As Bodas do Cordeiro – Prs. Kleber e Klauber Maia

As Bodas do Cordeiro

Introdução

Em língua portuguesa, a palavra boda significa “celebração de casamento”, embora seja mais empregada, popularmente, para referir-se ao aniversário da união conjugal, tal como nas expressões “bodas de prata” ou “bodas de ouro”, que são, respectivamente, a comemoração de 25 e 50 anos de aniversário de casamento. A Bíblia registra a ocorrência de vários casamentos, mas o último e o maior casamento relatado na Bíblia são “As Bodas do Cordeiro”, relatado no capítulo 19 de Apocalipse. Antes de analisarmos o relato bíblico destas bodas, precisamos do livro que traz esta mensagem.

A Mensagem de Apocalipse

O estudo de um livro apocalíptico em seu todo pode fornecer profundos e permanentes princípios espirituais. Estes textos não trazem apenas mensagens para tempos diferentes da época em que foram escritos e não podemos deixar seu valor moral e espiritual.

O Apocalipse de João é tido como paradigma para o gênero. Sua estrutura e características típicas são dadas nos versos introdutórios deste livro, v. 1-2: (1) uma revelação é dada por Deus, (2) por meio de um mediador – Jesus Cristo (3), a um visionário – João (4), a respeito de eventos futuros.

Este livro apresenta três tipos de mensagens: um apocalipse (revelação); uma profecia, e cartas às igrejas. Como apocalipse revela os mistérios de Deus; como profecia mostra que a história caminha em direção ao Dia do Senhor, a partir de onde estabelecerá o seu reino; como carta foi escrito a um povo específico, em um tempo particular.

O livro originou-se numa época de perseguição contra os cristãos (2.13). Primeiro, foi durante o governo de Nero (54-68 d.C.), porém este concentrou a perseguição dentro dos limites de Roma. Depois, foi com Domiciano (81-96 d.C.) o outro período crítico em que este queria ser tratado como dominus et deus (Senhor e Deus). Neste tempo, Éfeso foi escolhida por Domiciano para sediar o tão almejado templo provincial destinado ao culto ao imperador. Simultaneamente, a região da Ásia Menor apresenta um rápido crescimento da população cristã e passa por algumas dificuldades econômicas (6.6). Isto pode muito bem ter deflagrado um confronto com as autoridades do governo, haja vista, que antes disso já havia tensões entre cristãos e romanos.

Da perspectiva de João, a situação criou a necessidade de escolher: “Cristo ou César”. Para ele toda a história do mundo era dirigida por Deus e movia-se a um objetivo designado por Ele. Por isso, ele exorta a igreja a fortalecer a visão de que Cristo ao invés de César era o governante do mundo e a realização de todas as esperanças escatológicas.

Apocalipse está focalizado diretamente sobre os eventos e problemas do seu próprio tempo e só pode ser compreendido depois de se entender que ele está estreitamente relacionado com sua situação histórica particular, sendo deixadas de lado por um tempo as expectações relativas ao futuro. Trata-se especialmente de uma análise da relação do cristianismo com o Estado, com a sociedade e com a economia. Consequentemente, o livro pode ser visto como um grito para o despertar dos cristãos a respeito de sua postura positiva em relação ao império, seja uma postura compromissada com a ordem política, econômica, social ou cultural. Ao fazer isto, o livro por um lado conclama aos cristãos a tomarem posição de acordo com sua verdadeira identidade, por outro, anuncia consolo antecipado à prevista perseguição que virá se os cristãos adotarem uma postura fiel a Cristo e, consequentemente controversa ao império.

Para o cristão de hoje, Apocalipse mostra a necessidade de compromisso com Cristo, como nosso Senhor, acima de qualquer outro poder e a certeza de que Ele e seus seguidores sairão vencedores no final de todos os conflitos. Este livro oferece uma esperança melhor a uma igreja que está sendo cortejada pelo mundo, recordando-lhe que não pertencemos a este mundo e que não devemos deixar-nos seduzir por seus valores. Sua mensagem exorta a igreja perseguida a permanecer firme (2.10; 3.11) e a não se envolver com o espírito desta era (2.16, 25; 3.3, 18-20) (Keener:45).

Cuidados na Interpretação do Apocalipse

Apocalipse caracteriza-se por abundante uso de simbolismo. A tarefa do intérprete é determinar qual sentido figurado o símbolo possui no contexto maior. Isso significa que o verdadeiro significado não será encontrado na nossa situação presente, mas sim no uso deste símbolo em seu antigo contexto. Primeiramente deve-se ter em vista o “significado pretendido pelo autor” no contexto original, para em seguida propor o modo como as profecias se aplicam ao nosso tempo.

