ou se revelado pelo seu Filho JESUS CRISTO, que é supremo sobre todas as coisas. A Palavra de DEUS falada mediante seu Filho é final: ela cumpre e transcende tudo o que foi anteriormente falado da parte de DEUS. Absolutamente nada, nem os profetas (v. 1), nem os anjos (v. 4), têm maior autoridade do que CRISTO. Ele é o único caminho para a salvação eterna e o único mediador entre DEUS e o homem.

Quinta – Hb 1.2,3 CRISTO, a revelação final de DEUS
Quem vê o filho, vê o PAI. JESUS é DEUS.
1.2,3 O escritor de Hebreus confirma a supremacia de CRISTO ao enumerar dEle sete grandes revelações (vv. 2,3)
ASSENTOU-SE À DESTRA. Depois de CRISTO ter efetuado o perdão dos nossos pecados mediante a sua morte na cruz assumiu o seu lugar de autoridade à destra de DEUS. A atividade redentora de CRISTO no céu envolve seu ministério de mediador divino (8.6; 13.15; 1 Jo 2.1,2), de sumo sacerdote (Hb 2.17,184.14-168.1-3), de intercessor (7.25) e de batizador no ESPÍRITO (At 2.33).
O filho é superior tanto aos profetas como aos anjos. Filho é DEUS e é herdeiro de tudo. Herdeiro de tudo o que Ele mesmo criou. O filho é parecidíssimo com o PAI, da mesma essência e poder, fazendo parte da triunidade. É DEUS único com o PAI e o ESPÍRITO SANTO. O Filho reflete a Glória tanto de si mesmo, como do PAI como do ESPÍRITO SANTO. Quem vê o filho vê o PAI. Quem escuta o Filho, escuta o PAI. O Filho é quem sustenta todas as coisas funcionando no universo. O Filho é quem dá o equilíbrio ao universo. O Filho tem poder para dar vida e poder para tirar. Para construir e para derrubar. Poder para julgar, condenar e perdoar. O Filho executou o sacrifício em favor dos homens, se ofereceu a si mesmo para que os pecados de todos fossem perdoados. Assentou quer dizer que descansou depois de executar sua obra perfeita e eterna de salvação. A direita do PAI indica posição de superior a qualquer outro, exceto o PAI. 1João 1 No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus. 2 Ele estava no princípio com Deus. 3 Todas as coisas foram feitas por ele, e sem ele nada do que foi feito se fez. João 14:9 Disse-lhe Jesus: Estou há tanto tempo convosco, e não me tendes conhecido, Filipe? Quem me vê a mim vê o Pai; e como dizes tu: Mostra-nos o Pai? João 14:24 Quem não me ama não guarda as minhas palavras; ora, a palavra que ouvistes não é minha, mas do Pai que me enviou. Mateus 28:18E, chegando-se Jesus, falou-lhes, dizendo: É-me dado todo o poder no céu e na terra. João 10:30 Eu e o Pai somos um. Hebreus 9:26 De outra maneira, necessário lhe fora padecer muitas vezes desde a fundação do mundo.
Hebreus 10:14 Porque com uma só oblação aperfeiçoou para sempre os que são santificados.

Sexta – Hb 1.4,5 CRISTO, superior aos anjos em natureza e essência
Anjos são criaturas – JESUS é filho. Anjos são enviados – JESUS envia. Anjos recebem ordens – JESUS dá ordens. .
João 1.4 VIDA… A LUZ DOS HOMENS. CRISTO é a personificação da genuína e verdadeira vida (cf. João 14.617.3). Sua vida era a luz para todos, i.e., a verdade de DEUS, sua natureza, propósito e poder tornam-se disponíveis a todos por meio dEle (João 8.1212.35,36,46).
 
João 1.5 A LUZ RESPLANDECE NAS TREVAS. A luz de CRISTO brilha num mundo mau e pecaminoso controlado por Satanás. A maior parte do mundo não aceita sua vida, nem sua luz; mesmo assim “as trevas não a compreenderam”, i.e., não prevaleceram contra ela.
 

Sábado – Hb 1.6-8 CRISTO, superior aos anjos em majestade e deidade.
Anjos habitam o céu – JESUS está a direita do PAI. Anjos são criaturas – JESUS é filho.Anjos teem vida concedida por DEUS – JESUS é o autor da vida. Anjos são sustentados por DEUS – JESUS sustenta todo o universo.
João 1.1 O VERBO. João começa seu Evangelho denominando JESUS de “o Verbo” (gr. Logos). Mediante este título de CRISTO, João o apresenta como a Palavra de DEUS personificada e declara que nestes últimos dias DEUS nos falou através do seu Filho (cf. Hb 1.1). As Escrituras declaram que JESUS CRISTO é a sabedoria multiforme de DEUS (1 Co 1.30Ef 3.10,11Cl 2.2,3) e a perfeita revelação da natureza e da pessoa de DEUS (Jo 1.3-514,18;Cl 2.9). Assim como as palavras de um homem revelam o seu coração e mente, assim também CRISTO, como “o Verbo”, revela o coração e a mente de DEUS (14.9; ver o estudo A PALAVRA DE DEUS). João nos apresenta três características principais de JESUS CRISTO como “o Verbo”. (1) O relacionamento entre o Verbo e o Pai. (a) CRISTO preexistia “com DEUS” antes da criação do mundo (cf. Cl 1.15,19). Ele era uma pessoa existente desde a eternidade, distinto de DEUS Pai, mas em eterna comunhão com Ele. (b) CRISTO era divino (“o Verbo era DEUS”), e tinha a mesma natureza do Pai (Cl 2.9; ver Mc 1.11 nota). (2) O relacionamento entre o Verbo e o mundo. Foi por intermédio de CRISTO que DEUS Pai criou o mundo e o sustenta (v. 3; Cl 1.17Hb 1.21 Co 8.6). (3) O relacionamento entre o Verbo e a humanidade. “E o Verbo se fez carne” (v. 14). Em JESUS, DEUS tornou-se um ser humano com a mesma natureza do homem, mas sem pecado. Este é o postulado básico da encarnação: CRISTO deixou o céu e experimentou a condição da vida e do ambiente humanos ao entrar no mundo pela porta do nascimento humano (ver Mt 1.23)
 
 
 
LEITURA BÍBLICA EM CLASSE – Hebreus 1.1-14
1 – Havendo DEUS, antigamente, falado, muitas vezes e de muitas maneiras, aos pais, pelos profetas, a nós falou-nos, nestes últimos dias, pelo Filho, 2 – a quem constituiu herdeiro de tudo, por quem fez também o mundo. 3 – O qual, sendo o resplendor da sua glória, e a expressa imagem da sua pessoa, e sustentando todas as coisas pela palavra do seu poder, havendo feito por si mesmo a purificação dos nossos pecados, assentou-se à destra da Majestade, nas alturas; 4 – feito tanto mais excelente do que os anjos, quanto herdou mais excelente nome do que eles. 5 – Porque a qual dos anjos disse jamais: Tu és meu Filho, hoje te gerei? E outra vez: Eu lhe serei por Pai, e ele me será por Filho? 6 – E, quando outra vez introduz no mundo o Primogênito, diz: E todos os anjos de DEUS o adorem. 7 – E, quanto aos anjos, diz: O que de seus anjos faz ventos e de seus ministros, labareda de fogo. 8 – Mas, do Filho, diz: Ó DEUS, o teu trono subsiste pelos séculos dos séculos, cetro de equidade é o cetro do teu reino. 9 – Amaste a justiça e aborreceste a iniquidade; por isso, DEUS, o teu DEUS, te ungiu com óleo de alegria, mais do que a teus companheiros. 10 – E: Tu, Senhor, no princípio, fundaste a terra, e os céus são obra de tuas mãos; 11 – eles perecerão, mas tu permanecerás; e todos eles, como roupa, envelhecerão, 12 – e, como um manto, os enrolarás, e, como uma veste, se mudarão; mas tu és o mesmo, e os teus anos não acabarão. 13 – E a qual dos anjos disse jamais: Assenta-te à minha destra, até que ponha os teus inimigos por escabelo de teus pés? 14 – Não são, porventura, todos eles espíritos ministradores, enviados para servir a favor daqueles que hão de herdar a salvação?
 
1.1,2 FALOU-NOS… PELO FILHO. Estes dois primeiros versículos estabelecem o tema principal deste livro. No passado, o instrumento principal de DEUS para sua revelação foram os profetas, mas agora Ele tem falado, ou se revelado pelo seu Filho JESUS CRISTO, que é supremo sobre todas as coisas. A Palavra de DEUS falada mediante seu Filho é final: ela cumpre e transcende tudo o que foi anteriormente falado da parte de DEUS (ver o estudo A PALAVRA DE DEUS). Absolutamente nada, nem os profetas (v. 1), nem os anjos (v. 4), têm maior autoridade do que CRISTO. Ele é o único caminho para a salvação eterna e o único mediador entre DEUS e o homem. O escritor de Hebreus confirma a supremacia de CRISTO ao enumerar dEle sete grandes revelações (vv. 2,3)
 
1.3 ASSENTOU-SE À DESTRA. Depois de CRISTO ter efetuado o perdão dos nossos pecados mediante a sua morte na cruz assumiu o seu lugar de autoridade à destra de DEUS. A atividade redentora de CRISTO no céu envolve seu ministério de mediador divino (8.6; 13.15; 1 Jo 2.1,2), de sumo sacerdote (Hb 2.17,184.14-168.1-3), de intercessor (7.25) e de batizador no ESPÍRITO (At 2.33).
 
1.4 MAIS EXCELENTE QUE OS ANJOS. JESUS é superior aos anjos pela mesma razão porque Ele é superior aos profetas: Ele é o Filho (vv. 4-14). Os anjos desempenharam um papel importante na outorga do concerto do AT (Dt 33.2At 7.53Gl 3.19). O autor, escrevendo aos judeus crentes, estabelece a superioridade de CRISTO sobre os anjos, recorrendo ao AT. Para uma maior exposição sobre os anjos, ver o estudo OS ANJOS, E O ANJO DO SENHOR
 
1.5 HOJE TE GEREI. Ver Jo 1.14
Jo 1.14 E O VERBO SE FEZ CARNE. CRISTO, o DEUS eterno, tornou-se humano (Fp 2.5-9). NEle se uniram a humanidade e a divindade. De modo humilde, Ele entrou na vida e no meio-ambiente humanos com todas as limitações das experiências humanas (cf. João 3.176.38-427.299.510.36).
 
1.8 DO FILHO, DIZ: Ó DEUS. O escritor sacro destaca aqui a deidade de CRISTO (ver Jo 1.1).
 
1.9 AMASTE A JUSTIÇA E ABORRECESTE A INIQÜIDADE. Não basta o crente amar a justiça; ele deve, também, aborrecer o mal. Vemos esse fato claramente na devoção de CRISTO à justiça (Is 11.5) e, na sua aversão à iniqüidade; na sua vida, no seu ministério e na sua morte (ver Jo 3.19; 11.33). (1) A fidelidade de CRISTO ao seu Pai, enquanto Ele estava na terra, conforme Ele demonstrou pelo seu amor à justiça e sua aversão à iniquidade, é a base para DEUS ungir o seu Filho (v. 9). Da mesma maneira, a unção do cristão virá somente à medida que ele se identificar com a atitude do seu Mestre para com a justiça e a iniquidade (Sl 45.7). (2) O amor do crente à justiça e seu ódio ao mal crescerá por dois meios: (a) crescimento em sincero amor e compaixão por aqueles, cujas vidas estão sendo destruídas pelo pecado, e (b) por uma sempre crescente união com o nosso DEUS e Salvador, do qual está dito: “O temor do SENHOR é aborrecer o mal?? (ver Pv 8.13Sl 94.1697.10Am 5.15Rm 12.91 Jo 2.15Ap 2.6).
 
1.13 DOS ANJOS. “Anjo” (hb. malak; gr. aggelos) significa “mensageiro”. Os anjos são descritos como mensageiros e servos de DEUS, criados antes da terra (Jó 38.4-7). JESUS é o criador. JESUS é DEUS.
 
OBJETIVO GERAL – Apresentar as características da Carta aos Hebreus e a superioridade de CRISTO.
 
OBJETIVOS ESPECÍFICOS
Pontuar a autoria, o destinatário e o propósito da Carta de Hebreus;
Expor a superioridade de CRISTO em relação aos profetas;
Mostrar a superioridade de CRISTO em relação aos anjos.

INTERAGINDO COM O PROFESSOR
Prezado(a) professor(a), iniciaremos mais um trimestre pela graça de DEUS. A carta de Hebreus é o objeto do nosso estudo nestes próximos três meses. Antes de iniciar o estudo da primeira lição em classe, apresente o comentarista deste trimestre: pastor José Gonçalves, escritor, conferencista, comentarista de Lições Bíblicas Adultos da CPAD, membro da Comissão de Apologética da CGADB e líder da Assembleia de DEUS em Água Branca – PI.
 
PONTO CENTRAL – A carta de Hebreus é uma mensagem de instrução e exortação que serve à Igreja de CRISTO ao longo dos séculos.
 
Resumo da Lição 1 – A Carta aos Hebreus e a Excelência de CRISTO
I – AUTORIA, DESTINATÁRIO E PROPÓSITO
1. Autoria.
2. Destinatários.
3. Propósito.
II – CRISTO – A PALAVRA SUPERIOR A DOS PROFETAS
1. A revelação profética e a Antiga Aliança.
2. A revelação profética e a Nova Aliança.
3. CRISTO: a revelação final.
III – CRISTO – SUPERIOR AOS ANJOS
1. CRISTO: superior em natureza e essência.
2. CRISTO: superior em majestade e deidade.
 
SÍNTESE DO TÓPICO I – A autoria de Hebreus é desconhecida; seus destinatários eram cristãos judeus; seu propósito, exortar os cristãos a terem ânimo e fé.
SÍNTESE DO TÓPICO II – Da Antiga à Nova Aliança, CRISTO é a revelação plena de DEUS Pai, por isso, Ele é superior aos profetas.
SÍNTESE DO TÓPICO III – JESUS CRISTO é superior aos anjos em relação à natureza, essência, majestade e deidade.
 
PARA REFLETIR – A respeito de a Carta aos Hebreus e a Excelência de CRISTO, responda:
Quem é o autor da carta aos Hebreus?
 A carta aos Hebreus não revela o nome do seu autor.
Para quem a carta foi escrita e por quê? Ela foi escrita para os cristãos judeus. O propósito da carta foi para exortar aos cristãos a terem ânimo e fé em tempos de apostasia.
Segundo as Escrituras, o ESPÍRITO de DEUS deixou de falar nos dias atuais? Não. DEUS, em nenhum momento da história, deixou o seu povo sem orientação.
Qual a pior forma de castigo que poderia vir ao antigo Israel? O silêncio profético.
Por que o escritor da Carta aos Hebreus diz que os anjos são inferiores ao Filho? Porque os anjos são criaturas, o Filho é Criador.
 
CONSULTE – Revista Ensinador Cristão – CPAD, nº 73, p. 36
 
RESUMO RÁPIDO DO Pr. Henrique
INTRODUÇÃO
Epístola aos Hebreus é mais uma jóia literária para deleite espiritual do povo de DEUS. Apesar de anônima, ela traz em seu conteúdo todos os demais pensamentos divinos inseridos nas Escrituras de ambos os Testamentos. De igual modo, as palavras de Paulo encontradas em Atos e nas 13 epístolas que trazem o seu nome, são encontradas também aqui — o que torna esta epístola de uma magnitude encantadora e esplendorosa.
Já começa a Carta indicando que JESUS é maior do que os profetas, pois Ele é filho e não apenas um profeta.
Em qualquer assunto a Palavra final é de JESUS. Se JESUS falou sobre o assunto, o que prevalece é o que JESUS falou. (Exemplo: Divórcio).
DEUS falou através de muitos profetas, pois sempre revelava aos profetas o que ia fazer. (Exemplo: para destruir Sodoma e Gomorrra primeiro falou com Abraão).
O Antigo Testamento é a Palavra de DEUS dita aos homens através dos profetas. cerca de 40 escreveram a Bíblia. Foi escrita por aproximadamente 40 homens. Estes autores dos livros sagrados possuíam diferentes estilos de vida, de conhecimento, de facilidade de escrita. Todo este trabalho durou cerca de 1500 anos.
De muitas maneiras, significa que alguns receberam por visão, por sonho, por visita de anjos, por audição da voz de DEUS, por visitação do próprio DEUS, etc…
O autor de Hebreus se coloca entre os que ouviram a Palavra de DEUS dita pelo próprio DEUS (Filho de DEUS – JESUS). Por exemplo, Paulo viu e escutou JESUS –
Atos 9.5 E ele disse: Quem és, Senhor? E disse o Senhor: Eu sou JESUS, a quem tu persegues. Duro é para ti recalcitrar contra os aguilhões.
Gálatas 1:12 Porque não o recebi, nem aprendi de homem algum, mas pela revelação de JESUS CRISTO.
1 Coríntios 11.23 Porque eu recebi do Senhor o que também vos ensinei: que o Senhor JESUS, na noite em que foi traído, tomou o pão;
Agora DEUS se revela pelo próprio Filho. Fala ao homem em seu habitat natural. EMANUEL – DEUS conosco –
João 14:9 Disse-lhe JESUS: Estou há tanto tempo convosco, e não me tendes conhecido, Filipe? Quem me vê a mim vê o Pai; e como dizes tu: Mostra-nos o Pai?
Para mim quem escreveu a carta foi Lucas ditada por Paulo. Paulo era profundo conhecedor da Lei e dos profetas e de todo sistema sacrificial, pois foi o melhor aluno de Gamaliel.
Atos 22:3 Quanto a mim, sou judeu, nascido em Tarso da Cilícia, e nesta cidade criado aos pés de Gamaliel, instruído conforme a verdade da lei de nossos pais, zelador de DEUS, como todos vós hoje sois. Gálatas 1:14 E na minha nação excedia em judaísmo a muitos da minha idade, sendo extremamente zeloso das tradições de meus pais.
Filipenses 3:5 Circuncidado ao oitavo dia, da linhagem de Israel, da tribo de Benjamim, hebreu de hebreus; segundo a lei, fui fariseu;
Hebreus foi escrito para judeus-cristãos e muito provavelmente também para judeus não-cristãos, para que ao ler o livro se convertessem, talvez a última tentativa de Paulo para ganhar seu povo para CRISTO. Por isso mesmo, não colocou no livro seu nome, pois muitos o tinham como não cumpridor da lei.
Ao que tudo indica, a carta foi escrita por meados de 67 a 68 d.C. – exatamente nos últimos dias de Paulo, logo após escrever 2 timóteo, onde se despede de seu filho amado na fé, Timóteo (será coincidência que Timóteo é citado em hebreus?)
Os cristãos judeus estavam sendo perseguidos tanto por romanos, como por judeus ortodoxos. Alguns estavam naufragando na fé e já pensavam em voltar ao judaísmo. Alguns pensavam que no judaísmo tinham melhores promessas do que no cristianismo e que seus profetas e também os anjos eram superiores a CRISTO (por isso mesmo a superioridade de CRISTO é demonstrada no livro de Hebreus e a superioridade da Aliança nova).
 
I – AUTORIA, DESTINATÁRIO E PROPÓSITO
1. Autoria.
Lucas, Apolo, Barnabé, Priscila e Áquila, Silvano ou Paulo?
A autoria paulina foi aceita por Clemente de Alexandria perto do final do século II d.C., e Hebreus foi encontrado  numa coleção de livros atribuídos a Paulo, no Egito. Eusébio acreditava que Hebreus fora escrita por Paulo em hebraico e traduzido para o grego por Lucas. Numa passagem de sua História Eclesiástica, falando das epístolas paulinas, ele disse: “Por outro lado, é evidente e claro que as catorze cartas [de Romanos aos Hebreus] são de Paulo. Levando em consideração Hebreus 10.1 em diante, parece que esta epístola foi escrita antes do ano 70 d.C. Neste capítulo, o escritor sagrado faz alusão à adoração no Templo, em Jerusalém, e aos sacrifícios diários que eram oferecidos pelos sacerdotes ordinários e também do sacrifício anual que era oferecido pelo sumo sacerdote pelo pecado, em favor de toda a nação (vv. 1,11). Isso nos leva a entender que o santuário ainda se encontrava de pé. Talvez tenha sido escrita entre os anos 64 e 67 d.C., visto que o ano da morte de Paulo, segundo estima-se, é 68 d.C.
Ao que tudo indica, a carta foi escrita por meados de 67 a 68 d.C. – exatamente nos últimos dias de Paulo, logo após escrever 2 Timóteo, onde se despede de seu filho amado na fé, Timóteo (será coincidência que Timóteo é citado em Hebreus?)
O autor de Hebreus se coloca entre os que ouviram a Palavra de DEUS dita pelo próprio DEUS (Filho de DEUS – JESUS). Por exemplo, Paulo viu e escutou JESUS – Atos 9.5; Gálatas 1:12; 1 Coríntios 11.23.
Paulo era profundo conhecedor da Lei e dos profetas e de todo sistema sacrificial, pois foi o melhor aluno de Gamaliel. Atos 22:3; Filipenses 3:5; Gálatas 1:14 (E na minha nação excedia em judaísmo a muitos da minha idade, sendo extremamente zeloso das tradições de meus pais).
E na noite seguinte, apresentando-se-lhe o Senhor, disse: Paulo, tem ânimo; porque, como de mim testificaste em Jerusalém, assim importa que testifiques também em Roma. Atos 23:11
Eu prefiro acreditar que foi Paulo quem ditou e Lucas a escreveu em grego. Não poderia escrever de modo a ser reconhecido devido ao ódio dos judeus contra ele. Também cremos que o ESPÍRITO SANTO nos indica Paulo.
 
2 Tm 13.23 Sabei que já está solto o irmão Timóteo, com o qual, se ele vier depressa, vos verei.
2 Tm 13.23 Sabei que já está solto o irmão Timóteo, com o qual, se ele vier depressa, vos verei.
Depois dessa não sei se precisava assinar a carta.
Ainda não resististes até ao sangue, combatendo contra o pecado. Hebreus 12:4 De quem mais poderia ser esta frase, senão de Paulo?
2 Co 6.4 Antes, como ministros de Deus, tornando-nos recomendáveis em tudo; na muita paciência, nas aflições, nas necessidades, nas angústias,5 Nos açoites, nas prisões, nos tumultos, nos trabalhos, nas vigílias, nos jejuns,6 Na pureza, na ciência, na longanimidade, na benignidade, no Espírito Santo, no amor não fingido,7 Na palavra da verdade, no poder de Deus, pelas armas da justiça, à direita e à esquerda,8 Por honra e por desonra, por nfâmia e por boa fama; como enganadores, e sendo verdadeiros;9 Como desconhecidos, mas sendo bem conhecidos; como morrendo, e eis que vivemos; como castigados, e não mortos;10 Como contristados, mas sempre alegres; como pobres, mas enriquecendo a muitos; como nada tendo, e possuindo tudo.
 
2. Destinatários.
Tinha em vista não só escrever aos hebreus convertidos de Roma, mas também aos outros judeus espalhados pelo império romano, e também para evangelizar aos judeus não convertidos para que fossem salvos ao ler a epístola, recebendo a revelação do ESPÍRITO SANTO.
Data
Diversas afirmações indicam que a epístola foi escrita durante a segunda geração do período apostólico, o que se deve, por exemplo, ao processo de transmissão (2.1-4), à época do crescimento (5.12), aos “dias passados” (10.32), aos líderes mortos (13.7), e à prisão de Timóteo (13.23). Contudo, as instituições judaicas ainda estavam em operação e o Templo ainda existia (13.10,11), embora em breve deixaria de existir (12.27) e a perseguição fosse iminente (10.32ss.; 12.4). Estes fatores parecem colocar a escrita ao redor do final dos anos 60 d.C., aprox, entre 67 e 68. Ano em que Paulo morreu. mesma época que Paulo excreveu 2 Timóteo se despedindo de Timóteo.
Destinatários e Leitores
É difícil identificar os destinatários e o público leitor, uma vez que não existem afirmações internas nem externas. O título e o uso do Antigo Testamento foram tomados como indicações de um público leitor judeu- cristão. Mas esta suposição é cada vez mais desafiada, e foi sugerido que o público leitor era o dos gentios convertidos ao paganismo (Moffatt, E. F. Scott), Outros estudiosos recentes sugerem judeus não-palestinos (William Manson, F. F. Bruce), essênios ou antigos essênios (C. Spícq, Yadin). A representação é da experiência do deserto dos hebreus e do Tabernáculo, e não do estado de restauração e do Templo, e nada é dito sobre a ênfase característica do judaísmo sobre a circuncisão. As citações e as referências do Antigo Testamento não são tão obscuras a ponto de não serem compreendidas por alguém que tenha estudado o Antigo Testamento. Mas as advertências parecem encaixar-se melhor nos cristãos que estavam correndo o risco de recair nas práticas do judaísmo. Talvez se possa supor que, embora o público leitor não necessariamente devesse ser judeu, provavelmente era judeu, ou pelo menos fortemente influenciado pelo judaísmo. A cidade de Roma, agora, parece estar descartada como o lugar da escrita (veja 13.24), mas poderia ser a destinatária.
De maior importância que esses assuntos, tanto quanto a interpretação da epístola e sua aplicação contemporânea, é a condição espiritual do público leitor. Os leitores foram convertidos ao cristianismo por meio do testemunho daqueles que tinham conhecido JESUS (2.3ss.) e, portanto, eram os crentes da segunda geração. Mesmo não vindo do judaísmo (ou provavelmente de algum contexto não palestino), eles adquiriram um forte respeito pelas antigas instituições dos hebreus e pelas promessas de DEUS a Israel (evidentemente a partir de um estudo da LXX e não da observância da adoração no Templo em Jerusalém). Logo tiveram que suportar uma perseguição significativa (10.32s8.), embora não tão severa quanto aquela que era iminente (12.4). A crise criou neles uma expressão prática de sua fé, e assim preocupavam-se em servir aos seus irmãos – em especial àqueles que estavam sendo mais afetados pela perseguição (6.10; 10.34).
Apesar dessas experiências precoces, eles não estavam mais crescendo (5.11-6.20) e, na verdade, estavam começando a retroceder (2.1ss). Não porque estivessem rebelando-se conscientemente contra o evangelho da fé, ou voltando-se proposital mente a outra coisa; mas sim assumindo a salvação como sendo uma bênção garantida, e abusando da graça de DEUS, que exigiu o sacrifício de Seu Filho (10.26-31). Eles estavam letárgicos e preguiçosos com respeito à sua fé (3.7-4,13) e suscetíveis aos falsos ensinos (13.7-9), Estavam propensos a exagerar na questão da importância dos anjos (1.5-14) e da efetividade da lei, e a depreciar a suficiência do sacrifício de CRISTO (9.11-10.31) e a sua perfeição (4.14- 5.10; 7.1—8.13), assim como o valor da realidade suprema que lhes fora prometida (11.13- 16). EÍes possuíam a salvação, mas estavam sendo negligentes em termos de vivê-la. Portanto, estavam em perigo, correndo o risco não apenas de deixar de alcançar a plenitude da sua salvação, mas também de perder o privilégio de experimentá-la no presente. Ao invés de receberem as “coisas melhores” que lhes estavam prometidas, corriam o risco de perder as bênçãos já recebidas, ficando apenas com as coisas menores, do passado.
 
A SEPTUAGINTA FOI USADA EM HEBREUS?
Se Paulo ditou e Lucas escreveu em Grego, como eu por exemplo acredito, então usou também a septuaginta, além dos originais. Paulo parece gostar de carregar os orignais. Quando vieres, traze a capa que deixei em Trôade, em casa de Carpo, e os livros, principalmente os pergaminhos. 2 Timóteo 4:13 Em Hb.1.6, há uma citação do salmo 97.7. A passagem do VT fala das “imagens esculpidas”, “ídolos” e “deuses”. A palavra final em hebraico é elohim (deuses); a septuaginta reza aggeloi (anjos). O livro de Hebreus toma a septuaginta e a incorpora, na qual diz que “todos os anjos de DEUS” adorem a JESUS.
Por isso, quando Lucas afirma que os crentes de Beréia conferiam nas Escrituras as citações de Paulo feitas do Antigo Testamento podemos ter certeza que eles tinham às mãos a versão grega da LXX.
Suponhamos que Paulo tivesse decidido elaborar nova tradução mais exata para a língua grega com base no texto hebraico, sem intermediações. Não poderiam os bereanos replicar: “Não é assim que lemos em nossa Bíblia. Como vamos saber se você não distorceu a Palavra, produzindo versões diferentes aqui e ali?”
A fim de evitar suspeitas e más interpretações, era imperativo que os apóstolos e evangelistas permanecessem fiéis à Septuaginta em sua pregação e ensino, tanto na forma oral como na escrita.
Sabemos que esta versão usada e citada amplamente pelos apóstolos e posteriormente pela igreja primitiva trazia o nome Iesous para Josué. E quando os apóstolos foram escrever sob a inspiração do ESPÍRITO SANTO, transliteraram o nome do Salvador para Iesous de onde vem o nosso JESUS.
 
3. Propósito.
O verdadeiro propósito desta epístola foi para mostrar aos crentes hebreus a superioridade de CRISTO e de sua graça sobre o antigo concerto, como sendo um empreendimento “melhor”. E através desta conscientização, encorajá-los a não voltarem para o judaísmo, que havia terminado sua missão justificadora com a vinda de nosso Senhor JESUS CRISTO (cf. Hb 10.9). JESUS é superior. Nos capítulos 1—4 de Hebreus, o escritor enfatiza que CRISTO é superior na sua pessoa. Ele é melhor do que os profetas, os anjos, Moisés, Josué e o sábado. Ele é superior aos sacerdotes dos tempos do Antigo Testamento. CRISTO é superior como sacerdote. Os capítulos 5—10 relembram aos cristãos judeus que CRISTO é superior como nosso Sacerdote. O seu caminho é melhor do que o sacerdócio terrestre, o antigo concerto, os sacrifícios de animais ou as oferendas diárias. CRISTO abriu um caminho melhor. Nos capítulos 11—13, CRISTO abriu um caminho melhor para chegarmos a DEUS; podemos ter fé para crer nEle e em todas as coisas; podemos ter esperança de que nos fará vitoriosos sobre todas as nossas provações, e podemos demonstrar amor uns aos outros segundo a medida de amor que CRISTO nos deu. CRISTO é melhor do que as tradições.
Com o passar dos séculos, os judeus tinham criado inúmeras tradições paralelas aos mandamentos de DEUS e algumas de suas ordens. Além do Pentateuco e dos outros livros que compõem o Canon hebraico, existiam as tradições orais e outras obras escritas, repletas de outros ensinamentos que iam sendo adquiridos no dia-a-dia da vida do povo escolhido. Com a presença de JESUS entre eles, algumas destas tradições foram questionadas e rejeitadas pelo novo ensinamento de CRISTO. Contudo, observamos que a Igreja do primeiro século d.C. era, na sua maioria, composta de crentes judeus. Isto sem dúvida levou alguns deles, que abraçavam a fé em JESUS, a conservarem consigo algumas de suas tradições — levando-os a aceitarem a fé e ao mesmo tempo, continuarem guardando suas tradições (cf. At 15.1). O autor sagrado mostra-lhes que “… se alguém está em CRISTO, nova criatura é: as coisas velhas já passaram; eis que tudo se fez novo” (2 Co 5.17). Isto não somente incluía a velha natureza, que agora em CRISTO fora substituída por uma nova natureza, mas também as velhas tradições e ordenanças da Lei. Estas também tinham sido substituídas pela fé e a graça de nosso Senhor JESUS CRISTO, que doravante era “o meio” e “a causa” da justificação de judeus e gentios (Jo 1.I7).
Esta epístola fornece uma contribuição significativa à teologia do Novo Testamento, mas seu principal objetivo não é teológico. O escritor refere-se a ela como “a palavra desta exortação” (13.22), e este é seu objetivo ao longo de toda a carta. Ele escreve sobre a compaixão daquele que se preocupa com os cristãos como um grupo, e tem algum tipo de responsabilidade pastoral para com eles. Ele os exorta a uma prática determinada e ativa para a sua salvação, de modo que possam alcançar aquilo que a salvação tem para lhes dar, evitando as conseqüências desastrosas da negligência.
Podemos considerar que o autor está tentando oferecer um estudo coletivo das advertências, e conseqüentemente das passagens exortativas. Ele adverte seus leitores sobre as conseqüências inevitáveis da negligência à salvação (2.1-3), a perda do repouso de DEUS (3.7-19), a desqualificação para o repouso (4.1-11), a impossibilidade do retorno de uma apostasia consciente (6.4- 8) e a inexistência de uma provisão para o pecado deliberado e consciente (10.26-31). Intimaniente ligadas a estas são suas exortações: estejam alertas, para que não se desviem (2.1-4); tenham cuidado, para não perderem a fé (3.7-4.13); prossigam, não dando lugar a qualquer retrocesso (5.11-6.20); aproximem-se, não dando lugar a qualquer afastamento (10.19-39); edifiquem-se, não dando lugar à queda ou à ruína pessoal (12.12-29).
Se Seus leitores eram judeus ou gentios, ou se era ao judaísmo ou ao paganismo que eles estavam em perigo de retornar, não é tão claro quanto à condição espiritual do momento, e o perigo no qual o autor os encontrou. Ele faz a comparação não com o judaísmo nem com o paganismo, mas com a peregrinação dos hebreus no deserto entre o êxodo da escravidão do pecado e a entrada na terra prometida. A condição em que estavam poderia ser classificada como tão pobre e tão infrutífera quanto o deserto. Como seus leitores eram culpados pelo mesmo tipo de descrença e desobediência que os hebreus na época de Moisés, eles corriam o mesmo perigo de morrer onde estavam, sem jamais entrarem no repouso prometido. Eles não se pareciam com os judeus das sinagogas, trabalhando por sua religião, mas sim com os hebreus do deserto, deixando de colocar em prática sua salvação. O objetivo da Epístola aos Hebreus é o de exortar os cristãos a se tomarem ativos na sua experiência atual com a salvação de DEUS, para que possuíssem tudo o que DEUS havia prometido, enquanto houvesse tempo.
 
 
II – CRISTO – A PALAVRA SUPERIOR A DOS PROFETAS
O ANTIGO E O NOVO CONCERTO
Hb 8.6 “Mas agora alcançou ele ministério tanto mais excelente, quanto é mediador de um melhor concerto, que está confirmado em melhores promessas”.

Os capítulos 8-10 descrevem numerosos aspectos do antigo concerto tais como o culto, as leis e o ritual dos sacrifícios no tabernáculo; descrevem os vários cômodos e móveis desse centro de adoração do AT. É duplo o propósito do autor:
(1) contrastar o serviço do sumo sacerdote no santuário terrestre, segundo o antigo concerto, com o ministério de CRISTO como sumo sacerdote no santuário celestial segundo o novo concerto; e
(2) demonstrar como esses vários aspectos do antigo concerto prenunciam ou tipificam o ministério de CRISTO que estabeleceu o novo concerto. O presente estudo sintetiza o relacionamento entre esses dois concertos.
 
(1) Segundo o antigo concerto, a salvação e o relacionamento correto com DEUS provinham de um relacionamento com Ele à base da fé expressa pela obediência à sua lei e ao sistema sacrificial desta. Os sacrifícios do AT tinham três propósitos principais.
(a) Ensinar ao povo de DEUS a gravidade do pecado. O pecado separava os pecadores de um DEUS santo, e somente através do derramamento de sangue poderiam reconciliar-se com DEUS e encontrar perdão (Êx 12.3-14; Lv 16; 17.11; Hb 9.22; ver Lv 1.2,3; 4.3; 9.8).
(b) Prover um meio para Israel chegar-se a DEUS mediante a fé, a obediência e o amor (cf. 4.16; 7.25; 10.1).
(c) Indicar de antemão ou prenunciar (8.5; 10.1) o sacrifício perfeito de CRISTO pelos pecados da raça humana (cf. Jo 1.29; 1Pe 1.18,19; Êx 12.3-14; Lv 16; Gl 3.19).

(2) Jeremias profetizou que, num tempo futuro, DEUS faria um novo concerto, um melhor concerto, com o seu povo (ver Jr 31.31-34; cf. Hb 8.8-12). É melhor concerto do que o antigo (cf.Rm 7) porque perdoa totalmente os pecados dos que se arrependem (8.12), transforma-os em filhos de DEUS (Rm 8.15,16), dá-lhes novo coração e nova natureza para que possam, espontaneamente, amar e obedecer a DEUS (8.10; cf. Ez 11.19,20), os conduz a um estreito relacionamento pessoal com JESUS CRISTO e o Pai (8.11) e provê uma experiência maior em relação ao ESPÍRITO SANTO (Jl 2.28; At 1.5,8; 2.16,17, 33, 38,39; Rm 8.14,15,26).

(3) JESUS é quem instituiu o novo concerto ou o novo testamento (ambas as idéias estão contidas na palavra grega diatheke — testamento), e seu ministério celestial é incomparavelmente superior ao dos sacerdotes terrenos do AT. O novo concerto é um acordo, promessa, última vontade e testamento, e uma declaração do propósito divino em outorgar graça e bênção àqueles que se chegam a DEUS mediante a fé obediente. De modo específico, trata-se de um concerto de promessa para aqueles que, por fé, aceitam a CRISTO como o Filho de DEUS, recebem suas promessas e se dedicam pessoalmente a Ele e aos preceitos do novo concerto.

