Armínio: O Equilíbrio da Reforma – Pr. Kleber Maia

No século XVI, nos Países Baixos, Deus levantou um homem para trazer uma importante contribuição para a soteriologia – a doutrina da salvação, e por Sua eterna graça, o colocou entre os grandes teólogos de todos os tempos. Seu nome: Jacó Armínio.
Armínio nasceu no dia 10 de outubro de 1560, em Oudewater, cidade situada no sul da Holanda, entre Utrecht e Roterdam. Esta típica cidade holandesa, erguida às margens do rio Ijssel, contava na época com cerca de dois mil habitantes1 e era uma cidade importante.
O menino foi registrado com o nome de Jacob Harmenszoon (“filho de Harmen”) e, seguindo um costume da época, posteriormente ele latinizou seu nome para Jacobus Arminius (Arminius era o nome de um chefe germânico do século I que lutou contra os romanos). Seu pai, Harmen Jacobszoon, era cuteleiro (ou armeiro) e faleceu quando Armínio ainda era bem pequeno ou mesmo antes que seu filho nascesse – não há um registro claro. Sua mãe chamava-se Engeltje Harmensdochter, cujo nome depois foi latinizado para “Angélica”. Seus pais eram naturais de Dordrecht e tiveram outros filhos, sendo Armínio o caçula.
A vida deste pequeno holandês não seria nada fácil, marcada por momentos de perdas, perseguições, tribulações e muitas outras dificuldades. Porém, como acontece na vida de homens escolhidos por Deus para realizar grandes obras, o Senhor iria usar todos estes momentos de provações para lapidar um homem humilde, de um caráter aprovado e dedicado a servi-lo.
Deus não desampara o seu povo; Ele providenciou um protetor para cuidar de Armínio, o primeiro dentre muitos tutores e patrocinadores que o Pai Celestial levantaria para amparar este filho da Holanda durante a sua vida. Este homem seria responsável por estabelecer os primeiros rudimentos da fé e da formação clássica de Armínio. Seu nome: Teodoro Emílio. Ele era um ex-sacerdote católico romano convertido ao protestantismo, provavelmente um parente de Armínio, que levou o menino para morar em Utrecht, a fim de instruir-se.
Além de tratar o pequeno holandês como seu próprio filho, este professor introduziu o menino nos estudos de grego e latim, e inculcou nele os rudimentos da fé e da virtude2. Armínio provavelmente estudou na Escola São Jerônimo, onde recebeu uma orientação baseada na Bíblia e também uma formação clássica, com estudos em matemática, retórica, dialética e física.
Quando Armínio tinha 15 anos, este seu protetor faleceu e Deus levantou outro patrocinador para seus estudos, o professor de filosofia e matemática Rodolfo Esnelio, que visitava Utrecht, quando conheceu o desamparado órfão e o levou consigo para Marburgo, na Alemanha, para que ele pudesse continuar seus estudos. Outra vez a providência divina ampara o jovem, cumprindo a palavra de que Ele é pai de órfãos. Numa época de guerra, um menino órfão sem recursos financeiros tem financiados seus estudos em escolas de primeira categoria. Deus é um Pai amoroso, que cuida dos seus filhos!
Enquanto Armínio estava na Alemanha, sua cidade natal se encontrava cercada por um exército inimigo. Este é outro momento de grande tribulação na vida do rapaz. Em 1575, o Duque de Alba, após um cerco de meses, tomou a cidade e matou a maioria dos seus habitantes. A família de Armínio foi completamente dizimada neste massacre, a cidade foi quase completamente arrasada, as mulheres violentadas e quase todos os habitantes foram mortos. Após duas semanas de pranto e lamentação, o jovem holandês vai à sua terra natal apenas para chorar sobre as cinzas de sua casa e dos corpos consumidos de seus parentes, inclusive sua mãe e irmãos, retornando a Marburgo para continuar sua formação. Esta viagem de retorno, de cerca de 400 quilômetros, ele a fez inteiramente a pé e permaneceu na Alemanha até a data de fundação da universidade de Leiden, quando retornaria ao seu país.