Existem dois elementos em um símbolo: a ideia mental e conceitual, e a imagem que a representa. O símbolo e a ideia derivam do mundo antigo e das realidades bíblicas daquele tempo. (Osborne: 361,362). Devemos perguntar se o símbolo é interpretado no contexto imediato ou em algum outro lugar do livro.

Contexto literário

As revelações que João recebe na ilha de Patmos consistem de quatro visões (1.10; 4.2; 17.3; 21.10). Na penúltima visão João vê uma prostituta montada numa besta, que está embriagada do sangue dos mártires e domina sobre os reis da terra. Esta mulher representa a Babilônia eclesiástica, personificando a revolta religiosa contra Deus, desde sua origem na antiga Babilônia de Ninrode – Gn 10.8-10 (Unger: 696). Ela é atacada pela própria besta e no capítulo seguinte, é destacada a sua face mercantilista e um anjo declara a sua queda.

Se Apocalipse 18 é o capítulo dos “ais”, num total de seis (número que representa a criatura que nunca chega a ser Deus), o capítulo 19 é o dos “aleluias” (num total de quatro, número que representa a criação de Deus – Kistemaker: 16, 27). Depois de anunciar a queda da Babilônia, chegara a hora de exultar, pois a prostituta cedera lugar à virgem noiva do Cordeiro.

No início do capítulo 19, o apóstolo mostra a mudança de foco da terra para o céu, usando uma fórmula comum no Apocalipse: “Depois destas coisas” (Ap 19.1; 1.19; 4.1; 7.9; 9.12; 15.5; 18.1; 20.3). João descreve a cena que ocorre no céu, quando os seres celestiais entoam hinos de júbilo. Neste capítulo temos as únicas ocorrências da palavra “Aleluia” no Novo Testamento. O último hino fala do casamento do Cordeiro com Sua noiva (v7-9).

A partir do verso seis, são reveladas a João as cenas que descrevem a vitória final de Deus sobre Satanás e as forças do mal. Deus é chamado de “Todo-Poderoso” – aquele que controla todas as coisas. O Senhor recebe este título dez vezes no Novo Testamento (2 Co 6.18; Ap 1.8; 4.8; 11.17; 15.3; 16.7, 14; 19.6, 15; 21.22) (Barclay:1179). Em muitas ocasiões parecia que tudo estava contra a igreja e fora do controle de Deus: Quando a besta venceu as duas testemunhas (11.7); quando o dragão se mostrou forte diante da mulher (12.3-4); quando a besta do mar se exaltou e desafiou e venceu os servos de Deus com suas palavras arrogantes e blasfemadoras (13.4-7); quando a besta da terra fez morrer aqueles que recusaram adorar a besta (13.15); e quando a grande meretriz se embriagou com o sangue dos santos (17.6). É difícil manter uma confiança total no Senhor quando parece que o mal vence o bem, mas no fim vemos o brado de vitória: Deus está no controle absoluto!

No verso sete a multidão conclama: “Regozijemo-nos, e alegremo-nos”. A outra ocorrência destes verbos no NT é em Mt 5.12, onde o motivo para a alegria é o galardão que espera aqueles que são perseguidos por causa de Cristo (Mounce:466). O motivo desta alegria apresentada a João é que chegou o tempo de Deus completar esta recompensa a ser dada aos justificados em Cristo, celebrando o casamento do Cordeiro e Sua noiva.

As personagens das Bodas

Voltando a falar sobre as Bodas do Cordeiro, consideremos os envolvidos:

a) Quem é o Cordeiro?

É Jesus. João Batista já havia revelado Cristo como “O Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo” (Jo 1.29,36). Jesus é chamado de Cordeiro de Deus (em latim, Agnus Dei) pelo fato de que Ele é o sacrifício perfeito e definitivo pelo pecado.

O sistema de sacrifícios estabelecido por Deus no Velho Testamento preparou o terreno para a vinda de Jesus Cristo, o Cordeiro que Deus providenciou como expiação pelos pecados de Seu povo (Rm 8.3; Hb 10).