(a) O ofício de JESUS CRISTO como mediador do novo concerto (8.6; 9.15; 12.24) baseia-se na sua morte expiatória (Mt 26.28; Mc 14.24; Hb 9.14,15; 10.29; 12.24). As promessas e os preceitos desse novo concerto são expressos em todo o NT. Seu propósito é:
(i) salvar da culpa e da condenação da lei todos que crêem em JESUS CRISTO e dedicam suas vidas às verdades e deveres do seu concerto (9.16,17; cf. Mc 14.24; 1Co 11.25); e
(ii) fazê-lo um povo que seja a possessão de DEUS (8.10; cf. Ez 11.19,20; 1Pe 2.9).
(b) O sacrifício de JESUS é melhor que os do antigo concerto por ser um sacrifício voluntário e obediente de uma pessoa justa (JESUS CRISTO), e não um sacrifício involuntário de um animal. O sacrifício de JESUS e o seu cumprimento da vontade de DEUS foram perfeitos, e, portanto, proveu um caminho para o pleno perdão, reconciliação com DEUS e santificação (10.10, 15-17; ver Lv 9.8).
(c) O novo concerto pode ser chamado o novo concerto do ESPÍRITO, porque é o ESPÍRITO SANTO quem outorga a vida e o poder àqueles que aceitam o concerto de DEUS (2Co 3.1-6; ver Jo 17.3).

(4) Todos os que pertencem ao novo cncerto por JESUS CRISTO recebem as bênçãos e a salvação oriundas desse concerto mediante sua perseverança na fé e na obediência (ver 3.6). Os infiéis são excluídos dessas bênçãos (ver 3.18,19).

(5) Estabelecido o novo concerto em CRISTO, o antigo concerto se tornou obsoleto (8.13). Não obstante, o novo concerto não invalida a totalidade das Escrituras do AT, mas apenas as do pacto mosaico, pelo qual a salvação era obtida mediante a obediência à Lei e ao seu sistema de sacrifícios. O AT não está abolido; boa parte da sua revelação aponta para CRISTO, e por ser a inspirada Palavra de DEUS, é útil para ensinar, repreender, corrigir e instruir na retidão.

 
“A Glória do Novo Concerto (3.7-18)
Nós somos imediatamente surpreendidos pelo uso constante que Paulo faz da palavra ‘glória’, que aparece 12 vezes nestes 11 versículos. O Antigo Concerto tinha glória própria, mas o Novo Concerto tem glória maior. Antes de examinar os contrastes que Paulo desenvolve entre o Antigo e o Novo Concerto, é útil entender o significado de ‘glória’. Sobre este termo, o Zondervan Expository Dictionary of Biblie Words diz: ‘No Antigo Testamento, a glória de DEUS está intimamente ligada à auto-revelação do Senhor. Há muitas imagens: esplendor fulgurante, e santidade flamejante que marcam sua presença (por exemplo, Êxodo 16.10; 40.34,35; 2 Crônicas 7.1,2). Mas, nenhum poder elementar ou santidade flamejante expressam a DEUS de maneira absolutamente adequada. Desta forma, o Êxodo relaciona a glória de DEUS com revelação de seu caráter amoroso. Quando Moisés implorou para que DEUS lhe mostrasse sua glória, a Bíblia relata: ‘Ele disse: Eu farei passar toda a minha bondade por diante de ti e apregoarei o nome do Senhor diante de ti; e terei misericórdia e me compadecerei de quem me compadecer. E disse mais: Não poderás ver a minha face, porquanto homem nenhum verá a minha face e viverá’ (Êx 33.19,20). Com o mesmo sentido de revelação, DEUS diz: ‘serei glorificado’, no caso da recusa do Faraó em deixar que Israel saísse do Egito (Êx 14.4). O grande poder redentor de DEUS foi exibido no Êxodo (Nm 14.22), da mesma forma como seu poder criativo é exibido quando ‘os céus manifestam’ sua glória (Sl 19.1).
Mas ‘glória’ implica em mais do que revelação de como DEUS é. Implica em invasão do universo material, expressão da presença ativa de DEUS entre seu povo. Assim, o Antigo Testamento conscientemente relaciona o termo ‘glória’ à presença de DEUS em Israel, em tabernáculos e templos (por exemplo, Êxodo 29.43.Ezequiel 43.4,5; Ageu 2.3). A glória objetiva de DEUS é revelada por sua vinda, para estar presente conosco ? e para se mostrar a cada um de nós por suas ações neste mundo’ (pp. 310,311).
Agora Paulo argumenta não que o Antigo Concerto não possuía ‘glória’, mas que a glória do Novo Concerto supera aquela do Antigo. Ao falar sobre isto, Paulo fixa nossa atenção em como a glória de DEUS é exibida em sua vinda para estar com seu povo sob o Antigo Concerto e sob o Novo. Ao fazer isto, ele também nos mostra como o cristão é verdadeiramente livre para adotar a abordagem de ‘risco’ ao ministério do Novo Concerto, que ele próprio, Paulo exibiu ao mostrar-se vulnerável no capítulo 1.
[…] Esta é a essência do ministério do Novo Concerto: DEUS exibe sua glória por meio de sua presença dentro do crente. (RICHARDS, Lawrence O. Comentário Histórico-Cultural do Novo testamento. 1.ed. Rio de Janeiro, CPAD, 2008, p.35).
 
1. A revelação profética e a Antiga Aliança.
 A SUPERIORIDADE DA FÉ CRISTÃ (1.1-10.18)
Os cristãos que tinham vindo de um passado judaico naturalmente comparariam sua fé recém-achada com a riqueza da sua herança tradicional judaica. Esta carta se propõe a demonstrar-lhes a maior riqueza da sua posição cristã. A cada etapa do argumento a nota tônica é que sua nova fé é melhor. Embora a direção deste argumento teria valor especial para ex-judeus que se tomaram cristãos, o tema da superioridade da fé cristã teria relevância também para aqueles que foram convertidos de um passado pagão, tendo em vista o fato de que os crentes gentios bem como os crentes judeus aceitavam a autoridade das Escrituras do Antigo Testamento e precisariam de uma interpretação verídica das mesmas.
 A REVELAÇÃO DE DEUS ATRAVÉS DO FILHO (1.1-4)
Nesta breve seção introdutória, a revelação de DEUS através do Seu Filho é vista não somente como superior mas também como definitiva. Levado em conta que semelhante revelação conclusiva requer um meio muito especial, o escritor introduz seus leitores à natureza superior do Filho e também liga o que Ele é com o que Ele tem feito.
 
DEUS usou profetas para falar ao povo (Antigo Testamento – Antiga Aliança) – Agora usou seu Filho (DEUS mesmo). Novo Testamento (Nova Aliança). Os modos diferentes pelos quais DEUS falou aos profetas para que escrevessem o Antigo Testamento – visões, revelações angelicais, palavras e eventos proféticos, sonhos e as ocasiões diferentes, espalhando-se, por todo o panorama da história do Antigo Testamento. Jerusalém, Jerusalém, que matas os profetas, e apedrejas os que te são enviados! quantas vezes quis eu ajuntar os teus filhos, como a galinha ajunta os seus pintos debaixo das asas, e tu não quiseste! Mateus 23:37 Mateus 21: 33 Ouvi, ainda, outra parábola: Houve um homem, pai de família, que plantou uma vinha, e circundou-a de um valado, e construiu nela um lagar, e edificou uma torre, e arrendou-a a uns lavradores, e ausentou-se para longe. 34 E, chegando o tempo dos frutos, enviou os seus servos aos lavradores, para receber os seus frutos. 35 E os lavradores, apoderando-se dos servos, feriram um, mataram outro, e apedrejaram outro. 36 Depois enviou outros servos, em maior número do que os primeiros; e eles fizeram-lhes o mesmo. 37 E, por último, enviou-lhes seu filho, dizendo: Terão respeito a meu filho. 38 Mas os lavradores, vendo o filho, disseram entre si: Este é o herdeiro; vinde, matemo-lo, e apoderemo-nos da sua herança.39 E, lançando mão dele, o arrastaram para fora da vinha, e o mataram. 40 Quando, pois, vier o senhor da vinha, que fará àqueles lavradores? 41 Dizem-lhe eles: Dará afrontosa morte aos maus, e arrendará a vinha a outros lavradores, que a seu tempo lhe dêem os frutos.
 
 
2. A revelação profética e a Nova Aliança.
Um aspecto comum entre Paulo e Hebreus é a importância ligada à nova aliança (cf. 2 Co 3.9ss.; Hb. 8.6ss.) Demonstra que esta nova aliança é melhor que a antiga. Paulo fala do maior esplendor da nova, embora não negue que a antiga tinha um esplendor todo seu. Hebreus, no entanto, é um pouco mais franco ao declarar que a antiga é obsoleta (Hb 8.13). Não há diferença fundamental entre eles acerca da relevância de uma aliança mediada pelo próprio CRISTO. No seu catálogo dos heróis da fé, o escritor dá a primazia a Abraão. Já o mencionou anteriormente na Epístola com referência aos seus descendentes (2.16); com referência à promessa que DEUS lhe deu (6.13); e com referência ao seu relacionamento com Melquisedeque (7.1-10). Uma alta estima semelhante por Abraão é achada nas Epístolas de Paulo (Rm 4.lss.; 9.7; 11.1; 2 Co 11.22; G1 3.6ss.;4.22). Nesta conexão podemos notar que Hebreus às vezes cita passagens do Antigo Testamento que Paulo também cita, e.g., os dois citam Salmo 8 (Hb 2.6-9; 1 Co 15.27); Deuteronômio 32.35 (Hb 10.30; Rm 12.19); e Habacuque 2.4 (Hb 10.38; Rm 1.17; G1 3.11).
 
ALIANÇA VELHA E NOVA – “Eis que os dias vêm, diz o Senhor, em que farei uma nova aliança com a casa de Israel e com a casa de Judá, não conforme a aliança que fiz com seus pais, no dia em que os tomei pela mão, para os tirar da terra do Egito, essa minha aliança que eles invalidaram, apesar de eu os haver desposado, diz o Senhor. Mas esta é a aliança que farei com a casa de Israel depois daqueles dias, diz o Senhor: Porei a minha lei no seu interior, e a escreverei no seu coração; e eu serei o seu Deus e eles serão o meu povo. E não ensinarão mais cada um a seu próximo, nem cada um a seu irmão, dizendo: Conhecei ao Senhor; porque todos me conhecerão, desde o menor deles até o maior, diz o Senhor; pois lhes perdoarei a sua iniqüidade, e não me lembrarei mais dos seus pecados.” (Jeremias 31.31-34) Veja também como essa passagem é citada e comentada em Hebreus 10.14-18.
“Assim também nós, quando éramos meninos, estávamos reduzidos à servidão debaixo dos rudimentos do mundo; mas, vindo a plenitude dos tempos, Deus enviou seu Filho, nascido de mulher, nascido debaixo de lei, para resgatar os que estavam debaixo de lei, a fim de recebermos a adoção de filhos. E porque sois filhos, Deus enviou aos nossos corações o Espírito de seu Filho, que clama: Aba, Pai. Portanto já não és mais servo, mas filho; e se és filho, és também herdeiro por Deus.” (Gálatas 4.3-7)
“Estava ele no mundo, e o mundo foi feito por intermédio dele, e o mundo não o conheceu. Veio para o que era seu, e os seus não o receberam. Mas, a todos quantos o receberam, aos que crêem em seu nome, deu-lhes o poder se tornarem filhos de Deus; os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do varão, mas de Deus.” (João 1.10-13)
“Nós sabemos que tudo o que a lei diz é dito para os que vivem debaixo da lei. Isso a fim de que todos parem de se justificar e a fim de que todas as pessoas do mundo fiquem debaixo do julgamento de Deus. Pois ninguém é aceito por Deus [justificado] por fazer o que a lei manda, porque a lei faz com que as pessoas saibam que são pecadoras.
Mas agora Deus já mostrou que o meio pelo qual ele aceita as pessoas não tem nada a ver com a lei. A Lei de Moisés e os Profetas dão testemunho do seguinte: Deus aceita as pessoas por meio da fé que elas têm em Jesus Cristo. É assim que ele trata todos os que crêem, pois não existe nenhuma diferença entre as pessoas. Todos pecaram e estão afastados da presença gloriosa de Deus. Mas, pela sua graça e sem exigir nada, Deus aceita [justifica] todos por meio de Cristo Jesus, que os salva. Deus ofereceu Cristo como sacrifício para que, pela sua morte na cruz, Cristo se tornasse o meio de as pessoas receberem o perdão dos seus pecados, pela fé nele. Deus quis mostrar com isso que ele é justo. No passado ele foi paciente e não castigou as pessoas por causa dos seus pecados; mas agora, pelo sacrifício de Cristo, Deus mostra que é justo. Assim ele é justo e aceita [justifica]os que crêem em Jesus.” (Romanos 3.19-26)
“Pois, que diz a Escritura? Creu Abraão a Deus, e isso lhe foi imputado como justiça. Ora, ao que trabalha não se lhe conta a recompensa com dádiva, mas sim como dívida; porém ao que não trabalha, mas crê naquele que justifica o ímpio, a sua fé lhe é contada como justiça; assim também Davi declara bem-aventurado o homem a quem Deus atribui a justiça sem as obras, dizendo:
‘Feliz aqueles cujas iniqüidades são perdoadas, e cujos pecados são cobertos. Feliz o homem a quem o Senhor não imputará o pecado’.” (Romanos 4.7,8, citando Salmo 32.1,2)
“E tomando pão, e havendo dado graças, partiu-o e deu-lho, dizendo: Isto é o meu corpo, que é dado por vós; fazei isto em memória de mim. Semelhantemente, depois da ceia, tomou o cálice, dizendo: Este cálice é a nova aliança em meu sangue, que é derramado por vós.” (Lucas 22.19,20)
“Porque a graça de Deus se manifestou, trazendo salvação a todos os homens, ensinando-nos, para que, renunciando à impiedade e às paixões mundanas, vivamos no presente mundo sóbria, e justa, e piamente, aguardando a bem-aventurada esperança e o aparecimento da glória do nosso grande Deus e Salvador Cristo Jesus, que se deu a si mesmo por nós para nos remir de toda iniqüidade, e purificar para si um povo todo seu, zeloso de boas obras.” (Tito 2.11-15)
“Fiel é esta palavra e digna de toda aceitação: que Cristo Jesus veio ao mundo para salvar os pecadores, dos quais sou eu o pior [principal]” (I Timóteo 1.15)
“Porque eu sei que em mim (isto é, na minha carne) não habita bem nenhum.” (Romanos 7.18)
” Se dissermos que não temos pecado nenhum, enganamo-nos a nós mesmos, e a verdade não está em nós.” (I João 1.8)
“Se dissermos que não temos cometido pecado, fazemo-lo mentiroso, e a sua palavra não está em nós” (I João 1.10)
“Se alguém está em Cristo é nova criatura; as coisas velhas já passaram; eis que tudo se fez novo.”(II Co 5.17)
“Todo o que o Pai me dá virá a mim; e o que vem a mim, de modo nenhum eu lançarei fora” (João 6.37).
 
3. CRISTO: a revelação final.
a. A carta começa com uma declaração de um fato, a saber: que DEUS tem falado.
Pelo menos o escritor não vê necessidade alguma de demonstrar este fato. Não comprova que DEUS fala, afirma. Isto significa que a carta não tem relevância para aqueles que não aceitam que DEUS falou ao homem? A resposta deve ser sim. A fé não somente na existência de DEUS, bem como na comunicação de DEUS, são tomadas por certas. É um dos princípios sobre os quais baseia-se a totalidade do argumento da carta. É inútil ler mais se DEUS não faz revelação alguma aos homens.
A carta oferece, do outro lado, alguma ajuda em prol de uma melhor compreensão daquilo que DEUS tem feito. Outra suposição que o autor faz é que aquilo que aconteceu no passado tem aplicação ao presente. Semelhante suposição seria rejeitada por muitos pensadores contemporâneos. Há, realmente, no mundo secular uma reação contra o passado como se qualquer apelo às suas lições fosse inadmissível. Sempre há, porém, uma seção da sociedade que vive no futuro e está contra o presente e o passado — um tipo de atividade permanentemente contrária à situação em vigor. Mas os mais sábios reconhecem que alguma continuidade é inescapável. Este princípio é básico para o Novo Testamento, e em nenhum lugar é enfocado tão claramente quanto em Hebreus. Aquilo que prende a atenção do escritor é a variedade de maneiras segundo as quais DEUS tem falado no passado. Não as alista, mas usa a expressão muitas vezes, e de muitas maneiras. -Qualquer pessoa com conhecimento do Antigo Testamento imediatamente conseguiria preencher os pormenores — os modos diferentes (visões, revelações angelicais, palavras e eventos proféticos) e as ocasiões diferentes (espalhando-se, por todo o panorama da história do Antigo Testamento). As revelações mais iluminadoras vinham através dos profetas. Estes eram homens levantados por DEUS para desafiar seus próprios tempos. Seu emblema de ofício era a convicção inabalável de que falavam da parte de DEUS. Sua capacidade de dizer: “Assim diz o Senhor,” dava às suas palavras uma autoridade sem igual. Eram maltratados (conforme Hb 11.33ss. demonstra) mas, mesmo assim, persistiam na sua mensagem. As suas histórias formam uma leitura heróica, mas aquilo que diziam era incompleto. O escritor de Hebreus sabia qüe era necessário um método melhor de comunicação, e reconhece que este veio em JESUS CRISTO. Sendo assim, poderíamos querer saber porque o antigo não pode ser esquecido. Afinal das contas, aquilo que JESUS revela é melhor do quê os profetas. Apesar disto, a continuidade é mantida. Aquilo que foi falado outrora (palaij preparou o caminho para a comunicação mais importante de todas (i.é., a revelação pelo Filho). Este é o tema real da carta inteira: o passado cedeu lugar a coisas melhores. É por esta razão que o passado (as idéias religiosas do Antigo Testamento) sempre volta a aparecer no quadro pintado por esta Epístola, para então voltar a desvanecer-se à medida em que idéias melhores o cumprem e o expandem. É fácil perceber porque o escritor começa desta maneira. Vê valor no passado (porque DEUS falou através dele), mas também vê suas imperfeições. O que ele diz não pode deixar de lançar luz sobre a abordagem cristã no Antigo Testamento. Isto toma sua carta valiosa para hoje, e não somente para os tempos dele.
b. Nestes últimos dias pode ser entendido no sentido e ao fim destes dias, que aponta muito claramente para uma crise, uma nova revelação decisiva contrastada tanto com a variedade de modos quanto com a necessidade da repetição no passado.
Uma revelação dada de uma vez por todas é claramente superior. Talvez o escritor estivesse pensando nos últimos dias como sendo os dias finais do período pré-cristão, de modo semelhante à divisão que os mestres judaicos faziam entre a era presente e a era do Messias. Segundo este ponto de vista, visto que os cristãos acreditavam que JESUS era o Messias, os “últimos dias” eram o fim da velha era. Mas tendo em vista a expressão correspondente “ao se cumprirem os tempos” em 9.26, é mais provável que “estes últimos dias” se refira à era cristã, que envolve uma nova era comparada com a antiga. Quando DEUS falou aos homens pelo Filho, o propósito era marcar o fim de todos os métodos imperfeitos. A cortina finalmente descera sobre a era anterior, e a era final agora tinha raiado. Quando, no texto grego, o escritor diz um Filho ao invés de Seu Filho, fá-lo para demonstrar o meio superior usado. Certamente não está dizendo que DEUS tinha mais de um Filho. Está subentendendo que o melhor dos profetas não pode ser comparado com um Filho como meio de revelação. Naturalmente, a idéia do Filho de DEUS vindo aos homens é uma pedra de tropeço para muitos, mas o escritor não defende sua declaração. Não vê necessidade de fazer assim, a despeito do fato de que seus próprios contemporâneos não estariam mais acostumados à idéia do que nós. Os pagãos às vezes pensavam na prole dos deuses, mas esta é uma idéia muito diferente de JESUS como Filho de DEUS. Nosso escritor deve ter tomado por certo que seus leitores reconheceriam esta fato sem questioná-lo. Mas não diz logo de início que está pensando em JESUS. Isso vem mais tarde, em 2.9 Há, naturalmente, um problema de linguagem aqui. Pode ser questionado, no entanto, quão significativa é a idéia do pai-filho com referência a DEUS, por mais valiosa que seja nos assuntos humanos. Mas na tentativa de colocar a verdade divina em linguagem humana, o melhor que se pode fazer é usar a aproximação humana mais à mão; enquanto isto for mantido em mente, esta linguagem fica cheia de sentido. A essência da revelação cristã é que DEUS é melhor visto no Seu Filho. A analogia humana é imperfeita, naturalmente, porque nenhum pai humano é completamente refletido no seu filho. Mas JESUS CRISTO demonstra perfeitamente tudo que possa ser sabido acerca do Pai. Não admira que nosso escritor está impressionado pela superioridade deste tipo de mensagem comparada com os meios usados no passado! Sabe que se os homens não podem aprender do Filho acerca de DEUS, nenhuma quantidade de vozes ou ações proféticas os convenceria. Antes de identificar o Filho esmo sendo JESUS CRISTO, o autor dá uma descrição do Filho. É uma descrição profunda, porque nos conta acerca daquilo que Ele é, e não acerca da Sua aparência. O escritor quer que saibamos em primeiro lugar acerca do relacionamento entre o Filho e o mundo da natureza. É compreensível que ele comece aqui, porque o mundo da natureza é nosso meio-ambiente, nosso lar. Para muitos, esta verdade vai até tal ponto que se sentem presos neste meio-ambiente, e não podem conceber dalguém que seja mais poderoso. O conceito que este autor tem do mundo concorda com aquele que é visto em todas as partes do Novo Testamento. É um conceito que começa com DEUS como Criador e passa a ver JESUS CRISTO como estando estreitamente vinculado com Ele no ato da criação. Desta maneira, o universo impessoal imediatamente se toma pessoal. O escritor declara que DEUS constituiu Seu Filho, que é um ato de iniciativa pessoal aqui (o aoristo grego ethêken deve ser considerado intemporal). A verdade importante nesta passagem é que tudo remonta a DEUS. Por que é dito que DEUS constituiu o Filho herdeiro de todas as coisas? Significa que veio a ser aquilo que não era antes? Os elementos de tempo tendem a confundir. É melhor pensar na ordem criada conforme ela é, e depois ser lembrado de que ela pertence a JESUS CRISTO. É acerca da realidade presente da nomeação que o autor se ocupa, e não acerca de quando foi feita. Na realidade, fica claro que o escritor quer que entendamos que nunca houve um tempo em que o Filho não era o herdeiro. As duas idéias, a Filiação e a qualidade de Herdeiro, estão estreitamente vinculadas entre si. Nos negócios humanos, o filho mais velho é o herdeiro natural. Na analogia, um pensamento mais profundo é introduzido. O herdeiro também é o criador. Não está herdando aquilo com que não tem conexão. Herda aquilo que Ele mesmo criou. O escritor imediatamente nos mergulhou em pensamentos profundos acerca da origem do mundo. Mesmo assim, seu interesse por eles não é teórico mas, sim, prático, e nos faz lembrar dos ensinos de JESUS acerca de DEUS e da criação. É Sua criação, Ele até mesmo nota quando um pardal cai. É consolador saber que o Filho tem o mesmo interesse pessoal no mundo em nosso redor. 0 que esta carta passa a dizer acerca de JESUS CRISTO está claramente baseado num alto conceito dEle. A declaração de que DEUS fez o universo por meio do Filho é estonteante. Não se pode negar que DEUS poderia ter feito o universo à parte do Seu Filho, mas o Novo Testamento esmera-se em demonstrar que DEUS não agiu assim. Os cristãos estavam convictos que a mesma Pessoa que vivera entre os homens foi Aquele que criara os homens. Uma carta tal como Hebreus, escrita a partir desta convicção, não poderia deixar de apresentar um quadro mais do que humano de JESUS CRISTO. É digno de nota que este escritor usa a palavra para “eras” (aiõnes) e não a palavra usual para mundos (kosmoi) quando fala acerca dos atos criadores de DEUS. A razão é que a palavra para “eras” é mais compreensiva, e que inclui em si mesma os períodos de tempo através dos quais a ordem criada existe. Quanto mais a ciência descobre acerca do universo, tanto mais maravilhoso é o pensamento de que CRISTO é o agente através de quem foi criado. Os racionalistas podem argumentar que as descobertas científicas tomam insustentável a cosmovisão do Novo Testamento, mas o cristão declara o inverso. Quanto maior for a compreensão do homem das maravilhas do universo, tanto maior a necessidade de uma compreensão adequada da sua origem. A crença num Criador pessoal não é menos crível à medida em que aumenta a penetração do homem no espaço.
c. Tendo já mergulhado seus leitores em pensamentos teológicos profundos, o escritor ainda vai mais fundo enquanto comenta sobre CRISTO e DEUS.
Qual é o relacionamento entre eles? Como resposta, três coisas nos são ditas; a primeira pode ser resumida como o Filho e a glória de DEUS. Ele ê o resplendor da glória de DEUS. Para compreender esta declaração, precisamos recaptar o fundo histórico do pensamento. A idéia é a da radiância que irrompe de uma luz brilhante. É um quadro marcante, como o surgimento repentino de uma aurora gloriosa no levantar do sol. Os raios penetram em todos os restinhos da escuridão para espatifá-la. Até mesmo este quadro explica de maneira pobre o sentido em que JESUS CRISTO reflete a glória de Seu Pai, porque os raios de luz, por mais esplêndidos que sejam, são, afinal das contas, impessoais. Talvez alguns dos leitores tenham se lembrado de que no Livro da Sabedoria (7.26), judaico, a mesma palavra foi aplicada à sabedoria, considerada personificada. De qualquer maneira, nosso escritor quer que saibamos que a glória de DEUS podia ser vista em JESUS CRISTO.s Uma idéia semelhante aparece em João 1.14, onde uma testemunha ocular declara ter visto a glória. Isto somente pode querer dizer que a totalidade do ministério de JESUS era evidência da glória de DEUS. João chega mesmo a dizer isto acerca do primeiro milagre que JESUS operou (Jo 2.11). Era claramente uma convicção firme entre os cristãos primitivos de que, dalguma maneira, a glória de DEUS era vista numa vida humana. A ocasião mais óbvia foi quando JESUS foi transfigurado, mas Sua missão inteira, inclusive Sua morte, era gloriosa para aqueles que vieram a crer nEle. Refletir a glória de DEUS desta maneira pressupõe que o Filho compartilha da mesma essência do Pai, e não somente da Sua semelhança. A segunda declaração acerca do Filho é que é a expressão exata do seu Ser. Isto vai consideravelmente além da primeira declaração, embora seja vinculada a ela. Isto ressalta especificamente o fato de que Aquele que reflete a glória de DEUS compartilha da Sua natureza. A palavra usada aqui para “expressão exata” (charaktêr) é a palavra para um carimbo ou uma gravação. É altamente expressiva, porque um carimbo num selo de cera terá a mesma imagem que a gravura no selo. A ilustração não pode ser forçada longe demais, porque não deve ser suposto que o Filho é formalmente distinto do Pai como o carimbo é diferente da impressão que produz. Há, apesar disto, uma correspondência exata entre os dois. Esta declaração em si mesma contém uma verdade profunda, porque a semelhança exata tem relacionamento com a natureza de DEUS (hypostaseòs). A declaração não é sem importância para o pensador teológico, porque apóia a opinião de que JESUS era da mesma natureza de DEUS. Se for assim, nenhuma diferença pode ser feita entre a natureza do Pai e a natureza do Filho. O escritor rapidamente mergulhou seus leitores na teologia profunda, mas não pára a fim de discuti-la. Toma por certo que seus leitores aceitarão sem questionar este conceito de JESUS CRISTO. A terceira declaração diz respeito ao papel presente do Filho na criação. É dito que sustenta todas as coisas pela palavra do seu poder. Duas perguntas surgem imediatamente. Em que sentido devemos compreender o sustentar, e de que maneira a palavra transmite poder? A palavra para “sustentando” (pheròn) tem o sentido de manter no alto ou sustentar, o que demonstra que JESUS CRISTO é visto no centro da estabilidade constante do universo. Não há lugar aqui para a idéia do deísta acerca de DEUS como relojoeiro que, tendo feito um relógio, deixa-o funcionar sozinho com seu próprio mecanismo. O conceito neotestamentário é que DEUS como Criador e o Filho como agente na criação estão dinamicamente ativos na ordem criada. Mas como o Filho exerce o Seu poder?6 Deve ser notado que a palavra seu (autou) podia referir-se ao poder do Filho òu ao poder do Pai, mas isto faz pouca diferença à interpretação. A palavra relembra a palavra de oídem de DEUS na criação (e.g. “Haja luz”) e a idéia em João 1.1-3 de que todas as coisas foram feitas pela Palavra (JLogos), termo este [traduzido “Verbo” ] que se refere ao próprio JESUS CRISTO. Da mesma maneira que a Palavra criou, a Palavra sustenta. A estabilidade assombrosa da ordem criada é testemunha do “poder” por detrás dela. Depois desta série de ditos grandiosos acerca de JESUS CRISTO, o escritor dá um indício do tema predominante da sua carta. A purificação dos pecados é uma busca religiosa que já durou muitas eras. Sempre que há qualquer consciência do pecado, geralmente está presente um forte desejo de ser purificado dele. As várias tentativas humanas de obter semelhante purificação apresentam um amplo espectro de idéias, desde os mais desesperados esforços-próprios até à supressão de todos os esforços e até mesmo de todos os desejos. A maioria dos sistemas começa com o homem e depende da força da vontade dele mesmo. De má fama entre tais sistemas correntes nos tempos de JESUS era o dos fariseus que geralmente faziam das boas obras e do esforço-próprio a medida da devoção religiosa. A idéia de que os pecados poderiam ser purificados sem semelhante esforço lhes era estranha. Certamente, a idéia de que JESUS CRISTO podia purificar os pecados era considerada incrível. JESUS viu-Se confrontado com este conceito quando perdoou o pecado de um homem, e Lhe foi dito que somente DEUS podia perdoar os pecados. Mas nesta carta a idéia vai mais longe do que o perdão, porque a purificação envolve a limpeza, no sentido de tornar puro. É estranho que o escritor desta carta não dê indício algum a esta altura acerca da maneira em que JESUS CRISTO purificou os nossos pecados. Nada há para mostrar como ele lidou com o pecado, ainda que, à medida em que a carta prossegue, este fato fica sendo cada vez mais claro. Parece que a esta altura é suficiente para ele mencionar um ato completado (o tempo aoristo (poièsamenos) exige assim7) para resumir o que o Filho fez em prol dos homens. A ligação entre a idéia de sustentar o universo com a de purificar os pecados é muito notável. A qualidade remota a inspiradora de temor de sustentar o universo é contrabalançada pela intimidade da purificação dos pecados. Com uma tela tão grande quanto o universo para pintar, é notável achar a mínima menção dos pecados. Mas é este último tema que dominará a carta inteira. Deve ser mantido em mente que o Antigo Testamento demonstra que providências foram feitas para a expiação mediante o sacrifício, e visto que esta carta é endereçada a “Hebreus” pressupõe-se, sem dúvida, que os leitores vinculariam a “purificação” com o Dia da Expiação, quando, então, enfatizava-se que a purificação dos pecados do povo somente poderia ser feita mediante o sacrifício. O escritor demonstra mais tarde que o sangue de touros e de bodes não pode remover pecados (10.4). Por enquanto, contenta-se com o resumo o mais conciso possível. Depois de tratar dos pecados, o Filho sobe ao trono. Mais uiha vez, a ação é específica. Aconteceu depois do evento de purificar os pecados, o que sugere que a importância da entronização acha sua chave no ato da purificação.8 Mais uma vez, trata-se de um resumo brevíssimo. A mão direita era tradicionalmente o lugar de honra. A idéia aqui é tirada da prá­ tica dos reis orientais de associar com eles mesmos o herdeiro no exercí­ cio do governo. Apesar disto, a idéia do Messias estar assentado à direita de DEUS provém do Salmo 110.1. A associação deve ter estado na mente do autor, porque várias vezes cita este Salmo mais tarde na Epístola. Realmente, pode ser dito que este Salmo forma uma parte importante do pano de fundo da carta inteira. Evidentemente, o escritor tinha meditado sobre ele, porque é dele que desenvolve a idéia de uma ordem diferente de sacerdócio. Para o momento, no entanto, tem outras coisas em mente antes de chegar àquele assunto. O ato de sentar-se (assentou-se, ekathisen, aoristo) leva consigo um forte sentido de realização, porque a posição assentada é mais sugestiva de uma tarefa acabada do que uma posição em pé. Na realidade, esta ênfase no CRISTO assentado, que é apoiada por outras evidências neotestamentárias, demonstra conclusivamente que a obra sacrificial está feita. Já não há necessidade alguma de semelhante sacrifí­ cio. A posição sentada também pode denotar uma posição de alta honra.9 Há apenas uma referência a CRISTO em pé no céu: quando Estêvão viu o Filho do homem no céu, viu-0 em pé à direita de DEUS (At 7.56). Isto refere-se à Sua obra de intercessão, não à Sua obra de sacrifício. O pecado já foi tratado, mas o povo de DEUS ainda precisa de um intercessor pra pleitear por ele — o que é outro tema desenvolvido posteriormente nesta carta. Vale a pena notar que a Majestade nas alturas é uma maneira especialmente respeitosa de falar acerca de DEUS. Reflete a reverência judaica para com o nome de DEUS que levou os judeus devotos a evitar o seu uso e a colocar no lugar dele alguma frase de respeito. O escritor usa uma frase quase idêntica em 8.1. A presente declaração é apenas uma indicação da exposição mais completa que está para seguir. O escritor claramente tem um conceito majestoso de DEUS.
d. Este versículo cumpre dois propósitos: conclui a declaração introdutória e prepara o cenário para a primeira seção principal.
Tendo em vista tudo que já foi dito, a superioridade do Filho aos anjos não é surpresa alguma. Mas não fica tão claro por que a comparação é feita com anjos a esta altura. Pode ser que o escritor tinha meditado sobre as passagens do Antigo Testamento que passa a citar, com interesse especial pelo Salmo 8 (citado no cap. 2) e no Salmo 110, porque os considerava messiânicos. Do outro lado, é possível que a idéia da superioridade de CRISTO aos anjos lhe tenha ocorrido primeiro, e que as passagens relevantes tenham, então, surgido na sua mente. Esta última sugestão é provável, tendo em vista o grande interesse que os judeus tinham pelos anjos. É compreensível que, numa época em que os anjos eram tidos em alta estima, o escritor desejasse demonstrar que DEUS agora falara através do Seu Filho de uma maneira muito mais eficaz do que através deles. O homem moderno não tem tanta certeza acerca dos anjos, e a relevância desta passagem requer alguma discussão. Os anjos aparecem várias vezes nas histórias dos Evangelhos, e não se pode negar que os evangelistas consideravam estes seres sobrenaturais como seres reais. Na realidade, JESUS mesmo falou dos anjos da guarda dos filhos. Boa parte da crítica moderna dispensa os anjos ao chamá-los de seres mitológicos, i.é, algum tipo de personificação das mensagens de DEUS. Se esta opinião fosse certa, haveria pouca relevância na discussão da superioridade do Filho aos anjos, a não ser para demonstrar a ineficácia dos seres mitológicos. Mas se há dimensões espirituais representadas por anjos que não podem ser consideradas no mesmo nível da experiência natural, fica sendo imediatamente relevante definir a posição do Filho nestas esferas espirituais. O homem de fé pode às vezes penetrar nas esferas que estão bloqueadas para muitos por causa da sua descrença. O “anjo” no Novo Testamento é invariavelmente um mensageiro de DEUS e é este aspecto que é importante para o presente argumento do escritor. Concentra-se primeiramente no nome, que outra vez é surpreendente. O ditado moderno: “O nome não importa” certamente não era aplicá­ vel então, porque os nomes eram mais do que um meio de distinguir as pessoas; eram o meio de dizer algo acerca daquelas pessoas. O nome descrevia a natureza. Mas qual é o nome que Ele herdou? Visto que JESUS já foi introduzido como o Filho, idéia esta que é o tema das citações do Antigo Testamento que se seguem, fica claro que o nome mais excelente é o de Filho, que subentende o relacionamento mais estreito e mais íntimo. Visto que para o mundo daqueles tempos o nome de “anjo” era tão altamente honrado como símbolo de mensageiro divino, é possível que alguns estivessem chamando JESUS CRISTO pelo nome de “anjo” e fazendo-O não mais alto do que os seres espirituais que, segundo se acreditavam, influenciavam os negócios dos homens. A idéia dEle como Filho é muito mais sublime. Claramente, o cristianismo teria tido um caráter bem diferente se a posição de JESUS não tivesse sido mais alta do que a de um anjo. Os leitores podem ter pertencido a um grupo semelhante àquele em Colossos que realmente estava adorando anjos (Cl 2.18), ou a um grupo que anteriormente estivera sob a influência de Cunrã, onde os anjos eram altamente respeitados. Era essencial para o evangelho cristão ser libertado deste tipo de abordagem. A excelência do nome dado a JESUS CRISTO é achada também em Filipenses 2.9ss., onde é considerado um sinal de honra sublime.
 