Concluída a sua formação escolar básica, Armínio viu mais uma vez a boa mão de Deus sobre ele, levantando um ministro da Igreja Reformada da Holanda, Pedro Bertius, que o enviou a Leiden para estudar na recém-fundada Universidade protestante, a primeira universidade criada na Holanda, onde a igreja de Amsterdã custeou seus estudos, por considerá-lo um jovem promissor ao ministério3. Armínio teve uma sólida formação teológica e bíblica, com bases calvinistas, porém com moderação e aceitação de divergências.
Outra influência que ajudou a delinear as ideias de Armínio na universidade foi o pensamento de Petrus Ramus (Pierre de la Ramée – 1515-1572), um professor de teologia e filosofia francês que rejeitava a lógica aristotélica, contrariando o método e a base filosófica escolástica da teologia de Genebra.
Aos 21 anos, Armínio era considerado um brilhante aluno e foi incentivado a continuar seus estudos. Foi, então, estudar em Genebra, tendo sua manutenção garantida pela Câmara do Comércio de Amsterdã, assumindo o compromisso de pastorear a igreja nesta cidade, quando concluísse sua formação.
Armínio foi doutrinado em Genebra. Entretanto, logo evidenciou-se o conflito entre o aristotelismo de Teodoro de Beza, o reitor daquela universidade, e a influência da lógica de Ramus no pensamento de Armínio. Ele defendeu abertamente este pensamento e foi convidado por alguns alunos a dar aulas particulares de filosofia, especialmente sobre o ramismo. Isto despertou ciúmes e insatisfação no professor da disciplina em Genebra, o espanhol Petrus Galesius (1537-1595).
Para evitar o conflito, o jovem teólogo holandês deixou Genebra por um tempo e foi estudar em Basileia, no verão de 1583. Ali, ele tornou-se o aluno predileto de Johannes Jacobus Grynaeus (1540-1617), professor de literatura sacra e deão da faculdade de teologia. Na Basileia, Armínio começou a fazer exposições públicas da Epístola aos Romanos, sob aprovação de Grynaeus. Em reconhecimento de suas excelentes preleções, a universidade ofereceu-lhe o título de Doutor em Teologia. Armínio gentilmente recusou, por julgar-se jovem demais para tal honra. Aquele professor escreveu uma carta à igreja de Amsterdã, elogiando o jovem teólogo por sua piedade e assiduidade nos estudos, recomendando que aquela igreja continuasse a dar o suporte financeiro ao jovem holandês. Porém, isto não aconteceu e o ele teve que pedir dinheiro emprestado para manter-se.
Em 1584, o jovem teólogo retornou a Genebra e, desta vez, evitou as discussões filosóficas. Quando as autoridades de Amsterdã escrevem para a universidade requerendo informações sobre ele, Beza responde que a vida e os estudos de Armínio estavam aprovados por todos. Ele elogia a piedade, a inteligência e a maturidade do jovem e demonstra a esperança que ele produza bons frutos. Ele ainda recomenda que Amsterdã continue a financiar os estudos de Armínio, e desta vez a recomendação é atendida.
Em 1585 Armínio retornou a Genebra e, de lá, seguiu para Amsterdã, no outono de 1587, onde o ministério pastoral o aguardava. Ele iniciou seu trabalho pastoral pregando no domingo pela manhã, em 07 de fevereiro de 1588. De acordo com Bertius, ele pregava com extraordinária graça e era ouvido com toda a atenção por todos. Aos 29 anos de idade, ele tornou-se o pastor da principal igreja protestante da Holanda e a pastoreou por 15 anos. A partir do mês de novembro de 1588, Armínio começou a pregar na Epístola aos Romanos e no livro de Malaquias (onde pregou 69 sermões), alternadamente, continuando esta série, especialmente na epístola paulina, até setembro de 1601. Também pregou em textos de Marcos, Jonas, Gálatas e Apocalipse 2 e 34. Sempre demonstrou em seus sermões o desejo de encontrar um equilíbrio entre a graça soberana e o livre arbítrio humano5.
Armínio era respeitado e querido por todos, tendo realizado um ilustre ministério de pregação e ensino e se tornado um dos homens mais notáveis da Holanda. Contudo, não demonstrava sinais de arrogância ou ambição. Seus críticos nunca o acusaram de qualquer falha pessoal ou ministerial.