Paulo também apresenta Cristo assim (1 Co 5.7). Pedro igualmente usa esta figura para representar Jesus (1 Pe 1.19). Apocalipse apresenta Jesus como o Cordeiro, com relação ao seu sacrifício (Ap 5.6), que foi o preço pago para adquirir a noiva. O próprio Senhor já havia dito a João que era o que foi morto, mas agora vive para sempre (1.18). Este Cordeiro é mostrado a João como Deus, que se assenta no trono e recebe adoração de todas as criaturas (5.12-14) e também como um pastor, que cuida do seu povo, os apascenta e os guia (7.15-17).

b) Quem é a noiva?

É a igreja. A Bíblia utiliza muitas vezes a figura da noiva e do noivo para referir-se ao relacionamento da igreja com Cristo (Mt 9.15; Jo 3.29; Rm 7.4; 2 Co 11.2; Ef 5.22-23; Ap 19.7-9; 21.1-22.7) e a as bodas do Cordeiro – o casamento de Cristo com a igreja – é a expressão máxima desta relação.

Este conceito nupcial enfatiza tanto a lealdade, a devoção e fidelidade da igreja a Cristo, quanto o amor de Cristo à sua igreja e sua comunhão com ela.

O Antigo Testamento menciona uma relação semelhante entre Deus e o seu povo (Is 54.5, 6; 62.5; Jr 3.20; Os 2.19)(Kistemaker:647). A igreja verdadeira é aquela que voluntariamente se submete ao Senhor Jesus Cristo.

O Casamento

O conhecimento sobre a prática do casamento tradicional entre os judeus nos ajuda a entender este evento. As formalidades para o casamento incluíam alguns momentos especiais:

a) O Noivado

Em Israel, o noivado é tão sério quanto o casamento, algo mais profundo do que este compromisso significa para nós. Na história bíblica a mulher comprometida em noivado era chamada esposa e, apesar de não estar unida fisicamente ao noivo, ela estava obrigada à mesma fidelidade como se estivesse casada (Gn 29.21; Dt 22.23,24; Jz 14.1-10; Ml 2.14). José e Maria estavam neste estágio do casamento quando ela recebeu a visita do anjo Gabriel (Mt 1.18,19).

“A obrigação do matrimônio era aceita na presença de testemunhas e a bênção de Deus era pronunciada sobre a união. Desde esse dia o noivo e a noiva estavam legalmente casados (2 Co 11.2)” (Lopes: 146).

“O casamento judaico era precedido com antecedência de um mês a um ano por uma cerimônia de promessa de casamento ou noivado, denominada em hebraico erusin, ou, mais popularmente, tena’im (que significa, literalmente, “condições”). Essas tais condições referiam-se aos arranjos pré-matrimoniais que os pais da noiva e do noivo haviam combinado entre si estabelecendo o nadan (dote) e também as penalidades para quaisquer quebras de condições do acordo. Os tena’im davam a ambas as partes tempo suficiente para uma calma reconsideração antes de dar o passo definitivo do casamento.” (AUSUBEL, Nathan. Costumes de casamento. In: A Judaica. v.5, pág. 198). “Se uma moça noiva fosse estuprada por outro homem, não poderia tornar-se esposa deste, como seria normalmente o caso (Dt 22.28,29), por já pertencer ao seu futuro marido. Tal violação envolvia a pena de morte (Dt 22.23-27). As palavras formais do noivado eram provavelmente as ditas por Saul quando Mical e Davi comprometeram-se para casar-se: ‘Agora, pois, consente em ser genro do rei (1Sm 18.22). O Compromisso do noivado só podia ser dissolvido por uma transação legal (na verdade um divórcio) e a base para tal cancelamento era o adultério (veja Dt 22.24).” (Gower: 62).

A seguir a noiva recebia um presente do noivo que selava o compromisso entre os dois. O noivo então partia para construir uma casa para a noiva, onde iria morar com ela, enquanto ela preparava um lindo vestido de casamento como um símbolo de santidade e dedicação ao esposo.

A Igreja é a esposa de Cristo porque está comprometida com Ele (Ap 19.7; 21.9; 22.17). O sinal de garantia desta aliança (como o anel de noivado) é a presença do Espírito Santo nos crentes (2 Co 1.22). Ele foi preparar o lugar para habitar com Sua noiva para sempre e breve voltará (Jo 14.2,3).