III – CRISTO – SUPERIOR AOS ANJOS
A SUPERIORIDADE DO FILHO AOS ANJOS (1.5-2.18)
1. CRISTO: superior em natureza e essência.
Os leitores judeus certamente devem ter tido alta estima pelos anjos e o escritor considera necessário demonstrar a superioridade de CRISTO a estes mensageiros celestiais reverenciados. O caráter glorificado de CRISTO pressupunha Sua superioridade aos anjos, mas um problema surgiria acerca da Sua humanidade. Nesta seção, o escritor leva seus leitores a reconhecer porque JESUS tinha de tomar-Se um homem verdadeiro a fim de ser eficaz como Sumo Sacerdote em prol dos homens, função esta que nenhum anjo poderia cumprir.
(i) CRISTO é superior na Sua natureza (1.5-14)
5. Agora começa uma lista de citações do Antigo Testamento que se propõem a demonstrar a extensão da superioridade do Filho.
O escritor não usa suas citações exatamente da mesma maneira como o contexto original. Por exemplo, toma palavras que originalmente se aplicavam a um rei israelita e aplica-as a JESUS CRISTO. Considera que este modo de proceder é legítimo. Nisto não está sozinho, porque há outros exemplos entre os escritores do Novo Testamento. O Evangelho segundo Mateus contém vários. Mateus 2.5-6 e 22.44 são exemplos em que passagens do Antigo Testamento são citadas de modo messiânico. Alguns dos cumprimentos de Mateus, no entanto, são passagens que os judeus nunca consideraram como messiânicas (e.g. Mateus 2.15 que cita Oséias 11.1), mas que o ESPÍRITO levou os cristãos primitivos a reconhecer como tais. Fica claro que as Escrituras do Antigo Testamento possuíam considerável autoridade para a era do Novo Testamento, e, de fato, a totalidade desta carta aos Hebreus testifica disto. Deve ser notado, ainda, que o escritor introduz as citações neste capítulo com a fórmula simples: “Diz,” que deve referir-se a DEUS. As Escrituras para ele são a voz de DEUS.
Para uma apreciação da abordagem cristã ao Antigo Testamento, é necessário ter em mente este conceito flexível do cumprimento da profecia. A idéia de um cumprimento imediato e de um outro cumprimento remoto é comum, e isto explica como uma predição que tinha relevância no passado poderia ter um cumprimento mais completo no futuro. Isto está em harmonia com a natureza de DEUS que vê o tempo de um modo diferente do conceito que o homem tem dele. Para Ele, mil anos é apenas um dia, que não deve ser considerada uma correlação exata, conforme supõem alguns milenistas, mas, sim, como uma indicação de uma diferença essencial de cálculo.
A primeira passagem a ser citada é Salmo 2.7, salmo este que reflete uma situação de guerra e que provavelmente pertence à situação histórica descrita em 2 Samuel 7.
 Nosso escritor, no entanto, não está interessado no evento histórico, mas, sim, na propriedade das palavras para serem aplicadas ao Messias.10 No Salmo, as palavras: Tu és meu Filho aplicam-se a Davi, mas claramente somente têm uma aplicação imperfeita a ele. Os cristãos primitivos reconheciam as palavras como messiânicas. São citadas no discurso de Paulo em Antioquia da Pisídia (At 13.33). Os judeus no seu auditório teriam apreciado a força desta citação; acrescentava autoridade bíblica às declarações que Paulo estava fazendo. O que impressiona o escritor aos Hebreus é que, ao passo que as palavras de aplicam a JESUS CRISTO, não podem aplicar-se a um anjo. Se DEUS Se dirige ao Messias desta maneira, o Messias deve, portanto, ser superior aos anjos. Mas em que sentido se deve entender as palavras eu hoje te gereP. Na sua aplicação a Davi, podem referir-se ao aniversário da sua coroação. Ou, talvez a palavra “gerei” (gegennêka) deva ser entendida com referência à paternidade de DEUS, sem indicar qualquer ponto específico de tempo. Quando é aplicada a JESUS CRISTO como Messias, a mesma coisa se aplica. Pode referir-se à encarnação ou à ressurreição. De fato, é neste último sentido que é aplicada em Atos 13.33. Do outro lado, não fica claro que em Hebreus qualquer importância é atribuída ao elemento tempo. O escritor claramente está mais interessado em demonstrar a relevância da geração em termos da posição do Filho, ao invés de prendê-la a uma ocasião específica.
A segunda citação é uma passagem que era geralmente aceita como sendo uma referência ao Messias. Vem de 2 Samuel 7.14, de um oráculo dado a Davi.
Há uma estreita ligação entre esta passagem e a anterior. A idéia contida nela captou a imaginação de muitos escritores do Antigo Testamento, conforme é visto na sua crença num Messias vindouro. O relacionamento entre Pai e Filho mais uma vez é a idéia-chave para nosso escritor, porque marca o Messias como estando separado do relacionamento Criador-criatura que há entre DEUS e os anjos. Historicamente, pode-se dizer que as palavras acharam um cumprimento parcial em Salomão, o filho de Davi, que completou a edificação do primeiro templo. Mas o cumprimento perfeito não veio até o tempo do Filho maior de Davi. Tanto o reino quanto o templo precisavam de uma reinterpretação em termos espirituais, e era um dos temas principais de nosso escritor fazê-lo em referência ao tabernáculo que era o prenúncio do templo. Vale a pena notar que há alguma menção de um relacionamento pai-filho em Salmo 89.26-27, seguida por uma referência ao primogênito, uma combinação de idéias que também é achada nos versículos 5 e 6 deste capítulo. Já que nosso autor está profundamente instruído no Antigo Testamento, é provável que sua familiaridade com o Salmo 89 também tenha influenciado sua seleção dalgumas das outras passagens do Antigo Testamento citadas aqui.
6. As palavras: E, novamente, ao introduzir o Primogênito no mundo, que introduzem a citação seguinte, também ecoam a passagem véterotestamentária mencionada supra (i.é, SI 89.27). Ali, a palavra primogê­ nito é usada (“Fá-lo-ei… meu primogênito”) para Davi. Fica claro que na mente do escritor o “Primogênito” (prõtotokos) do v. 6 é o Filho dos versículos anteriores. É sugestivo que o mesmo termo é usado a respeito de JESUS CRISTO pelo apóstolo Paulo (Cl 1.15, 18; Rm 8.29), qualificado da seguinte maneira: primogênito de toda a criação, primogênito dentre os mortos, primogênito entre muitos irmãos. A expressão claramente fica revestida de profundo significado quando é aplicada a CRISTO. Aqui o escritor não entra em detalhes sobre a superioridade de CRISTO, conforme faz Paulo. Contenta-se, pelo contrário, em fazer declarações que produzirão uma impressão profunda de superioridade. A referência primária deve ser à encarnação, para chamar a atenção ao fato de que quando JESUS CRISTO nasceu, a função dos anjos era adorar. Na opinião do escritor, a homenagem dos anjos é prova de que consideravam o Filho como superior. Seu significado fica bastante claro, mas um problema surge a respeito da citação. A fórmula diz (legei), que introduz a citação, é familiar nesta Epístola. 0 sujeito é omitido, mas claramente trata-se de DEUS. As citações das Escrituras não são simplesmente declarações formais do Antigo Testamento, mas, sim, o próprio DEUS falando pessoalmente no texto. Isto dá uma indicação do conceito da inspiração das Escrituras sustentado pelo escritor. Pretende que seja compreendido que a citação que faz vem com autoridade, embora a citação exata: E todos os anjos de DEUS o adorem não apareça na Bíblia hebraico. Em duas passagens da Septuaginta (SI 97.7 e Dt 32.43) há uma estreita aproximação; esta última passagem inclui a conjunção “e” (kai) que está presente no original grego do nosso versículo, mas é omitida na maioria das traduções atuais. Deuteronômio faz parte do cântico de Moisés que olha para o futuro, para o triunfo do Senhor de Israel sobre Seus adversários.Nosso escritor transfere o triunfo deste cântico para o Messias, a quem ele vê como o “Primogênito.” A mesma passagem do Antigo Testamento é citada por Paulo em Romanos 15.10 onde os gentios são conclamados a regozijar-se. Vale a pena notar que Paulo introduz sua citação de Deuteronômio 32.43 com a mesma fórmula (legei) que é usada em Hebreus, tanto mais significante porque não é usual para o Apóstolo usar a fórmula sem declarar o sujeito. Outro paralelo interessante entre as duas passagens do Novo Testamento é o uso duplo de novamente (palin) [ARA reveza várias traduções] em citações sucessivas como se a intenção fosse ressaltar a estreita conexão entre elas. A prática de amontoar citações das Escrituras da maneira de Paulo e do escritor aos Hebreus tem seu paralelo na literatura judaica. Nas passagens sendo comparadas, Paulo acha uma palavra de ligação em “os gentios,” ao passo que Hebreus faz a mesma coisa com a idéia de anjos. A declaração de que os anjos são ordenados a adorar o Primogênito sugere que este é seu dever apropriado.
7. Tendo estabelecido a superioridade de JESUS CRISTO sobre os anjos, que representam as máis exaltadas entre as criaturas de DEUS, o escritor inculca sua lição com referências adicionais ao Antigo Testamento. A primeira é tirada de Salmo 104.4, mas não no sentido achado no texto hebraico, que não faz referência a anjos. O escritor claramente reconhece a autoridade do texto grego que interpretou o texto hebraico da mesma maneira que fizeram os escritores rabínicos. As palavras .Aquele que a seus anjos faz ventos, visam demonstrar um forte contraste entre os anjos e o Filho. Ao passo que se diz que o Filho foi gerado, diz-se que os anjos foram feitos. A distinção não é acidental. Os anjos, como criaturas, podem funcionar somente dentro dos limites para os quais foram criados, ou seja: para levar a efeito os desejos do seu Criador. Tanto os anjos (angeloi) quanto os servos (“ministros” — leitourgoi) têm uma função bem diferente da do Filho. A tarefa deles e’ servir. A tarefa do Filho é de exercer soberania (conforme demonstram os w . 8 e 9). É sugestivo que a descrição dos anjos é feita em termos do mundo natural. Ventos e fogo são melhor vistos como representantes de agências naturais poderosas, do que como ilustração de coisas que não tem substâncias. Há paralelos vétero-testamentários à idéia de agências sobrenaturais por detrás dos elementos da natureza (e.g. SI 18.10; 35.5). Há alguma sugestão de poder irresistível na linguagem figurada usada, porque tanto o vento quanto o fogo podem ser irresistivelmente destruidores, ou, se devidamente captados, poderosamente construtivos. Mas o pensamento principal do escritor nesta Epístola é o reconhecimento pelos anjos de um poder maior do que eles mesmos, a saber: o próprio poder que os nomeou. Embora estes agentes espirituais sejam mais poderosos do que os homens, não deixam de ser ultrapassadas pelo poder do Filho. Se alguém pensar que por detrás desta idéia há um conceito antiquado do mundo como estando sujeito a influências pessoas invisíveis, ao invés da idéia moderna da causa e efeito, que não deixa lugar para a manipulação sobrenatural, deve ser lembrado que aqui o escritor não está fazendo um comentário científico sobre fenômenos naturais como “vento” e “fogo.” Seu propó­ sito é inteiramente espiritual, uma demonstração da suprema importância do Filho sobre todas as criaturas. Ao mesmo tempo, o que ele diz não está em conflito com um conceito científico do mundo.
8-9. O contraste entre os anjos e o Filho é ressaltado de modo inconfundível na construção da frase grega (rnen… de).
A citação que expõe a soberania do Filho vem do Salmo 45.6-7. O contexto original do Salmo era bem diferente, e se referia às bodas dalgum rei de Israel. Mesmo assim, era geralmente reconhecido que tinha um significado muito mais extenso, e, de fato, era considerado messiânico. É neste último sentido que é citado aqui. As palavras iniciais: O teu trono, ó DEUS, épara todo o sempre, causam um problema, porque podem ser entendidas ou como um tratamento direto ao Filho, e neste caso não se pode evitar a implicação de que o Filho está sendo descrito como DEUS;13 ou, menos provavelmente, as palavras podem ser entendidas no sentido de “O trono do Teu DEUS,” ou “DEUS é Teu trono,” e neste caso a implicação de que o Filho é DEUS é evitada. Se um contexto histórico for levado em mente, seria difícil imaginar um rei terrestre sendo diretamente tratado assim, a não ser num sentido restrito, e, portanto, é melhor considerar que a declaração acha seu único cumprimento verdadeiro em CRISTO. Deve ser notado, no entanto, que a deificação do rei tem paralelos na literatura pagã (cf. também Jo 10.34- 35). Mesmo assim, visto que no pensamento hebraico o ocupante do trono de Davi era considerado o representante de DEUS, é neste sentido que se poderia dirigir-se ao rei chamando-o de DEUS.14 As palavras seguintes: Cetro de eqüidade é o cetro do seu reino, focalizam-se no caráter da soberania do Filho. O Antigo Testamento freqüentemente enfatiza a idéia da justiça, não somente a justiça de DEUS, como também a necessidade de justiça da parte do povo. O tema é especialmente relevante para o assunto principal desta Epístola. O Filho não dá Sua aquiescência a um padrão justo com má vontade. Forma o centro dos Seus afetos. Faz parte da Sua natureza — Amaste a jus? tiça. Semelhante abordagem à justiça envolve uma rejeição específica do seu oposto: a iniqüidade fahomia). É típico do estilo poético hebraico declarar uma idéia seguida por uma negação do seu oposto. Os que amam não têm alternativa senão odiar a iniqüidade, mas somente JESUS CRISTO o Filho já cumpriu perfeitamente os dois objetivos. A unção do Filho não deve ser considerada em conexão com os ritos da coroação, mas, sim, como simbolizando a alegria de ocasiões festivas, quando, então, era seguida a prática de ungir. Este fato explica uma forte sensação de alegria. A mesma idéia ocorre no Salmo 23.5, onde a unção é um sinal de favor. As palavras como a nenhum dos teus companheiros no Salmo original provavelmente se referem a outros reis e ressaltam a superioridade do rei a quem se dirige a palavra (cf. SI 89.27). Pode, no entanto, ser menos formal e referir-se aos companheiros na festa.
Seja como for, aqui serve o propósito de focalizar a atenção em um outro aspecto da superioridade do Filho. A transferência da idéia ao Filho não precisava de explicação alguma, visto que o título familiar “CRISTO” (como o título correspondente “Messias”) significa “O Ungido.” Pedro fixou-se neste pensamento na sua exposição diante de Comélio (At 10.38). Além disto, a idéia de ungir é importante numa Epístola cujo tema é o sumo-sacerdócio de CRISTO, porque todos os sacerdotes da linhagem de Arão eram ungidos ao assumirem suas funções.
10-12. Os próximos três versículos criam um problema, porque a passagem citada de Salmo 102.25-27 não contém referência alguma ao Filho.
Na Septuaginta, os w. 1-22 são dirigidos a DEUS, mas os w. 23-28 consistem na resposta. O escritor entende que DEUS está falando aqui. Na sua mente, era legítimo transferir ao Filho aquilo que se aplicava a DEUS, visto que já chamou atenção ao caráter eterno do Seu trono. A passagem tem muitos aspectos interessantes • que são aptos quando aplicados a JESUS CRISTO. O escritor já falou do papel do Filho na criação, e, em vista disto, a passagem do Salmo 102 é apropriada. Ao aplicar esta passagem, o escritor chama a atenção a uma idéia profunda acerca do Filho, i. é, Sua imutabilidade. A terra e os céus parecem ser bastante substanciais, mas eles perecerão. Havia uma crença generalizada no mundo greco-romano de que o mundo, e mesmo o próprio universo, era indestrutível. O conceito cristão expressado aqui estaria em rigoroso contraste. Esta transitoriedade da criação material aparentemente imutável, serve para ressaltar o contraste com a estabilidade divina. Há um som majestoso nas palavras: tu, porém, permaneces. Esta declaração focaliza a atenção na estabilidade inabalável, que é ressaltada ainda mais pelo quadro impressionante de DEUS enrolando os céus e a terra, agora esfarrapados como uma veste envelhecida, por não terem mais utilidade. Este vislumbre magnífico do salmista da consumação da presente era visa levar ao clímax: tu, porém, és o mesmo. Diante da desintegração em todos os outros lugares, o cará­ ter imutável do Filho destaca-se em contraste inconfundível. Os leitores cristãos não teriam dificuldade em aplicar ao Filho as palavras citadas, embora no Salmo se refiram ao Pai. Seria diferente para os leitores judeus visto não haver evidência alguma no sentido de que consideravam este Salmo totalmente messiânico. Apesar disto, a convicção do escritor de que CRISTO é eterno é um aspecto essencial da sua abordagem teológica no decorrer desta Epístola. É uma das distinções mais dramáticas entre a ordem de Melquisedeque e a ordem de Arão, que forma a chave à parte central do seu argumento.
 
2. CRISTO: superior em majestade e deidade.
13. Já foi notado que Salmo 110.1, que passa agora a ser citado, estava na mente do autor no começo da sua Epístola quando falou acerca do Filho assentando-Se à direita da Majestade no céu (v. 3).
A idéia da entronização agora é repetida para ressaltar o contraste mais óbvio entre JESUS CRISTO e a ordem mais alta de seres criados. Em nenhuma ocasião já foi concebido que os anjos ficam sentados, e, portanto, a entronização de JESUS imediatamente estabelece a Sua superioridade. Não somente é ressaltada a Sua soberania, como também Seu poder absoluto sobre Seus inimigos. Que esta idéia está destacada na mente do escritor fica claro no fato dele repetir a declaração no capítulo 10.12, 13. Tanto no capítulo 1 quanto no capítulo 10 a entronização e a vitória estão ligadas com a expiação que JESUS CRISTO faz pelos pecados. Além disto, este tema é achado noutros lugares no Novo Testamento. Ocorre no sermão de Pedro no Pentecoste (At 2.34-35), onde mais uma vez é contrastado com a ação dos judeus ao crucificarem a JESUS. Apesar daquilo que os homens fazem, DEUS nomeou JESUS tanto Senhor quanto CRISTO. Foi esta declaração de Pedro, baseada neste mesmo Salmo, que resultou na notável convicção em massa entre o seu auditório. Aqueles que responderam no dia do Pentecoste teriam motivo de lembrar-se do uso válido que Pedro fez deste Salmo. Não somente eles, mas também Paulo ecoa a mesma idéia na sua carta a Corinto (1 Co 15.25) quando procura comprovar que CRISTO deve ter a soberania absoluta, até mesmo sobre a própria morte. Uma reminiscência do uso do Salmo por Pedro pode ser notada na sua primeira Epístola (1 Pe 3.22). A idéia da supremacia de DEUS sobre Seus inimigos também é achada no Salmo 8.6 que Paulo realmente cita em conjunção com o Salmo 110.1 em 1 Coríntios 15. Não há dúvida, portanto, que o Salmo 110 tem um lugar especial no pensamento deste autor, visto que volta a ocorrer várias vezes na sua exposição.
 
14. Há um contraste marcante entre o Filho entronizado e os anjos ministradores.
A função destes últimos é essencialmente de serviço, e todos eles (pantes) inclui, de modo significante, todas as categorias dos anjos. Até os mais nobres são enviados para serviço. Há um contraste aqui entre a posição temporária do Filho como Servo no Seu ministério (cf. Fp 2.7) e Seu descartar daquela posição depois de ter completado a Sua missão. Os anjos, por outro lado, estão dedicados ao serviço constante e nunca serão entronizados. O escritor certamente não está querendo diminuir a função dos anjos, porque nota que seu serviço é a favor dos que hão de herdar a salvação. Talvez pareça estranho que nenhuma definição da salvação seja dada, o que sugere que os leitores já sabiam o que significava. Nem sequer é definida como sendo salvação cristã, embora isto seja claramente tomado por certo. 0 ponto principal da carta toda aplica-se a explicar a salvação em termos de ofertas e aquilo que realizam. Ademais, o escritor ecoa o tema quase imediatamente na passagem seguinte. O que é importante no momento é observar que os mensageiros celestiais estão ocupados num ministério dirigido em direção à salvação dos homens. O enfoque do plano de DEUS da salvação está sobre as pessoas, consideradas como herdeiras. A idéia de herdar está clara no grego (klêronomein). É familiar no pensamento do Novo Testamento, porque a salvação cristã é concebida como algo que vale a pena ser possuído. Os crentes são chamados herdeiros, até mesmo co-herdeiros com CRISTO (cf. Rm 8.17). A idéia da erança, ademais, volta a ocorrer em Hebreus 3 e 4 (com a metáfora de um descanso), em Hebreus 9 (na linguagem figurada de um testamento) e em Hebreus 11 (em relação às promessas dadas à fé). Pode ser declarado com justiça que neste primeiro capítulo de Hebreus encontram-se muitas das idéias dominantes que voltam a ocorrer na Epístola.
 
CONCLUSÃO
Vimos as seguintes partes e tópicos:
AUTORIA, DESTINATÁRIO E PROPÓSITO
Autoria mais provável é de Paulo com Lucas escrevendo em grego o que Paulo ditava (não podemos afirmar). Os Destinatários mais prováveis são os hebreus-cristãos do mundo todo. Também incluímos ai a evangelização dos judeus não-cristãos. O Propósito principal é mostrar aos vacilantes e perseguidos judeu-cristãos que estavam pensando em apostatar da fé, a superioridade de CRISTO e a base da Nova Aliança firmada em melhores promessas do que a Antiga Aliança.
CRISTO – A PALAVRA SUPERIOR A DOS PROFETAS
A revelação profética e a Antiga Aliança são reveladas como sendo imperfeitas, pois eram sombras e anunciados sobre o Messias que agora apareceu para cumprir em Si mesmo tudo o que Dele se predisse por meio dos profetas. O filho é superior a qualquer profeta.
A revelação profética e a Nova Aliança são reveladas como sendo perfeitas, pois são o cumprimento de tudo o que foi anunciado pelos profetas a respeito do Messias que agora apareceu para cumprir em Si mesmo tudo o que Dele se predisse por meio dos profetas. O filho se ofereceu no tabernáculo no céu, não a figura do verdadeiro, mas o original. CRISTO é a revelação final de toda a lei e os profetas.
CRISTO – SUPERIOR AOS ANJOS
CRISTO: superior em natureza e essência, pois, é Filho de DEUS
CRISTO: superior em majestade e deidade, pois é criador de todas as coisas e controla todas as coisas do universo. JESUS é DEUS. Está assentado à direita de DEUS.
 
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ESTUDOS E COMENTÁRIOS DE BÍBLIAS E LIVROS
SÉRIE Comentário Bíblico – HEBREUS – As coisas novas e grandes que DEUS preparou para vocè – SEVERINO PEDRO DA SILVA
 Todos os direitos reservados. Casa Publicadora das Assembléias de DEUS. Aprovado pelo Conselho de Doutrina. Preparação de originais: Kléber Cruz Revisão: Alexandre Coelho Capa e projeto gráfico: Eduardo Souza Editoração: Joede Bezerra CDD: 220 – Comentários Bíblicos – Para maiores informações sobre livros, revistas, periódicos e os últimos lançamentos da CPAD, visite o site: http://www.cpad.com.br As citações bíblicas foram extraídas da versão Almeida Revista e Corrigida, edição de 1995 da Sociedade Bíblica do Brasil, salvo indicação em contrário.. Casa Publicadora das Assembléias de DEUS Caixa Postal 331 20001-970, Rio de Janeiro, RJ, Brasil 6a Impressão Fevereiro 2013.
 
Prefácio 
1- Mais Excelente do que os Anjos 
2- Uma tão Grande Salvação 
3- Não Endureçais os vossos Corações
4- O Prometido Repouso
5- O Sumo Sacerdote Eterno 
6- O Caminho da Perfeição 
7- Melquisedeque e o Sacerdócio de CRISTO
8- O Novo Concerto
9- O Tabernáculo 
10- Sacrifícios e Ofertas 
11- ela Fé 
12- Perseverança em meio às Provações 
13- A Graça Seja com todos vós 
 
Mais Excelente do que os Anjos
I- Introdução
Antes de analisarmos a exegese da Epís­tola aos Hebreus e sua aplicação prática à vida cristã, é necessário nos a termos ao contexto histórico e aos fatos que levaram o seu autor a escrevê-la. E preciso ainda que observemos suas referências ao Antigo Testamento, pois além da menção de várias passagens de Josué, Juizes, Salmos, entre outros livros, seu conteú­do está intrinsecamente ligado ao Pentateuco
sobretudo aos livros de Gênesis, Êxodo e Levítico —, em que o autor se baseia para abor­dar temas como o Tabernáculo, o sacerdócio levítico e o seu simbolismo à obra redentora de CRISTO.
Seu Autor
Há várias opiniões sobre a autoria da Epístola aos Hebreus. Sua mudança de estilo, tanto no início como no final, é bas­tante diferente das epístolas de Paulo. Vejamos os argumentos apresentados por alguns comentaristas a este respeito:
Clemente de Alexandria afirmou que Paulo escreveu esta carta em hebraico e Lucas a traduziu para o grego.
A igreja de Alexandria aceitou a autoria paulina e colocou esta entre as cartas de Paulo. Contudo, outros-expositores não concordam com este pensamento e sugerem uma lista enorme de nomes que pudessem tê-la escrito. Parece que o autor desta carta não era um apóstolo; ou se era, escreveu-a através de um amanuense (Hb 2.3). Nesse caso, Paulo seria então seu autor, porque seus pensamentos estão inseridos nela do começo ao fim:
(Hb 1.2,3; 6.1; I Co 8.6; 2 Co 4.4; Cl 1.15-17); (Hb 2.14-17; 5.8; Rm 5.19; 8.3; G14.4; Fp 2.7,8); (Hb 9.28; I Co 5.7; Ef 5.2); (Hb 8.6; 9.15; 2 Co 3.6-11); (Hb 11.8-12,17-19; Rm 4.17-20; G1 3.6-9); (Hb 2.4; I Co 12.4-11,27-31); (Hb 2.6,9; SI 8; I Co 15.27); (Hb I2.I; I Co 9.24-27, etc.).
As circunstâncias em Hebreus 13 são simplesmente as de Paulo, nas cartas reconhecidas como paulinas. Compare o seguinte:
Hebreus 13.23 com a amizade de Paulo e Timóteo
Hebreus 13.18 com Romanos 15.30; 2 Coríntios 1. 11; Atos 23.1; 24.16; 2 Coríntios I.I2; I Timóteo 3.9; 2Timóteo 1.3
Hebreus 13.19 com Filemom 22; Filipenses 1.24,25 Hebreus 13.20,25 com Romanos 15.33; I Timóteo 5.28; 2 Timóteo 3.18.
Existem idéias similares em Hebreus com outras cartas paulinas. Por exemplo: Cristologia:
Hebreus 1.3 com Colossenses 1.15 Hebreus 1.2,3,10,11,12 com Colossenses 1.16,17; I Coríntios 8.6 Hebreus 1.4-14; 2.14-17 com Filipenses 2.5­11; Efésios 1.20-23; Hebreus 2.9; 9.26; 10.12 com I Timó­teo 2.6; Efésios 5.2; I Coríntios 15.3. Os dois concertos: Hebreus 10 com Colossenses 2.16,17
Hebreus 8.1-6; 4.1,2 com I Coríntios 10.11
Hebreus 7.18 com Romanos 8.3
Hebreus 8.8-12; 7.19; 8.13 com 2 Coríntios 3.9-11
Vários termos usados em Hebreus são similares aos ter­mos de outras cartas paulinas. Exemplo:
Hebreus 1.5 com Atos 13.33. Esta citação é mencionada por Paulo em Hebreus para referir-se a CRISTO, mas não é usa­da em nenhuma outra passagem do Novo Testamento.
Hebreus 2.4 com I Coríntios 12.4,6,11 Hebreus 2.10 com Romanos 11.36; Colossenses 1.16; I Coríntios 8.6; Hebreus 2.16 com Gálatas 3.29; 4.16 Hebreus 4.12 com Efésios 6.17 Hebreus 6.3 com I Coríntios 16.7 Hebreus 10.19 com Romanos 5.2; Efésios 2.18; 3.12
A autoria paulina foi aceita por Clemente de Alexandria perto do final do século II d.C., e Hebreus foi encontrado  numa coleção de livros atribuídos a Paulo, no Egito. Eusébio acreditava que Hebreus fora escrita por Paulo em hebraico e traduzido para o grego por Lucas. Numa passagem de sua História Eclesiástica, falando das epístolas paulinas, ele disse: “Por outro lado, é evidente e claro que as catorze cartas [de Romanos aos Hebreus] são de Paulo. Contudo, não é justo ignorar que alguns rechaçaram a Carta aos Hebreus, dizendo que a igreja de Roma não a admitiu por crer que não é de Paulo”.
Alguns eruditos questionam a não-autoria paulina, porque são encontradas 168 palavras em Hebreus que nunca foram usadas por Paulo em qualquer outra passagem do Novo Testa­mento, e mais 124 que não aparecem nos escritos de Paulo.
Mas este argumento não invalida sua autoria se quiser­mos atribuí-la a ele. Talvez sua solicitação pela presença de Marcos, dizendo que ele lhe seria “muito útil para o ministé­rio” (2Tm 4.11) fosse, sem dúvida, para que este o ajudasse na redação final da Epístola aos Hebreus. Em seus dois últi­mos anos de vida, Paulo se volta para os seus: os judeus (I Co 9.20-22). E agora seu grande desejo e missão seria convencê- los da superioridade de CRISTO sobre a antiga aliança, e tam­bém da importância do sacerdócio de CRISTO, que seria um sacerdócio eterno, segundo a ordem de Melquisedeque, supe­rior àquele outorgado a Arão e seus descendentes. Marcos te­ria, então, as qualidades necessárias para ajudá-lo nesta grande tarefa. Ele pertencia à tribo de Levi, tribo esta ligada direta­mente ao sacerdócio (cf. At 4.36; Cl 4.10). Algumas Bíblias, especialmente pertencentes a edições antigas, traziam em seus títulos: Epístola de S. Paulo aos Hebreus. A BIBLIA SAGRA­DA, Edição Barsa de 1967, baseada na INTER-AMERICAN COPYRIGHT UNION de 1910, publicada pela Catholic Press, traz como título: Epístola de S. Paulo aos Hebreus. Mas a maioria das outras versões não dizem assim. H. Wayne House oferece um gráfico pró-e-contra da autoria desta epís­tola, além de Paulo, mencionando os seguintes personagens:
Lucas
Argumentos Favoráveis: Existem similaridades de estilo entre os escritos de Lucas e o texto de Hebreus.
A similaridade de estilos pode ser justificada por uma “atmosfera comum”. Além disso, Hebreus é uma obra mais requintada que Lucas e Atos.
Os pensamentos paulinos em Hebreus poderiam ser ex­plicados facilmente, uma vez que Lucas foi companheiro e cooperador do apóstolo.
Argumentos Contrários: Lucas era apenas mais uma das pessoas próximas ao apóstolo; assim, embora isso o torne pro­vável candidato à autoria de Hebreus, seria apenas mais um entre muitos.
Estêvão
O discurso de Estêvão registrado por Lucas assemelha-se muito ao livro de Hebreus: a revisão da história dos judeus, o chamado de Abraão, a perda da posse da terra, o Tabernáculo construído por ordem divina, a lei mediada por anjos, o cha­mado para “sair”, a idéia da “Palavra viva”, alusão a Josué e o chamado celestial. As similaridades entre Hebreus e o discur­so de Estêvão argumentam mais a favor de Estêvão como au­tor do que do próprio Lucas, embora se presuma que foi Lucas quem escreveu o discurso.
Apolo
Argumentos Favoráveis: Apolo era judeu de Alexandria. O autor de Hebreus também era judeu, provavelmente com influência alexandrina.
Embora as características e circunstâncias demonstrem que Apolo poderia ter escrito a epístola, como não há outros escritos de Apolo para que se faça uma compara­ção, não há evidência de que ele de fato seja o autor. Ou­tra pessoa que viveu no século I, anônimo para nós e com as mesmas qualificações, pode ter escrito Hebreus.
Apolo era homem instruído. O autor de Hebreus era instruído, sendo este o escrito do Novo Testamento de melhor composição grega, sob o aspecto do estilo e da lógica. Nenhuma tradição antiga apóia Apolo como autor. Seria difícil entender a falha da Igreja em Alexandria em preservar tal tradição, se Apolo realmen­te tivesse escrito. Apoio tinha um ensino preciso acerca de JESUS (At 18.25). O escritor de Hebreus faz uma apresentação exata e precisa a respeito de JESUS. Atos 18.24 em diante nada diz sobre Apolo sendo treinado no pensamento filônico, o qual a Epístola aos Hebreus parece refletir. Apolo é retratado como um dos homens que usavam mais poderosamente o Antigo Testamento (At 18.24). O autor de Hebreus usa de forma poderosa o Antigo Testamento na sua argumentação, demonstrando grande capacidade em usar o seu entendimento. Marcos faz 15 citações do Antigo Testamento, Mateus faz 19, Lucas faz 25, e João, no Apocalipse, faz 24, o que também os credencia para tê-la escrito.
Apolo era fervoroso de espírito, o que também se observa no autor da epístola, que escreve com paixão e “ousadia”. Isso não era condição para que ele escrevesse Hebreus, pois cada crente na Igreja Primitiva era exortado a ser “fervoroso no espírito” (Rm 12.11). Apoio tinha excelente reputação na Igreja Primitiva (cf. At 18; 1 Co 1.12). O contato entre Paulo e Apoio pode explicar as expressões e os pensamentos paulinos e também justificar a menção a Timóteo em Hebreus 13.23.
Argumentos Contrários: Tiago, Cefas e João eram consi­derados como as colunas na igreja de Jerusalém; eles, e não Apoio, seriam mais credenciados para escrever Hebreus.
Barnabé
Argumentos Favoráveis: Como levita, natural de Chipre (At 4.36), Barnabé estaria qualificado para escrever sobre os regulamentos levíticos da Lei. As características alexandrinas do livro tornam improvável que tenha sido escrito por um judeu de Chipre. Talvez houvesse relação entre Barnabé como o “filho da consolação” (At 4.36) e a “palavra de consolação” (Hb 13.22 — exortação) mencionada pelo autor de Hebreus. A comprovação histórica é precária e de origem ocidental. Esperar-se-ia mais, já que Barnabé era uma figura bem conhe­cida. A autoria de Barnabé é atestada por Tertuliano, que pa­rece expressar o consenso (provavelmente romano), e por Gregório de Elvira e Filástrio (bispo de Bréscia no século IV). E improvável que um discípulo posterior em Jerusalém tivesse escrito Hebreus 2, 3 e 4. Barnabé era considerado na Igreja Primitiva como ministro da consolação, o que o capacitaria a escrever Hebreus.
Argumentos Contrários: Barnabé não produziu nenhu­ma obra (existe uma que leva o seu nome, mas é considerada apócrifa) com a qual Hebreus possa ser comparado, de modo que não há prova intrínseca.
Priscila e Áquila
Argumentos Favoráveis: (Com a predominância  de Priscila) A qualidade deles como professores foi compro­vada pelo mestre Apoio (At 18.26). Seu sucesso como pro­fessores poderia qualificá-los como possíveis autores, mas não deixaram nenhuma obra escrita com a qual Hebreus pudesse ser comparado. Ambos eram intimamente associ­ados a Timóteo (At 18.5; 19.22; I Co 16.10,19). São ape­nas dois entre um grande grupo de pessoas relacionadas com Paulo e Timóteo. Se as saudações em Romanos 16.3­16 são dirigidas a moradores de Roma e se Hebreus foi escrito em Roma, é significativo o fato de que abrigavam uma igreja em sua casa, em Roma (Rm 16.5; cf. I Co 16.10,19). Terem sido membros da Igreja em Roma de ma­neira alguma os torna prováveis autores. A saudação é am­bígua; e se é uma saudação para pessoas em Roma, muitos outros também se qualificariam como prováveis autores. As transições entre “nós” e “eu” podem ser explicadas pela dupla autoria. O uso do plural não é prova sólida de dupla autoria, uma vez que Hebreus 13.19 está enfaticamente no singular, assim como 11.32 e 13.22,23. Há uma tendência anti-feminista na maior parte da Igreja pós-apostólica; um exemplo disso é o texto ocidental (especialmente o Códice D), que pode ser responsável pela supressão do nome da autora. A posição significativa das mulheres nos ministéri­os de JESUS, de Paulo e da igreja subapostólica revela a ati­tude apropriada que a Igreja tinha para com as mulheres, apesar de alguns líderes provavelmente terem sido contrá­rios. A menção de mulheres na lista dos heróis, em Hebreus 11, pode refletir a visão de uma mulher.
Argumentos Contrários: A menção de mulheres na lista de heróis também poderia ser feita por um homem, conforme os livros de Lucas 8 e Romanos 16. O tema do peregrino em Hebreus 11.13-16 pode referir-se à expulsão deles de Roma, por ordem do imperador Cláudio. No entanto, não existe evi­dência histórica que apóie essa alegação. O interesse no Tabernáculo pode provir do fato de terem sido fabricantes de
tendas. O interesse no Tabernáculo é tipológico, e não da perspectiva de um fabricante de tendas. Aquila e Priscila, com pre­dominância de Priscila, foram seus autores, sem apresentar ne­nhum argumento — pensa-se. O particípio em Hebreus 11.32, o qual nesse caso indica o sexo do autor, revela que este era do sexo masculino. O tom autoritário da epístola falaria contra Priscila como autora, em vista do ensino do Novo Testamento, especialmente o ensino de Paulo (I Co 14.34,35; I Tm 2.11).
Silvano
Entre as mais modernas conjeturas acerca da autoria de Hebreus está Silvano. Silvano pode ser comparado com o mesmo Silas que foi companheiro de Paulo. Ele era conhecido da Igreja em Jerusalém, pois de lá foi enviado com Judas, outro ministro do Evangelho, para cooperar na Igreja em Antioquia (At 15.22,34,40). Era também conhecido da Igreja em Roma, tendo estado lá com Pedro durante a escrita de I Pedro (I Pe 5.12). Os eruditos que defendem esta tese sus­tentam que Silvano, tendo vivido em Jerusalém e sendo judeu, estaria informado acerca do culto no templo.
Além destas, há outras conjeturas sobre o autor deste livro: Timóteo, Clemente de Roma, Filipe, o evangelista, entre outros.2
Quando Foi Escrita
Levando em consideração Hebreus 10.1 em diante, parece que esta epístola foi escrita antes do ano 70 d.C. Neste capítulo, o escritor sagrado faz alusão à adoração no Templo, em Jerusalém, e aos sacrifícios diários que eram oferecidos pelos sacerdotes ordinários e também do sacrifício anual que era oferecido pelo sumo sacerdote pelo pecado, em favor de toda a nação (vv. 1,11). Isso nos leva a entender que o santuário ainda se encontrava de pé. Talvez tenha sido escrita entre os anos 64 e 67 d.C., visto que o ano da morte de Paulo, segundo estima-se, é 68 d.C.
Onde Foi Escrita
A passagem de Hebreus 13.4 parece dizer que o autor escreveu esta epístola de algum lugar na Itália. E, se foi Paulo o seu autor, então teria escrito de algum cárcere romano. Antes de seu julgamento como digno de morte pelo tribunal romano, “… Paulo ficou dois anos inteiros na sua própria habitação que alugara…” (At 28.30). Mas parece que todo este período ele dedicou somente para a pregação do Evangelho e para atendimento espiritual àqueles que o procuravam. Ali ele “recebia todos quantos vinham vê-lo”. Passados os dois anos, Paulo foi condenado à morte — sendo em seguida transferido de sua casa para o famoso cárcere Mamertino, construído no segundo século a.C., onde passou os últimos dias de sua vida. Cremos que ali, solitário, ele escreveu esta epístola, onde nela empregou todo o seu conhecimento espiritual e poder de erudição.
Propósito para que Foi Escrita
O verdadeiro propósito desta epístola foi para mostrar aos crentes hebreus a superioridade de CRISTO e de sua graça sobre o antigo concerto, como sendo um empreendimento “melhor”. E através desta conscientização, encorajá-los a não voltarem para o judaísmo, que havia terminado sua missão justificadora com a vinda de nosso Senhor JESUS CRISTO (cf. Hb 10.9). JESUS é superior. Nos capítulos 1—4 de Hebreus, o escritor enfatiza que CRISTO é superior na sua pessoa. Ele é melhor do que os profetas, os anjos, Moisés, Josué e o sábado. Ele é superior aos sacerdotes dos tempos do Antigo Testamento. CRISTO é superior como sacerdote. Os capítulos 5—10 relembram aos cristãos judeus que CRISTO é superior como nosso Sacerdote. O seu caminho é melhor do que o sacerdócio terrestre, o antigo concerto, os sacrifícios de animais ou as oferendas diárias. CRISTO abriu um caminho melhor. Nos capítulos 11—13, CRISTO abriu um caminho melhor para chegarmos a DEUS; podemos ter fé para crer nEle e em todas as coisas; podemos ter esperança de que nos fará vitoriosos sobre todas as nossas provações, e podemos demonstrar amor uns aos outros segundo a medida de amor que CRISTO nos deu. CRISTO é melhor do que as tradições.
Com o passar dos séculos, os judeus tinham criado inúmeras tradições paralelas aos mandamentos de DEUS e algumas de suas ordens. Além do Pentateuco e dos outros livros que compõem o Canon hebraico, existiam as tradições orais e outras obras escritas, repletas de outros ensinamentos que iam sendo adquiridos no dia-a-dia da vida do povo escolhido. Com a presença de JESUS entre eles, algumas destas tradições foram questionadas e rejeitadas pelo novo ensinamento de CRISTO. Contudo, observamos que a Igreja do primeiro século d.C. era, na sua maioria, composta de crentes judeus. Isto sem dúvida levou alguns deles, que abraçavam a fé em JESUS, a conservarem consigo algumas de suas tradições — levando-os a aceitarem a fé e ao mesmo tempo, continuarem guardando suas tradições (cf. At 15.1). O autor sagrado mostra-lhes que “… se alguém está em CRISTO, nova criatura é: as coisas velhas já passaram; eis que tudo se fez novo” (2 Co 5.17). Isto não somente incluía a velha natureza, que agora em CRISTO fora substituída por uma nova natureza, mas também as velhas tradições e ordenanças da Lei. Estas também tinham sido substituídas pela fé e a graça de nosso Senhor JESUS CRISTO, que doravante era “o meio” e “a causa” da justificação de judeus e gentios (Jo 1.I7).
Seu Conteúdo
A Epístola aos Hebreus é composta por:
13 capítulos; 303 versículos; 6.454 palavras (Edição Revista e Atualizada); 17 perguntas (1.5 [duas vezes], 13,14; 2.4,6 [duas vezes]; 3.17 [duas vezes], 18; 7.11; 9.14,17; 10.29; 11.32; 12.7,9); Citações do Antigo Testamento. Além de seu conteúdo principal, a Epístola aos Hebreus encontra-se pontilhada de citações em seus 13 capítulos. Todos, sem exceção, con­têm passagens do Antigo Testamento (cerca de 85 ao todo) Algumas dessas passagens envolvem até livros inteiros, quando é desenvolvido um tema. Veja o quadro a seguir:
 