Alguns autores afirmam que Armínio, em seus estudos sobre o tema, foi convencido pelos argumentos de Coornhert, mas seu principal biógrafo afirma que ele nunca concordou com o pensamento de Beza quanto à dupla predestinação ou mesmo o infralapsarianismo6. Em suas pregações baseadas em Romanos, o pastor de Amsterdam já negava a eleição incondicional e a graça irresistível7. Armínio foi acusado por Plancius, de ensinar o pelagianismo, desviando-se da Confissão Belga e do Catecismo de Heidelberg. Armínio negou desviar-se das fórmulas doutrinais, apelou para a autoridade dos Pais da Igreja e para a tradição protestante holandesa, de não seguir nenhum sistema teológico específico, em sua tolerância à liberdade nos pormenores de doutrina.
Armínio começou a pregar sobre a epístola aos Romanos em novembro de 1588 (concluindo em setembro de 1601); em 1591 chegou ao capítulo sete, e em 1593 concluiu o capítulo 9, atraindo para si muita atenção, dadas as suas opiniões e por causa da sua crescente popularidade. De 1593 a 1603, as águas da controvérsia se tornaram mais calmas, com a atenção da Igreja holandesa se voltando para outros problemas e devido à praga devastadora em 1601-1602. Durante este período, sua visão foi solidificada e quarenta e cinco por cento de sua escrita foi concluída. Embora tudo tenha permanecido inédito até depois de sua morte, ele escreveu suas palestras sobre Romanos 7 e 9, realizou uma correspondência com Francis Junius, escreveu sua resposta ao tratado de William Perkins e duas cartas a Uitenbogaert “que podem ser considerados tratados teológicos”8.
O jovem ministro casou em 16 de setembro de 1590, com Lijsbet Reael, filha de um dos mais importantes homens da cidade e pertencente a uma das mais tradicionais famílias locais. Assim como o Jacó bíblico, Armínio teve 12 filhos. Herman, o primeiro, nascido em 1591, recebeu o nome do avô, e faleceu um mês após o nascimento. O segundo, de mesmo nome, faleceu doze dias após o nascimento, pois a taxa de mortalidade infantil era alta, na época. Engheltien (Engeltje ou Angélica), é a primeira filha e primeira sobrevivente, nascida em 14 de julho de 1593, e recebeu o nome da avó paterna. Herman é o primeiro filho homem a sobreviver, nascido na véspera do Natal de 1594. Pieter nasceu em 07 de outubro de 1596. Jan nasceu em 25 de agosto de 1598, e recebeu o nome em homenagem a Johan (Jan) Uitenbogaert, o amigo de Armínio. Laurens é o próximo filho, que recebeu o nome do avô materno, mas não atingiu os oito meses de vida. Em 20 de setembro de 1601 nasceu outro filho, que também recebeu o nome de Laurens e sobreviveu. Jacó nasceu em 20 de junho de 1603, com a família já residindo em Leiden. Willem nasceu dia 02 de maio de 1605. Daniel nasceu em 28 de novembro de 1606. A caçula, Geertruyd, nasceu dia 12 de setembro de 1608. Dos 12 filhos nascidos, 3 morreram nos primeiros dias de vida e 9 sobreviveram.
Em 08 de maio de 1603, Armínio foi nomeado professor de Teologia na Universidade de Leiden e mudou-se com a família para esta cidade. Ali, recebeu o título de Doutor em Teologia em 11 de julho de 1603. Ele estava, então com 44 anos de idade, era “um pastor vigoroso, ativo nos concílios da igreja, ocupado em questões de cuidado pastoral e disciplina; estudioso, produzindo bastante, persistente, incansável em investigações de questões teológicas; um lógico habilidoso, o líder emergente de uma escola teológica recém-articulada, edificada sobre as antigas bases do protestantismo holandês, associado à nova era da lógica e da razão; corajoso pela verdade, mas sem medo da tolerância”9. Como professor, o seu ensino tornou-se conhecido e sua série de publicações começou.