b) O intervalo

Durante o intervalo o esposo paga ao pai da noiva um dote. Na Lei, esse dote era estipulado em 50 siclos de prata (Êx 22.16-17; Dt 22.29). Essa soma pertencia à noiva e servia como um tipo de seguro financeiro em caso de morte do esposo ou de divórcio. Com o tempo, se tornou um costume amarrar em círculos, ou semicírculos, moedas pagas no dote e usá-las como enfeite de cabelo nas mulheres casadas. Essas moedas se tornaram um símbolo do casamento semelhante hoje à aliança, ou anel, de casamento. A perda de alguma destas moedas seria motivo de grande preocupação, como o ilustrou Jesus na parábola da dracma perdida (Lc 15.8-10). Se o noivo não tinha como pagar a soma em dinheiro poderia, então, conseguir o dote trabalhando para o pai da moça (como Jacó e Moisés que trabalharam para seus respectivos sogros), ou realizando algum feito extraordinário a pedido do sogro (Otoniel conquistou uma cidade para casar-se com a filha de Calebe – Js 15.16,17- e Davi teve de vencer e matar cem filisteus para casar-se com Mical, filha de Saul – 1Sm 18.27).

Assim como faziam os judeus na Antiguidade, Jesus, o noivo, pagou o dote por sua noiva. Não foi em valores de prata ou de ouro; foi muito mais caro. Como nos afirma o apóstolo Pedro, “não foi com coisas corruptíveis, como prata ou ouro, que fostes resgatados da vossa vã maneira de viver que, por tradição, recebestes dos vossos pais, mas com o precioso sangue de Cristo, como de um cordeiro imaculado e incontaminado,” (1 Pe.1.18,19), que é o bom preço, mencionado por Paulo (1 Co 6.10, 7.23).

c) A procissão para a casa da noiva

Ao final do intervalo o noivo sai em procissão para a casa da noiva. O noivo em seu melhor traje é acompanhado de seus amigos que cantam e levam tochas e seguem em direção à casa da noiva. O noivo recebe a noiva e a leva em procissão ao seu próprio lar. A noiva sabia de antemão que isso ia acontecer, assim se preparando com suas servas (Sl 45.14,15), e todos participariam do desfile e iam à casa do noivo. Este costume é a base da parábola das dez virgens (Mt 25.1-13). O livro de Cantares descreve a procissão de Salomão, no dia de seu casamento, indo com sua guarda pessoal, em uma liteira, e a noiva convida as suas companheiras para ve-lo (Ct 3.6-11).

Este momento corresponde, na história da igreja, ao arrebatamento, quando Cristo virá buscar a sua igreja para levá-la ao seu lar (Jo 14.2,3). Ele prometeu que voltaria e a igreja espera ansiosamente este retorno, a qualquer momento. Podemos ter certeza absoluta a respeito deste acontecimento, pois foi o próprio Cristo que fez a promessa (Mt 26.64). O escritor da Epístola aos Hebreus afirma que é tão certa quanto a morte (Hb 9.27,28). Ela foi predita pelos profetas (Jd 14; Is 40.10), pelo próprio Cristo (Mt 25.31), pelos apóstolos (At 3.20; 1Tm 6.14) e pelos anjos (At 1.10,11).

Jesus virá pessoalmente para buscar a sua igreja (Jo 14.3; At 1.10-11; 1 Ts 4.16; Ap 1.7; 22.7), de forma literal (At 1.10-11; 1 Ts 4.16,17; Zc 14.4). Trata-se do noivo vindo buscar a sua noiva, e esta tarefa ele mesmo realizará. Sua vinda será entre nuvens (Mt 24.30; Mt 26.64; Ap 1.7), em glória (Mt 16.27; Mt 25.31), com poder (Mt 24.30), da forma como subiu (At 1.9,11) e acompanhada por seres celestiais (Mt 16.27; 24.31; 25.31; Mc 8.38; 1 Ts 4.16; 2 Ts 1.7).

Não podemos afirmar o dia, nem a hora, que ele virá, pois não sabemos quando este glorioso dia se dará (Mt 25.13) Sabemos, porém, que a sua vinda será inesperada (1 Ts 5.2; Mt 24.44; Lc 12.40; 1 Ts 5.2; 2 Pe 3.10; Ap 16.15), súbita (Mc 13.36) e acontecerá de forma muito rápida (Mt 24.27;1 Co 15.52). Se os homens soubessem quando será este acontecimento, estariam preparados apenas na data aprazada. Como ninguém sabe, precisamos estar alertas a cada momento. Duas figuras são apresentadas por Paulo para falar do momento inesperado da vinda de Jesus: um ladrão de noite e uma mulher grávida que está para dar a luz (1Ts 5.2-3).

d) As bodas

O texto registra esse glorioso encontro entre Cristo e a Igreja (Ap 19.7). Cristo levará a sua noiva para o céu, antes da Grande Tribulação (Ap 3.10). Será um momento de grande alegria, pois representa o desdobramento do plano de salvação de Deus para o homem. A noiva sentará à mesa com o Senhor para um momento de grande comunhão, uma grande Ceia (Mt 26.29) e Ele mesmo a servirá (Lc 12.37).