AT: 2 Samuel 7.14; Salmos 2.7; 45.6,7; 104.4; 110.1 = Hebreus 1.5-13
Gênesis 33.5; Isaías 8.18; Salmos 8.4-6; 22.22 = Hebreus 2.6-8,12,13
Êxodo 12.37-51; Salmos 95.7-11 = Hebreus 3.7-11,15
Gênesis 2.2; Josué 11.23; Salmos 95.11 = Hebreus 4.3,4,5,7
Salmos 2.7; 110.1,4 = Hebreus 5.5,6,10
Gênesis 22.16,17; Salmos 110.1,4 — Hebreus 6.14,20
Gênesis 14.18-20; Números 18.21-28; Salmos 110.4 = Hebreus 7.1,2,10,11,15,17
Êxodo 25.40; Jeremias 31.31-34 = Hebreus 8.5,8-12
Êxodo 24.8; 25— 40; 30.10; Levítico 16; Números 19 = Hebreus 9.1-7,13,14,18-21
Deuteronômio 31.6; 32.35,43; Salmos 40.6-8; Habacuque 3.3,4 = Hebreus 10.5-9,30,37,38, etc.
Gênesis I; 2 = Hebreus 11.3 Gênesis 4.3-5; 10; 11 = Hebreus 11.4 Gênesis 5.24 = Hebreus 11.5
Gênesis 6.13-22; 7.1-22 = Hebreus 11.7a Gênesis 8.1-22 = Hebreus 11.7b Gênesis 12.1-5 = Hebreus 11.8
Gênesis 12.6-9 = Hebreus 11.9 Gênesis 21.1-3 = Hebreus 11.11 Gênesis 18.11 = Hebreus 11.12a Gênesis 22.17 = Hebreus 11.12b Gênesis 22.1-19 = Hebreus 11. 17 Gênesis 15.4 = Hebreus 11. 18 Gênesis 27.4-40 = Hebreus 11.20 Gênesis 48.1-20 = Hebreus 11.21
Gênesis 50.24,25; Êxodo 13.19; Josué 24.32 = Hebreus 11.22 Êxodo 2.2,3 = Hebreus 11.23a Êxodo 1.15,16,22 = Hebreus 11.23b Êxodo 2.II = Hebreus 11.24-26 Êxodo 12.37-41 = Hebreus 11.27 Êxodo 12.1-28 = Hebreus 11.28 Êxodo 14.16-31 = Hebreus 11.29 osué 6.15,20 = Hebreus 11.30 osué 6.22,23 = Hebreus 11.31 a osué 2.1-21 = Hebreus 11.31b uizes 6—8 = Hebreus 11.32a uizes 5 = Hebreus 11.32b uizes 13—17 = Hebreus 11.32c uizes II; 12 = Hebreus 11.32d
Samuel I—31 = Hebreus 11.32e
Samuel 1—24 = Hebreus 11.32f Daniel 6 = Hebreus 11.33 Daniel 3 = Hebreus 11.34, etc.
Provérbios 3.11,12; Gênesis 25.29-34; 27.1-46; Êxodo 19.12,16; Ageu 2.6 = Hebreus 12.5,16-21,26
Gênesis 19.1 -17; Deuteronômio 31.6; Salmos 27.1; 56.4,11 ; Levítico 6.14-19; Números 5.9,10; 19.3 = Hebreus 13.2,5,10,11
Dos versículos 35 a 40 de Hebreus 11, são apresentadas referências e inferências gerais.
 
1 Havendo DEUS, antigamente, falado, muitas vezes e de muitas maneiras, aos pais, pelos profetas, a nós falou- nos, nestes últimos dias, pelo Filho,
O autor sagrado usa aqui uma linguagem geral para representar o Antigo Testamento, onde DEUS falou e se apresentou “aos pais, pelos profetas” de muitas maneiras. Depois ele faz alusão a CRISTO como a figura central na inspiração e preparação plenária do Novo Testamento e por extensão, na sucessão da Igreja até o arrebatamento.
2 a quem constituiu herdeiro de tudo, por quem fez também o mundo.
O pensamento humanista moderno e secular está ligado à teoria da evolução. Basicamente, tal teoria defende que todas as coisas que vemos no mundo que nos rodeia apareceram por acaso, e isso implica a exclusão de toda e qualquer participação divina. Em contraposição, as Escrituras declaram que a ordem, a diversidade, a complicada interdependência e beleza do mundo natural foram criadas por um DEUS vivo e auto- existente, e que na criação houve a participação direta do Filho, conforme é descrito por Paulo, quando diz: “O qual é imagem do DEUS invisível, o primogênito de toda a criação; porque nele foram criadas todas as coisas que há nos céus e na terra, visíveis e invisíveis, sejam tronos, sejam dominações, sejam principados, sejam potestades; tudo foi criado por ele e para ele. E ele é antes de todas as coisas, e todas as coisas subsistem por ele. E ele é a cabeça do corpo da igreja; é o princípio e o primogênito dentre os mortos, para que em tudo tenha a preeminência” (Cl 1.15-18).
3 O qual, sendo o resplendor da sua glória, e a expressa imagem da sua pessoa, e sustentando todas as coisas pela. palavra do seu poder, havendo feito por si mesmo a purificação dos nossos pecados, assentou-se à destra da Majestade, nas alturas;
Um dos argumentos defendidos por Tomás de Aquino em sua Suma Teológica, quando aborda as cinco vias que conduzem a DEUS, é o da Ordem do Mundo. A prova da ordem do mundo (ou, segundo Tomás de Aquino, o argumento das causas finais) se apóia no princípio da finalidade e toma a seguinte forma: A organização complexa, objetivando um fim, exige uma inteligência ordenada. Esta prova parte do princípio da ordem universal, através da qual é demonstrado o supremo poder pessoal que existe no Filho de DEUS. Essa ordem é evidente: considerado no seu conjunto, o universo nos aparece como uma coisa admiravelmente ordenada, em que todos os seres, todos os elementos, por mais diferentes que sejam, contribuem para o bem geral do universo. Jamais uma estrela, planeta ou cometa entraram na órbita dos outros. A natureza obedece rigidamente às leis estabelecidas por DEUS. O universo não ultrapassa qualquer limite além daquilo que lhe foi prescrito. Todo este complexo de seres e coisas encontra-se orientado e sustentado “… pela palavra do seu poder”.
4 feito tanto mais excelente do que os anjos, quanto herdou mais excelente nome do que eles.
Um dos pensamentos principais do escritor nesta epístola é mostrar a superioridade do Filho de DEUS sobre os seres e as coisas, e aqui neste versículo os anjos são tomados nesta contextualização. CRISTO herdou mais excelente nome do que estes poderes angelicais, ainda que na esfera celeste seus nomes sejam honrados e admirados (Jz 13.18Lc 1.19 ), mas o nome JESUS é nome por excelência! Paulo descreve como este nome é maravilhoso e que foi escolhido por DEUS Pai nas esferas da existência, dizendo: “Pelo que também DEUS o exaltou soberanamente e lhe deu um nome que é sobre todo o nome; para que ao nome de JESUS se dobre todo joelho dos que estão nos céus, e na terra, e debaixo da terra, e toda língua confesse que JESUS CRISTO é o Senhor, para glória de DEUS Pai” (Fp 2.9-11 ).
5 Porque a qual dos anjos disse jamais: Tu és meu Filho, hoje te gerei? F outra vez: Fu lhe serei por Pai, e ele me será por Filho?
Existem entre os comentaristas das Escrituras discordância no que diz respeito à palavra “hoje”, na passagem em foco. Alguns opinam que ela se refere ao “hoje do tempo”, quando JESUS foi gerado no ventre da virgem; enquanto outros sugerem que ela se aplica ao “hoje da eternidade”, quando JESUS fora gerado no eterno querer de DEUS. Nesse caso, o “hoje” aqui se referia à eternidade passada. Não tendo assim, portanto, nenhum vínculo com o tempo presente do calendário sucessivo. Em cerca de 300 d.C., um sacerdote egípcio chamado Ário começou a ensinar que JESUS não era o eterno Filho de DEUS, mas simplesmente um ser celestial, criado por DEUS antes da criação do universo. Para refutar tal heresia foi criado o Credo de Nicéia, na Bitínia (atual Turquia), em 325 d.C. Ele incluía algumas declarações importantes a respeito de JESUS, para tornar claro que JESUS era tanto homem como DEUS, visto que fora “gerado” e não “criado”. Originalmente, o Credo de Nicéia dizia: “Creio em um DEUS, o Pai Todo-poderoso, Criador dos céus e da terra, e de todas as coisas visíveis e invisíveis. E no Senhor JESUS CRISTO, o Filho Unigênito de DEUS, Luz de Luz, verdadeiro DEUS do verdadeiro DEUS, gerado, não feito, sendo de uma substância como o Pai, por quem todas as coisas foram feitas; que por nós, homens, e nossa salvação, veio dos céus e foi encarnado pelo ESPÍRITO SANTO no ventre da Virgem Maria, e foi feito homem; foi crucificado por nós sob Pôncio Pilatos. Ele sofreu e morreu e foi sepultado; e no terceiro dia ressuscitou, segundo as Escrituras, e ascendeu aos céus, e está sentado á direita do Pai. E voltará de novo, com glória, para julgar tanto os vivos como os mortos, cujo reino não terá fim”. Através deste Credo o arianismo foi condenado, e o próprio Ário foi anatematizado. Depois, acrescentou-se o ESPÍRITO SANTO como parte da Santíssima Trindade e a única Igreja, cristã apostólica, como regra de fé e modelo de doutrina. Esta outra parte que posteriormente fora adicionada, dizia: “E creio no ESPÍRITO SANTO, o Senhor e Doador da vida, que procede do Pai e do Filho, que com o Pai e o Filho é adorado e glorificado; que falou pelos profetas. E creio na única Igreja, cristã apostólica.
Reconheço um batismo pela remissão dos pecados, e aguardo a ressurreição dos mortos, e a vida do mundo, que vem. Amém”.
6 E, quando outra vez introduz no mundo o Primogênito, diz: E todos os anjos de DEUS o adorem.
De acordo com alguns eruditos das Escrituras, a frase “outra vez introduz no mundo o Primogênito” aponta claramente para a encarnação de CRISTO, acontecimento este que, talvez os anjos, sem uma explicação por parte de DEUS, jamais entenderiam. Eles foram adoradores de CRISTO antes deste período, mas ignorando seu estado de humilhação, quando “… aniquilou-se a si mesmo, tomando a forma de servo, fazendo-se semelhante aos homens” (Fp 2.7). Era necessário, portanto, que DEUS, o Pai, ordenasse a estes elevados poderes que JESUS, mesmo tornando- se “menor do que os anjos, por causa da paixão da morte”, o fez por uma necessidade premente da salvação da pessoa humana. Mas Ele continuava o mesmo DEUS, em sua natureza e essência, quando era por eles adorado no trono da sua glória. Então, Ele foi por eles (os anjos) aceito sem restrição alguma (cf. I Pe 3.22).
7 E, quanto aos anjos, diz: O que de seus anjos faz ventos e de seus ministros, labaredas de fogo.
Esta citação é tomada por alegoria de Salmos 104.4, que diz: “Faz dos ventos seus mensageiros, dos seus ministros, um fogo abrasador”. Esta figura de linguagem é aqui usada para mostrar que os anjos foram criados para serem servos, e não senhores, tal como as forças físicas da natureza eram dependentes e finitas. Houve um tempo em que alguns destes seres caíram na tentação e pecaram, sendo assim levados pelo “vento” da rebelião e consumidos pelo “fogo” do orgulho em seus corações. Mas JESUS em tudo foi submisso ao Pai, e jamais transgrediu um só mandamento ou uma só ordem que dEle tinha recebido. Este era o seu objetivo principal: fazer a vontade de DEUS, como Ele mesmo dissera: “… eu desci do céu não para fazer a minha vontade, mas a vontade daquele que me enviou” (Jo 6.38 ). Com efeito, porém, Ele pode ter sido tentado a fazer algo que fosse contrário à vontade de DEUS. Mas não cedeu a tal pensamento contrário à natureza do seu ser. Por esta razão o escritor sagrado conclui: Ele “… em tudo foi tentado, mas sem pecado” (Hb 4.15b).
8 Mas, do Filho, diz: Ó DEUS, o teu trono subsiste pelos séculos dos séculos; cetro de eqüidade é o cetro do teu reino.
Os gnósticos procuravam degradar o Filho de DEUS, dizendo que Ele não era DEUS, mas apenas uma emanação em processo de evolução. Contudo, o próprio DEUS Pai chama seu Filho de DEUS. A pessoa que aqui está falando é a mesma que vinha falando nos versículos anteriores e, sem dúvida alguma, é a pessoa do Pai, que aqui está em foco! A superioridade do Filho fica demonstrada nesta argumentação sobre os anjos, mostrando a infalibilidade de seu trono e de sua justiça. Cerca de 8 livros do Novo Testamento foram escritos com o propósito de direta ou indiretamente refutarem determinadas heresias gnósticas, que procuravam negar a divindade de JESUS CRISTO como sendo DEUS. Mas o autor de Hebreus nos apresenta JESUS como sendo DEUS e igual ao Pai em essência, poder
e glória e em uma comunhão coeterna, em tudo sendo exaltado pelo Pai.
9 Amaste a justiça e aborreceste a iniqüidade; por isso, DEUS, o teu DEUS, te ungiu com óleo de alegria, mais do que a teus companheiros.
Tanto as Escrituras do Antigo Testamento como as do Novo afirmam que JESUS seria um Rei Ungido. Na passagem em foco, parece que alguns anjos foram ungidos por DEUS para exercerem missões especiais. Pelo menos o querubim que estava no Jardim do Eden recebera uma espécie de unção para proteger, conforme é depreendido em Ezequiel 28.14, que diz: “Tu eras querubim ungido para proteger, e te estabeleci; no monte santo de DEUS estavas, no meio das pedras afogueadas andavas” (ênfase do autor). Alguns anjos que permaneceram fiéis ao lado de DEUS também foram “eleitos”, o equivalente da palavra “ungidos” (I Tm 5.21 ), mas nenhum destes seres recebeu uma unção tão especial como aquela que recebera JESUS. Sua unção foi completa em todas as dimensões da existência (cf. SI 45.7; Is 61.1Lc 4.18; At 4.27 ). E, portanto, com este sentido que se destaca a unção de CRISTO, quando o autor sagrado afirma: “… DEUS ungiu a JESUS de Nazaré com o Espirito SANTO e com virtude; o qual andou fazendo o bem e curando a todos os oprimidos do diabo, porque DEUS era com ele” (At 10.38, ênfase do autor).
10 O E: Tu, Senhor, no princípio, fundaste a terra, e os céus são obra de tuas mãos;
O conceito evolucionista tem oferecido várias explicações sobre o surgimento do universo, incluindo céus e terra, dizendo que o aparecimento de céus e terra, com seu sistema cósmico, deu-se através de um big bang. Segundo essa teoria, o universo surgiu de uma grande explosão cósmica, o big bang, entre 8 bilhões e 20 bilhões de anos atrás. Até então, as estruturas do universo concentravam-se em um único ponto, de temperatura e densidade energética altíssima. Esse ponto explode — é o instante inicial — e começa assim a sua expansão, que continua até hoje. Nosso ponto de vista se baseia na adesão firme das Escrituras. Elas afirmam que os céus e a terra — todo o universo — têm sua origem em DEUS, que os criou (Hb 11: 3). Qualquer outra explicação além desta não passa de vaga teoria nascida de imaginações vazias, criada simplesmente para confundir a mente e a imaginação das pessoas (cf. I Tm 6.20 ).
11 eles perecerão, mas tu permanecerás; e todos eles, como roupa, envelhecerão,
Uma vez que o céu superior, onde está instalado o trono de DEUS, é eterno, não é, pois, sujeito a qualquer mudança. Cremos que a passagem e transformação aqui em foco se processará nos céus atmosféricos e astronômicos. Pedro fala disso em estado de grande expectativa, dizendo: “Mas o Dia do Senhor virá como o ladrão de noite; no qual os céus passarão com grande estrondo, e os elementos, ardendo, se desfarão, e a terra e as obras que nela há se queimarão… aguardando e apressando-vos para a vinda do Dia de DEUS, em que os céus, em fogo, se desfarão, e os elementos, ardendo, se fundirão?” (2 Pe 3.10,12 ) Tais acontecimentos terão início durante o período sombrio da Grande Tribulação, quando boa parte do universo visível será abalada por cataclismos iminentes (Ap 6.12-14; 17.20 ). Contudo, sua consolidação final somente se dará no Dia do Senhor, que por extensão, incluirá também o Juízo Final, quando céus e terra passarão com grande e estrepitoso estrondo, conforme já mencionado (cf. Ap 20.11 ).
12 e, como um manto, os enrolarás, e, como uma veste, se mudarão; mas tu és o mesmo, e os teus anos não acabarão.
O escritor sagrado continua em sua narrativa descrevendo a expurgação dos céus e da terra, porém mostrando que nenhuma mudança haverá em CRISTO, que para sempre continuará “o mesmo ontem, e hoje, e eternamente” em seu ser, em seu caráter e em seu poder. A idéia gnóstica procurava ensinar que existia uma hierarquia de mediadores entre DEUS e o homem, e que para este chegar à presença de DEUS, era necessário atingir todos estes degraus de mediações. Com tais heresias, eles excluíam a CRISTO do plano eterno da redenção. Porém, as Escrituras afirmam que CRISTO é eterno, e o único Mediador entre DEUS e os homens. E sendo eterno como Ele o é, Ele é DEUS, não estando sujeito nem ao tempo e nem ao espaço.
A eternidade é definida quanto àquilo que é infinito em relação ao tempo. O tempo marca extensão. DEUS é eterno! Uma vez que existe pela própria necessidade de sua existência.
O tempo marca o início da existência criada; e como DEUS nunca teve início de existência, o tempo não se aplica a Ele e nem a JESUS, que possui a mesma natureza do Pai.
13 E a qual dos anjos disse jamais: Assenta-te à minha destra, até que ponha os teus inimigos por escabelo de teus pés?
Aqui é tomada uma passagem do Antigo Testamento para representar o triunfo de CRISTO sobre seus inimigos. Eles serão colocados “debaixo de seus pés” e serão esmagados como vasos de oleiro. Na antiguidade, quando um exército era derrotado, era costume os vencedores colocarem seus pés sobre os pescoços de seus inimigos vencidos, como sinal de extrema e degradante humilhação (Salmos 110.1). CRISTO está assentado à mão direita do Pai, exercendo todo o poder e autoridade, até que seus inimigos, incluindo o último inimigo, que é a morte, sejam aniquilados. “Depois, virá o fim, quando tiver entregado o Reino a DEUS, ao Pai, e quando houver aniquilado todo o império e toda a potestade e força. Porque convém que reine até que haja posto a todos os inimigos debaixo de seus pés. Ora, o último inimigo que há de ser aniquilado é a morte” (I Co 15.24-26).
14 Não são, porventura, todos eles espíritos ministra- dores, enviados para servir a favor daqueles que hão de herdar a salvação ?
Os anjos são nossos conservos e ministram a nosso favor quando são designados por DEUS para certas funções, sejam elas terrenas ou celestiais. Contudo, jamais devemos pensar que os anjos são mediadores entre DEUS e os homens no que diz respeito à salvação. Tal posição de mediador pertence somente a nosso Senhor JESUS CRISTO. “Porque há um só DEUS, e um só mediador entre DEUS e os homens, JESUS CRISTO, homem, o qual se deu a si mesmo em preço de redenção…” (I Tm 2.5,6 ). Pedro, quando argüido diante da Suprema Corte judaica acerca da pessoa de JESUS e de suas obras miraculosas, disse: “… Em nenhum outro nome há salvação, porque também debaixo do céu nenhum outro nome há, dado entre os homens, pelo qual devamos ser salvos” (Atos 4.12).
 
HEBREUS – Dicionário Bíblico Wycliffe – CPAD
Uma epístola anônima do Novo Testamento, colocada depois daquelas identificadas como sendo de Paulo e antes das Epístolas Gerais. È uma exortação a uma experiência completa de salvação, apresentada em um estilo grego clássico e retórico. A epístola é única, repleta de questões e características peculiares a si mesma. Não obstante, ela contém uma profunda visão teológica sobre a natureza da salvação que DEUS possibilitou por meio de Seu Filho, JESUS CRISTO. Isto é pregado por meio de uma argumentação do tipo rabínica das instituições e afirmações do Antigo Testamento a respeito da salvação de DEUS. Por toda a epístola encontram-se exortações e princípios úteis para a alegria da salvação. A igreja primitiva esteve durante algum tempo em um dilema quanto ao que fazer com ela, por causa da incerteza quanto à sua origem; e alguns cristãos contemporâneos a vêem comp um enigma, por não compreenderem a profundidade de seu alcance.
Autoria e Canonicidade
A incerteza sobre o autor resultou em uma lenta admissão ao cânon. Os esforços combinados dos patriarcas da Igreja para atribui-la a Paulo foram mais motivados pelo zelo quanto à canonicidade do que pelo desejo de conhecer a sua autoria. No entanto, depois da sua admissão, a sua inspiração e a sua autoridade são claramente certificadas pela Igreja. Como a autoria não é afirmada no texto, ela é um assunto de interesse dos estudiosos e não um comprometimento teológico.
Quando a Igreja Ocidental mencionou pela primeira vez essa epístola, nada foi dito sobre a sua autoria. Da Igreja de Alexandria vieram sugestões de que Paulo era o autor; no entanto, Orígenes de Alexandria concluiu: “Mas quanto a quem realmente escreveu a epístola, DEUS sabe a verdade sobre esse assunto”. A história subseqüente da questão atesta a sabedoria da conclusão de Orígenes, pois alguns estudiosos do assunto na época da Reforma sugeriram como autores, além de Paulo, Barnabé, Clemente de Roma e Lucas.
Lutero foi o primeiro a sugerir Apoio. Como OS estudos da Bíblia desenvolveram-se na época da Reforma, cada vez menos estudiosos sustentaram a autoria de Paulo, de modo que poucos a defendem de forma séria hoje em dia. No entanto, ela continuou a ser homilética mente conveniente, e é assim eom freqüência afirmada de forma inquestionável. Também são sugeridos çomo autores Filipe, o diácono, Priscila e Áqüila, Aristion, Silas, Marcos e Judas.
Entre as evidências apresentadas para a autoria de Paulo, estão a menção de Pedro a uma carta escrita por Paulo, possivelmente aos judeus (2 Pe 3.15,16); a associação com Timóteo (cf. Hb 13.23) e Roma (cf. v. 24); um final parecido com os finais de Paulo; e muitos pontos de concordância teológica. A evidência mais freqüentemente oferecida, no entanto, é simplesmente a tradição. Na verdade, este é provavelmente o argumento mais forte e não deve ser descartado sem razão. O fato é que Paulo é o candidato sugerido mais amplamente aceito, e ele tem sido aceito por mais pessoas e durante um período de tempo mais longo do que qualquer outro candidato.
Entretanto, um grande número de razões tem sido apresentadas para descartar a tradicional autoria de Paulo. A Igreja levou um longo tempo para sugeri-la, e a sugestão veio da parte da Igreja que provavelmente tinha menos conhecimento, e sem uma cuidadosa argumentação, ao passo que a parte que provavelmente tinha mais conhecimento se absteve. Contudo, foi considerada tradicional durante a época dos estudiosos menos críticos. A falta de assinatura e saudações pessoais, e o uso exclusivo da LXX não são típicos das epístolas assinadas por Paulo. O estilo não é semelhante ao daquelas, no sentido de que utiliza retórica esmerada, espírito helenista, idéias completas e sentenças equilibradas. Também existe um vocabulário diferente e um ponto de vista teológico peculiar. Paulo representa CRISTO habitando em cada crente, ao passo que, em Hebreus, Ele está representado “à destra do Pai”; Paulo mostra a íei como sendo eticamente impossível, ao passo que Hebreus argumenta que ela é cerimonialmente impossível. Além disso, esta epístola não se encaixa facilmente no itinerário de Paulo (cf. Hb 13.23). O argumento mais forte contra a autoria de Paulo é o de que parece impossível para o mesmo homem reconhecer uma fonte secundária de informações (2.3) e, em outros pontos, insistir nas revelações em primeira mão e diretas (Gl 1.11-24).
Apoio é o personagem apostólico cuja descrição bíblica (Act 18.24-281 Co 1.133.4) mais se aproxima do tipo de homem que escrevería uma epístola como Hebreus. Ele era um judeu de Alexandria, um “varão eloqüente e poderoso nas Escrituras”, e intimamente associado com Paulo. Primeiramente sugerida por Lutero, esta se tornou a versão aceita por um número crescente de estudiosos, em que estão incluídos T. W. Manson, W. F. Howard, C. Spicq, Alford, F. W. Farrar e Hugh Montefiore. Contudo, isso não justifica a omissão do seu nome, e parece estranho que a Igreja de Alexandria não conheça nem defenda fervorosamente a autoria de Apolo.
Data
Diversas afirmações indicam que a epístola foi escrita durante a segunda geração do período apostólico, o que se deve, por exemplo, ao processo de transmissão (2.1-4), à época do crescimento (5.12), aos “dias passados” (10.32), aos líderes mortos (13.7), e à prisão de Timóteo (13.23). Contudo, as instituições judaicas ainda estavam em operação e o Templo ainda existia (13.10,11), embora em breve deixaria de existir (12.27) e a perseguição fosse iminente (10.32ss.; 12.4). Estes fatores parecem colocar a escrita ao redor do final dos anos 60 d.C., aprox, entre 67 e 69.
Destinatários e Leitores
É difícil identificar os destinatários e o público leitor, uma vez que não existem afirmações internas nem externas. O título e o uso do Antigo Testamento foram tomados como indicações de um público leitor judeu- cristão. Mas esta suposição é cada vez mais desafiada, e foi sugerido que o público leitor era o dos gentios convertidos ao paganismo (Moffatt, E. F. Scott), Outros estudiosos recentes sugerem judeus não-palestinos (William Manson, F. F. Bruce), essênios ou antigos essênios (C. Spícq, Yadin). A representação é da experiência do deserto dos hebreus e do Tabernáculo, e não do estado de restauração e do Templo, e nada é dito sobre a ênfase característica do judaísmo sobre a circuncisão. As citações e as referências do Antigo Testamento não são tão obscuras a ponto de não serem compreendidas por alguém que tenha estudado o Antigo Testamento. Mas as advertências parecem encaixar-se melhor nos cristãos que estavam correndo o risco de recair nas práticas do judaísmo. Talvez se possa supor que, embora o público leitor não necessariamente devesse ser judeu, provavelmente era judeu, ou pelo menos fortemente influenciado pelo judaísmo. A cidade de Roma, agora, parece estar descartada como o lugar da escrita (veja 13.24), mas poderia ser a destinatária.
De maior importância que esses assuntos, tanto quanto a interpretação da epístola e sua aplicação contemporânea, é a condição espiritual do público leitor. Os leitores foram convertidos ao cristianismo por meio do testemunho daqueles que tinham conhecido JESUS (2.3ss.) e, portanto, eram os crentes da segunda geração. Mesmo não vindo do judaísmo (ou provavelmente de algum contexto não palestino), eles adquiriram um forte respeito pelas antigas instituições dos hebreus e pelas promessas de DEUS a Israel (evidentemente a partir de um estudo da LXX e não da observância da adoração no Templo em Jerusalém). Logo tiveram que suportar uma perseguição significativa (10.32s8.), embora não tão severa quanto aquela que era iminente (12.4). A crise criou neles uma expressão prática de sua fé, e assim preocupavam-se em servir aos seus irmãos – em especial àqueles que estavam sendo mais afetados pela perseguição (6.10; 10.34).
Apesar dessas experiências precoces, eles não estavam mais crescendo (5.11-6.20) e, na verdade, estavam começando a retroceder (2.1ss). Não porque estivessem rebelando-se conscientemente contra o evangelho da fé, ou voltando-se proposital mente a outra coisa; mas sim assumindo a salvação como sendo uma bênção garantida, e abusando da graça de DEUS, que exigiu o sacrifício de Seu Filho (10.26-31). Eles estavam letárgicos e preguiçosos com respeito à sua fé (3.7-4,13) e suscetíveis aos falsos ensinos (13.7-9), Estavam propensos a exagerar na questão da importância dos anjos (1.5-14) e da efetividade da lei, e a depreciar a suficiência do sacrifício de CRISTO (9.11-10.31) e a sua perfeição (4.14- 5.10; 7.1—8.13), assim como o valor da realidade suprema que lhes fora prometida (11.13- 16). EÍes possuíam a salvação, mas estavam sendo negligentes em termos de vivê-la. Portanto, estavam em perigo, correndo o risco não apenas de deixar de alcançar a plenitude da sua salvação, mas também de perder o privilégio de experimentá-la no presente. Ao invés de receberem as “coisas melhores” que lhes estavam prometidas, corriam o risco de perder as bênçãos já recebidas, ficando apenas com as coisas menores, do passado.
Argumento e Propósito
Esta epístola fornece uma contribuição significativa à teologia do Novo Testamento, mas seu principal objetivo não é teológico. O escritor refere-se a ela como “a palavra desta exortação” (13.22), e este é seu objetivo ao longo de toda a carta. Ele escreve sobre a compaixão daquele que se preocupa com os cristãos como um grupo, e tem algum tipo de responsabilidade pastoral para com eles. Ele os exorta a uma prática determinada e ativa para a sua salvação, de modo que possam alcançar aquilo que a salvação tem para lhes dar, evitando as conseqüências desastrosas da negligência.
Podemos considerar que o autor está tentando oferecer um estudo coletivo das advertências, e conseqüentemente das passagens exortativas. Ele adverte seus leitores sobre as conseqüências inevitáveis da negligência à salvação (2.1-3), a perda do repouso de DEUS (3.7-19), a desqualificação para o repouso (4.1-11), a impossibilidade do retorno de uma apostasia consciente (6.4- 8) e a inexistência de uma provisão para o pecado deliberado e consciente (10.26-31). Intimaniente ligadas a estas são suas exortações: estejam alertas, para que não se desviem (2.1-4); tenham cuidado, para não perderem a fé (3.7-4.13); prossigam, não dando lugar a qualquer retrocesso (5.11-6.20); aproximem-se, não dando lugar a qualquer afastamento (10.19-39); edifiquem-se, não dando lugar à queda ou à ruína pessoal (12.12-29).
Se Seus leitores eram judeus ou gentios, ou se era ao judaísmo ou ao paganismo que eles estavam em perigo de retornar, não é tão claro quanto à condição espiritual do momento, e o perigo no qual o autor os encontrou. Ele faz a comparação não com o judaísmo nem com o paganismo, mas com a peregrinação dos hebreus no deserto entre o êxodo da escravidão do pecado e a entrada na terra prometida. A condição em que estavam poderia ser classificada como tão pobre e tão infrutífera quanto o deserto. Como seus leitores eram culpados pelo mesmo tipo de descrença e desobediência que os hebreus na época de Moisés, eles corriam o mesmo perigo de morrer onde estavam, sem jamais entrarem no repouso prometido. Eles não se pareciam com os judeus das sinagogas, trabalhando por sua religião, mas sim com os hebreus do deserto, deixando de colocar em prática sua salvação. O objetivo da Epístola aos Hebreus é o de exortar os cristãos a se tomarem ativos na sua experiência atual com a salvação de DEUS, para que possuíssem tudo o que DEUS havia prometido, enquanto houvesse tempo.
Esboço
Uma exortação a respeito da salvação concedida por DEUS
I. Descrição da Salvação de DEUS, 1.1-4.13
A. Provisão da salvação de DEUS: o Pilho de DEUS, 1.1-3.6
1. Sua superioridade sobre os anjos, 1.1-14
2. As razões para a sua humanidade, 2.1-18
3. Considerações a respeito dele como Apóstolo e Sacerdote, 3.1-6
B. O fim da salvação de DEUS: o repouso de DEUS, 3.7-4.13
1. O perigo de perder aquele repouso, 3.7-9
2. A perda da qualificação para aquele repouso, 4,1-11
3. A Palavra de DEUS como a guardiã do cristão, 4.12,13
II. O Sacerdócio da Salvação de DEUS, 4.14-7.28
A. Introdução ao sacerdócio, 4.14-5.10
B. Instruções suplementares, 5.11-6.20
C. Sacerdócio do tipo daquele que tinha Melquisedeque, 7.110־
D. O perfeito sacerdócio do Senhor JESUS, 7.11-28
III. O Sistema da Salvação de DEUS, 8.1-10.18
A. A nova e melhor aliança, 8.1-13
B. O contraste entre o Tabernáculo terreno e o celestial, 9.1-14
C. A ratificação da nova aliança, 9.15-10.18
IV. A Vida da Salvação de DEUS, 10.19-13.16
A. A exortação conseqüente, 10.19-39
B. Os heróis da fé, 11,1-40
C. A nossa vida de fé, 12.1-13.16
V. Encerramento, 13.17-25
Teologia
A teologia da epístola é tão única que muito tempo tem sido gasto na comparação e no contraste com o resumo da teologia ao Novo Testamento (especialmente com a teologia de Paulo). Uma investigação ainda maior foi realizada para encontrar raízes ideológicas nas religiões contemporâneas e nos sistemas filosóficos. As primeiras associações foram feitas com Filo, em seguida com o gnósticismo, e mais recentemente com o essenismo judeu. Em cada caso, semelhanças impressionantes foram superadas por divergências mais significativas. O autor mostra familiaridade com uma variedade de escolas de pensamento, mas a sua teologia é distinta e própria. Encontrando uma analogia no dualismo matéria/ideal de Platão, ele fala da realidade presente como sendo apenas uma sombra da realidade suprema. Assim, para os gregos dualistas, Hebreus apresenta CRISTO como permitindo o acesso à suprema realidade em DEUS. Outra analogia vem do temor a DEUS demonstrado pelos hebreus. A epístola mostra que CRISTO inaugurou o caminho para DEUS no santuário supremo do céu, por meio de sua própria reconciliação “de uma vez por todas”. Assim, para os judeus tementes a DEUS, Hebreus apresenta CRISTO como permitindo amplo acesso à presença de DEUS.
Os conceitos teológicos da epístola são, todos, aplicações dessas suposições básicas: CRISTO permite acesso à realidade e acesso a DEUS. Não é desenvolvida nenhuma preocupação teológica que não faça uma contribuição conceituai à exortação a viver a salvação de DEUS.
A cristologia é importante porque o conceito da perfeição nasce da Soteriologia, que se baseia solidamente na cristologia. A salvação é uma bênção porque foi proporcionada na pessoa do Filho de DEUS. A epístola tem um dos mais elevados conceitos da filiação de CRISTO que se pode encontrar em qualquer passagem da Bíblia. O Filho é superior aos patriarcas, aos profetas, e até mesmo aos anjos, cuja magnitude era exagerada pelos rabinos. E o Filho de DEUS identifica-se com o homem tomando-se homem. O crente, então, toma-se um irmão do Filho de DEUS e, portanto, torna-se um filho de DEUS.
O Filho tornou-se o Sacerdote Supremo e Perfeito para todos os homens (e não exclusivamente o representante do povo da antiga aliança). Ele é o Sacerdote Supremo porque sua reconciliação não precisará jamais ser repetida, ano após ano, e pelos mesmos pecados, mas foi feita “de uma vez por todas”. Ele é o perfeito Sacerdote-Salvador porque verdadeiramente realizou a remoção real do pecado e a redenção do pecador ao invés de simplesmente cobrir o que ainda permanece na consciência. Mantendo a imagem do Dia da Expiação, o Senhor JESUS é representado como o Supremo Sumo Sacerdote. Para mostrar seu sacerdócio inigualável, o autor o chama, por analogia, de “sacerdote segundo a ordem de Melquisedeque”. A Soteriologia de Hebreus não representa a salvação como um objetivo para os perdidos ou como uma possessão dos fiéis, mas exorta os cristãos a fazerem uso da sua salvação. Embora a crucificação e a ressurreição sejam efetivamente assumidas e estejam claramente implícitas, a Epístola aos Hebreus concentra-se no sacrifício, e não na maneira como a vítima é morta no altar. Ela destaca a maneira como o sacrifício é conduzido até o Santíssimo (a mão direita do Pai) e mediado por constante intercessão. A salvação é descrita em termos cerimoniais (sacerdócio supremo) e forenses (nova aliança), e não apenas éticos (Paulo). Então Hebreus mostra a imagem do sumo sacerdote levando o sangue da vítima do altar até o SANTO dos Santos (através do véu do Templo), ano após ano, sendo substituído por JESUS levando seu próprio sacrifício da cruz através do véu, entre a realidade imperfeita e a realidade suprema, até o céu, de uma vez por todas.
A santificação é descrita em termos altamente peculiares nesta epístola, centrando-se em um conceito de perfeição que é remanescente da insatisfação de Platão com a imperfeição do presente e a antecipação da perfeição do futuro. O objetivo da salvação de DEUS é que o homem desfrute o repouso de DEUS, do qual fala de várias formas, como a chegada a um destino, como a realização de uma tarefa e como a paz com DEUS. O repouso de DEUS pode ser definido, então, como a companhia perfeita e eterna de DEUS. Mas a perfeição e o repouso são concebidos em termos dinâmicos, de modo que o crente esteja sempre no processo da perfeição e chegando ao seu repouso. A perfeição não é um prêmio a ser conquistado, mas uma experiência a ser perseguida. A apostasia deve ser temida porque não se trata da perda de uma possessão, mas sim de uma experiência.
A Epístola aos Hebreus não discute a segurança eterna, uma vez que os leitores estavam completamente convencidos dela e, na verdade, estavam supondo que ela fosse o ponto de negligência da atual experiência da salvação. A epístola mostra que a apostasia é o fracasso no processo da salvação do pecado. Quando uma pessoa não está sendo salva dos seus pecados atuais, ela não está vivendo a salvação. Se persistir nessa condição durante tempo suficiente, ela se tornará tão endurecida que nunca mais retornará à aquela experiência anterior de estar no processo de salvação.
O autor, ao invés de ser considerado culpado pela falta de apreço ao recebimento da salvação, deveria receber os créditos por levar a sério a sua utilização. Ele não ensina a segurança eterna porque isso é desnecessário, Ao invés de deixar os leitores à vontade com respeito ao fim, ele os coloca na benéfica tensão entre a segurança sobre a eternidade e as perdas do presente, e essa tensão possibilita a posse da primeira e a fuga da segunda, ao mesmo tempo em que assegura uma salvação completa do começo ao fim.
Bibliografia. William Barclay, The Letter to the Hebrews, Filadélfia: Westminster Press,
1957. F. F. Bruce, The Epistle to the Hebrews, NIC, Grand Rapids: Eerdmans, 1964. Marcus Dods, “The Epistle to the Hebrews”, EGT, IV, Grand Rapids: Eerdmans, reimpressão, 1956. William Manson, The Epistle to the Hebrews, Londres; Hodder & Stoughton, 1951. Andrew Murray, The Holiest o/Ali, Londres: Nisbet & Co., s.d. (devocional). Alexander Nairne, The Epistle to the Hebrews, Cambridge: Univ. Press, 1921. William R. Newell, Hebrews Verse by Verse, Chicago; Moody Press, 1947. John Owen, Hebrews: The Epistle ofWaming, Grand Rapids: Kregel, 1953 (uma condensação da obra de 8 volumes de Owen). Adolph Saphir, The Epistle to the Hebrews, 2 volumes, Nova York: Loizeaux Bros., s.d. (exposição acalorada por um professor cristão de origem judaica). B. F. Westcott, The Epíatle to the Hebrews, Grand Rapids: Eerdmans, reimpressão, 1950. Ronald WiDiamson, Philo anã the Epistle to the Hebrews, Leiden: Brill, 1970.
W. A.
 