Armínio sofreu acusações de frentes diversas, tendo que se defender sobre a predestinação, sobre a questão do sínodo nacional, e sobre a doutrina da Trindade, pois tinha sido acusado de ser sociniano. Há acusações levianas contra ele até mesmo em países vizinhos. Espalharam rumores até mesmo que havia fantasmas na sua casa, o que seria um sinal de que um herege morava lá, bem como rumores de que ele era simpatizante do catolicismo. Em 1608 alguém fez circular 31 proposições teológicas, que foram atribuídas a Armínio e seu amigo Borrius, sobre as quais Armínio escreveu um comentário extenso, que somente foi publicado em 1629. Ainda em 1608, ele escreveu sua carta a Hipólito de Collibus. Em 30 de outubro de 1608, Armínio defendeu suas posições controversas perante as autoridades dos Estados da Holanda, em Haia, onde apresentou a sua Declaração de Sentimentos, que foi a mais sucinta e direta exposição de seus pontos de vista que foi publicada durante sua vida. No final deste mesmo ano, Gomaro compareceu diante das autoridades para acusar Armínio de ser pelagiano e de ensinar heresias secretamente.
Em fevereiro de 1609, Armínio teve uma série crise de saúde. Parte de seus escritos foram publicados neste ano, por seus apoiadores, numa tentativa de calar os rumores mentirosos sobre seus ensinos. No final de agosto, ele ficou muito doente, e iniciou os preparativos para amparar sua família após sua partida. Em sua casa, aproximadamente ao meio-dia de 19 de outubro de 1609, rodeado por sua família e amigos, Jacó Armínio foi transferido às mansões celestiais. O sepultamento aconteceu no dia 22, quando Pedro Bertius proferiu uma oração fúnebre, que finaliza com a célebre frase: “viveu na Holanda um homem que os que não o conheceram, não puderam estima-lo suficientemente; os que não o estimaram jamais o conheceram suficientemente”.
No ano após a morte de Armínio, quarenta e quatro ministros que sustentavam as mesmas ideias que ele, apresentaram um documento aos Estados da Holanda, que ficou conhecido como Remonstrância, onde defendiam estas teses. Em 1618-1619 ocorreu um sínodo na cidade de Dordrecht (Dort), quando os remonstrantes foram condenados como hereges e proibidos de pregar e ensinar, por um sínodo politicamente determinado, onde o inimigo fez o papel de acusador, juiz e carrasco. Alguns remonstrantes foram presos, outros foram decapitados e os outros fugiram ou foram exilados. Em 1625, com a morte de Maurício de Nassau, eles retornaram à Holanda, sob a liderança de Simão Episcópio e Uitenbogaert, e fundaram a Igreja Reformada Remonstrante, que existe até os dias de hoje.
Lijsbet, esposa de Armínio, faleceu em 25 de março de 1648, tendo testemunhado, para sua tristeza, a morte prematura da maioria de seus filhos. Apenas Daniel e Geertruyd estavam vivos para sepultar sua mãe, na mesma igreja onde Armínio iniciou suas pregações na Holanda, sessenta anos antes. A filha caçula se tornou “a matriarca do vasto clã dos descendentes de Armínio”10. A influência dos ensinos deste simples, porém célebre holandês se fará sentir ao longo dos séculos, tornando-se, provavelmente, o ensino mais popular acerca da salvação por meio da fé em Jesus Cristo no mundo inteiro.
Bibliografia:
BANGS, Carl. O. Armínio – um estudo da reforma holandesa. São Paulo: Reflexão, 2015.
GONZALEZ, Justo L. Uma História do Pensamento Cristão. Vols 1, 2. São Paulo: Cultura Cristã, 2004.
GUNTER, W. Stephen. Arminius and His Declaration of Sentiments. Baylor University Press, 2012.
OLSON, Roger E. História da Teologia Cristã: 2000 anos de tradição e reformas. São Paulo: Vida, 2001.
SALVADOR, José Gonçalves. Arminianismo e Metodismo. São Bernardo do Campo: Imprensa Metodista, 1989.
WARREN, William F. Nos Passos de Arminius – uma agradável peregrinação. New York: Phillips & Hunt, 1888.

Kleber Maia é ministro da CEMADERN – Convenção de Ministros da Assembleia de Deus no RN. É graduado em Teologia com Especialização em Teologia do Novo Testamento Aplicada. Casado com Dione, têm dois filhos: Álvaro e Diana.
www.gracaepoder.com.br

www.youtube.com/c/graçaepoder

 

1 BANGS, 2015, pág. 36.

2 GUNTER, 2012, pág. 14.

3 OLSON, 1999, pág. 472.

4 BANGS, 2015, p. 171.

5 OLSON, 1999, p. 473.

6 BANGS, 2015, pág. 160.

7 OLSON, 2001, pág. 473.

8 BANGS, 2015, p. 215.

9 BANGS, 2015, pp. 269-270.

10 BANGS, 2015, p. 424.

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