Entre os judeus as bodas duravam sete dias (Jz 14.12,15,17,18; Gn 29.27,28). As bodas do Cordeiro se prolongarão por sete anos, enquanto aqui na Terra acontecerá a grande tribulação. Cada dia corresponde a um ano (Nm 14.34; Ez 4.6).

Nos casamentos terrenos, quem recebe a maior atenção e honra é a noiva, mas nestas bodas quem tem toda a glória é o noivo! Aleluia!

A noiva se apresentará gloriosa e pura (Ef 5.26). Ela estará vestida de “linho fino, puro e resplandecente”, que representa a pureza dos servos obedientes, em contraste com a prostituta do capítulo 17 (representando as religiões que não adoraram ao Deus único), que se veste de “púrpura e de escarlata, adornada com ouro, e pedras preciosas, e pérolas” (v4).

O texto não nega a importância da graça divina na nossa salvação, como vários outros versículos deste livro enfatizam (7.14; 12.11; etc.), pelo contrário, o verso (v8) declara que foi dado à igreja que se vestisse desta maneira. Porém, o verso anterior (v7) declara que a Esposa “se aprontou”, frisando a necessidade da fé obediente (14.12; cf. Tiago 1.25; 2.24). É pela graça de Deus que a igreja pode ser salva e permanecer firme na fé (Ef 2.8,9). Se alguém resiste a esta graça, não poderá alcançar um lugar nesta festa de casamento (Mt 22.8-14). A capacidade de não resistir à graça vem da própria graça. Os que são alcançados pela graça, entretanto, devem andar em novidade de vida, praticando obras aprovadas por Deus (Ef 2.10). O plural (atos de justiça dos santos – v8) pode indicar que o vestido da esposa está tecido com as inumeráveis obras de fiel obediência dos que perseveram até o fim. Isto não contradiz a doutrina paulina da justificação pela obediência de Cristo (Rm 5.18,19), mas sugere que a adequada resposta ao convite do noivo celestial é uma vida transformada (Mounce:467).

A beleza da noiva vem do noivo! Não é assim nos casamentos humanos que nós conhecemos. A noiva escolhe o vestido, arruma os cabelos e faz tudo para chegar à cerimônia adornada para agradar o noivo. Mas toda a beleza da noiva vem de Cristo. Ele se entregou para santificar e lavar a igreja, “para a apresentar a si mesmo igreja gloriosa, sem mácula, nem ruga, nem coisa semelhante, porém santa e sem defeito” (Ef 5.27). O profeta Isaías já havia anunciado esta imagem de uma noiva vestida e adornada para um casamento, com vestes de salvação (Is 61.10).

Quando acontecerão as bodas?

Este momento tão aguardado está inserido no espaço de tempo conhecido como “Dia de Cristo” (Fp 1.10; 2.16; 2 Ts 2.2). O início deste dia é referido na parábola das dez virgens: “Mas à meia-noite, ouviu-se um clamor” (Mt 25.6). É o fim e o princípio de um tempo (dia, dispensação, era). O Dia de Cristo abrange três fatos escatológicos especiais, os quais são: o encontro da Igreja com Cristo nas nuvens (1 Co 15.51,52; 1 Ts 4.14-17); o tribunal de Cristo (2 Co 5.10; Fp 1.10; 2 Co 1.14; Ef 5.27) e as bodas do Cordeiro (Ap 19.7).

O texto de Ap 19 apresenta Deus assentado no trono, relata o episódio das bodas do Cordeiro e, em seguida, fala sobre a segunda vinda de Cristo sobre o cavalo branco. O texto de 1 Ts 4.17 diz que seremos arrebatados para estar com o esposo e na parábola das virgens, as que estavam preparadas foram com o esposo, para as bodas (Mt 25.10).

Onde acontecerão as bodas?

Esse evento acontecerá no céu (Ap 19.1; 21.9). Não haveria lugar mais adequado para esse acontecimento extraordinário. Deus preparou coisas excelentes para nós no céu (1 Co 2.9) e certamente a festa de casamento de Cristo com Sua igreja será um evento de inigualável esplendor e glória. Se aqui na terra aqueles que têm riquezas fazem festas magníficas para o casamento de seus filhos, imagine então a que fará aquele que é o dono de tudo (Dt 10.14; 1 Cr 29.11, Sl 50).