A CARTA AOS HEBREUS – Introdução e Comentário por DONALD GUTHRIE – SOCIEDADE RELIGIOSA EDIÇÕES VIDA NOVA E ASSOCIAÇÃO RELIGIOSA EDITORA MUNDO CRISTÃO
CONTEÚDO Prefácio da Edição em Português…… 6 Prefácio do A utor…… 7 Abreviaturas Principais ….. 8 Bibliografia….Seleta…… 9 INTRODUÇÃO O enigma da carta…… 13 A carta na igreja primitiva …… 14 Autoria….. 17 Os leitores…… 19 O destino …… 23 D ata…… 25 O propósito da carta ….. 28 A situação histórica…… 35 A teologia da c a r ta…… 42 ANÁLISE….. 54 COMENTÁRIO…… 57
 
PREFÁCIO DO AUTOR
Há alguns livros no Novo Testamento que têm um certo fascínio, não por terem uma atração instantânea, mas, sim, porque são mais difíceis do que o normal. Para mim, a Epístola aos Hebreus se enquadra nesta categoria. Isto, por si só, poderia ter fornecido uma razão apropriada para não escrever um comentário sobre ela. Suas dificuldades, no entanto, oferecem um desafio que não pode ser levianamente deixado de lado. Se meu primeiro alvo tem sido esclarecer meu próprio entendimento, isto deve servir de encorajamento para o leitor. Estou, na realidade, convidando você a me acompanhar na exploração de um livro que contém muitos tesouros de sabedoria espiritual e de entendimento teológico. Minha esperança é que esta busca leve a tanto enriquecimento espiritual para o leitor quanto tem levado para o escritor. Não se promete com isto que todos os problemas foram resolvidos, nem que este comentário pode alegar ter feito explorações originais. Escrever um comentário é um pouco semelhante a um testemunho pessoal. Embora tenha profundas dívidas de gratidão para com tantos outros que me antecederam na tarefa, minha própria contribuição pode alegar singularidade somente pela razão de ser o resultado de um encontro entre o texto e minha própria experiência de estudo do Novo Testamento e da vida cristã. DONALD GUTHRIE
 
INTRODUÇÃO
I. O ENIGMA DA CARTA
Por várias razões, este livro apresenta mais problemas do que qualquer outro livro do Novo Testamento. Há muitas perguntas que o investigador forçosamente tem de fazer, mas que não podem ser respondidas de modo satisfatório. Quem o escreveu? Quais foram os leitores originais? Qual foi a ocasião histórica exata em que foi escrito? Qual foi a data da escrita? Qual era a influência predominante por detrás da apresentação? Estas são algumas das perguntas para as quais nenhuma resposta conclusiva pode ser dada, embora algumas não sejam tão enganadoras quanto outras. O que é da maior importância para o comentarista descobrir é a mensagem e relevância atuais da carta, mas ele só pode fazer isso depois de ter investigado o pano de fundo histórico. Alguma tentativa deve ser feita, portanto, no sentido de responder às perguntas acima, ainda que seja apenas para fornecer algum arcabouço dentro do qual se possa empreender a tarefa de compreender a mensagem. Não se pode negar que a direção geral do argumento da carta mostrase difícil para o leitor. Isto é principalmente porque a seqüência do pensamento está revestida de linguagem e alusões tiradas do fundo histórico cultual do Antigo Testamento. O sacerdócio de CRISTO está diretamente ligado à antiga ordem levítica, mas visa claramente substituí-la. Mais do que a maioria dos livros do Novo Testamento, Hebreus exige explicações pormenorizadas da relevância das alusões ao seu fundo histórico. Esta é a tarefa principal do comentarista. Respondendo à pergunta, “Por que um livro tão difícil é incluído no Novo Testamento?” : é que trata daquela que deve ser considerada a pergunta mais importante que confronta constantemente o homem, i.é: como podemos nos aproximar de DEUS? É por causa da contribuição significante de Hebreus a este problema sempre presente que compensa o esforço necessário para esclarecer sua mensagem e expressá-la em termos contemporâneos.
II. A CARTA NA IGREJA PRIMITIVA
Iniciaremos olhando a maneira dos cristãos primitivos considerarem esta carta porque isto nos capacitará a seguir os passos pelos quais veio a se tomar parte do Novo Testamento. Mostrará, também, que até mesmo a igreja primitiva tinha algumas dificuldades por causa dela. No mais antigo dos escritos patrísticos que tem sido conservado, i.é, a carta de Clemente de Roma à igreja de Corinto (c. de 95 d.C.), há um paralelo notável (1 Ciem. 36.1-2; cf. Hb 1.3ss.), juntamente com uns poucos outros paralelos. A seguinte seleção de 1 Clemente 36 ilustrará este fato. Escreve acerca de CRISTO: “Ele, que é o resplendor da sua majestade, é tão superior aos anjos, quanto herdou mais excelente nome [cf. Hb. 1.3- 4], Porque está escrito assim: “Aquele que a seus anjos faz ventos, e a seus ministros, labareda de fogo” [cf. Hb. 1.7]. Mas acerca do Filho o Senhor disse assim: “Tu és meu Filho, eu hoje te gerei” [cf. Hb 1.5] … E, outra vez, diz-lhe: “Assenta-te à minha direita, até que eu ponha os teus inimigos por estrado dos teus pés” [cf. Hb 1.13].” 1 Pareceria uma dedução razoável que Clemente tinha conhecimento de Hebreus, embora isto não tenha- passado sem ser questionado. A opinião alternativa, de que Hebreus citou 1 Clemente levanta dificuldades em demasia para ser considerada. A via media proposta, de que ambos usaram as mesmas fontes não pode atrair muito mais apoio, porque nenhuma evidência pode ser produzida para tais fontes hipotéticas, e, na ausência de evidências, deve ser considerada uma teoria insatisfatória. A conclusão de que Clemente deve ter conhecido Hebreus tem conseqüências importantes para a avaliação da data da Epístola e para um reconhecimento da sua autoridade antiga. Deve ser notado, também, que nos trechos que são virtualmente citações da carta, Clemente não menciona o autor. Em si só, isto não seria especialmente relevante, visto que Clemente cita outros livros neotestamentários (e.g. as Epístolas paulinas) sem mencionar o autor. É provável que Hebreus tenha agradado especialmente a Clemente, que descreve o ministério cristão em termos do sacerdócio arônico,2 embora adote uma abordagem bem diferente do escritor desta carta. Esta dependência antiga de Clemente de nossa Epístola é tanto mais notável por causa do período subseqüente em que parece ter sido negligenciada pelas igrejas no Ocidente. Não foi até o fim do século IV que recebeu, entre aquelas igrejas, a honra que lhe cabia. Hebreus não estava incluído entre os livros autorizados por Márciom, cuja coletânea alegava representar o ensino do Apostolikon, i.é, o apóstolo Paulo. Márciom, no entanto, quase certamente teria rejeitado Hebreus por causa da sua forte dependência do Antigo Testamento, o qual rejeitava categoricamente. O Cânon Muratoriano, que contém uma lista de livros que, segundo se pensa, representa o cânon da igreja em Roma perto do fim do século II, não contém referência alguma a Hebreus, embora inclua todas as cartas de Paulo, citadas pelos seus nomes. É possível que o texto da lista esteja deturpado e que alguma parte dela tenha sido omitida. Apesar disto, é estranho que nenhum apoio específico para a Epístola tenha sido conservado durante este período primitivo. Com a virada do século II, mais evidências em prol do uso de Hebreus são achadas na igreja ocidental, embora houvesse diferença de opinião quanto à sua origem. Clemente de Alexandria cita seu mestre “o bendito presbítero” (Panteno) como alguém que defendia a autoria paulina desta carta. Explicou a ausência de um nome pessoal no texto da carta pela razão de que o próprio JESUS era o apóstolo do Onipotente aos Hebreus, e que, portanto, por humildade, Paulo não teria escrito aos Hebreus da mesma maneira que escrevia aos gentios. Clemente continuou a tradição da origem paulina, e freqüentemente citava Hebreus como sendo da autoria de Paulo ou “do Apóstolo.” Seu sucessor Orígenes, no entanto, levantou dúvidas quanto à autoria paulina, embora não acerca da sua canonicidade. Considerava que os pensamentos eram de Paulo, mas não o estilo. Historiou a opinião doutros (os anciãos), de que Lucas ou Clemente de Roma fora o autor, e, embora fale favoravelmente acerca da sugestão de que Lucas escreveu os pensamentos de Paulo em grego, ele mesmo concluiu que somente DEUS sabe o autor. Subseqüentemente ao tempo de Orígenes, seus sucessores não acatavam sua decisão aberta, e logo ficou sendo a convicção indisputada da igreja oriental de que Paulo era o autor. Deve ser notado que Orígenes incluiu Hebreus entre as cartas paulinas, às vezes até citando-a como “Paulo diz;” não é totalmente surpreendente, portanto, que seus alunos seguissem este padrão. A grande influência de Orígenes na igreja oriental era suficiente para garantir a contínua aceitação da carta como sendo apostólica. Não há dúvida, no entanto, que foi a crença na sua origem paulina que lhe granjeou aceitação universal. No Papiro Chester Beatty das cartas paulinas, Hebreus está incluída, colocada depois de Romanos. Na igreja ocidental, a aceitação demorou mais tempo. Após a citação da carta por Clemente de Roma, a evidência é esparsa até os tempos de Jerônimo e Agostinho. Tertuliano, no fim do século II, considerava Bamabé como o autor, mas menciona esta opinião num só lugar. Claramente não considerava que esta Epístola estava no mesmo nível das cartas paulinas. Eusébio, que era diligente em colecionar as opiniões das várias igrejas acerca dos livros do Novo Testamento, relatou que a igreja em Roma não aceitava Hebreus como paulina, e reconheceu que isto estava levando outras pessoas a terem dúvidas. Cipriano, que pode ser considerado um representante típico dos meados do século III, não aceitava a Epístola. O primeiro escritor patrístico no Ocidente que aceitou esta carta foi Hilário, seguido, logo após, por Jerônimo e Agostinho. A opinião deste último revelou-se decisiva, embora levante uma questão interessante, porque Agostinho, nas suas primeiras obras, cita Hebreus como sendo paulina, e, nas suas últimas obras, como sendo anônima, com um período de vacilação no meio. Sua aceitação original da Epístola foi provavelmente em razão da autoria paulina; mas veio a aquilatar o valor da Epístola com base na própria autoridade dela, e sua abordagem claramente subentendia uma distinção entre a autoria paulina e a canonicidade. Esta distinção, no entanto, não foi mantida pelos seus sucessores. Este panorama da história algo diversificada desta Epístola levantou certos fatores que devem afetar nossa abordagem à sua exegese. Demonstrou que era crido de modo geral que Hebreus reflete uma autoridade apostólica, embora nenhum nome específico possa ser ligado a ela. Onde havia relutância para recebê-la, era, com toda a probabilidade, demasiadamente vinculada com a autoria apostólica. É também compreensí­ vel que o estilo e o conteúdo da carta seriam menos atraentes aos ocidentais mais prosaicos do que aos orientais, mais ecléticos. Sua aceitação final, a despeito das dúvidas sérias, testifica do poder intrínseco da própria Epístola. Uma nota de rodapé do período da Reforma para este panorama antigo pode ser acrescentada. Durante este período, a Epístola voltou a ser atacada no assunto da sua autoria paulina. Este foi especialmente o caso de Martinho Lutero, que sugeriu que Apoio seria um autor mais provável. Reagindo às suas opiniões, o Concílio de Trento declarou enfaticamente que a Epístola foi escrita pelo apóstolo Paulo, usando, assim, o carimbo da autoridade eclesiástica numa tentativa de resolver a questão.
III. AUTORIA
Tendo em vista a confusão na igreja primitiva a respeito da origem desta carta, não é surpreendente que a erudição moderna tenha produzido um monte de sugestões diferentes. Visto que a maioria delas não passam de pura conjectura, não é proveitoso dedicar muito espaço à sua discussão. Nosso alvo será demonstrar de modo breve por que a autoria paulina é quase universalmente considerada inaceitável, e dar algumas indicações das propostas alternativas.3 A opinião antiga da autoria paulina não é apoiada por qualquer referência a Paulo no texto da carta. Está, no entanto, incluída no título, que é claramente uma reflexão do conceito tradicional e, portanto, tem pouca importância. A anonimidade do texto é uma dificuldade imediata para a autoria paulina, visto não haver em lugar algum qualquer sugestão que Paulo teria escrito no anonimato. Um apóstolo que meticulosamente reivindica autoridade na introdução às epístolas existentes atribuí­ das ao seu nome, não tem probabilidade de ter enviado uma carta sem referência àquela autoridade especial da qual estava revestido. Além disto, não há sugestão, na maneira do autor de Hebreus escrever, de que conheceu aquela mesma experiência dramática pela qual Paulo passou na sua conversão, que nunca está longe da superfície nas suas cartas. Já nos tempos de Orígenes, a diferença entre o grego das Epístolas de Paulo e o de Hebreus estava sendo notada. Orígenes considerava que a Hebreus “faltava a rudeza de expressão do apóstolo” e que é “mais idiomaticamente grega na composição da sua dicção” (cf. Eusébio.Msf. Eccl, vi.25.11-12). A maioria dos estudiosos concordaria com o julgamento de Orígenes. A linguagem forma um bom estilo literário no grego koinê, e certamente contém menos irregularidades de sintaxe do que as Epístolas.4 O escritor sabe, além disto, a direção que seu argumento está tomando. Se faz uma pausa para exortar os leitores, retoma a seqüência dos seus pensamentos. Não sai numa tangente, conforme Paulo faz às vezes. Voltando para a opinião de Orígenes, pode ser notado que considerava que os pensamentos eram os do apóstolo. Muitos estudiosos modernos, no entanto, não concordariam. Alegariam que estão faltando vários dos temas caracteristicamente paulinos, e que muito daquilo que está presente não tem paralelo em Paulo (e.g. o tema do suma sacerdote), por isso é mais razoável supor que Paulo não foi o autor. Dois outros fatores apontam na mesma direção: o método das citações do Antigo Testamento, que é diferente do de Paulo; e a declaração em 2.3, que pressupõe que o autor não tinha qualquer revelação pessoal da parte de DEUS, mas que recebera uma “grande salvação” atestada por aqueles que ouviram o Senhor. Embora haja alguma possibilidade de interpretar esta declaração em 2.3 para incluir o apóstolo Paulo, não é a maneira mais natural de compreendê-la. Paulo nunca teria admitido que recebeu o núcleo do seu evangelho em segunda mão, como este autor parece fazer. Quais, pois, são as alternativas? O testemunho antigo menciona apenas três outras possibilidades, além de Paulo – Lucas, Clemente e Barnabé. Embora haja algumas afinidades entre os escritos de Lucas e Hebreus,5 não bastam em si para apoiar a autoria comum. Clemente pode ser excluído pela razão de que há amplas diferenças de conteúdo teoló­ gico entre este escritor e a carta aos hebreus, e pela suposição quase certa que citou diretamente de Hebreus.6 A única reivindicação de Bamabé para ser considerado é seu passado como levita proveniente de um meioambiente helenista (Chipre). Mas nosso autor está interessado no culto bíblico mais do que no culto no Templo.7 9, considera que Hebreus talvez seja mais típica do grego culto do que qualquer outro documento no NT. Das conjecturas mais modernas, Apoio tem tido o maior número de apoiadores, principalmente com base na suposição de que, como alexandrino, teria familiaridade com os modos de pensar do seu concidadão alexandrino, Filo, que supostamente estão refletidos na Epístola. Esta opinião, que originalmente foi proposta por Martinho Lutero, tem sido fortemente apoiada por aqueles que desejam manter alguma conexão paulina com a Epístola.8 Outras propostas são: Priscila,9 Felipe, Pedro, Silvano (Silas), Arístiom e Judas.10 Se não podemos ter certeza da identidade do autor, podemos notar suas características principais que seriam inestimáveis para nossa compreensão da sua carta.11 É um homem que meditou longamente acerca da abordagem cristã ao Antigo Testamento. O que ele escreve foi bem pensado. Sabe para onde vai sua linha de argumento. Quando faz uma pausa para exortar seus leitores, o faz com fina sensibilidade e tato. Prefere pensar o melhor acerca deles, embora faça fortes advertências de precaução. A despeito da sua anonimidade, é uma força a levar a sério na teologia cristã primitiva. Oferece-nos a mais clara discussão da abordagem cristã ao Antigo Testamento dentre qualquer dos escritores do Novo Testamento.
IV. OS LEITORES
O título ligado a esta carta no manuscrito mais antigo existente é “Aos Hebreus.”. Na realidade, não há manuscrito da carta que não tedenha este título. Já nos tempos de Clemente de Alexandria e de Tertuliano esta Epístola era conhecida por este título. Apesar disto, nenhuma indicação específica é dada no próprio texto da carta de que os leitores eram hebreus, e é possível, portanto, que o título não seja original. Em tal caso, pode ter sido baseado numa boa tradição, ou pode ter sido uma conjectura. Tem havido opiniões divergentes nesta questão, mas permanece o fato que nenhuma evidência patrística dá qualquer razão para duvidar da tradição. Devemos, no entanto, considerar os vários problemas que surgem como resultado desta tradição. A primeira consideração a ser notada é a definição da palavra “Hebreus.” Podia ser usada especificamente dos judeus que falavam hebraico (ou melhor, aramaico), e neste caso os distinguiria dos judeus de idioma grego. Esta sugestão tem algum outro apoio neo-testamentário (cf. At 6.1; 2 Co 11.22; Fp 3.5), mas não há meio de saber se o título tradicional desta Epístola visava ter este sentido. Pode ter significado nada mais do que judeus (i.é, judeus cristãos), quer de idioma aramaico, quer de grego. Este sentido mais geral deve ser preferido. Alguns, no entanto, sugeriram que o título seja totalmente desconsiderado e que se deve entender que a Epístola é endereçada a gentios. Claramente, a única maneira de decidir a questão é mediante um exame cuidadoso da evidência interna. Evidência em prol de um grupo especifico. Tendo em vista a natureza muito geral do título tradicional, é significante que são dadas algumas indicações de que uma comunidade determinada estava em mente. Certamente o autor sabe algo acerca da sua história e situação. Sabe que foram abusados pela sua fé e que reagiram bem ao despojamento das suas propriedades (10.33, 34). Tem consciência da generosidade dos seus leitores (6.10) e conhece o estado de mente atual deles (5.1 lss.; 6.9ss.). Certos problemas práticos, tais como sua atitude para com seus líderes (13.17) e questões de dinheiro e de casamento (13.4, 5) são mencionados. Parece mais razoável supor que o escritor tem conhecimento pessoal das pessoas específicas que tem em mente no decorrer da Epístola (cf. 13.18, 19, 23). Se esta for a verdade, o caráter vago do título é claramente enganoso. Mais um aspecto que confirma esta opinião é a menção específica de Timóteo em 13.23, porque Timóteo também deve ter sido conhecido dos leitores. Outra indicação da natureza do grupo pode ser deduzida de referências tais como 5.12 e 10.25. A primeira é dirigida àqueles que nesta altura já deviam ser mestres, e isto deu origem à sugestão de que os leitores eram uma parte pequena de um grupo maior de cristãos. A sugestão mais favorecida é que formavam um grupo numa casa que se separara da igreja principal. A exortação em 10.25 apoiaria esta opinião. Ali, o escritor conclama os leitores a não deixarem de congregar-se juntos. Parece razoavelmente conclusivo que a totalidade de uma igreja não teria sido considerada mestres em potencial, e é altamente provável que um grupo separatista pudesse ter se considerado superior aos demais, especialmente se foram dotados com dons maiores. O tema que nesta Epístola é argumentado de modo compacto está de acordo com a sugestão de que um grupo de pessoas com um maior calibre intelectual está em mente. Algum apoio tem sido reivindicado para o conceito de que o grupo consistia de ex-sacerdotes judeus que se tomaram cristãos. Fica claro no livro de Atos que números consideráveis de sacerdotes estavam entre as pessoas convertidas no período primitivo. Como questão de conjectura, pode ser suposto que estes naturalmente formariam grupos para o estudo da sua nova abordagem ao culto antigo. Seu interesse especial na ordem levítica seria, portanto, altamente inteligível. Nío há, no entanto, qualquer evidência a favor de quaisquer igrejas que consistiam em sacerdotes, e alguma cautela deve ser exercida a respeito desta opinião. Além disto, teríamos de discutir se a direção geral do argumento favorece esta opinião. Uma extensão da mesma idéia é ver no grupo de leitores membros antigos da comunidade dos essênios em Cunrã que se converteram ao cristinismo.13 À primeira vista, parece ser uma proposição atraente, mormente porque a Epístola aos Hebreus revela algumas correções das tendências de Cunrã (e.g., sua separação). Os Pactuantes de Cunrã tinham tido desavenças com os partidos judaicos principais no que diz respeito aos modos contemporâneos de procedimentos do Templo, e isto se encaixaria bem com a concentração da atenção desta carta no ritual do tabemáculo ao invés do Templo. Mas as evidências são passíveis de uma aplicação mais ampla do que este conceito limitado dos leitores permitiria. A teoria começa com a desvantagem de que não é feita nenhuma menção aos essênios em qualquer parte do Novo Testamento. Apesar disto, a comunidade de Cunrã tem fornecido algumas informações úteis de fundo histórico que lançaram alguma luz sobre a Epístola (mas veja mais discussão nas págs. 37-38). Evidência em prol de leitores gentios. O amplo apelo ao Antigo Testamento nesta carta não exige necessariamente um grupo judaico de leitores, tendo em vista que o Antigo Testamento era, universalmente, a Santa Escritura da igreja primitiva, judaica ou gentia. Na realidade, algumas partes do Novo Testamento endereçadas a leitores predominantemente gentios (e.g. Romanos, Gálatas) ainda se referem extensivamente ao Antigo Testamento. Não teria levado muito tempo para os convertidos gentios tomarem-se suficientemente familiarizados com o Antigo Testamento para suscitar perguntas acerca do significado do ritual levítico. Não é impossível que tais inquirições tenham levado à exposição do tema do sumo sacerdote, feita pelo autor. Outra linha seguida por alguns defensores de destinatários gentios é argumentar que a ausência de alusões à controvérsia judaica favorece tal teoria, mas esta consideração pareceria neutra, se é que tem alguma validez. De mais peso é o argumento de que os leitores corriam o perigo de apostatar “do DEUS vivo” (3.12), que seria inapropriado como referência a judeus pensando em abandonar o cristianismo para voltar ao judaísmo. Mas isto não é conclusivo, tampouco, se o autor estiver pensando em todas as formas da apostasia, seja da parte de cristãos judaicos, seja da parte de cristãos gentios, como um “afastamento do DEUS vivo.” O escritor menciona, ainda, “obras mortas” (6.1; 9.14) e os princípios elementares da doutrina de CRISTO (6.1) que, segundo se pensa, são inapropriados para os leitores judaicos. Pode ser razoavelmente sustentado que os gentios se encaixariam no contexto melhor do que os judeus, mas dificilmente pode ser alegado que as palavras nunca poderiam ser aplicáveis aos judeus. De modo geral, tendo em vista o estilo intricado de argumento, que exige uma vasta compreensão do Antigo Testamento (cf., por exemplo, o estilo de discussão em Hb 7: 11 ss.), parece que a opinião tradicional tem mais probabilidade de ser correta. Isto se tomará mais evidente quando o propósito da Epístola for discutido abaixo.
Tendo em vista a falta de informações específicas acerca do autor ou dos leitores, quaisquer sugestões acerca de onde os leitores habitavam forçosamente serão carregadas de incertezas. O melhor que podemos fazer é mencionar as mais viáveis. Começamos com a idéia de que a igreja em Jerusalém estava em mente.14 Alega-se que esta idéia é apoiada pelo título e pela ênfase dada ao ritual levítico. Além disto, a referência à perseguição (10.32; 12.4) nos “dias anteriores” pode muito bem referirse aos sofrimentos suportados pela comunidade cristã judaica em Jerusalém. Alguns têm visto alusões a uma desgraça iminente em 3.13; 10.25; 12.27, mas a fraseologia é muito geral para ter qualquer relevância. Outros argumentaram que, porque nenhuma igreja reivindicou as cartas aos Hebreus, os endereçados podem bem ter sido uma igreja num lugar que foi subseqüentemente destruído, como foi Jerusalém em 70 d.C. Mas podemos descontar o argumento; na realidade, não há evidência de que cada livro do Novo Testamento, cujo destino específico é conhecido, era especificamente reivindicado pela(s) igreja(s) endereçada(s). Se pudesse ser estabelecido que o autor tem o Templo em mente, ainda que fale em termos do tabernáculo, haveria algum apoio para um destino em Jerusalém, visto que o autor usa o tempo presente como se o ritual ainda estivesse sendo observado. Aqui entra uma questão da data, porque se a Epístola foi escrita depois de 70 d.C. (conforme sustentam alguns), o destino em Jerusalém seria mais difícil de sustentar. Há, porém, algumas objeções sérias à idéia de Jerusalém como sendo o destino. A declaração em 2.3 que nem o escritor nem os leitores tinham ouvido o Senhor pessoalmente é claramente difícil se a igreja de Jerusalém está em mente, porque é difícil imaginar que houvesse comunidades, tais como igrejas-casas, em Jerusalém, onde nenhum só dos membros ouvira a JESUS. Outra dificuldade é a predominância de idéias helenísticas, que são mais difíceis de imaginar em Jerusalém do que noutros lugares; esta linha de pensamento, no entanto, não deve receber ênfase demasiada, tendo em vista a evidência de Cunrã em prol de uma infiltração de idéias helenistas num meio-ambiente doutra forma judaico, às margens do Mar
V. O DESTINO
Jerusalém foi sugerida por W. Leonard: The Authorship o f the Epistle to the Hebrews (Londres, 1939), pág. 43, e A. Ehrhardt, The Framework o f the New Testament Stories (Manchester, 1964), pág. 109. Este último data a Epístola depois da queda de Jerusalém. Morto, não muito distante de Jerusalém. O uso consistente da LXX é uma dificuldade adicional se os cristãos de Jerusalém estiverem em mente, porque é pouco provável que a igreja da Judéia usava esta versão. Do outro lado, pode ser ressaltado que Jerusalém tinha várias sinagogas helenistas (At 6.9), e não é impossível que estas tenham usado a Septuaginta. Mas levando em conta o caráter essencialmente grego da Epístola, deve ser concedido que um destino que não seja Jerusalém é mais provável. Uma consideração final pode ser mencionada, i.é, a referência provável à generosidade dos leitores em 6.10 não se encaixa bem demais com uma igreja cuja pobreza é mencionada noutros lugares do Novo Testamento em conexão com a coleta pelas igrejas gentias para prestar assistência àquela. É natural que Alexandria tenha sido proposta nos tempos modernos como o destino da Epístola, tendo em vista os paralelos que têm sido alegados entre esta carta e os escritos de Filo de Alexandria. Já foi notado que a igreja alexandrina nunca foi mencionada na antigüidade como a possível endereçada da Epístola. Mas uma dificuldade ainda maior é o fato de que em Alexandria era tomado por certo, em data bem antiga, que se tratava de uma carta enviada por Paulo aos hebreus. A sugestão que é apoiada pela quantidade maior de evidências, internas e externas é Roma. Foi em Roma que a Epístola foi primeiramente conhecida e citada, e visto que assim aconteceu durante a última década do século I, demonstra que a Epístola deve ter chegado ali numa etapa bem recuada da sua transmissão. Alguma conexão pode ser vista entre um destino em Roma e as saudações “dos da Itália” (13.24). O modo mais natural de entender esta expressão é com referência a pessoas cujo lugar de origem é a Itália, mas que estão morando noutro lugar e desejam enviar saudações para casa. A expressão vaga não teria razão de ser a não ser que o autor achasse que valeria a pena chamar a atenção aos compatriotas dos leitores que estavam com ele. Teria mais validade, portanto, se fosse endereçada a algum lugar na Itália ao invés de qualquer outro lugar. Não é conclusivo, no entanto, visto que a redação de 13.24 poderia ser entendida em termos da locação do autor ou, igualmente, da origem dos leitores. Nffo há necessidade alguma de entrar em detalhes acerca de outras sugestões. Apenas as notaremos de passagem — Colossos (T. W. Manson), Samaria (J. W. Bowman), Éfeso (W. F. Howard), Galácia (A. M. Dubarle), Chipre (A. Snell), Corinto (F. Lo Bue, H. Montefiore), Síria (F. Rendall), Antioquia (V. Burch), Beréia (Hostermann), Cesaréia (C. Spicq).15 A lista é suficientemente variada para demonstrar que as evidências escassas podem ser usadas para se prestarem ao apoio de um grande número de possibilidades. Deve, pelo menos, deixar-nos prevenidos contra sermos demasiadamente dogmáticos a respeito do destino da epístola. Concluiríamos que o destino mais provável é Roma, embora deixemos as opções abertas para outras possibilidades.
VI. DATA
Nossas discussões anteriores não devem nos ter deixado muito otimistas acerca da possibilidade de fixar uma data precisa para esta carta. Tudo quanto podemos fazer é sugerir limites dentro dos quais a carta foi provavelmente escrita. Podemos, pelo menos, concluir que foi escrita antes da carta de Clemente de Roma (95 d.C.), a não ser, naturalmente, que aleguemos que Hebreus usou Clemente,16 ou que os dois escritores usaram fontes em comum. Mas visto haver boa razão para supor que Clemente dependia de Hebreus, fixa-se assim uma data final para Hebreus, antes da qual deve ter sido escrita. Uma consideração intema é o relacionamento entre a carta e a queda de Jerusalém. Visto que o escritor não demonstra nenhuma consciência do evento, e que sugere, pelo contrário, que o ritual ainda continua, a carta teria de ser datada antes de 70 d.C. Conforme já foi indicado, no entanto, o autor apela ao tabernáculo mais do que ao Templo, e este fato poderia legitimamente ser reivindicado como evidência de que o Templo já não existia. Mas os tempos no presente, usados, por exemplo, em 9.6-9 (cf. também 7.8; 13.10) teriam mais razão de ser se o ritual do Templo ainda estivesse sendo observado.17 A distinção entre o tabernáculo e o Tem1 & 2 Peter (Londres, 1962), págs. 13-16; W. F. Howard: “The Epistle to the Hebrews,” Interpretation 5 (1951), págs. 80ss.; A. M. Dubarle: RB 48 (1939), págs. 506-529; A. Snell: New and Living Way (Londres, 1959), pág. 19; F. Lo Bue: JBL 15 (1956), págs. 52-57; H. Monteflore: Com., págs. 137ss.; A. Klostermann: Zur Theorie der biblischen Weissagung und zur Charakteristik des Hebräerbriefes (1889), pág. 55, citado por O. Michel: Com. pág. 12; C. Spicq, Com. 1, págs. 247ss. (16) G. Theissen: Untersuchungen zum Hebraerbrief (Gütersloh, 1969), págs. 34ss., discute o relacionamento entre Hebreus e 1 Clemente e conclui que uma dependência literária desta última daquela é improvável. (17) Sobre o uso dos tempos do presente deve ser notado que 1 Ciem. 61 também usa tempos do presente na descrição do Templo, claramente, no caso dele, um artifício literário e não o emprego histórico dos tempo próprio talvez não tenha sido tão nítida aos leitores originais quanto aparece ao leitor moderno. No cômputo geral, esta linha de evidência está mais a favor de uma data antes de 70 a.C., e não depois, especialmente se for dado o devido valor à estranha omissão da catástrofe se já tinha acontecido. Teria sido uma confirmação histórica valiosa da tese principal da Epístola o desaparecimento do antigo para ceder lugar ao novo. Se, do outro lado, a destruição da cidade estava iminente, daria muita força à exortação aos leitores no sentido de saírem fora do arraial (13.13). Além disto, a menção de Timóteo em 13.23, se for o mesmo homem que era companheiro de Paulo, deve exigir uma data dentro da sua provável duração de vida, mas nosso problema aqui é que nenhum conhecimento independente existe quanto à sua morte. Tudo quanto poderia ser concluído com segurança é que uma data no século II está totalmente fora de cogitação. Certamente o estado da igreja que pode ser detectado nesta Epístola é bastante primitivo, porque não há menção especí­ fica dos oficiais, mas apenas a expressão um pouco vaga: “vossos guias” (13.7, 17). Além disto, o nítido sabor judaico da teologia favorece uma data recuada. Outra sugestão é que a referência em 3.7ss. aos quarenta anos dos israelitas no deserto (citando SI 95.7ss.) pode ser mais aplicável se esta Epístola foi escrita quarenta anos depois da morte de JESUS. Mas a conexão do pensamento está longe de ser óbvia, e não pode fazer contribuição alguma à nossa discussão. O que mais vem ao caso é a referência em 12.4 ao fato de que “ainda não tendes resistido até ao sangue.” Pode ser entendida metaforicamente, e neste caso não ajudaria a fixar a data, mas se significa que ainda não tinha havido mártir entre eles, exigiria uma data antes da ocorrência da perseguição generalizada. Se os leitores estavam em Roma, isto pareceria requerer uma data antes das perseguições de Nero. Mesmo assim, se esta era uma igreja-casa separada do restante da igreja, pode ter escapado à itensidade da perseguição que o grupo principal dos cristãos sofrera. Outra consideração é a referência aos “dias anteriores” (10.32) quando os cristãos eram sujeitados à perseguição. Além disto, se estes dias se referem à perseguição de Nero, a Epístola teria de ser datada depois da queda de Jerusalém. Mas o mesmo problema surge de que não há sugestão de que qualquer deles tinha morrido18 e é difícil, portanto, apelar à perseguição de Nero como sendo uma explicação dos “ dias anteriores.” Seria mais seguro tomar por certo que não havia tanto um ataque oficialmente organizado quanto o tipo de molestamento constante do qual tanto Atos quanto as Epístolas testificam.19 De fato, os “dias anteriores” podem concebivelmente referir-se ao período que se seguiu o decreto de Cláudio que exilou os judeus de Roma, visto que os cristãos judaicos presumivelmente teriam sido implicados (cf. Áquila e Priscila, At 18.2). Entre este evento e a perseguição de Nero transcorreu um período de quinze anos, que fixaria os limites dentro dos quais a Epístola deve ter sido escrita. Não há maneira de saber se foi escrita antes da morte de Paulo, embora tenha sido inferido de Hebreus 13 que Paulo provavelmente já não estava com vida, com base um pouco precária na referência solitária a Timóteo. Aqueles que datam a Epístola antes da queda de Jerusalém são geralmente influenciados pelo seu conceito da ocasião como sendo decisiva para uma datação mais exata. Por exemplo, Montefiore sugere uma data semelhante à de 1 Coríntios 20 e T. W. Manson uma data semelhante a Colossenses, por causa dos seus respectivos conceitos da situação tratada na Epístola. A maioria, no entanto, não a data antes da década de 60, e preferem uma data imediatamente anterior ou durante as perseguições nerônicas se a Epístola foi enviada de Roma,ou imediatamente antes da queda de Jerusalém se foi enviada doutro lugar. Aqueles que consideram que a evidência não requer uma data antes da queda de Jerusalém, usualmente sugerem um período entre cerca de 80 e 85 d.C.
Há duas considerações principais. A primeira é o uso da epístola por Clemente de Roma. Deve obviamente ser datada antes daquela epístola, mas quanto tempo antes? Conforme a teoria de Goodspeed, (19) J. Moffatt: Introduction to the Literature o f the New Testament, pág. 453, sugere que pode ter sido violência das turbas. (20) H. Montefiore: Com., págs. 9-10. Cf. também J. M. Ford: CBQ 28 (1966), págs. 402-416. (21) T. W. Manson: BJRL, 32 (1949), págs. 1-17. (22) J. A. T. Robinson: Redating the New Testament (1976), págs. 200-220, prefere um destino romano e uma data c. de 67 imediatamente antes da morte de Nero., pensava que apenas um curto intervalo poderia ter separado Hebreus de 1 Clemente. H. Windisch: Com., págs. 329-348, fez uma conjectura de um período de pelo menos 10 anos.
Clemente escreveu em resposta a Hebreus 5.12, e neste caso, nenhum intervalo longo deve ter decorrido entre elas. Esta teoria, no entanto, é tênue. Se, doutro lado, Clemente não usou nossa Epístola aos Hebreus, já não haveria necessidade de limitar Hebreus para um tempo antes da carta de Clemente. O caráter primitivo da estrutura comunitária em Hebreus, no entanto, exige uma origem anterior ao tempo da epístola de Clemente. A outra consideração é a opinião sustentada por alguns que Hebreus demonstra dependência das epístolas de Paulo. Como é usual no caso de argumentos baseados em afinidades literárias, a dependência é de difícil comprovação. As afinidades paulinas são suficientemente explicadas pela suposição de que o autor era um associado do apóstolo. A evidência certamente não é suficiente para demonstrar que Hebreus não poderia ter sido escrita antes das cartas paulinas terem sido colecionadas. O efeito cumulativo destes argumentos em prol de uma data em fins do século I não convence.
VII. O PROPÓSITO DA CARTA
O escritor faz uma só declaração específica acerca do seu propósito, que está em 13.22 onde diz simplesmente: “Rogo-vos… que suporteis a presente palavra de exortação; tanto mais quanto vos escrevi resumidamente.” Se “palavra de exortação” significa aqui, como em At 13.15, uma homília, sugeriria que a estrutura da carta deve sua origem a uma pregação feita numa ocasião especial e mais tarde adaptada na forma de uma carta pelo acréscimo de comentários pessoais no fim. Esta sugestão tem muita coisa para recomendá-la e explicaria os apartes freqüentes que contêm apelos diretos aos ouvintes. Se a palavra “exortação” receber seu efeito literal, aquelas passagens que contêm tais apelos diretos devem ser consideradas os pontos cruciais no argumento do autor, ainda que sejam apartes, e devem ser levadas em conta ao decidir o propósito do autor. É surpreendente quantos estudiosos do NT adotam uma data avançada para esta Epístola sem prestar atenção detalhada à possibilidade de uma data recuada. Cf. Wickenhauser, Kümmel, Marxsen, Fuller, Klijn e Perrin nas suas Introduções. Mesmo assim, muitos comentaristas adotaram uma data recuada; e.g. W. Manson, C. Spicq, H. Montefiore, F. F. Bruce, J. Héring, G. W. Buchanan, A. Strobel. (25) Cf. F . Filson: Yesterday (1967), págs. 27ss., para uma discussão desta palavra de exortação. (26) Tem sido sugerido que se 13.22 for aceito como sendo o indício, o alvo no entanto, muita diferença de opinião acerca do que os leitores deviam refrear-se. As várias sugestões podem ser convenientemente classificadas de acordo com o suposto destino da carta: judaico ou gentio. Sugestões que supõem que os leitores eram judeus Visto que o conceito tradicional era que os leitores eram hebreus, começaremos com a explicação tradicional do propósito.27 Esta começa com as passagens de advertência (principalmente os caps. 6 e 10) e passa a interpretar a Epístola inteira em termos destas. As próprias passagens certamente contêm advertências expressas na maneira mais enfática. O perigo de “crucificar de novo o Filho de DEUS” (6.6) e de “calcar aos pés o Filho de DEUS” e de “ultrajar o ESPÍRITO da graça” (10.29) é colocado firmemente diante dos leitores. Diz-se que tais possibilidades ameaçam os que cometem a apostasia (6.6). Ao procurar entender a natureza da apostasia, apela-se à declaração em 2.3 que fala da calamidade de negligenciar a grande salvação que foi providenciada. Se o “arraial” em 13.13 for o judaísmo antigo, uma sugestão razoável é que estas pessoas eram judeus convertidos que mesmo assim mantiveram sua lealdade ao judaísmo, e corriam perigo de sentar-se entre duas cadeiras, ou até mesmo de deixar a igreja cristã e voltar à sua antiga fé judaica. Para apreciar a forte atração do judaísmo sobre os cristãos que anteriormente tinham sido judeus, deve ser lembrado que o cristianismo não podia oferecer paralelo algum à pompa ritual que eles conheciam como costume. Ao invés do Templo, que todos os judeus respeitavam como o centro do culto, os cristãos reuniam-se em lares diferentes sem sequer terem um lugar central para suas reuniões. Nío tinham nem altar, nem sacerdotes, nem sacrifícios. A fé cristã parecia desnudada de quaisquer evidências do tipo usual de observâncias religiosas. Não é de se admirar que houvesse judeus convertidos que explorassem a possibilidade de apegar-se às duas religiões, mormente porque tanto os judeus quanto os cristãos apelavam às mesmas Escrituras. Se retivessem a velha enquanto secretamente professavam a nova, possuiriam uma posição social negada àqueles que fizeram uma transferência total ao cristianismo. A atração da essencialmente prático do autor não seria apostasia no sentido de voltar a uma lealdade externa ao judaísmo teria sido forte para aqueles que achavam difícil enfrentar a oposição resoluta dos seus compatriotas judeus (cf. 10.32), embora estivessem dispostos a isto no início. Se a situação que acaba de ser esboçada for correta, é possível ver o que o escritor da Epístola tinha em mente ao esboçar seu argumento. Estava ocupado em assegurar seus leitores que a perda de glórias rituais era mais do que compensada pela superioridade do cristianismo. Sua linha de abordagem era que tudo, na realidade, era melhor — um santuário melhor, um sacerdócio melhor, um sacrifício melhor. Na realidade, visa demonstrar que há uma razão teológica para a ausência do velho ritual, por mais glorioso que tenha parecido aos judeus. A fé cristã declarava um cumprimento completo de tudo quanto a velha ordem esforçava-se por fazer. A própria ausência do ritual era a maior glória da nova fé, porque proclamava sua superioridade sobre a velha ordem. Além disto, o escritor vai além disto e sustenta que CRISTO era um sacerdote de um tipo diferente da linha arônica, tipificado em Melquisedeque. As passagens de advertência seriam, então, uma demonstração das conseqüências sérias para quaisquer pessoas que deliberadamente virassem as costas a este modo superior. Seria a mesma coisa que asseverar a superioridade da religião velha e identificar-se com os que eram responsáveis pela crucificação do Filho de DEUS. Este modo de entender a apostasia seria suficientemente sério para justificar os termos fortes usados nas passagens de advertência. Explicaria, também, a impossibilidade de restauração para aqueles que tão descaradamente viravam as costas às condições “melhores” da fé cristã. Em primeiro plano na mente do autor não havia tanto a questão de uma volta ao judaísmo quanto a questão da rejeição do cristianismo que semelhante volta acarretaria. Embora, de modo geral, esta maneira de compreender a apostasia forneça um modo razoável de compreender o propósito da Epístola, é necessária alguma cautela. Deve ser confessado que as passagens de advertência nada dizem acerca da apostasia para o judaísmo, mas, sim, somente uma apostasia para fora do cristianismo. A interpretação esboçada supra depende de uma inferência tirada da intenção geral da Epístola. É, naturalmente, possível interpretar as passagens de advertência de modo diferente, embora nenhuma outra sugestão pareça estar em tão estreita concordância com o contexto geral. Um desenvolvimento interessante desta opinião tradicional é a sugestão de que ex-sacerdotes judeus estavam em mente, sugestão esta que já foi notada na discussão sobre o destino da Epístola.28 Que luz lançaria sobre o propósito do autor? Os sacerdotes convertidos imediatamente perderiam a dignidade do seu cargo. Na realidade, tomar-se-iam pessoas sem importância, depois de terem sido respeitadas por sua posição oficial. Muitos deles devem ter enfrentado a tentação de abrir mão da sua nova fé a fim de reter sua antiga posição social. Estariam ainda mais perdidos sem o ritual do que os aderentes comuns do judaísmo. Podem ter esperado uma posição superior na igreja cristã em virtude da sua antiga posição profissional no judaísmo. Para tais pessoas, o tema do sumo sacerdócio de CRISTO e a interpretação espiritual do ritual seriam altamente relevantes. De todas as pessoas, estas necessitariam de ser lembradas nos termos mais enfáticos das conseqüências de uma volta ao judaísmo. As passagens de advertência, portanto, seriam da máxima relevância. Se os leitores fossem tentados a pensar que uma religião sem sacerdotes seria inconcebível, seria a mesma coisa que denegrir o cristianismo ao ponto de pronunciá-lo ineficaz. Sua apostasia ameaçada seria, portanto, a mesma coisa que voltar suas costas a uma fé sem sacerdotes. Mas o desafio do escritor é que, a despeito da ausência de uma linhagem de sacerdotes, o cristianismo não está, na realidade, despojado de sacerdote, porque tem um sumo sacerdote perfeito em CRISTO, que é infinitamente superior ao melhor dos sacerdotes arônicos. Ainda outra variação na compreensão do propósito da carta, se foi dirigida a judeus, é a opinião de que a Epístola foi dirigida a antigos membros da seita de Cunrã.29 Um propósito principal seria, portanto, apresentar um método verdadeiro de exegese do Antigo Testamento. Os Pactuantes de Cunrã eram estudiosos das Escrituras do Antigo Testamento, e muitos dos seus comentários foram preservados entre os achados de Cunrã. Mas tinham seu próprio estilo de exegese que se concentrava em relacionar a restauração da velha aliança em termos da sua própria comunidade. Se cristãos ex-Cunrã estiverem em mente podem muito bem ter necessitado de uma exposição mais verídica do Antigo Testamento baseada na nova aliança em CRISTO. Visto que a comunidade de Cunrã era essencialmente uma comunidade sacerdotal, a predominância do tema sumo-sacerdotal nesta Epístola também seria inteligível, assim como seria a referência aos batismos em 6.2, porque pensa-se que as lavagens rituais formavam parte importante dos procedimentos de Cunrã. Apesar disto, há problemas com esta hipó­ tese. Além da ausência de quaisquer evidências que confirmassem a existência de um grupo de cristãos ex-Cunrã (embora semelhante grupo não seja impossível), os paralelos entre Hebreus e a literatura de Cunrã não são impressionantes. A ausência de qualquer discussão acerca da Lei na primeira é uma dificuldade principal, porque era destacada entre os Pactuantes de Cunrã. No cômputo geral, a opinião que postula a ameaça da apostasia, ao judaísmo entre certos cristãos judeus quer sejam ex-sacerdotes, quer não, geralmente tem mais para recomendá-la do que opiniões alternativas.31 Porém, uma outra sugestão que ainda conjectura um destino a judeus, mas que não considera que as passagens de advertência forçosamente dizem respeito à apostasia ao judaísmo, deve ser considerada. É a opinião de que os cristãos judeus não estavam aceitando a missão mundial do cristianismo. Conforme esta teoria, os leitores estavam pensando em termos do cristianismo sendo essencialmente judaico e não estavam atribuindo importância alguma ao seu escopo universal. É sugerido que este grupo tinha um ponto de vista semelhante àquele dos membros mais restritos da igreja de Jerusalém. Talvez quisessem manter contato com o judaísmo por razões de segurança, porque o judaísmo era uma religião licita. Cortar as cordas da segurança deste ancoradouro e alargar as fronteiras para incluir os gentios introduziria um embaraço agudo. O dilema era indubitavelmente real. Seria muito mais fácil insistir que todos os cristãos deviam se colocar debaixo da égide do judaísmo. Aqui, porém, segundo é sugerido, a visão da extensão da missão cristã era demasiadamente restrita. Além disto, é alegado que foi este conceito demasiadamente estreito que Estêvão teve de combater. Certamente há algumas semelhanças entre o discurso de Estêvão em At 7 e nossa Epístola, especialmente na abordagem ao ritual feita por ambos. Esta opinião trouxe alguns dados interessantes para a compreensão da Epístola, mas não pode explicar adequadamente as passagens de forte advertência. É difícil perceber como alguém descreveria a falta de alargar a mente e adotar a missão mundial como sendo uma nova crucificação do Filho de DEUS ou como apostasia. Pode ter feito parte do propósito do escritor urgir a adoção da missão mundial, mas estava a voltas com um problema mais radical do que este. Sugestões que tomam por certo que os leitores eram gentios A teoria de os leitores serem gentios tem sido inspirada pela crença de que o pensamento helenista foima o fundo histórico principal desta carta. Alguns, no entanto, também postulam a influência gnóstica.32 Podemos dispensar rapidamente o conceito de que o escritor está combatendo o judaísmo especulativo que estava afetando seus leitores gentios. Cercados por muitas idéias religiosas, desejariam saber que o cristianismo era sem igual ao oferecer o único caminho aceitável a DEUS. Para responder a esta necessidade, o escritor apela ao Antigo Testamento para comprovar o caráter absoluto do cristianismo, que é superior não somente ao judaísmo como também a todas as demais religiões. Mas o problema desta teoria é que a Epístola não faz a mínima alusão a qualquer conhecimento de ritos especulativos ou pagãos. Realmente, o considerá­ vel interesse do autor pelos pormenores do ritual judeu dificilmente se enquadra num auditório gentio que não tinha contato prévio com o judaísmo. A forma.mais aceitável de semelhante teoria seria supor que os “Hebreus” eram judeus helenistas. A opinião de que idéias gnósticas permeiam a carta e que, com efeito, o autor está combatendo o gnosticismo incipiente tem tido alguns defensores persuasivos.33 Uma das opiniões é que os leitores pertenciam a uma seita de gnósticos judeus que estavam corrompendo a pura fé cristã mediante a infiltração de idéias gnósticas. Algumas idéias às quais se apelam no argumento podem ser resumidas da seguinte forma breve: a ênfase dada aos anjos, que estava solapando a singularidade da obra mediadora de CRISTO; a idéia da salvação através de alimentos selecionados (cf. 13.9), misturada com ensinamentos estranhos; a referência aos batismos; maus procedimentos deliberados (aos quais, segundo se diz, as passagens de advertência se aplicam, e refletem a confusão dos valores morais nalguns tipos de gnosticismo, cf. 12.16). Embora alguns destes paralelos sejam válidos, é extraordinário que o autor se dá tanto trabalho para fazer uma exposição da cultura judaica se o alvo principal do seu ataque era o gnosticismo. Uma crítica semelhante pode ser feita à opinião de que os capítulos três e quatro são a chave verdadeira a uma compreensão da carta, e que estes capítulos devem ser entendidos numa situação gnóstica.34 Daí, os leitores são vistos como sendo o povo de DEUS perambulante, e sua viagem é entendida em termos do mito gnóstico do redentor. A busca do “descanso” (katapausis) é o alvo principal da salvação. Diz-se que o conceito do redentor em que o próprio redentor deve ser redimido antes de ser autorizado a agir como redentor, e, de modo semelhante, o sumo sacerdote deve ser aperfeiçoado.35 Não há dúvida que fazer assim é atribuir ao texto da Epístola muito mais do que é justificado. Na mente do autor, a perfeição do sumo sacerdote tem relacionamento com sua perfeita obediência à vontade do Pai. É essencialmente moral e não mística. Mesmo que o tema gnóstico seja exagerado nesta teoria, colocar em relevo a importância dos capítulos três e quatro e o tema do “descanso” é uma introspecção valiosa, que não deve ser olvidada. Outra opinião é que algum desvio de um tipo semelhante àquele que Paulo combate em Colossos está em mente.36 Este provavelmente era ligado com alguma forma de Gnose, embora não com o gnosticismo desenvolvido. Há dois aspectos do desvio colossense que têm seu paralelo nesta carta. Um é a estima excessiva dada aos anjos e a necessidade de corrigi-la (cf. Cl 2.18 com Hb 1 e 2). A primeira seção da carta visa demonstrar a superioridade de CRISTO aos anjos. O outro aspecto é uma ênfase exagerada dada à lei cerimonial, que pode ser contrastada com a interpretação espiritual do ritual em Hebreus 5-10. Estes aspectos deram vazão à sugestão de que Apoio enviou esta Epístola à igreja de Colossos antes de Paulo escrever a sua carta com pleno conhecimento daquilo que Apoio escrevera. Embora apoio para um destino colossense seja pouco, a teoria tem algum valor em chamar a atenção a aspectos comuns que provavelmente eram muito divulgados na experiência cristã primitiva. Concluindo: inclinar-nos-emos para a opinião de que algum tipo de apostasia para o judaísmo está subentendido, mas será mantido em mente que houve outras correntes de influência que não podem ser desconsideradas ao interpretar corretamente o pensamento. Se o autor parece obcecado com a interpretação vétero-testamentária, seu interesse por ela é mais do que antiquário. Está ajudando cristãos perplexos a descobrirem o sentido verdadeiro do AT, sentido este que para ele se focaliza em CRISTO. É provável, no entanto, que também está preocupado em demonstrar sua relevância num mundo influenciado por idéias gregas. •
VIII. A SITUAÇÃO HISTÓRICA
Qualquer escrito fica iluminado quando é colocado na sua situação histórica, e é necessário indicar de modo breve o meio-ambiente desta Epístola. Já foi indicado que os leitores eram quase certamente cristãos judeus. É lógico, portanto, notar em primeiro lugar os aspectos que se alinham especiámente com um pano de fundo judaico.
O Antigo Testamento 0 mais óbvio destes aspectos é a forte influência do Antigo Testamento sobre o autor.37 Não é preciso dizer que sua mente estava saturada do pensamento vétero-testamentário, mas fica claro que seu interesse principal fixava-se no testemunho do Pentateuco. Seu tratamento do ritual dá testemunho disto, porque não baseia suas observações, conforme poderíamos ter esperado, nos procedimentos contemporâneos do Templo, mas, sim, nos pormenores levíticos. Claramente deseja estabelecer uma abordagem cristã ao ritual do Antigo Testamento, e acha sua chave no pensamento da superioridade de CRISTO, tanto como sacerdote quanto como sacrifício. Até mesmo quando cita os heróis da fé, tira a maior parte dos seus exemplos do Pentateuco. Apesar disto, a mente do escritor também estava saturada doutras partes do Antigo Testamento, especialmente dos Salmos.38 De fato, pode ser dito que o Salmo 110 desempenha um papel-chave no desenvolvimento do seu argumento, fornecendo-lhe, em particular, seu tema de Melquisedeque. Outra passagem importante para ele é a seção da nova aliança em Jeremias 31, que cita extensivamente no capítulo 8. O modo das suas citações também é relevante, porque indubitavelmente considerava autorizado o texto do Antigo Testamento. Toma por certo que aquilo que o texto diz, DEUS diz, o que se revela de modo notável no capítulo 1. Até mesmo uma fórmula vaga como: “alguém, em certo lugar, deu pleno testemunho” para introduzir uma citação do Salmo 8 (2.6ss.) é em si mesma uma evidência de que o autor queria reforçar sua discussão da humanidade de JESUS com apoio bíblico, embora não especifique o contexto original. O fato de que o texto é considerado assim autorizado é de importância vital para uma compreensão correta do argumento e do propósito da Epístola. Se, conforme parece provável, um dos alvos do escritor é esclarecer as dificuldades que os leitores estavam tendo para tomar uma decisão sobre uma abordagem satisfatória ao Antigo Testamento, a própria Epístola fica sendo um guia útil, não somente para seus leitores originais, como também para o leitor moderno. Muita coisa que talvez pareça irrelevante num exame superficial encaixa-se no seu lugar apropriado quando a questão mais geral da abordagem cristã ao Antigo Testamento é focalizada. Uma pergunta que surge é se o escritor sempre trata condignamente o contexto vétero-testamentário. Alguns já sugeriram que, para ele, o contexto não tinha relevância alguma, mas isto seria um exagero.39 Certamente aplica o texto do Antigo Testamento às vezes de um modo novo, como quando aplica ao Filho palavras originalmente faladas acerca de DEUS (1.8), mas é questionável se pode ser sustentado que o autor desconsiderou o contexto. 0 mesmo se aplica ao desenvolvimento do tema do descanso a partir do Salmo 95 nos capítulos 3 e 4. Seria mais correto dizer que nosso autor ressalta o significado estendido e latente do texto original. Semelhante princípio permite-lhe a aplicação do tema de Melquisedeque de tal maneira que pareça, num exame superficial, que está baseando seu argumento no silêncio da Escritura, ao invés de nas suas declarações (cf. 7.3). Cunrã Nossa consideração seguinte deve ser descobrir se o tipo de desenvolvimento visto na seita judaica em Cunrã tem qualquer relevância como fonte para esta Epístola. Certos aspectos sugerem uma conexão, tal qual a dominância da casta sacerdotal em Cunrã e a evidência de que existia algum interesse entre os sectários no tema de Melquisedeque.40 A comunidade de Cunrã tinha algum interesse por anjos, o que talvez sugira uma conexão com os leitores desta Epístola. Mas o interesse por anjos era generalizado entre os judeus do período intertestamental. Além disto, aparece como parte da assim-chamada heresia colossense (Cl 2.18).41 Outro aspecto é o interesse extensivo entre os sectários pela exegese bíblica42 e certamente há algum paralelo com o escritor desta Epístola. Visto que os exegetas estavam mais ocupados em aplicar o texto aos seus próprios dias do que ao seu contexto histórico, assim também nosso autor tende a ressaltar a presente relevância sem, porém, desconsiderar o contexto. Pode haver alguns paralelos entre o Mestre da Justiça de Cunrã e JESUS CRISTO, mas o escritor desta Epístola não tem dúvida alguma de que JESUS é superior a todos os outros e é, de qualquer maneira, a revelação final de DEUS ao homem.43 Certo aspecto que talvez tenha aplicação à nossa discussão é a conjunção entre os aspectos sacerdotal e real do Messias na comunidade de Cunrã, embora, segundo parece, não estavam ligados à mesma pessoa. 0 Messias sacerdotal de Arão era distinguido do Messias de Israel.44 Como contraste, a apresentação de JESUS em Hebreus é de um sacerdote-rei segundo a ordem de Melquisedeque. A comunidade de Cunrã observava certos ritos que eram especialmente de natureza purificadora. Este tema da purificação ocorre em Hebreus, mas não é vinculado a ritos externos. Na realidade, os leitores são instados a avançar além das doutrinas elementares tais como as lustrações (“batismos,” 6.2). Mesmos assim, a idéia da purificação está presente, mas aplicada de modo espiritual, conforme demonstra a declaração em 10.22 acerca de corações sendo purificados de má consciência. Há alguma sugestão de que os ritos purificadores em Cunrã talvez tenham sido desenvolvidos como substituto pela cessação do sacrifício. Uma das razões da localização da comunidade no deserto da Judéia era porque os sectários ficaram insatisfeitos com as disposições para os sacrifícios no Templo em Jerusalém. Não é sem relevância que a Epístola aos Hebreus concentra-se no sacrifício “melhor” de CRISTO. Tendo em vista tudo isto, há alguma justificativa para a opinião de que a literatura e as práticas rituais de Cunrã lançam alguma luz sobre o meio-ambiente ao qual pertencem os leitores desta Epístola, embora seja questionável se algum contato direto pode ser pressuposto. Filo de Alexandria Há muito tempo tem sido sustentado por intérpretes desta Epístola que um fio de pensamento importante no pano de fundo é o helenismo,45 especialmente a variedade do helenismo vista nos escritos de Filo de Alexandria.46 Muita coisa tem sido escrita sobre o relacionamento entre nossa Epístola e os escritos de Filo, e será possível oferecer aqui somente um breve resumo dos pontos salientes. Filo como exegeta é de má fama pelo seu uso da alegorização numa tentativa de tomar o texto do Antigo Testamento relevantes para seus contemporâneos. Seu alvo nisto era fazer os conceitos principais do seu meio-ambiente grego remontarem a fontes judaicas. Para realizar esta intenção apologe’tica, prestava pouca atenção ao contexto histórico. Será imediatamente percebido, no entanto, que embora o escritor desta Epístola às vezes se aproxime de uma tendência alegórica, difere radicalmente de Filo por tratar com seriedade o contexto histórico. A totalidadade do seu argumento cairia por terra se a base histórica fosse negada. Ao discutir a busca dos israelitas pelo “descanso”, nunca sugere que as peregrinações no deserto não foram historicamente relevantes e, na realidade, baseia seu argumento no fato de que os israelitas chegaram a desobedecer a DEUS e foram excluídos da entrada na terra prometida pela descrença . Tanto Filo quanto nosso autor, a despeito dos seus métodos diferentes de exegese, compartilham de uma alta estima pela Escritura. Os dois usam exclusivamente a versão da Septuaginta e introduzem o texto com fórmulas semelhantes de citação. Além disto, há muitas palavras e frases significantes que aparecem tanto nos escritos de Filo quanto nesta Epístola. A relevância dos nomes fica clara em Hebreus 7.2 e este é um tipo de dedução familiar para Filo. Os dois escritores abundam em antítese tais como o contraste entre o terrestre e o celestial (cf. Hb 8.lss.; 9.23- 24), entre o criado e o não-criado (9.11) e entre o que é passageiro e o que é permanente (7.3, 24; 10.34; 12.27; 13.14). Esta predileção pela antítese levantou a questão de se nosso autor, como Filo, dependia da teoria platônica das idéias. Tem havido uma diferença de opinião sobre a resposta a esta pergunta. Alguns têm sustentado que esta teoria domina de tal maneira a Epístola que o autor deve ser considerado um judeu alexandrino que aprendeu sua abordagem do contato com o ensino de Filo. Talvez pareça, superficialmente, que haja alguns paralelos com a teoria platônica que considera o que é visto como irreal, apenas como sombra da realidade por detrás dele. Sem dúvida, boa parte da Epístola está ocupada com o conceito de que o cerimonial é apenas uma sombra da realidade superior que é CRISTO, e à qual a sombra aponta. Mas é questionável se esta idéia remonta à teoria platônica. É melhor explicada pela convicção do autor de que em muitos aspectos CRISTO é melhor do que a velha ordem — um melhor sacerdócio, um melhor sacrifício, um melhor santuário e uma melhor aliança. A abordagem deste autor é mais bíblica do que a de Filo, porque está trabalhando com uma chave diferente. Não se nega com isto a formação helenística do autor, mas, sim, afirma-se que ele não chegou à sua interpretação através da aplicação das idéias helenistas. Mesmo assim, sua formação equipou-o a expressar em formas helenistas aquilo que já deduzira da convicção cristã de que JESUS CRISTO era a chave ao entendimento do Antigo Testamento. O pensamento paulino Ainda dentro da nossa discussão do fundo histórico, devemos aplicar-nos ao problema do relacionamento entre esta Epístola e o pensamento paulino. Já vimos as razões para rejeitar a opinião de que Paulo foi o autor, mas isto não significa que é inconseqüente discutir se o autor tem algum contato com a teologia de Paulo, e se sua abordagem pode ser considerada um desenvolvimento da posição de Paulo. É valioso notar em primeiro lugar os muitos aspectos da teologia de Paulo que são compartilhados pela carta aos Hebreus.47 Certamente a cristologia é bem semelhante. A pré-existência de CRISTO e Seu papel na criação, que é um destaque principal naprocura, assim como Paulo tampouco, explicar o paradoxo; mas não há dúvida de que, para ambos, o lado divino e humano da natureza de CRISTO era uma convicção básica. Embora nossa carta exponha um aspecto da Pessoa e da obra de CRISTO que não ocorre em Paulo, sua cristologia é essencialmente a mesma. Ligada com a auto-humilhação de CRISTO há a idéia da Sua obediência (Rm 5.19; Fp 2.8; Hb 5.8), que para os dois escritores é contrastada com a desobediência doutros homens. Embora Paulo não trate do assunto de CRISTO como sumo sacerdote, retrata Sua obra na figura do sacrifício, e isto fornece uma ligação importante entre os dois autores (cf. 1 Co 5.7; Ef 5.2; Hb. 9.28). Visto que o sacrifício desempenha um papel tão importante em Hebreus, é importante notar que certamente não é uma idéia exclusiva: pelo contrário, era compartilhada pela igreja primitiva como uma maneira de explicar a morte de CRISTO. Outro aspecto comum entre Paulo e Hebreus é a importância ligada à nova aliança (cf. 2 Co 3.9ss.; Hb. 8.6ss.) Os dois demonstram que esta nova aliança é melhor que a antiga. Paulo fala do maior esplendor da nova, embora não negue que a antiga tinha um esplendor todo seu. Hebreus, no entanto, é um pouco mais franco ao declarar que a antiga é obsoleta (Hb 8.13). Não há diferença fundamental entre eles acerca da relevância de uma aliança mediada pelo próprio CRISTO. No seu catálogo dos heróis da fé, o escritor dá a primazia a Abraão. Já o mencionou anteriormente na Epístola com referência aos seus descendentes (2.16); com referência à promessa que DEUS lhe deu (6.13); e com referência ao seu relacionamento com Melquisedeque (7.1-10). Uma alta estima semelhante por Abraão é achada nas Epístolas de Paulo (Rm 4.lss.; 9.7; 11.1; 2 Co 11.22; G1 3.6ss.;4.22). Nesta conexão podemos notar que Hebreus às vezes cita passagens do Antigo Testamento que Paulo também cita, e.g., os dois citam Salmo 8 (Hb 2.6-9; 1 Co 15.27); Deuteronômio 32.35 (Hb 10.30; Rm 12.19); e Habacuque 2.4 (Hb 10.38; Rm 1.17; G1 3.11). As evidências supra bastam para demonstrar que a carta aos Hebreus, embora não tenha sido escrita por Paulo, pertence aos mesmos moldes teológicos. Não seria aceitável forçar uma cunha de separação entre eles, nem supor que Hebreus é um desenvolvimento posterior do paulinismo. É mais verdade dizer que, embora os dois sejam desenvolvimentos distintivos, não estão totalmente divorciados da corrente principal da opinião Cristã primitiva. Outros paralelos no Novo Testamento Resta apenas inquirir se há pontos de contato entre Hebreus e outros livros do Novo Testamento. Alguns têm visto paralelos com a literatura joanina, especialmente com a idéia de JESUS CRISTO como o intercessor em prol do Seu povo.48 A maioria concordaria que João 17 apresenta JESUS em semelhante papel, orando em prol do Seu povo de uma maneira que formaria muito bem um elo com a idéia de JESUS o Sumo Sacerdote intercedendo por Seu povo em Hebreus 7.25. Há força nesta comparação, que acrescenta mais peso ao argumento de que Hebreus tem ligações com as várias correntes da tradição cristã primitiva. Não pode ser afirmado com certeza que o autor de Hebreus conhecia o Evangelho segundo João, mas não está fora dos limites da possibilidade que tinha conhecimento de uma tradição que conservava pelo menos o fato, senão o conteúdo, da oração de CRISTO em prol dos Seus discípulos. O tema intercessório ocorre também em 1 João 2.1-2, onde aparece a idéia de CRISTO nosso Advogado. Â parte da literatura joanina, podemos notar, também, que há algumas semelhanças entre Hebreus e o discurso de Estêvão em Atos.49 Estas têm levado algumas pessoas a concluir que Lucas foi o autor das duas obras. Não obstante, à parte das questões da autoria, é relevante que os dois ressaltam a chamada de Abraão e os dois atribuem importância a um templo não feito por mãos humanas. Há alguma concordância entre Hebreus e Atos 7 na abordagem à história vétero-testamentária e na avaliação dela. À luz da discussão supra, pode haver pouca dúvida de que Hebreus não pode ser divorciada da corrente principal da literatura neotestamentá- ria. Nada há para sugerir que os leitores gerais da literatura cristã primitiva teriam tido dificuldade com a intenção do argumento desta carta, nem podemos supor que não teriam visto relevância nele.
IX. A TEOLOGIA DA CARTA
Não há dificuldade em localizar os temas principais desta carta, mas não é fácil ver como todos se encaixam. Esta é a tarefa principal do teólogo. É baseada na suposição razoável de que o autor não misturou uma massa de temas sem relacionamento entre si, suposição esta que é apoiada pela natureza ordeira da disposição literária. Fica claro que planejou cuidadosamente a sua obra. Sempre que digressões ocorrem na seqüência do seu pensamento, não têm licença de interferir com o desenvolvimento principal do seu argumento. Procuraremos descobrir, em primeiro lugar, se há uma idéia-chave, que explicaria porque o destaque é dado a temas tais como o Filho, o sumo sacerdócio, o sistema sacrificial, e a nova aliança. O que lhes dá unidade? Notamos imediatamente na introdução à Epístola (1.1-3) que o escritor está insistindo na qualidade definitiva da revelação cristã. Tudo quanto DEUS tomou conhecido antes agora é substituído por Sua revelação através do Seu Filho. O fato de que o escritor imediatamente introduz a singularidade do Filho sugere que não tem certeza, de modo algum, de que seus leitores têm esta convicção. Mas não fica imediatamente aparente porque o Filho é introduzido a esta altura, e porque é somente em 2.9 que Ele é identificado como JESUS. Isto não pode ser por acidente, e a razão disto deve fornecer algum indício para a direção do seu pensamento. Não há dúvida que a posição de JESUS como Filho desempenha um papel principal na Epístola como um todo, mesmo naquelas partes que se concentram em JESUS como Sumo Sacerdote. Talvez possamos ver a introdução precoce de JESUS como Filho como uma indicação de que é através dEle que uma nova era nos tratos de DEUS com os homens foi inaugurada. Tudo quanto acontecia na antiga aliança agora foi substituído por uma aliança melhor. São realmente as implicações desta nova aliança que formam o alvo principal da carta. Tomar-se-á aparente que o Filho é a figura-chave na inauguração da nova aliança, o melhor Mediador possível.
O caráter do Filho
Em primeiro lugar, exploraremos o caráter do Filho conforme Ele é demonstrado nesta carta. A apresentação de CRISTO é indubitavelmente de uma natureza exaltada, conforme fica imediatamente aparente nos versículos iniciais, que não somente introduzem o Filho, como também fazem declarações extraordinárias acerca dEle. Podemos resumir a cristologia de modo conveniente sob três aspectos: a pré-existência, a humanidade, e a exaltação do Filho. A pré-existência do Filho é enfaticamente afirmada pelo fato de que se diz que Ele é o agente através de quem todas as coisas foram criadas (1.2). Ele claramente existia antes da criação material. Antecedeu os períodos sucessivos da história do mundo (as eras). Esta cristologia exaltada, portanto, é o ponto principal para o argumento da Epístola. O tema da pré-existência também é apoiado imediatamente pelo caráter do agente na criação — como sendo a glória e a imagem de DEUS — e pelo fato de que Ele continua a sustentar todas as coisas pelo Seu poder. No curso desta Epístola há mais indícios que concordam com este conceito da pré-existência de CRISTO. Na aplicação do Salmo 8 feita pelo escritor em 2.9 há a implicação de que JESUS foi levado a adotar uma posição — menor que os anjos — que não ocupava por natureza. Em 7.3 Melquisedeque é feito semelhante ao Filho de DEUS, não vice-versa, que forçosamente significa que CRISTO era anterior a Melquisedeque. É possível também que 10.5ss. dê testemunho do fato de que na encarnação um corpo foi preparado para o Filho. Parece evidente que, quando o escritor fala em termos da pré-existência do Filho, está pensando no Filho como co-participante da natureza divina. Expressões tais como o resplendor (apaugasma) e a expressão exata (charaktèr) da natureza de DEUS (1.3) bastam para demonstrar este fato. Além disto, o fato de que o Filho desempenha um papel na criação demonstra que desempenha a mesma função que noutras partes da Escritura é atribuída a DEUS. Além disto, diz-se que a sustentação de todas as coisas é “pela palavra do seu poder,” que forma um paralelo com muitas referências ao poder de Javé no Antigo Testamento. Pode ser dito, na realidade, que o argumento inteiro da Epístola depende do fato de que o Filho tem uma posição sem igual em relação a DEUS, que é o sustentáculo da Sua eficácia como Mediador e Intercessor. Demonstra a razão básica para a superioridade de CRISTO como Sumo Sacerdote. Que o escritor não acaba de inventar esta idéia é visto no apoio vétero-testamentário que coleciona no capítulo 1, especialmente a passagem do Salmo 45.6, 7 que atribui em 1.8 a CRISTO, embora as palavras sejam dirigidas a DEUS. Nossa consideração seguinte deve sera humanidade do Filho. Esta decorre diretamente da necessidade da encarnação. Claramente, um Sumo Sacerdote que era divino não poderia representar a humanidade. Para ser um representante verdadeiro, o Filho deve tomar-Se homem. Este fato é compreendido em 2.17, onde o escritor demonstra que o Filho teve de ser feito semelhante aos Seus irmãos a fim de cumprir a função de um Sumo Sacerdote misericordioso e fiel. Se a pré-existência e a natureza divina do Filho são suposições básicas do escritor, assim também é a verdadeira humanidade. Não é sem relevância que o nome de JESUS, que leva consigo alusões à vida humana do Filho, ocorre nove vezes nesta carta. Na maioria das ocasiões em que ocorre fica no fim da cláusula, e, portanto, atrai ênfase adicional (cf. 2.9; 3.1; 6.20; 7.22; 10.19; 12.2; 24; 13.12, 20). Algumas das referências mais claras à vida terrestre de JESUS, fora dos Evangelhos, ocorrem nesta Epístola. A agonia em Getsêmane parece ser diretamente aludida em 5.7ss., onde se mencionam o forte clamor e as lágrimas de JESUS. Os sofrimentos de JESUS são de importância vital para o argumento da Epístola e são mencionados várias vezes. Diz-se especificamente que estes sofrimentos ocorreram “nos dias da sua carne.” O ministério de JESUS é aludido em 2.3. A hostilidade que foi despertada contra Ele é mencionada em 12.3. Eventos tais como a cruz (12.2), a ressurreição (13.20) e a ascensão (1.3) são tomados por certo como sendo conhecimento básico. Além disto, devemos notar aquilo que o escritor diz acerca das atitudes e das reações de JESUS. Por implicação, através de uma citação do Antigo Testamento (Is 8.17-18), diz-se que exerceu fé em DEUS (2.13). Além disto, também é visto como um homem de oração (5.7) e como alguém que demonstrou piedoso temor (5.7). Em seguida, deve ser enfrentada a questão de se o Filho de DEUS ao tomar-Se homem veio a ser um homem caído, e a resposta segundo nosso autor deve, enfaticamente, ser negativa. Duas vezes afirma a impecabilidade de JESUS (4.15; 7.26), ao passo que ao mesmo tempo concorda que JESUS foi tentado em todos os aspectos como nós. Isto demonstra que não considera que a impecabilidade foi o resultado de não ter sido exposto às provações e tensões da vida, mas, sim, a evidência de uma conquista positiva do pecado. Outro aspecto da humanidade de JESUS nesta carta é a ênfase dada à Sua perfeição. Embora o conceito do Seu aperfeiçoamento através do sofrimento (2.10) levante problemas, são diminuídos se é percebido que a idéia da perfeição consiste em completar tim processo. O escritor não pode conceber a totalidade do plano da salvação ficando de pé se JESUS não tivesse sofrido, e vê este fato como parte do processo da consumação. Outra passagem que ressalta o mesmo pensamento é 5.8-9, onde o autor diz que embora JESUS fosse um Filho, aprendeu a obediência. Isto não significa que era relutante em obedecer, ou que houve um tempo em que não era obediente, mas afirma que a experiência de JESUS demonstrou que o Filho era obediente. Foi somente por causa disto que Se tornou a fonte da salvação eterna para todos quantos Lhe obedecem. Há muitas passagens nesta carta que indicam a natureza representativa de JESUS CRISTO, aspecto este que é importante para Ele ser um Sumo Sacerdote eficaz. Diz-se que Ele compartilhou da mesma natureza dos homens a fim de derrotar aquele que mantém os homens na escravidão à morte (2.14). É pela mesma razão que se diz que convinha que JESUS Se encarnasse (2.10). A qualificação principal do sumo sacerdote era ser como seus irmãos (2.17). De nenhuma maneira mais clara o escritor poderia estabelecer sua lição acerca da necessidade da verdadeira humanidade de JESUS. Para ser um representante, tinha de experimentar o que o homem experimenta. Ninguém mais senão um homem verdadeiro poderia ter feito isto. Precisamos passar de uma consideração da Sua humanidade ao tema da exaltação de JESUS. Em pontos estratégicos do argumento, a posição do Filho à destra da majestade nas alturas é mencionada. Encontramos o Filho exaltado primeiramente nos versículos de abertura como se o autor, antes de delongar-se sobre a humilhação envolvida na encarnação, quisesse que seus leitores soubessem acerca da posição exaltada do Filho. Além disto, o fato de que o Filho está assentado demonstra que Sua obra já está completa. O enfoque recai sobre Sua realização após a ressurreição. É o modo do escritor, não somente de referir-se à ascensão, como também de demonstrar as vantagens positivas da missão de CRISTO. Estar assentado numa posição tão exaltada dá ao Filho a posição mais vantajosa para Sua obra de intercessão, embora a obra sumo-sacerdotal não seja realmente mencionada até uma etapa posterior. Antes de passar a discutir a nova aliança no capítulo 8, o escritor mais uma vez lembra aos leitores que nosso sumo sacerdote está assentado à destra de DEUS (8.1). O mesmo se aplica a 12.2, imediatamente antes da passagem sobre a disciplina. Além destas referências à entronização do Filho à destra de DEUS, descobrimos várias descrições do Filho que pressupõem Sua glorificação. É descrito como herdeiro de todas as coisas (1.2), que não aponta simplesmente para a frente para uma herança futura, como também indica aquilo em que Ele já entrou. Há um sentido em que a plena realização, pelo Filho, da Sua herança ainda não foi cumprida até que Ele tenha colocado todos os Seus inimigos debaixo dos Seus pés. Mas diz-se que até mesmo os crentes herdam as promessas (6.12) e algum aspecto da realização presente não pode, no entanto, ser negado ao Herdeiro supremo de todas as coisas. Outro aspecto do Filho é a idéia do precursor, que entra na descrição de JESUS como Sumo Sacerdote em 6.20. Isto é de interesse especial para o escritor, porque está ocupado na carta inteira com a aproximação do homem a DEUS, e serve bem seu propósito demonstrar que JESUS já entrou no santuário celestial. CRISTO como precursor é imediatamente visto como superior aos sumos sacerdotes judaicos, mas esta superioridade é um tema que ocupa o escritor em várias seções da Epístola. Era claramente de grande importância para ele demonstrar de modo preliminar as vantagens infinitas que CRISTO tinha, por natureza, na Sua obra de Sumo sacerdote. A superioridade do Filho sobre outros Até este ponto, temos concentrado nossa atenção naquilo que a carta diz sobre a natureza do Filho. Agora passamos a notar as várias maneiras em que a superioridade do Filho é ilustrada. Em primeiro lugar ressalte-se a superioridade do Filho aos anjos (1.5-2.9). Talvez não fique evidente, à primeira vista, porque o escritor está interessado em estabelecer este fato. Pode ser suposto que os leitores tinham uma estima especialmente elevada pelos anjos, e que não tinham conseguido apreciar até que ponto nosso Sumo Sacerdote lhes é superior. Parece provável que muitos estavam argumentando que os anjos eram superiores a JESUS CRISTO, e neste caso o problema deles não era que JESUS foi feito, por um pouco, menor que os anjos, mas que Ele sempre foi superior a eles. O fato de que esta comparação com os anjos fornece o impacto principal dos capítulos 1 e 2 demonstra a importância que o autor deu à comparação como um todo. Mas depois passa a superioridade do Filho a Moisés. Fá-loem 3.1-6, onde, tendo comparado Moisés, o fiel que mesmo assim era apenas um servo, com CRISTO como Filho, não tem hesitação em declarar a superioridade deste último. Enquanto desenvolve seu tema de Moisés para incluir as peregrinações dos israelitas no deserto, isto o leva a demonstrar que nosso líder é superior a Josué, que não tinha capacidade de dar descanso ao povo. Este tema de superioridade é desenvolvido ainda mais ao demonstrar que nosso Sumo Sacerdote é superior a Arão. Isto será especialmente demonstrado em nossa seção seguinte sobre o Filho como Sumo Sacerdote. Não somente o escritor demonstra a superioridade de JESUS, por causa das insuficiências da linhagem arônica com seus sacrifícios constantemente repetidos e sua sucessão, sempre em mudança, de sacerdotes, como também porque pertencia à ordem superior de Melquisedeque. Na realidade, o tema de Melquisedeque é introduzido principalmente para demonstrar uma alternativa viável para a ordem do sacerdócio, que ao mesmo tempo seria superior. Para aqueles que reverenciam o sacerdócio arônico como o único meio legítimo de aproximação a DEUS, a demonstração da superioridade de CRISTO a Arão seria uma linha indispensável de argumento. O Filho como Sumo Sacerdote Embora este tema seja de interesse primário ao escritor, não o introduz imediatamente. Na realidade, apresenta-o paulatinamente a fim de levar seu argumento para um clímax. É mencionado quase incidentalmente em 2.17 e 3.1, e depois não é aludido outra vez até 4.14. Mesmo então o tema é tocado brevemente a fim de introduzir o tema de Melquisedeque, para ser adiado mais uma vez pela digressão acerca da apostasia, que depois leva a uma volta do tema em 6.20. Este modo um pouco truncado de tratar do assunto não pode ser acidental e deve, portanto, ter o propó­ sito de concentrar a atenção do leitor na sua suprema importância. Nas referências iniciais, certos aspectos são ressaltados de passagem. O Sumo Sacerdote tinha de ser como seus irmãos (2.17); tinha de ser misericordioso e fiel (2.17); tinha de fazer expiação pelos pecados do povo (2.17); acima de tudo, tinha de saber simpatizar-se com o povo que representava (4.15). Na primeira passagem mais extensa em 5,lss., a qualificação principal ressaltada é a de ser nomeado por DEUS. O escritor não tem dúvida de que JESUS, o Filho, preenche todos os requisitos mencionados supra. O fato de que JESUS é visto, em razão destas qualidades, como sendo elegível para o cargo de Sumo Sacerdote leva para a discussão principal acerca de Melquisedeque, porque sejam quais forem as qualidades que possuía, a JESUS faltava uma qualificação essencial para a elegibilidade ao sacerdócio arônico: pertencia à tribo de Judá, não de Levi. Não havia maneira, portanto, de sustentar que JESUS era um Sumo Sacerdote do tipo levítico. Se haveria de ser um Sumo Sacerdote, teria de ser de um tipo diferente, e a inspiração do escritor leva-o a identificar essa nova ordem de sacerdócio com a de Melquisedeque. Provavelmente fora levado a esta idéia pela declaração explícita do Salmo 110.4, que depois o levou de volta para a referência original em Gênesis 14.17-20. Visto que sabemos que havia especulações acerca de Melquisedeque na literatura de Cunrã, não é impossível que os leitores talvez já tivessem sido preparados na questão de Melquisedeque, embora o autor levante questões e aplique a idéia de uma maneira totalmente nova. Os aspectos específicos do sumo-sacerdócio de Melquisedeque que o autor ressalta podem ser resumidos de forma breve com os seguintes títulos. Em primeiro lugar: é diferente do de Arão. A diferença não reside simplesmente na sua superioridade. Nem se acha nas funções sacerdotais, porque pela sua definição a função do sacerdote é agir em prol de DEUS diante dos homens e em prol dos homens diante de DEUS. Tanto Arão quanto Melquisedeque fizeram assim. Mas onde Melquisedeque difere radicalmente de Arfo é na ordem à qual pertence. A ordem de Melquisedeque forma uma classe separada. É diferente por basear-se numa qualidade diferente de vida (o poder de uma vida indestrutível, 7.15, 16). Em segundo lugar, notamos que a ordem de Melquisedeque é eterna. Seu sacerdócio é “para sempre” e, portanto, não está sujeito às muitas limitações que afetavam os sacerdotes arônicos. Este elemento eterno é desenvolvido de modo estranho a partir do silêncio do relato de Gênesis em relação ao começo ou ao fim da vida de Melquisedeque. Mas o escritor está convicto de que a Escritura tem a intenção de apoiar esta qualidade permanente. Em terceiro lugar, a ordem de Melquisedeque é real. Não somente o relato de Gênesis chama Melquisedeque de rei de Salém, como também acrescenta a interpretação “rei de paz.” A lição principal é que, diferentemente da ordem de Arão, existe outra que é real. Fomece-se, assim, outro aspecto que demonstra a superioridade desta última. Melquisedeque, de modo muito mais eficaz do que Arão, fornece um “tipo” para o sacerdócio real de CRISTO. Em quarto lugar, podemos notar que a ordem de Melquisedeque é imutável. Está em forte contraste com o pessoal que está sendo constantemente trocado na ordem de Arão. Disposições tinham de ser feitas para a continuidade de uma linhagem de sucessão, de modo que quando um sumo sacerdote morria, outro era levantado para tomar seu lugar. Semelhante mudança constante não era necessária na ordem de Melquisedeque. Vê-se, em tantos aspectos, que a ordem de Melquisedeque é superior à de Arão que se pode até estranhar porque nenhum uso eficaz tinha sido feito da idéia nos séculos intervenientes entre Melquisedeque e CRISTO. A razão deve ser que Melquisedeque somente recebe a atenção que lhe toca quando é visto o antítipo. Noutras palavras, Melquisedeque obtém sua relevância através de Gristo, e não vice-versa. Na realidade, diz-se que o pró­ prio Melquisedeque é feito semelhante ao Filho de DEUS. A obra do Filho como Sumo Sacerdote No pano de fundo de nosso Sumo Sacerdote segundo a ordem de Melquisedeque, o escritor pensa no serviço que realiza e é especialmente influenciado pelo ritual seguido na ordem em Levítico sobre o Dia da Expiação. Este era o dia mais significativo para o sumo sacerdote arônico, porque era o dia em que ele, e somente ele, tinha licença de entrar no SANTO dos Santos. Era-lhe necessário levar lá para dentro o sangue sacrificial como expiação a ser aspergido sete vezes sobre o propiciatório (Lv 16). Esta idéia sacrificial fornece uma ilustração notável do significado da morte sacrificial de CRISTO. O fato de que o escritor entre em pormenores ao descrever o SANTO dos Santos (9.1 ss.) demonstra que para ele, havia uma estreita conexão entre o ritual arônico e o sacrifício que CRISTO fez de JSi mesmo. O ritual levítico era considerado uma “figura e sombra” (8.5) do santuário celestial. O pensamento passa do tabernáculo terrestre para o celestial. Mas não somente é diferente a localização da oferta, como também a própria oferta é de um tipo diferente. O Sumo Sacerdote, de modo totalmente sem precedentes, oferece a Si mesmo. Não preocupa o escritor o fato da analogia do Antigo Testamento ser rompida, porque o sacrifício que CRISTO fez de Si mesmo é o clímax da sua exposição e imediatamente toma a obra sumo-sacerdotal de CRISTO totalmente sem igual. Em 9.14 afirma que CRISTO Se ofereceu pelo ESPÍRITO eterno, o que destaca este sacrifício como algo incomparável ao ser colocado lado a lado com o derramamento do sangue de animais indefesos. Demonstra, também, que o sangue de CRISTO pode purificar a consciência, o que as ofertas levíticas não podiam fazer. De suprema importância para o escritor é a eficácia da morte sacrificial de CRISTO. Enfatiza várias vezes que foi de “uma vez por todas” (7. 27; 9.12, 26; 10.10). Nunca houve questão alguma de uma repetição. Seria totalmente inconcebível que semelhante oferta pudesse chegar a ser inadequada, nem seria inteligível a repetição de semelhante sacrifício (cf. 9.26). O escritor está convicto de que a qualidade sem igual do cristianismo achase no ato central de CRISTO ao dar-Se como oferta na cruz pelos pecados do Seu povo. Boa parte da seção 8.1-10.18 é ocupada com a demonstração do sacrifício superior que CRISTO ofereceu. Em nenhum outro lugar do Novo Testamento o aspecto sacrificial da obra de CRISTO é ressaltado com tanto impacto. Qualquer doutrina da expiação que se baseia no Novo Testamento deve levar plenamente em conta o testemunho desta Epístola acerca do significado do sangue de CRISTO. Há certos resultados do sacrifício que CRISTO fez de Si mesmo que são ressaltados, os quais dizem respeito à aplicação da Sua obra. Em primeiro lugar, notamos a purificação pelos pecados, que não somente aparece na introdução de 1.3, como também volta a ocorrer noutras ocasiões (cf. 9.23; 10.2-3). A remoção da culpa do pecado que é integral à idéia da expiação é um interesse especial desta Epístola. O escritor está confrontado com o fato de que a antiga ordem levítica não poderia remover os pecados (10.4), mas está convicto de que aquilo que falta na velha ordem tem ampla cobertura na nova, através de CRISTO. O tema da purificação chega ao seu clímax em 10.22, onde os leitores são exortados a aproximar-se de DEUS porque seus corações foram purificados da má consciência (cf. 9.14). Em segundo lugar, descobrimos que o tema da perfeição é ressaltado. Diz-se que CRISTO, “com uma única oferta aperfeiçoou para sempre quantos estão sendo santificados” (10.14). Este é outro aspecto da superioridade da oferta de CRISTO, porque a lei não podia aperfeiçoar coisa alguma (7.19). Deve ser notado, no entanto, que este aspecto da obra de CRISTO não dá apoio algum à teoria da perfeição impecável. O tema da perfeição em Hebreus forma um paralelo com a doutrina de Paulo da justificação, embora seja abordada de um ângulo diferente. Em terceiro lugar, o conceito da santificação precisa de mais ênfase, porque ocorre não somente na passagem que acaba de ser citada (10.14) como também em 2.11; 10.10, 29; 13.12. A santificação e a purificação também estão estreitamente vinculadas entre si, mas a primeira está especificamente ocupada com a separação para um propósito santo, para a qual um processo de tomar-se santo é indispensável. É importante, no entanto, notar que nas referências mencionadas supra não é o indivíduo que santifica a si mesmo. Esta é a obra de DEUS mediante CRISTO. Esta ênfase dada à santificação demonstra que, embora o oferecimento de CRISTO seja de uma vez por todas, Sua obra em prol dos homens não deixa de ser contí­ nua, como também é Sua obra de intercessão (4.15; 7.25). A inauguração da Nova Aliança, feita pelo Filho Nenhum panorama da teologia de Hebreus, no entanto, por breve que seja, estaria completo sem alguma menção da Nova Aliança. Visto que no âmago do memorial à morte de CRISTO na Ceia do Senhor, há referência à Nova Aliança, o ensino desta Epístola sobre o tema tem relevância especial. Embora o escritor declare que a antiga é obsoleta (8.13), há alguma continuidade entre a antiga e a Nova. A antiga, como a Nova, foi ordenada por DEUS. Era a provisão de DEUS para Seu povo. Imediatamente depois de mencionar o caráter obsoleto da Antiga Aliança, o escritor passa a falar com apreço evidente acerca da mobília do centro do culto segundo aquela aliança (9.1ss.). Além disto, tanto a antiga aliança quanto a nova eram providências da graça de DEUS para aqueles que não podiam fazer qualquer providência para si mesmos. Os que recebiam a Nova Aliança não tinham maiores reivindicações sobre DEUS do que os que tinham recebido a antiga. A maior significância da Nova não dependia de um acordo entre DEUS e um povo melhor. É superior somente por ter um Mediador melhor. É baseada numa remoção mais eficaz dos pecados. A citação extensa de Jeremias 31:31-34 em Hebreus 8.8-12 chama a atenção ao caráter interior da Nova Aliança. Seus resultados, portanto, serão de uma alta ordem ética. Quando as leis de DEUS estiverem escritas nos corações dos homens, serão desenvolvidas nas vidas dos homens. Este caráter interior, no entanto, demarca a Nova Aliança como sendo claramente superior à antiga. O que, então, o escritor pensa da aplicação do seu debate bastante teológico acerca da natureza do Filho, do Sumo Sacerdote e do sistema sacrificial? Quando chega à conclusão desta parte da sua carta, faz uma exortação tríplice em 10.19-25, que demonstra que tem uma abordagem nitidamente prática. 10.22 menciona a fé, 10.23 se refere à esperança, e 10. 24 ao amor. Estas três respostas resumem a reação do cristão a tudo quànto CRISTO fez (cf. o tratamento de Paulo das mesmas três qualidades em 1 Co 13). Além destas exortações específicas, o escritor dedica um capítulo inteiro (11) a ilustrações de fé. Além disto, faz seus leitores entenderem que sua nova posição não os absolveria da necessidade da disciplina (12). Há, na realidade, um equilíbrio perfeito nesta Epístola entre a doutrina e a vida prática, o que a toma valiosa e relevante não somente para os leitores originais, como também para seus equivalentes modernos. É dentro do contexto da nova aliança que as advertências contra a apostasia (2.14; 6.1-8; 10.29) têm relevância. Virar as costas contra uma aliança tão maravilhosa seria o equivalente de recrucificar o Filho de DEUS; importaria na rejeição total do cristianismo. Estas passagens não devem ser isoladas da Epístola como um todo. Visam advertir contra as graves conseqüências de rejeitar as graciosas providências de DEUS. O escritor faz muito caso do conceito de fé, e é importante comparar seu ensino sobre o assunto com outros escritores do Novo Testamento, especialmente com o apóstolo Paulo. A declaração em 11.1 de que a fé é a certeza de coisas que se esperam, a convicção de fatos que se não vêem, demonstra que a idéia principal é uma estreita conexão entre a fé e a esperança. Este é, sem dúvida alguma, o aspecto mais distintivo dos heróis da fé alistados no capítulo 11. Estes grandes homens do passado olhavam para o futuro. Percebia-se que a base das suas proezas era confiar em DEUS que transformaria suas aflições presentes em vitória final. Há, portanto, uma estreita conexão entre a piedade vétero-testamentária e a fé em 52
DEUS. A fé fornecia a confiança em DEUS que era tio necessária nos tempos de aflição de Israel. Enquanto o escritor contempla a história do passado, não é inconsciente da existência da descrença, conforme demonstra tão vividamente nos capítulos 3 e 4. Precisamos, no entanto, inquirir de quais maneiras o escritor ressalta o aspecto especificamente cristão da fé. Claramente, CRISTO fez uma diferença. Ele é descrito como o Autor da nossa fé, bem como seu Consumador (12.2). Os leitores são exortados a olhar para Ele. Esta qualidade cristocêntrica da fé é um desenvolvimento da confiança vétero-testamentária em DEUS. As recompensas da fé, no entanto, devem ser compartilhadas igualmente pelos fiéis da antigüidade e pelos crentes cristãos do presente (cf. 11.40). É digno de nota que há uma ausência do conceito paulino característico da fé como um compromisso pessoal com CRISTO. Não se quer dizer com isto que este escritor propõe uma outra maneira de apropriar-se dos benefícios da salvação além da fé. Toma-a por certo, porém, ao invés de fazer uma exposição dela. Está preocupado com a compreensão daqueles que já se tomaram participantes do ESPÍRITO SANTO (6.4). Deseja assegurarse de que eles permaneçam firmes (cf. 3.6; 10.23). Conclusão Não podemos concluir melhor este breve esboço do ensino principal da Epístola senão por meio de chamar a atenção à oração magnífica com que a própria Epístola termina (13.20-21). Resume a estreita conexão entre os aspectos doutrinários e ético do tema inteiro. Menciona a natureza de DEUS (o DEUS da paz), a ressurreição de CRISTO, a função de CRISTO (Pastor), o sangue da aliança, e a aplicação prática (“para cumprirdes a sua vontade, operando em vós o que é agradável diante dele”). É tanto uma oração quanto uma declaração, numa só sentença.
 