Quem participará deste evento?

Pentecosts diz que “as bodas do Cordeiro constituem um acontecimento que, evidentemente, inclui Cristo e a Igreja” (Pentecosts:248). Ele nos informa “que a ressurreição de Israel e dos santos do Antigo Testamento não ocorrerá até a segunda vinda de Cristo (Dn 12.1-3; Is 26.19-21)”, e que “Apocalipse 20.4-6 esclarece que os santos da tribulação também não ressuscitarão até aquele dia” e conclui: “Embora fosse impossível eliminar esses grupos da posição de observadores, eles não ocupam a posição de participantes do acontecimento em si”.

A parábola das Bodas, relatada por Mateus (22.1-14) e a parábola da Grande Ceia, registrada por Lucas (14.16-24) são narrativas contadas por Jesus com uma mensagem similar que nos dão importantes informações sobre os participantes do banquete escatológico que Deus oferecerá (Lc 14.15; Is 25.6):

a) As duas parábolas apresentam um duplo convite aos que deveriam participar da festa. “O primeiro convite fala do evento e busca despertar um interesse inicial e o segundo serve como lembrete e informa aos convidados que tudo está preparado e que é hora deles virem” (Snodgrass:435). Este era um procedimento comum na antiguidade (Et 5.8; 6.14) (Hendriksen:269). Depois dos convites serem despachados, enviava-se um mensageiro a fim de notificar os convidados de que a diversão estava preparada (Vincent:99).

b) Os convidados deveriam ficar entusiasmados com o convite, mas não deram importância para a festa, despertando a indignação do anfitrião. O convite era sério bem como o ato de aceitá-lo. As desculpas não foram convincentes. Os convidados estavam mais envolvidos com seus afazeres e bens do que com o momento de comunhão com o promotor da festa. Houve rejeição deliberada ao convite e estes convidados foram declarados como não sendo dignos (Mt 22.8).

c) Com a festa preparada, o anfitrião faz novo convite. Depois de punidos os que se julgavam importantes, o rei convida pessoas que se achavam desprezíveis, mas que estavam dispostas a ir às bodas. A declaração de Lucas “força-os a entrar” não se refere ao uso de violência, mas à urgência do convite (Snodgrass:457). A participação no banquete será baseada na resposta ao convite de Deus e não no título “convidado” ou “eleito” (Snodgrass:444). Os convidados deveriam usar vestes nupciais, dadas pelo anfitrião (2 Rs 10.22). Porém, estes convidados certamente não tinham vestes dignas para essa ocasião. Um deles, porém, foi lançado fora porque não usava as vestes apropriadas que foram dadas a todos, embora não tivesse justificativa para tal. Ele preferiu o seu próprio vestuário, em lugar do que lhe foi oferecido, de graça.

Então, entendemos que os participantes das bodas são:

a) Os que não rejeitam o Filho. A parábola de Jesus resume aspectos centrais da história da salvação: oferta da salvação aos judeus; a rejeição ao Messias; o chamamento dos gentios; a punição aos que rejeitam o Messias; a rejeição aos que, com base em méritos pessoais, procuraram aproximar-se de Deus. A salvação nos é oferecida inteiramente pela graça de Deus (Rm 11.6), mas o homem deve aceitar e não rejeitar o senhorio de Cristo. Declinar do convite divino é o mesmo que enfrentar o juízo (Sf 1.7,8).

b) Os alcançados pela misericórdia divina, em quem não há justiça própria. Os que aceitaram o convite do rei eram pobres, viviam nos becos, nas encruzilhadas, nos lugares de miséria e não tinham dinheiro para comprar vestes. A noiva do Cordeiro recebe as vestes: “Foi-lhe dado vestir-se de linho finíssimo” (Ap 19.8). Linho finíssimo refere-se a atos de justiça decorrentes da regeneração (Ef 2.10). Só se conquista o direito de participar da festa porque o Noivo dá condições. Foi o rei quem proveu vestimentas adequadas aos que iriam participar de tão grande banquete (Is 61.10). Aquele que rejeitou a provisão real foi excluído.

Os seres celestiais serão testemunhas deste grande acontecimento (v4). Certamente, os anjos, arcanjo, querubins, serafins com grande júbilo testemunharão a definitiva vitória da igreja e Cristo cumprirá a sua promessa de confessar os crentes diante dos anjos (Lc 12.8; Ap 3.5).

A celebração e a festa do casamento: dois eventos.

Dois eventos distintos acontecerão na comemoração da união definitiva entre Cristo e a sua Igreja: as bodas e a festa de casamento. É preciso distinguir entre estes eventos. Pentecosts enfatiza sobre o assunto:

“A esse respeito parece necessário distinguir as bodas do Cordeiro da ceia de casamento. As bodas do Cordeiro referem-se particularmente à Igreja e ocorrem no céu. A ceia de casamento inclui Israel e ocorre na terra. Em Mateus 22.1-14, em Lucas 14.16-24 e em Mateus 25.1-13, trechos em que Israel aguarda o retorno do noivo e da noiva, a festa ou ceia de casamento é localizada na terra e tem referência especial a Israel. A ceia de casamento torna-se então uma parábola de todo o período do milênio para o qual Israel será convidado durante o período tribulacional, convite que muitos rejeitarão, sendo por isso lançado fora, e muitos aceitarão e serão recebidos. Por causa da rejeição, o convite será estendido aos gentios, de sorte que muitos deles serão incluídos. Israel, na segunda vinda, estará esperando que o Noivo venha para a cerimônia de casamento e o convide para aquela ceia, na qual o Noivo apresentará Sua noiva para os amigos (Mt 25.1-13)” (PENTECOSTS:249).

Harold L. Willmington corrobora com este pensamento: “Em que momento o casamento torna-se público? Aparentemente, a cerimônia de casamento (a fase de apresentação) será realizada no céu em caráter privado, possivelmente logo após o julgamento bema de Cristo. O banquete de casamento (a fase de celebração) será realizado publicamente na terra, logo após a segunda vinda de Cristo. Não é por acaso que a Bíblia descreve o Milênio como imediatamente após o início do banquete (Ap 19-20)”. (LAHAYE; HINDSON:106)

Assim, entendemos que:

  1. A celebração de casamento acontecerá no céu, após o tribunal de Cristo e antes do Seu retorno à terra, e dela participará apenas a igreja. Depois de realizar o seu casamento com a Igreja, Cristo voltará com ela para os festejos aqui na terra, onde a apresentará aos convidados (Ap 19.11-16).
  2. A festa de casamento (o banquete) acontecerá na terra, após a segunda vinda de Cristo, terá a participação de convidados (Ap 19.9): o Israel salvo da Grande Tribulação, as nações que escaparam daquela tribulação (Mt 8.11; 22.1-14; 25.10; Lc 12.36,37; 14.16-24). Alguns estudiosos incluem os santos do Antigo Testamento, como convidados especiais (Jo 3.29), que serão ressuscitados na segunda etapa da vinda de Cristo, bem como os mortos martirizados da Grande Tribulação, que aceitaram a Cristo e não se curvaram ao Anticristo. O profeta Isaías já havia anunciado que Deus daria um banquete para todos os povos (Is 25.6), aqui na terra. Neste banquete Cristo cumprirá sua promessa de beber do fruto da vide no reino de Seu Pai, com a igreja (Mt 26.29).

A festa das bodas no céu difere da ceia das bodas na Terra, onde o esposo apresentará a Sua Noiva, que estará reinando com Ele no período do milênio. As bodas do Cordeiro é o acontecimento celestial no qual a Igreja é eternamente unida a Cristo, e a festa ou a ceia das bodas é a festa para a qual judeus e gentios serão convidados, que ocorrerá na terra e onde o Noivo será honrado pela apresentação da noiva a todos os seus amigos que estão reunidos ali, dando início ao milênio.

Nesta segunda fase de Sua vinda, o foco será Israel, que Cristo livrará na terra, descendo sobre o Monte das Oliveiras (Zc 14.1-5; Rm 11.1, 5, 25,26). Neste momento, Ele irá julgar o Anticristo, o Falso Profeta e seus exércitos (1 Ts 1.7-10; 2 Ts 2.8; Ap 19.11-16, 19-21), acorrentará Satanás e seus demônios, por mil anos (Gn 3.16; Mt 8.29; Rm 16.20; Ap 20.1-3), julgará Israel e as demais nações (Jl 3.11-17; Mt 25.31-46; At 17.31; 2 Ts 1.7-10) e estabelecerá seu reino milenar, em Jerusalém (Is 2.2,3).