ANÁLISE
I. A SUPERIORIDADE DA FÉ CRISTÃ (1.1-10.18)
A. A REVELAÇÃO DE DEUS ATRAVÉS DO FILHO (1.14)
B. A SUPERIORIDADE DO FILHO AOS ANJOS (1.5-2.18) (i) CRISTO é superior na Sua natureza (1.5-14) (ii) Uma exortação contra o desvio (2.14) (iii) A humilhação e a glória de JESUS (2.5-9) (iv) Sua obra em prol dos homens (2.10-18)
C. A SUPERIORIDADE DE JESUS A MOISÉS (3.1-19) (i) Moisés o servo e JESUS o Filho (3.1-6) (ii) Enfoque sobre o fracasso do povo de DEUS sob Moisés (3.7-19)
D. A SUPERIORIDADE DE JESUS A JOSUÉ (4.1-13) (i) O descanso maior que Josué não podia obter (4.1-10) (ii) A urgência em buscar o descanso (4.11-13)
E. UM SUMO SACERDOTE SUPERIOR (4.14-9.14) (i) Nosso grande Sumo Sacerdote (4.14-16) (ii) A comparação com Arão (5.1-10) (iii) Um interlúdio desafiador (5.11-6.20) (iv) A ordem de Melquisedeque (7.1-28) (v) O ministro da Nova Aliança (8.1-13) (vi) A glória maior da nova ordem (9.1-14)
F. O MEDIADOR (9.15-10.18) (i) O significado da Sua morte (9.15-22) (ii) Sua entrada num santuário celestial (9.23-28) (iii) Seu oferecimento de Si mesmo em prol doutros (10.1-18)
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A. A POSIÇÃO PRESENTE DO CRENTE (10.19-39) (i) O novo e vivo caminho (10.19-25) (ii) Outra advertência (10.26-31) (iii) O valor da experiência passada (10.32-39)
B. A FÉ (11.1-40) (i) Sua natureza (11.1-3) (ii) Exemplos do passado (11.4-40)
C. A DISCIPLINA E SEUS BENEFÍCIOS (12.1-29) (i) A necessidade da disciplina (12.1-11) (ii) Evitando a inconsistência moral (12.12-17) (iii) Os benef/dos da nova aliança (12.18-29)
D. CONSELHOS FINAIS (13.1-25) (i) Exortações que afetam a vida social (13.1-3) (ii) Exortações que afetam a vida particular (13.4-6) (iii) Exortações que afetam a vida religiosa (13.7-9) (iv) Acerca do novo altar do cristão (13.10-16) (v) Palavras finais (13.17-25)
 