Lições para Hoje

Esta metáfora do casamento mostra o terno amor de Cristo pela igreja. Revela a intimidade da sua comunhão na era vindoura e a abundância da vida futura. Indica os aspectos imperfeitos e provisórios da vida da igreja na era presente – embora ela seja noiva de Cristo, o casamento propriamente dito aguarda a volta dele.

Este quadro também mostra a necessidade e a prioridade da chamada divina na salvação e a obrigação dos que são chamados de se prepararem para a volta do Senhor, por meio do cultivo de uma vida de fé e obediência (Mt 25.7-12; 2 Co 11.2) (RAYBURN, R.S. Bodas do Cordeiro. In: ELWELL, Walter A. Enciclopédia Histórico-Teológica da Igreja Cristã. Pág. 199).

Quais são as obrigações da igreja enquanto ela está aqui na terra? Manter-se fiel ao Noivo, demonstrar seu amor e devoção a Ele e esperar ansiosamente a Sua vinda para buscá-la.

Quando João recebe esta revelação, fica tão impactado que se põe de joelhos para adorar o mensageiro divino. Porém, ouve deste: “adora a Deus; porque o testemunho de Jesus é o espírito de profecia” (v10). Com estas palavras ele declara que a verdadeira fonte da revelação é o Senhor, e que o Espírito de Cristo já inspirava os profetas (1 Pe 1.10,11); que pelo seu Espírito inspirava os homens a escrevê-la (2 Pe 1.21). Com isto aprendemos que somente Deus deve ser adorado e que a Sua Palavra deve despertar em nós um senso de reverência e adoração perante aquele que nos dá a vitória final.

A noiva é citada novamente nos capítulos 21 e 22, os últimos da Bíblia Sagrada, onde ela é apresentada como uma cidade maravilhosa, onde os salvos habitarão para sempre. É uma figura de linguagem. Assim como as citações à Babilônia como prostituta referem-se aos seus ímpios habitantes, as referências à Nova Jerusalém como noiva referem-se aos seus habitantes santos, com os quais o Cordeiro terá comunhão eterna. A cidade mostra o esplendor e a perfeita comunhão que os santos desfrutarão com o Senhor para todo sempre. Vale à pena permanecer fiel a Cristo para ser recompensado com a eterna morada com Ele. Ansiando por encontrar o Noivo, a noiva clama inspirada pelo Espírito: Vem, Jesus!

Obras consultadas

BARCLAY, William. Comentario Al Nuevo Testamento. Barcelona: Clie, 1991.

ELWELL, Walter A. Enciclopédia Histórico-Teológica da Igreja Cristã. São Paulo: Vida Nova, 2009.

GOWER, Ralph. Novo Manual dos Usos e Costumes dos Tempos Bíblicos. Rio de Janeiro: CPAD, 2012.

HENDRIKSEN, William. Lucas (vol 2). São Paulo: Cultura, 2003.

KEENER, Craig. Apocalipsis – del texto bíblico a uma aplicación contemporánea. Miami: Vida, 2013.

KISTEMAKER, Simon. Apocalipse. São Paulo: Cultura Cristã, 2004.

LAHAYE, Tim; HINDSON, Ed. Enciclopédia Popular de Profecia Bíblica. Rio de Janeiro: CPAD, 2010.

LOPES, Hernandes Dias. Apocalipse. São Paulo: Hagnos, 2005.

MOUNCE, Robert H. Comentario al Libro del Apocalipsis. Barcelona: Clie, 2007.

OSBORNE, Grant R. A Espiral Hermenêutica – uma nova abordagem à interpretação bíblica. São Paulo: Vida Nova, 2009.

PENTECOST, J. Dwight. Manual de Escatologia. São Paulo: Vida, 2006.

SNODGRASS, Klyne. Compreendendo Todas as Parábolas de Jesus. Rio de Janeiro: CPAD, 2011.

UNGER, Merrill Frederick. Manual Bíblico Unger. São Paulo: Vida Nova, 2006.

VAMOSH, Miriam Feinberg. A Vida Diária no Tempo de Jesus. Braga/PT: Editorial Franciscana, 2003.

VINCENT, Marvin Richardson. Estudo no Vocábulo Grego do Novo Testamento. Rio de Janeiro: CPAD, 2012.

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Carlos Kleber Maia e Márcio Klauber Maia são ministros da Igreja Evangélica Assembleia de Deus no RN (IEADERN) e servem ao Senhor em Natal. Kleber é casado com Dione e têm dois filhos: Álvaro e Diana. Klauber é casado com Rayra e têm quatro filhas: Naama, Hadassa, Acsa e Dara.

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