COMENTÁRIO
 I. A SUPERIORIDADE DA FÉ CRISTÃ (1.1-10.18)
Os cristãos que tinham vindo de um passado judaico naturalmente comparariam sua fé recém-achada com a riqueza da sua herança tradicional judaica. Esta carta se propõe a demonstrar-lhes a maior riqueza da sua posição cristã. A cada etapa do argumento a nota tônica é que sua nova fé é melhor. Embora a direção deste argumento teria valor especial para ex-judeus que se tomaram cristãos, o tema da superioridade da fé cristã teria relevância também para aqueles que foram convertidos de um passado pagão, tendo em vista o fato de que os crentes gentios bem como os crentes judeus aceitavam a autoridade das Escrituras do Antigo Testamento e precisariam de uma interpretação verídica das mesmas.
A. A REVELAÇÃO DE DEUS ATRAVÉS DO FILHO (1.1-4)
Nesta breve seção introdutória, a revelação de DEUS através do Seu Filho é vista não somente como superior mas também como definitiva. Levado em conta que semelhante revelação conclusiva requer um meio muito especial, o escritor introduz seus leitores à natureza superior do Filho e também liga o que Ele é com o que Ele tem feito.
1. A carta começa com uma declaração de um fato, a saber: que DEUS tem falado.
Pelo menos o escritor não vê necessidade alguma de demonstrar este fato. Não comprova que DEUS fala, afirma. Isto significa que a carta não tem relevância para aqueles que não aceitam que DEUS falou ao homem? A resposta deve ser sim. A fé não somente na existência de DEUS, bem como na comunicação de DEUS, são tomadas por certas. É um dos princípios sobre os quais baseia-se a totalidade do argumento da carta. É inútil ler mais se DEUS não faz revelação alguma aos homens.
A carta oferece, do outro lado, alguma ajuda em prol de uma melhor compreensão daquilo que DEUS tem feito. Outra suposição que o autor faz é que aquilo que aconteceu no passado tem aplicação ao presente. Semelhante suposição seria rejeitada por muitos pensadores contemporâneos. Há, realmente, no mundo secular uma reação contra o passado como se qualquer apelo às suas lições fosse inadmissível. Sempre há, porém, uma seção da sociedade que vive no futuro e está contra o presente e o passado — um tipo de atividade permanentemente contrária à situação em vigor. Mas os mais sábios reconhecem que alguma continuidade é inescapável. Este princípio é básico para o Novo Testamento, e em nenhum lugar é enfocado tão claramente quanto em Hebreus. Aquilo que prende a atenção do escritor é a variedade de maneiras segundo as quais DEUS tem falado no passado. Não as alista, mas usa a expressão muitas vezes, e de muitas maneiras. -Qualquer pessoa com conhecimento do Antigo Testamento imediatamente conseguiria preencher os pormenores — os modos diferentes (visões, revelações angelicais, palavras e eventos proféticos) e as ocasiões diferentes (espalhando-se, por todo o panorama da história do Antigo Testamento). As revelações mais iluminadoras vinham através dos profetas. Estes eram homens levantados por DEUS para desafiar seus próprios tempos. Seu emblema de ofício era a convicção inabalável de que falavam da parte de DEUS. Sua capacidade de dizer: “Assim diz o Senhor,” dava às suas palavras uma autoridade sem igual. Eram maltratados (conforme Hb 11.33ss. demonstra) mas, mesmo assim, persistiam na sua mensagem. As suas histórias formam uma leitura heróica, mas aquilo que diziam era incompleto. O escritor de Hebreus sabia qüe era necessário um método melhor de comunicação, e reconhece que este veio em JESUS CRISTO. Sendo assim, poderíamos querer saber porque o antigo não pode ser esquecido. Afinal das contas, aquilo que JESUS revela é melhor do quê os profetas. Apesar disto, a continuidade é mantida. Aquilo que foi falado outrora (palaij preparou o caminho para a comunicação mais importante de todas (i.é., a revelação pelo Filho). Este é o tema real da carta inteira: o passado cedeu lugar a coisas melhores. É por esta razão que o passado (as idéias religiosas do Antigo Testamento) sempre volta a aparecer no quadro pintado por esta Epístola, para então voltar a desvanecer-se à medida em que idéias melhores o cumprem e o expandem. É fácil perceber porque o escritor começa desta maneira. Vê valor no passado (porque DEUS falou através dele), mas também vê suas imperfeições. O que ele diz não pode deixar de lançar luz sobre a abordagem cristã no Antigo Testamento. Isto toma sua carta valiosa para hoje, e não somente para os tempos dele.
2. Nestes últimos dias pode ser entendido no sentido e ao fim destes dias, que aponta muito claramente para uma crise, uma nova revelação decisiva contrastada tanto com a variedade de modos quanto com a necessidade da repetição no passado.
Uma revelação dada de uma vez por todas é claramente superior. Talvez o escritor estivesse pensando nos últimos dias como sendo os dias finais do período pré-cristão, de modo semelhante à divisão que os mestres judaicos faziam entre a era presente e a era do Messias. Segundo este ponto de vista, visto que os cristãos acreditavam que JESUS era o Messias, os “últimos dias” eram o fim da velha era. Mas tendo em vista a expressão correspondente “ao se cumprirem os tempos” em 9.26, é mais provável que “estes últimos dias” se refira à era cristã, que envolve uma nova era comparada com a antiga. Quando DEUS falou aos homens pelo Filho, o propósito era marcar o fim de todos os métodos imperfeitos. A cortina finalmente descera sobre a era anterior, e a era final agora tinha raiado. Quando, no texto grego, o escritor diz um Filho ao invés de Seu Filho, fá-lo para demonstrar o meio superior usado. Certamente não está dizendo que DEUS tinha mais de um Filho. Está subentendendo que o melhor dos profetas não pode ser comparado com um Filho como meio de revelação. Naturalmente, a idéia do Filho de DEUS vindo aos homens é uma pedra de tropeço para muitos, mas o escritor não defende sua declaração. Não vê necessidade de fazer assim, a despeito do fato de que seus próprios contemporâneos não estariam mais acostumados à idéia do que nós. Os pagãos às vezes pensavam na prole dos deuses, mas esta é uma idéia muito diferente de JESUS como Filho de DEUS. Nosso escritor deve ter tomado por certo que seus leitores reconheceriam esta fato sem questioná-lo. Mas não diz logo de início que está pensando em JESUS. Isso vem mais tarde, em 2.9 Há, naturalmente, um problema de linguagem aqui. Pode ser questionado, no entanto, quão significativa é a idéia do pai-filho com referência a DEUS, por mais valiosa que seja nos assuntos humanos. Mas na tentativa de colocar a verdade divina em linguagem humana, o melhor que se pode fazer é usar a aproximação humana mais à mão; enquanto isto for mantido em mente, esta linguagem fica cheia de sentido. A essência da revelação cristã é que DEUS é melhor visto no Seu Filho. A analogia humana é imperfeita, naturalmente, porque nenhum pai humano é completamente refletido no seu filho. Mas JESUS CRISTO demonstra perfeitamente tudo que possa ser sabido acerca do Pai. Não admira que nosso escritor está impressionado pela superioridade deste tipo de mensagem comparada com os meios usados no passado! Sabe que se os homens não podem aprender do Filho acerca de DEUS, nenhuma quantidade de vozes ou ações proféticas os convenceria. Antes de identificar o Filho esmo sendo JESUS CRISTO, o autor dá uma descrição do Filho. É uma descrição profunda, porque nos conta acerca daquilo que Ele é, e não acerca da Sua aparência. O escritor quer que saibamos em primeiro lugar acerca do relacionamento entre o Filho e o mundo da natureza. É compreensível que ele comece aqui, porque o mundo da natureza é nosso meio-ambiente, nosso lar. Para muitos, esta verdade vai até tal ponto que se sentem presos neste meio-ambiente, e não podem conceber dalguém que seja mais poderoso. O conceito que este autor tem do mundo concorda com aquele que é visto em todas as partes do Novo Testamento. É um conceito que começa com DEUS como Criador e passa a ver JESUS CRISTO como estando estreitamente vinculado com Ele no ato da criação. Desta maneira, o universo impessoal imediatamente se toma pessoal. O escritor declara que DEUS constituiu Seu Filho, que é um ato de iniciativa pessoal aqui (o aoristo grego ethêken deve ser considerado intemporal). A verdade importante nesta passagem é que tudo remonta a DEUS. Por que é dito que DEUS constituiu o Filho herdeiro de todas as coisas? Significa que veio a ser aquilo que não era antes? Os elementos de tempo tendem a confundir. É melhor pensar na ordem criada conforme ela é, e depois ser lembrado de que ela pertence a JESUS CRISTO. É acerca da realidade presente da nomeação que o autor se ocupa, e não acerca de quando foi feita. Na realidade, fica claro que o escritor quer que entendamos que nunca houve um tempo em que o Filho não era o herdeiro. As duas idéias, a Filiação e a qualidade de Herdeiro, estão estreitamente vinculadas entre si. Nos negócios humanos, o filho mais velho é o herdeiro natural. Na analogia, um pensamento mais profundo é introduzido. O herdeiro também é o criador. Não está herdando aquilo com que não tem conexão. Herda aquilo que Ele mesmo criou. O escritor imediatamente nos mergulhou em pensamentos profundos acerca da origem do mundo. Mesmo assim, seu interesse por eles não é teórico mas, sim, prático, e nos faz lembrar dos ensinos de JESUS acerca de DEUS e da criação. É Sua criação, Ele até mesmo nota quando um pardal cai. É consolador saber que o Filho tem o mesmo interesse pessoal no mundo em nosso redor. 0 que esta carta passa a dizer acerca de JESUS CRISTO está claramente baseado num alto conceito dEle. A declaração de que DEUS fez o universo por meio do Filho é estonteante. Não se pode negar que DEUS poderia ter feito o universo à parte do Seu Filho, mas o Novo Testamento esmera-se em demonstrar que DEUS não agiu assim. Os cristãos estavam convictos que a mesma Pessoa que vivera entre os homens foi Aquele que criara os homens. Uma carta tal como Hebreus, escrita a partir desta convicção, não poderia deixar de apresentar um quadro mais do que humano de JESUS CRISTO. É digno de nota que este escritor usa a palavra para “eras” (aiõnes) e não a palavra usual para mundos (kosmoi) quando fala acerca dos atos criadores de DEUS. A razão é que a palavra para “eras” é mais compreensiva, e que inclui em si mesma os períodos de tempo através dos quais a ordem criada existe. Quanto mais a ciência descobre acerca do universo, tanto mais maravilhoso é o pensamento de que CRISTO é o agente através de quem foi criado. Os racionalistas podem argumentar que as descobertas científicas tomam insustentável a cosmovisão do Novo Testamento, mas o cristão declara o inverso. Quanto maior for a compreensão do homem das maravilhas do universo, tanto maior a necessidade de uma compreensão adequada da sua origem. A crença num Criador pessoal não é menos crível à medida em que aumenta a penetração do homem no espaço.
3. Tendo já mergulhado seus leitores em pensamentos teológicos profundos, o escritor ainda vai mais fundo enquanto comenta sobre CRISTO e DEUS.
Qual é o relacionamento entre eles? Como resposta, três coisas nos são ditas; a primeira pode ser resumida como o Filho e a glória de DEUS. Ele ê o resplendor da glória de DEUS. Para compreender esta declaração, precisamos recaptar o fundo histórico do pensamento. A idéia é a da radiância que irrompe de uma luz brilhante. É um quadro marcante, como o surgimento repentino de uma aurora gloriosa no levantar do sol. Os raios penetram em todos os restinhos da escuridão para espatifá-la. Até mesmo este quadro explica de maneira pobre o sentido em que JESUS CRISTO reflete a glória de Seu Pai, porque os raios de luz, por mais esplêndidos que sejam, são, afinal das contas, impessoais. Talvez alguns dos leitores tenham se lembrado de que no Livro da Sabedoria (7.26), judaico, a mesma palavra foi aplicada à sabedoria, considerada personificada. De qualquer maneira, nosso escritor quer que saibamos que a glória de DEUS podia ser vista em JESUS CRISTO.s Uma idéia semelhante aparece em João 1.14, onde uma testemunha ocular declara ter visto a glória. Isto somente pode querer dizer que a totalidade do ministério de JESUS era evidência da glória de DEUS. João chega mesmo a dizer isto acerca do primeiro milagre que JESUS operou (Jo 2.11). Era claramente uma convicção firme entre os cristãos primitivos de que, dalguma maneira, a glória de DEUS era vista numa vida humana. A ocasião mais óbvia foi quando JESUS foi transfigurado, mas Sua missão inteira, inclusive Sua morte, era gloriosa para aqueles que vieram a crer nEle. Refletir a glória de DEUS desta maneira pressupõe que o Filho compartilha da mesma essência do Pai, e não somente da Sua semelhança. A segunda declaração acerca do Filho é que é a expressão exata do seu Ser. Isto vai consideravelmente além da primeira declaração, embora seja vinculada a ela. Isto ressalta especificamente o fato de que Aquele que reflete a glória de DEUS compartilha da Sua natureza. A palavra usada aqui para “expressão exata” (charaktêr) é a palavra para um carimbo ou uma gravação. É altamente expressiva, porque um carimbo num selo de cera terá a mesma imagem que a gravura no selo. A ilustração não pode ser forçada longe demais, porque não deve ser suposto que o Filho é formalmente distinto do Pai como o carimbo é diferente da impressão que produz. Há, apesar disto, uma correspondência exata entre os dois. Esta declaração em si mesma contém uma verdade profunda, porque a semelhança exata tem relacionamento com a natureza de DEUS (hypostaseòs). A declaração não é sem importância para o pensador teológico, porque apóia a opinião de que JESUS era da mesma natureza de DEUS. Se for assim, nenhuma diferença pode ser feita entre a natureza do Pai e a natureza do Filho. O escritor rapidamente mergulhou seus leitores na teologia profunda, mas não pára a fim de discuti-la. Toma por certo que seus leitores aceitarão sem questionar este conceito de JESUS CRISTO. A terceira declaração diz respeito ao papel presente do Filho na criação. É dito que sustenta todas as coisas pela palavra do seu poder. Duas perguntas surgem imediatamente. Em que sentido devemos compreender o sustentar, e de que maneira a palavra transmite poder? A palavra para “sustentando” (pheròn) tem o sentido de manter no alto ou sustentar, o que demonstra que JESUS CRISTO é visto no centro da estabilidade constante do universo. Não há lugar aqui para a idéia do deísta acerca de DEUS como relojoeiro que, tendo feito um relógio, deixa-o funcionar sozinho com seu próprio mecanismo. O conceito neotestamentário é que DEUS como Criador e o Filho como agente na criação estão dinamicamente ativos na ordem criada. Mas como o Filho exerce o Seu poder?6 Deve ser notado que a palavra seu (autou) podia referir-se ao poder do Filho òu ao poder do Pai, mas isto faz pouca diferença à interpretação. A palavra relembra a palavra de oídem de DEUS na criação (e.g. “Haja luz”) e a idéia em João 1.1-3 de que todas as coisas foram feitas pela Palavra (JLogos), termo este [traduzido “Verbo” ] que se refere ao próprio JESUS CRISTO. Da mesma maneira que a Palavra criou, a Palavra sustenta. A estabilidade assombrosa da ordem criada é testemunha do “poder” por detrás dela. Depois desta série de ditos grandiosos acerca de JESUS CRISTO, o escritor dá um indício do tema predominante da sua carta. A purificação dos pecados é uma busca religiosa que já durou muitas eras. Sempre que há qualquer consciência do pecado, geralmente está presente um forte desejo de ser purificado dele. As várias tentativas humanas de obter semelhante purificação apresentam um amplo espectro de idéias, desde os mais desesperados esforços-próprios até à supressão de todos os esforços e até mesmo de todos os desejos. A maioria dos sistemas começa com o homem e depende da força da vontade dele mesmo. De má fama entre tais sistemas correntes nos tempos de JESUS era o dos fariseus que geralmente faziam das boas obras e do esforço-próprio a medida da devoção religiosa. A idéia de que os pecados poderiam ser purificados sem semelhante esforço lhes era estranha. Certamente, a idéia de que JESUS CRISTO podia purificar os pecados era considerada incrível. JESUS viu-Se confrontado com este conceito quando perdoou o pecado de um homem, e Lhe foi dito que somente DEUS podia perdoar os pecados. Mas nesta carta a idéia vai mais longe do que o perdão, porque a purificação envolve a limpeza, no sentido de tornar puro. É estranho que o escritor desta carta não dê indício algum a esta altura acerca da maneira em que JESUS CRISTO purificou os nossos pecados. Nada há para mostrar como ele lidou com o pecado, ainda que, à medida em que a carta prossegue, este fato fica sendo cada vez mais claro. Parece que a esta altura é suficiente para ele mencionar um ato completado (o tempo aoristo (poièsamenos) exige assim7) para resumir o que o Filho fez em prol dos homens. A ligação entre a idéia de sustentar o universo com a de purificar os pecados é muito notável. A qualidade remota a inspiradora de temor de sustentar o universo é contrabalançada pela intimidade da purificação dos pecados. Com uma tela tão grande quanto o universo para pintar, é notável achar a mínima menção dos pecados. Mas é este último tema que dominará a carta inteira. Deve ser mantido em mente que o Antigo Testamento demonstra que providências foram feitas para a expiação mediante o sacrifício, e visto que esta carta é endereçada a “Hebreus” pressupõe-se, sem dúvida, que os leitores vinculariam a “purificação” com o Dia da Expiação, quando, então, enfatizava-se que a purificação dos pecados do povo somente poderia ser feita mediante o sacrifício. O escritor demonstra mais tarde que o sangue de touros e de bodes não pode remover pecados (10.4). Por enquanto, contenta-se com o resumo o mais conciso possível. Depois de tratar dos pecados, o Filho sobe ao trono. Mais uiha vez, a ação é específica. Aconteceu depois do evento de purificar os pecados, o que sugere que a importância da entronização acha sua chave no ato da purificação.8 Mais uma vez, trata-se de um resumo brevíssimo. A mão direita era tradicionalmente o lugar de honra. A idéia aqui é tirada da prá­ tica dos reis orientais de associar com eles mesmos o herdeiro no exercí­ cio do governo. Apesar disto, a idéia do Messias estar assentado à direita de DEUS provém do Salmo 110.1. A associação deve ter estado na mente do autor, porque várias vezes cita este Salmo mais tarde na Epístola. Realmente, pode ser dito que este Salmo forma uma parte importante do pano de fundo da carta inteira. Evidentemente, o escritor tinha meditado sobre ele, porque é dele que desenvolve a idéia de uma ordem diferente de sacerdócio. Para o momento, no entanto, tem outras coisas em mente antes de chegar àquele assunto. O ato de sentar-se (assentou-se, ekathisen, aoristo) leva consigo um forte sentido de realização, porque a posição assentada é mais sugestiva de uma tarefa acabada do que uma posição em pé. Na realidade, esta ênfase no CRISTO assentado, que é apoiada por outras evidências neotestamentárias, demonstra conclusivamente que a obra sacrificial está feita. Já não há necessidade alguma de semelhante sacrifí­ cio. A posição sentada também pode denotar uma posição de alta honra.9 Há apenas uma referência a CRISTO em pé no céu: quando Estêvão viu o Filho do homem no céu, viu-0 em pé à direita de DEUS (At 7.56). Isto refere-se à Sua obra de intercessão, não à Sua obra de sacrifício. O pecado já foi tratado, mas o povo de DEUS ainda precisa de um intercessor pra pleitear por ele — o que é outro tema desenvolvido posteriormente nesta carta. Vale a pena notar que a Majestade nas alturas é uma maneira especialmente respeitosa de falar acerca de DEUS. Reflete a reverência judaica para com o nome de DEUS que levou os judeus devotos a evitar o seu uso e a colocar no lugar dele alguma frase de respeito. O escritor usa uma frase quase idêntica em 8.1. A presente declaração é apenas uma indicação da exposição mais completa que está para seguir. O escritor claramente tem um conceito majestoso de DEUS.
4. Este versículo cumpre dois propósitos: conclui a declaração introdutória e prepara o cenário para a primeira seção principal.
Tendo em vista tudo que já foi dito, a superioridade do Filho aos anjos não é surpresa alguma. Mas não fica tão claro por que a comparação é feita com anjos a esta altura. Pode ser que o escritor tinha meditado sobre as passagens do Antigo Testamento que passa a citar, com interesse especial pelo Salmo 8 (citado no cap. 2) e no Salmo 110, porque os considerava messiânicos. Do outro lado, é possível que a idéia da superioridade de CRISTO aos anjos lhe tenha ocorrido primeiro, e que as passagens relevantes tenham, então, surgido na sua mente. Esta última sugestão é provável, tendo em vista o grande interesse que os judeus tinham pelos anjos. É compreensível que, numa época em que os anjos eram tidos em alta estima, o escritor desejasse demonstrar que DEUS agora falara através do Seu Filho de uma maneira muito mais eficaz do que através deles. O homem moderno não tem tanta certeza acerca dos anjos, e a relevância desta passagem requer alguma discussão. Os anjos aparecem várias vezes nas histórias dos Evangelhos, e não se pode negar que os evangelistas consideravam estes seres sobrenaturais como seres reais. Na realidade, JESUS mesmo falou dos anjos da guarda dos filhos. Boa parte da crítica moderna dispensa os anjos ao chamá-los de seres mitológicos, i.é, algum tipo de personificação das mensagens de DEUS. Se esta opinião fosse certa, haveria pouca relevância na discussão da superioridade do Filho aos anjos, a não ser para demonstrar a ineficácia dos seres mitológicos. Mas se há dimensões espirituais representadas por anjos que não podem ser consideradas no mesmo nível da experiência natural, fica sendo imediatamente relevante definir a posição do Filho nestas esferas espirituais. O homem de fé pode às vezes penetrar nas esferas que estão bloqueadas para muitos por causa da sua descrença. O “anjo” no Novo Testamento é invariavelmente um mensageiro de DEUS e é este aspecto que é importante para o presente argumento do escritor. Concentra-se primeiramente no nome, que outra vez é surpreendente. O ditado moderno: “O nome não importa” certamente não era aplicá­ vel então, porque os nomes eram mais do que um meio de distinguir as pessoas; eram o meio de dizer algo acerca daquelas pessoas. O nome descrevia a natureza. Mas qual é o nome que Ele herdou? Visto que JESUS já foi introduzido como o Filho, idéia esta que é o tema das citações do Antigo Testamento que se seguem, fica claro que o nome mais excelente é o de Filho, que subentende o relacionamento mais estreito e mais íntimo. Visto que para o mundo daqueles tempos o nome de “anjo” era tão altamente honrado como símbolo de mensageiro divino, é possível que alguns estivessem chamando JESUS CRISTO pelo nome de “anjo” e fazendo-O não mais alto do que os seres espirituais que, segundo se acreditavam, influenciavam os negócios dos homens. A idéia dEle como Filho é muito mais sublime. Claramente, o cristianismo teria tido um caráter bem diferente se a posição de JESUS não tivesse sido mais alta do que a de um anjo. Os leitores podem ter pertencido a um grupo semelhante àquele em Colossos que realmente estava adorando anjos (Cl 2.18), ou a um grupo que anteriormente estivera sob a influência de Cunrã, onde os anjos eram altamente respeitados. Era essencial para o evangelho cristão ser libertado deste tipo de abordagem. A excelência do nome dado a JESUS CRISTO é achada também em Filipenses 2.9ss., onde é considerado um sinal de honra sublime.
 
B. A SUPERIORIDADE DO FILHO AOS ANJOS (1.5-2.18)
Os leitores judeus certamente devem ter tido alta estima pelos anjos e o escritor considera necessário demonstrar a superioridade de CRISTO a estes mensageiros celestiais reverenciados. 0 caráter glorificado de CRISTO pressupunha Sua superioridade aos anjos, mas um problema surgiria acerca da Sua humanidade. Nesta seção, o escritor leva seus leitores a reconhecer porque JESUS tinha de tomar-Se um homem verdadeiro a fim de ser eficaz como Sumo Sacerdote em prol dos homens, função esta que nenhum anjo poderia cumprir.
(i) CRISTO é superior na Sua natureza (1.5-14)
5. Agora começa uma lista de citações do Antigo Testamento que se propõem a demonstrar a extensão da superioridade do Filho.
O escritor não usa suas citações exatamente da mesma maneira como o contexto original. Por exemplo, toma palavras que originalmente se aplicavam a um rei israelita e aplica-as a JESUS CRISTO. Considera que este modo de proceder é legítimo. Nisto não está sozinho, porque há outros exemplos entre os escritores do Novo Testamento. O Evangelho segundo Mateus contém vários. Mateus 2.5-6 e 22.44 são exemplos em que passagens do Antigo Testamento são citadas de modo messiânico. Alguns dos cumprimentos de Mateus, no entanto, são passagens que os judeus nunca consideraram como messiânicas (e.g. Mateus 2.15 que cita Oséias 11.1), mas que o ESPÍRITO levou os cristãos primitivos a reconhecer como tais. Fica claro que as Escrituras do Antigo Testamento possuíam considerável autoridade para a era do Novo Testamento, e, de fato, a totalidade desta carta aos Hebreus testifica disto. Deve ser notado, ainda, que o escritor introduz as citações neste capítulo com a fórmula simples: “Diz,” que deve referir-se a DEUS. As Escrituras para ele são a voz de DEUS.
Para uma apreciação da abordagem cristã ao Antigo Testamento, é necessário ter em mente este conceito flexível do cumprimento da profecia. A idéia de um cumprimento imediato e de um outro cumprimento remoto é comum, e isto explica como uma predição que tinha relevância no passado poderia ter um cumprimento mais completo no futuro. Isto está em harmonia com a natureza de DEUS que vê o tempo de um modo diferente do conceito que o homem tem dele. Para Ele, mil anos é apenas um dia, que não deve ser considerada uma correlação exata, conforme supõem alguns milenistas, mas, sim, como uma indicação de uma diferença essencial de cálculo.
A primeira passagem a ser citada é Salmo 2.7, salmo este que reflete uma situação de guerra e que provavelmente pertence à situação histórica descrita em 2 Samuel 7.
 Nosso escritor, no entanto, não está interessado no evento histórico, mas, sim, na propriedade das palavras para serem aplicadas ao Messias.10 No Salmo, as palavras: Tu és meu Filho aplicam-se a Davi, mas claramente somente têm uma aplicação imperfeita a ele. Os cristãos primitivos reconheciam as palavras como messiânicas. São citadas no discurso de Paulo em Antioquia da Pisídia (At 13.33). Os judeus no seu auditório teriam apreciado a força desta citação; acrescentava autoridade bíblica às declarações que Paulo estava fazendo. O que impressiona o escritor aos Hebreus é que, ao passo que as palavras de aplicam a JESUS CRISTO, não podem aplicar-se a um anjo. Se DEUS Se dirige ao Messias desta maneira, o Messias deve, portanto, ser superior aos anjos. Mas em que sentido se deve entender as palavras eu hoje te gereP. Na sua aplicação a Davi, podem referir-se ao aniversário da sua coroação. Ou, talvez a palavra “gerei” (gegennêka) deva ser entendida com referência à paternidade de DEUS, sem indicar qualquer ponto específico de tempo. Quando é aplicada a JESUS CRISTO como Messias, a mesma coisa se aplica. Pode referir-se à encarnação ou à ressurreição. De fato, é neste último sentido que é aplicada em Atos 13.33. Do outro lado, não fica claro que em Hebreus qualquer importância é atribuída ao elemento tempo. O escritor claramente está mais interessado em demonstrar a relevância da geração em termos da posição do Filho, ao invés de prendê-la a uma ocasião específica.
A segunda citação é uma passagem que era geralmente aceita como sendo uma referência ao Messias. Vem de 2 Samuel 7.14, de um oráculo dado a Davi.
Há uma estreita ligação entre esta passagem e a anterior. A idéia contida nela captou a imaginação de muitos escritores do Antigo Testamento, conforme é visto na sua crença num Messias vindouro. O relacionamento entre Pai e Filho mais uma vez é a idéia-chave para nosso escritor, porque marca o Messias como estando separado do relacionamento Criador-criatura que há entre DEUS e os anjos. Historicamente, pode-se dizer que as palavras acharam um cumprimento parcial em Salomão, o filho de Davi, que completou a edificação do primeiro templo. Mas o cumprimento perfeito não veio até o tempo do Filho maior de Davi. Tanto o reino quanto o templo precisavam de uma reinterpretação em termos espirituais, e era um dos temas principais de nosso escritor fazê-lo em referência ao tabernáculo que era o prenúncio do templo. Vale a pena notar que há alguma menção de um relacionamento pai-filho em Salmo 89.26-27, seguida por uma referência ao primogênito, uma combinação de idéias que também é achada nos versículos 5 e 6 deste capítulo. Já que nosso autor está profundamente instruído no Antigo Testamento, é provável que sua familiaridade com o Salmo 89 também tenha influenciado sua seleção dalgumas das outras passagens do Antigo Testamento citadas aqui.
6. As palavras: E, novamente, ao introduzir o Primogênito no mundo, que introduzem a citação seguinte, também ecoam a passagem véterotestamentária mencionada supra (i.é, SI 89.27). Ali, a palavra primogê­ nito é usada (“Fá-lo-ei… meu primogênito”) para Davi. Fica claro que na mente do escritor o “Primogênito” (prõtotokos) do v. 6 é o Filho dos versículos anteriores. É sugestivo que o mesmo termo é usado a respeito de JESUS CRISTO pelo apóstolo Paulo (Cl 1.15, 18; Rm 8.29), qualificado da seguinte maneira: primogênito de toda a criação, primogênito dentre os mortos, primogênito entre muitos irmãos. A expressão claramente fica revestida de profundo significado quando é aplicada a CRISTO. Aqui o escritor não entra em detalhes sobre a superioridade de CRISTO, conforme faz Paulo. Contenta-se, pelo contrário, em fazer declarações que produzirão uma impressão profunda de superioridade. A referência primária deve ser à encarnação, para chamar a atenção ao fato de que quando JESUS CRISTO nasceu, a função dos anjos era adorar. Na opinião do escritor, a homenagem dos anjos é prova de que consideravam o Filho como superior. Seu significado fica bastante claro, mas um problema surge a respeito da citação. A fórmula diz (legei), que introduz a citação, é familiar nesta Epístola. 0 sujeito é omitido, mas claramente trata-se de DEUS. As citações das Escrituras não são simplesmente declarações formais do Antigo Testamento, mas, sim, o próprio DEUS falando pessoalmente no texto. Isto dá uma indicação do conceito da inspiração das Escrituras sustentado pelo escritor. Pretende que seja compreendido que a citação que faz vem com autoridade, embora a citação exata: E todos os anjos de DEUS o adorem não apareça na Bíblia hebraico. Em duas passagens da Septuaginta (SI 97.7 e Dt 32.43) há uma estreita aproximação; esta última passagem inclui a conjunção “e” (kai) que está presente no original grego do nosso versículo, mas é omitida na maioria das traduções atuais. Deuteronômio faz parte do cântico de Moisés que olha para o futuro, para o triunfo do Senhor de Israel sobre Seus adversários.Nosso escritor transfere o triunfo deste cântico para o Messias, a quem ele vê como o “Primogênito.” A mesma passagem do Antigo Testamento é citada por Paulo em Romanos 15.10 onde os gentios são conclamados a regozijar-se. Vale a pena notar que Paulo introduz sua citação de Deuteronômio 32.43 com a mesma fórmula (legei) que é usada em Hebreus, tanto mais significante porque não é usual para o Apóstolo usar a fórmula sem declarar o sujeito. Outro paralelo interessante entre as duas passagens do Novo Testamento é o uso duplo de novamente (palin) [ARA reveza várias traduções] em citações sucessivas como se a intenção fosse ressaltar a estreita conexão entre elas. A prática de amontoar citações das Escrituras da maneira de Paulo e do escritor aos Hebreus tem seu paralelo na literatura judaica. Nas passagens sendo comparadas, Paulo acha uma palavra de ligação em “os gentios,” ao passo que Hebreus faz a mesma coisa com a idéia de anjos. A declaração de que os anjos são ordenados a adorar o Primogênito sugere que este é seu dever apropriado.
7. Tendo estabelecido a superioridade de JESUS CRISTO sobre os anjos, que representam as máis exaltadas entre as criaturas de DEUS, o escritor inculca sua lição com referências adicionais ao Antigo Testamento. A primeira é tirada de Salmo 104.4, mas não no sentido achado no texto hebraico, que não faz referência a anjos. O escritor claramente reconhece a autoridade do texto grego que interpretou o texto hebraico da mesma maneira que fizeram os escritores rabínicos. As palavras .Aquele que a seus anjos faz ventos, visam demonstrar um forte contraste entre os anjos e o Filho. Ao passo que se diz que o Filho foi gerado, diz-se que os anjos foram feitos. A distinção não é acidental. Os anjos, como criaturas, podem funcionar somente dentro dos limites para os quais foram criados, ou seja: para levar a efeito os desejos do seu Criador. Tanto os anjos (angeloi) quanto os servos (“ministros” — leitourgoi) têm uma função bem diferente da do Filho. A tarefa deles e’ servir. A tarefa do Filho é de exercer soberania (conforme demonstram os w . 8 e 9). É sugestivo que a descrição dos anjos é feita em termos do mundo natural. Ventos e fogo são melhor vistos como representantes de agências naturais poderosas, do que como ilustração de coisas que não tem substâncias. Há paralelos vétero-testamentários à idéia de agências sobrenaturais por detrás dos elementos da natureza (e.g. SI 18.10; 35.5). Há alguma sugestão de poder irresistível na linguagem figurada usada, porque tanto o vento quanto o fogo podem ser irresistivelmente destruidores, ou, se devidamente captados, poderosamente construtivos. Mas o pensamento principal do escritor nesta Epístola é o reconhecimento pelos anjos de um poder maior do que eles mesmos, a saber: o próprio poder que os nomeou. Embora estes agentes espirituais sejam mais poderosos do que os homens, não deixam de ser ultrapassadas pelo poder do Filho. Se alguém pensar que por detrás desta idéia há um conceito antiquado do mundo como estando sujeito a influências pessoas invisíveis, ao invés da idéia moderna da causa e efeito, que não deixa lugar para a manipulação sobrenatural, deve ser lembrado que aqui o escritor não está fazendo um comentário científico sobre fenômenos naturais como “vento” e “fogo.” Seu propó­ sito é inteiramente espiritual, uma demonstração da suprema importância do Filho sobre todas as criaturas. Ao mesmo tempo, o que ele diz não está em conflito com um conceito científico do mundo.
8-9. O contraste entre os anjos e o Filho é ressaltado de modo inconfundível na construção da frase grega (rnen… de).
A citação que expõe a soberania do Filho vem do Salmo 45.6-7. O contexto original do Salmo era bem diferente, e se referia às bodas dalgum rei de Israel. Mesmo assim, era geralmente reconhecido que tinha um significado muito mais extenso, e, de fato, era considerado messiânico. É neste último sentido que é citado aqui. As palavras iniciais: O teu trono, ó DEUS, épara todo o sempre, causam um problema, porque podem ser entendidas ou como um tratamento direto ao Filho, e neste caso não se pode evitar a implicação de que o Filho está sendo descrito como DEUS;13 ou, menos provavelmente, as palavras podem ser entendidas no sentido de “O trono do Teu DEUS,” ou “DEUS é Teu trono,” e neste caso a implicação de que o Filho é DEUS é evitada. Se um contexto histórico for levado em mente, seria difícil imaginar um rei terrestre sendo diretamente tratado assim, a não ser num sentido restrito, e, portanto, é melhor considerar que a declaração acha seu único cumprimento verdadeiro em CRISTO. Deve ser notado, no entanto, que a deificação do rei tem paralelos na literatura pagã (cf. também Jo 10.34- 35). Mesmo assim, visto que no pensamento hebraico o ocupante do trono de Davi era considerado o representante de DEUS, é neste sentido que se poderia dirigir-se ao rei chamando-o de DEUS.14 As palavras seguintes: Cetro de eqüidade é o cetro do seu reino, focalizam-se no caráter da soberania do Filho. O Antigo Testamento freqüentemente enfatiza a idéia da justiça, não somente a justiça de DEUS, como também a necessidade de justiça da parte do povo. O tema é especialmente relevante para o assunto principal desta Epístola. O Filho não dá Sua aquiescência a um padrão justo com má vontade. Forma o centro dos Seus afetos. Faz parte da Sua natureza — Amaste a jus? tiça. Semelhante abordagem à justiça envolve uma rejeição específica do seu oposto: a iniqüidade fahomia). É típico do estilo poético hebraico declarar uma idéia seguida por uma negação do seu oposto. Os que amam não têm alternativa senão odiar a iniqüidade, mas somente JESUS CRISTO o Filho já cumpriu perfeitamente os dois objetivos. A unção do Filho não deve ser considerada em conexão com os ritos da coroação, mas, sim, como simbolizando a alegria de ocasiões festivas, quando, então, era seguida a prática de ungir. Este fato explica uma forte sensação de alegria. A mesma idéia ocorre no Salmo 23.5, onde a unção é um sinal de favor. As palavras como a nenhum dos teus companheiros no Salmo original provavelmente se referem a outros reis e ressaltam a superioridade do rei a quem se dirige a palavra (cf. SI 89.27). Pode, no entanto, ser menos formal e referir-se aos companheiros na festa.
Seja como for, aqui serve o propósito de focalizar a atenção em um outro aspecto da superioridade do Filho. A transferência da idéia ao Filho não precisava de explicação alguma, visto que o título familiar “CRISTO” (como o título correspondente “Messias”) significa “O Ungido.” Pedro fixou-se neste pensamento na sua exposição diante de Comélio (At 10.38). Além disto, a idéia de ungir é importante numa Epístola cujo tema é o sumo-sacerdócio de CRISTO, porque todos os sacerdotes da linhagem de Arão eram ungidos ao assumirem suas funções.
10-12. Os próximos três versículos criam um problema, porque a passagem citada de Salmo 102.25-27 não contém referência alguma ao Filho.
Na Septuaginta, os w. 1-22 são dirigidos a DEUS, mas os w. 23-28 consistem na resposta. O escritor entende que DEUS está falando aqui. Na sua mente, era legítimo transferir ao Filho aquilo que se aplicava a DEUS, visto que já chamou atenção ao caráter eterno do Seu trono. A passagem tem muitos aspectos interessantes • que são aptos quando aplicados a JESUS CRISTO. O escritor já falou do papel do Filho na criação, e, em vista disto, a passagem do Salmo 102 é apropriada. Ao aplicar esta passagem, o escritor chama a atenção a uma idéia profunda acerca do Filho, i. é, Sua imutabilidade. A terra e os céus parecem ser bastante substanciais, mas eles perecerão. Havia uma crença generalizada no mundo greco-romano de que o mundo, e mesmo o próprio universo, era indestrutível. O conceito cristão expressado aqui estaria em rigoroso contraste. Esta transitoriedade da criação material aparentemente imutável, serve para ressaltar o contraste com a estabilidade divina. Há um som majestoso nas palavras: tu, porém, permaneces. Esta declaração focaliza a atenção na estabilidade inabalável, que é ressaltada ainda mais pelo quadro impressionante de DEUS enrolando os céus e a terra, agora esfarrapados como uma veste envelhecida, por não terem mais utilidade. Este vislumbre magnífico do salmista da consumação da presente era visa levar ao clímax: tu, porém, és o mesmo. Diante da desintegração em todos os outros lugares, o cará­ ter imutável do Filho destaca-se em contraste inconfundível. Os leitores cristãos não teriam dificuldade em aplicar ao Filho as palavras citadas, embora no Salmo se refiram ao Pai. Seria diferente para os leitores judeus visto não haver evidência alguma no sentido de que consideravam este Salmo totalmente messiânico. Apesar disto, a convicção do escritor de que CRISTO é eterno é um aspecto essencial da sua abordagem teológica no decorrer desta Epístola. É uma das distinções mais dramáticas entre a ordem de Melquisedeque e a ordem de Arão, que forma a chave à parte central do seu argumento.
13. Já foi notado que Salmo 110.1, que passa agora a ser citado, estava na mente do autor no começo da sua Epístola quando falou acerca do Filho assentando-Se à direita da Majestade no céu (v. 3).
A idéia da entronização agora é repetida para ressaltar o contraste mais óbvio entre JESUS CRISTO e a ordem mais alta de seres criados. Em nenhuma ocasião já foi concebido que os anjos ficam sentados, e, portanto, a entronização de JESUS imediatamente estabelece a Sua superioridade. Não somente é ressaltada a Sua soberania, como também Seu poder absoluto sobre Seus inimigos. Que esta idéia está destacada na mente do escritor fica claro no fato dele repetir a declaração no capítulo 10.12, 13. Tanto no capítulo 1 quanto no capítulo 10 a entronização e a vitória estão ligadas com a expiação que JESUS CRISTO faz pelos pecados. Além disto, este tema é achado noutros lugares no Novo Testamento. Ocorre no sermão de Pedro no Pentecoste (At 2.34-35), onde mais uma vez é contrastado com a ação dos judeus ao crucificarem a JESUS. Apesar daquilo que os homens fazem, DEUS nomeou JESUS tanto Senhor quanto CRISTO. Foi esta declaração de Pedro, baseada neste mesmo Salmo, que resultou na notável convicção em massa entre o seu auditório. Aqueles que responderam no dia do Pentecoste teriam motivo de lembrar-se do uso válido que Pedro fez deste Salmo. Não somente eles, mas também Paulo ecoa a mesma idéia na sua carta a Corinto (1 Co 15.25) quando procura comprovar que CRISTO deve ter a soberania absoluta, até mesmo sobre a própria morte. Uma reminiscência do uso do Salmo por Pedro pode ser notada na sua primeira Epístola (1 Pe 3.22). A idéia da supremacia de DEUS sobre Seus inimigos também é achada no Salmo 8.6 que Paulo realmente cita em conjunção com o Salmo 110.1 em 1 Coríntios 15. Não há dúvida, portanto, que o Salmo 110 tem um lugar especial no pensamento deste autor, visto que volta a ocorrer várias vezes na sua exposição.
14. Há um contraste marcante entre o Filho entronizado e os anjos ministradores.
A função destes últimos é essencialmente de serviço, e todos eles (pantes) inclui, de modo significante, todas as categorias dos anjos. Até os mais nobres são enviados para serviço. Há um contraste aqui entre a posição temporária do Filho como Servo no Seu ministério (cf. Fp 2.7) e Seu descartar daquela posição depois de ter completado a Sua missão. Os anjos, por outro lado, estão dedicados ao serviço constante e nunca serão entronizados. O escritor certamente não está querendo diminuir a função dos anjos, porque nota que seu serviço é a favor dos que hão de herdar a salvação.
Talvez pareça estranho que nenhuma definição da salvação seja dada, o que sugere que os leitores já sabiam o que significava. Nem sequer é definida como sendo salvação cristã, embora isto seja claramente tomado por certo. O ponto principal da carta toda aplica-se a explicar a salvação em termos de ofertas e aquilo que realizam. Ademais, o escritor ecoa o tema quase imediatamente na passagem seguinte. O que é importante no momento é observar que os mensageiros celestiais estão ocupados num ministério dirigido em direção à salvação dos homens. O enfoque do plano de DEUS da salvação está sobre as pessoas, consideradas como herdeiras. A idéia de herdar está clara no grego (klêronomein). É familiar no pensamento do Novo Testamento, porque a salvação cristã é concebida como algo que vale a pena ser possuído. Os crentes são chamados herdeiros, até mesmo co-herdeiros com CRISTO (cf. Rm 8.17). A idéia da herança, ademais, volta a ocorrer em Hebreus 3 e 4 (com a metáfora de um descanso), em Hebreus 9 (na linguagem figurada de um testamento) e em Hebreus 11 (em relação às promessas dadas à fé). Pode ser declarado com justiça que neste primeiro capítulo de Hebreus encontram-se muitas das idéias dominantes que voltam a ocorrer na Epístola. Embora não sejam expressas num sentido formal, não deixam de ser uma introdução eficaz à discussão seguinte.
 
AJUDA BIBLIOGRÁFICA
CPAD – http://www.cpad.com.br/ – Bíblias, CD’S, DVD’S, Livros e Revistas. BEP – Bíblia de Estudos Pentecostal.
VÍDEOS da EBD na TV, DE LIÇÃO INCLUSIVE – http://www.apazdosenhor.org.br/profhenrique/videosebdnatv.htm
BÍBLIA ILUMINA EM CD – BÍBLIA de Estudo NVI EM CD – BÍBLIA Thompson EM CD.
Peq.Enc.Bíb. – Orlando Boyer – CPAD
Bíblia de estudo – Aplicação Pessoal.
O Novo Dicionário da Bíblia – J.D.DOUGLAS.
Revista Ensinador Cristão – CPAD.
Comentário Bíblico Beacon, v.5 – CPAD.
GARNER, Paul. Quem é quem na Bíblia Sagrada. VIDA
CHAMPLIN, R.N. O Novo e o Antigo Testamento Interpretado versículo por Versículo. 
STAMPS, Donald C. Bíblia de Estudo Pentecostal. CPAD.
AS GRANDES DEFESAS DO CRISTIANISMO – CPAD – Jéfferson Magno Costa
O NOVO DICIONÁRIO DA BÍBLIA – Edições Vida Nova – J. D. Douglas
Comentário Bíblico Expositivo – Novo Testamento – Volume I – Warren W. Wiersbe
http://www.gospelbook.net
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Comentário Bíblico TT W. W. Wiersbe
Teologia Sistemática Pentecostal – A Doutrina da Salvação – Antonio Gilberto – CPAD
Bíblia The Word.
Teologia Sistemática – Conhecendo as Doutrinas da Bíblia – A Salvação – Myer Pearman – Editora Vida
CRISTOLOGIA – A doutrina de JESUS CRISTO – Esequias Soares – CPAD
Conhecendo as Doutrinas da Bíblia – Myer Pearman – Editora Vida
Dicionário Bíblico Wycliffe – CPAD
Teologia Sistemática de Charles Finney
A CARTA AOS HEBREUS – Introdução e Comentário por DONALD GUTHRIE – SOCIEDADE RELIGIOSA EDIÇÕES VIDA NOVA E ASSOCIAÇÃO RELIGIOSA EDITORA MUNDO CRISTÃO
SÉRIE Comentário Bíblico – HEBREUS – As coisas novas e grandes que DEUS preparou para vocè – SEVERINO PEDRO DA SILVA

Publicado no site do Pr. Luiz Henrique

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